AS ILUSES ARMADAS
A Ditadura Envergonhada
ELIO GASPARI
A Ditadura
Envergonhada
Ja reimpresso
COMPANHIA DAS LETRAS
Copyright  2002 by Elio Gaspari
PROJETO GRFICO E CAPA
Raul Loureiro
FOTOS DA CAPA
Capa: Cinelndia, Rio de Janeiro, 1 de abril de 1964 
(Agncia JB)
Lombada: Tanque do 1 Rec Mec no porto do palcio 
Laranjeiras na manh de 1 de abril de 1964 (Agncia O Globo)
Quarta capa: Teatro Municipal, Rio de Janeiro, 1968 (Agncia 
JB)
EDIO DE TEXTO
Mrcia Copola
PESQUISA ICONOGRFICA
Companhia da Memria
Coordenao: Vladimir Sacchetta
Pesquisa: Ricardo Braule Pereira
Apoio: Dedoc Departamento de Documentao da Editora Abril
Reprodues fotogrficas: J. S. Rangel
ASSISTNCIA EDITORIAL
Rosangela de Souza Mainente
Cristina Yamazaki
Miguel Said Vieira
Danilo Nicolaidis
Clarice Cohn
Adriana Alves Loche
Luiz Alberto Couceiro
Claudia Agnelli
NDICE REMISSIVO
Silvia Penteado
REVISO
Beatriz de Freitas Moreira
Maysa Mono
Dados Internacionais de Calalogao na Publicao (cii
(Cmara Brasileira do Livro, sp, Brasil)
Gaspari, Rijo
A ditadura envergonhada / Elio Gaspari.  So Paulo Companhia 
das Letras, 2002.
Bibliografia.
SSON 85-359-0277-5
1. Brasil - Hislria - 1964-19672, Ditadura - Brasil i. 
Titulo.
02-42 IS cDD-98 1.08
ndice para catlogo sislemtico:
1. Brasil Regime militar 1964- 1967 Histria 981.08
2002
Todos os direitos desta edio reservados 
EDITORA SCHWARCZ LTDA.
Rua Bandeira Paulista 702 cj. 32
04532-002  So Paulo Sp
Telefone (11) 3167-0801
Fax (11) 3167-0814
www.companhiadasletras.com.br
Para Clara
9        Abreviaturas e siglas
13        Explicao
21        Introduo
PARTE 1        43        A queda
O Exrcito dormiu janguista 83 O Exrcito acordou 
revolucionrio
PARTE II        127        A violncia
129        O mito do fragor da hora
153        Nasce O SNI
175        Pelas barbas de Fidel
211        A roda de Aquarius
PARTE III        237        A construo
239 A esquerda se arma
251 A direita se arma
267 Costa e Silva: chega o bartono
277 Y el cielo se encuentra nublado
309 A provocao da anarquia
SUMRIO
A missa negra
345        O fogo do foco urbano
357        O Exrcito aprende a torturar
APNDICE 363 Breve nomenclatura militar
367        Cronologia
391        Fontes e bibliografia citadas
403 ndice remissivo
ABREVIATURAS E SIGLAS
Abreviaturas utilizadas
AA        Arquivo do Autor
APGCS/HF        Arquivo Privado de Golbery do Couto e Silva/Heitor 
Ferreira
APHACB        Arquivo Privado de Humberto de Alencar Castelo 
Branco
BJFK        Biblioteca John F. Kennedy
BLBJ        Biblioteca Lyndon B. Johnson
DEEUA        Departamento de Estado dos Estados Unidos da 
Amrica
Siglas gerais
ABI        Associao Brasileira de Imprensa
ALN        Ao Libertadora Nacional
AP        Ao Popular
Arena        Aliana Renovadora Nacional
ccc Comando de Caa aos Comunistas
CNBB        Conferncia Nacional dos Bispos do Brasil
CNI Confederao Nacional da Indstria
Colina        Comando de Libertao Nacional
cpc Centro Popular de Cultura
CPDOC Centro de Pesquisa e Documentao de Histria 
Contempornea do Brasil da Fundao Getulio Vargas
FAL fuzil automtico leve
FIESP        Federao das Indstrias do Estado de So Paulo
FMI Fundo Monetrio Internacional
GMT        Greenwich Mean Time
IPS        Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais
MAM        Museu de Arte Moderna
MASP        Museu de Arte de So Paulo
10        A DITADURA ENVERGONHADA
MCR        Movimento Comunista Revolucionrio
MDB        Movimento Democrtico Brasileiro
MNR        Movimento Nacionalista Revolucionrio
Molipo        Movimento de Libertao Popular
MR-8        Movimento Revolucionrio 8 de Outubro
MRM        Movimento Revolucionrio Marxista
MRT        Movimento Revolucionrio Tiradentes
OCML-PO        Organizao de Combate Marxista-Leninista
Poltica Operria
OLAS        Organizao Latino-Americana de Solidariedade
c do B        Partido Comunista do Brasil
PCB        Partido Comunista Brasileiro
PCBR        Partido Comunista Brasileiro Revolucionrio
cus        Partido Comunista da Unio Sovitica
PIB        Produto Interno Bruto
PNB        Produto Nacional Bruto
oc        Partido Operrio Comunista
Polop        Organizao Revolucionria Marxista  Poltica 
Operria
PORT        Partido Operrio Revolucionrio Trotskista
p RT        Partido Revolucionrio dos Trabalhadores
PSD        Partido Social Democrtico
PTB        Partido Trabalhista Brasileiro
PUC        Pontificia Universidade Catlica
REDE        Resistncia Nacional Democrtica Popular
UDN        Unio Democrtica Nacional
UNE        Unio Nacional de Estudantes
VAR        Vanguarda Armada Revolucionria
VPR        Vanguarda Popular Revolucionria
Siglas governamentais
AI        Ato Institucional
CGI        Comisso Geral de Investigaes
CIA        Central Intelligence Agency (EUA)
CSN        Conselho de Segurana Nacional
DEIC        Departamento Estadual de Investigaes Criminais
DOPS        Delegacia de Ordem Poltica e Social
FBI        Federal Bureau of Investigation (EUA)
FGTS        Fundo de Garantia por Tempo de Servio
FNFi        Faculdade Nacional de Filosofia
INPS        Instituto Nacional de Previdncia Social
SFICI        Servio Federal de Informaes e Contra-Informao
ABREVIATURAS E SIGLAS        11
SiSNI        Sistema Nacional de Informaes
SNI        Servio Nacional de Informaes
STM        Superior Tribunal Militar
Sudene        Superintendncia do Desenvolvimento Econmico do 
Nordeste
UFRJ        Universidade Federal do Rio de Janeiro
us        Universidade de So Paulo
Siglas militares
AMAN        Academia Militar das Agulhas Negras
BC        Batalho de Caadores
BCC        Batalho de Carros de Combate
Cenimar        Centro de Informaes da Marinha
CIE        Centro de Informaes do Exrcito
CISA        Centro de Informaes e Segurana da Aeronutica
CODI        Centro de Operaes de Defesa Interna
D        Diviso de Infantaria
DOl        Destacamento de Operaes Internas
EME        Estado-Maior do Exrcito
EMFA        Estado-Maior das Foras Armadas
ESAO        Escola de Aperfeioamento de Oficiais
E5CEME        Escola de Comando e Estado-Maior do Exrcito
ESNI        Escola Nacional de Informaes
FAB        Fora Area Brasileira
FEB        Fora Expedicionria Brasileira
ID        Infantaria Divisionria
1PM        Inqurito Policial-Militar
Para-Sar        Esquadro Aeroterrestre de Salvamento da Fora 
Area Brasileira
PE        Polcia do Exrcito
PM        Polcia Militar
QG        quartel-general
RecMec        (Regimento de) Reconhecimento Mecanizado
RI        Regimento de Infantaria
EXPLICAO 13
Em agosto de 1984 terminara o prazo de uma bolsa que recebi 
do Wilson Center for International Scholars. Durante trs 
meses tive uma sala naquele castelinho vermelho da esplanada 
de Washington, com a biblioteca do Congresso  disposio e 
os quadros da National Gailery  distncia de uma caminhada. 
Minha idia tinha sido usar paz e tempo para concluir um 
ensaio, coisa de cem pginas, intitulado Geisel e Golbery, o 
Sacerdote e o Fei ticeiro O propsito era simples: tratava-
se de explicar por que os generais Ernesto Geisel (o 
Sacerdote) e Golbery do Couto e Silva (o Feiticeiro), ten do 
ajudado a construir a ditadura entre 1964 e 1967, 
desmontaram-na entre 1974 e 1979. J havia escrito umas 
trinta pginas quando percebi que sua nica utilidade era a 
de me mostrar que, ou eu trabalhava muito mais, ou era melhor 
esquecer o assunto. Pelo ritual do Wilson Center, sempre que 
um bolsista deixa o castelinho, vai ao seu diretor para 
despedir-se. Encabulado, entrei na sala do professor James 
Billington, autor de Icon and axe (O cone e o machado), um 
clssico sobre a cultura russa, e de Fire in the minds of men 
(Fogo na cabea dos homens), um indito esforo de 
compreenso dos revolucionrios que fizeram histria entre os 
sculos xviii e xx. Disse-lhe que no terminara ensaio algum 
e chegara  concluso de que talvez devesse escrever um 
livro. Ao enunciado do fracasso, os olhos de Bil lington 
brilharam: Voc no sabe como fico feliz. para isso que 
existe o Wilson Center. Para fazer com que uma pessoa saia de 
suas ocupaes rotineiras e descubra que deve escrever um 
livro
Nos dezoito anos seguintes essa observao de Billington 
serviu para
conter as ansiedades, minhas e alheias, diante de um livro 
que, para gosto


14 A DITADURA ENVERGONHADA
do autor, no terminava. (Em 1984 eu achava que escreveria 
umas trezentas pginas.)
De volta ao Brasil, comecei a recolher material e a 
aprofundar algu mas entrevistas. Falava com Geisel, Golbery e 
Heitor Ferreira, secretrio de ambos. Em diversas ocasies 
perguntei a Golbery se ele tinha um arquivo, e ele sempre 
negou.
Um dia, em 1985, a sorte levou mofo  garagem do stio de 
Golbery, nos arredores de Braslia. L estavam guardadas algo 
como 25 caixas de arquivo morto, cheias de papis. Ele e 
Heitor resolveram confiar-me sua custdia temporria. Era 
verdade que Golbery no tinha arquivo, mas tambm era verdade 
que passara a Heitor milhares de documentos, bilhetes e at 
rabiscos. Heitor, por sua vez, sempre tinha uma daquelas 
caixas de baixo de sua mesa, no palcio do Planalto, e nela 
ia atirando papis. As sim, numa pilha onde est uma lista de 
diplomatas que deveriam ser cassados em 1964, est tambm uma 
folha de bloco com os tpicos do que deve ter sido uma 
conversa telefnica entre Joo Goulart e o presidente do 
Senado, Auro Moura Andrade, s 10h05 do dia 5 de setembro de 
1961, no fragor da crise provocada pela renncia de Jnio 
Quadros. Intocadas, essas caixas foram-me entregues. Formam 
um acervo de 5 mil documentos cuja denominao correta deve 
ser Arquivo Privado de Golbery do Couto e Silva e Heitor 
Ferreira (APGcs/HF), visto que nele se misturaram documentos 
de um e de outro. Durante o governo de Geisel, Heitor 
organizou o arquivo do presidente. Em 1981, remeteu-lhe todos 
os papis. Em 1998, atendendo a um desejo do pai, Amlia Lucy 
Geisel doou-os ao Centro de Pesquisa e Documentao de 
Histria Contempornea (CPDOC), da Fundao Getulio Vargas, 
onde somam atualmente 4 mil documentos textuais.
Este livro no existiria sem a deciso de Golbery de 
entregar-me seu arquivo e sem a paciente colaborao de 
Ernesto Geisel. Convivi com ambos. Com Golbery, de 1969 at 
sua morte, em So Paulo, em setembro de 87. Sua ajuda 
prolongou-se at as horas anteriores  cirurgia de cncer de 
pulmo depois da qual no retornaria  sua casa de Braslia. 
No quarto do hospital Srio Libans contou-me mais uma vez a 
queda do ministro do Exrcito, Sylvio Frota, em outubro de 
1977. Quando lhe perguntei se era verdade que alguns coronis 
apareceram no quartel-general em
EXPLICAO        15
roupa de campanha, respondeu: , parece que houve um pessoal 
que se fantasiou Lastimava no ler o livro para o qual 
contribura. Nunca pediu para ver os captulos j escritos. 
Pelo contrrio: No mostre (quela altura, passados trs 
anos, eu achava que estava escrevendo dois livros, cada um 
com trezentas pginas.)
Com Geisel, tive dezenas de demoradas e profcuas conversas a 
partir de 1979, quase sempre numa mesa de canto do falecido 
restaurante Rios, no Aterro do Flamengo. Em 1994, depois de 
quinze anos de insistncia, ele concordou em gravar um 
depoimento de sua vida. Realizamos perto de vinte sesses, 
sempre s teras-feiras, na sala de seu apartamento de 
Ipanema, todas com durao de noventa minutos. Interrompeu-as 
quando adoeceu, no incio de 1996. Pelo trato, as fitas 
ficavam em seu poder, para que lhes desse o destino que bem 
entendesse. Depois da morte do pai, Amlia Lucy Geisel 
gentilmente enviou-me doze fitas que encontrou num armrio de 
sua casa.
To relevante quanto a ajuda de Geisel e Golbery foi a de 
Heitor Aqui- no Ferreira. Mais que isso: devo-lhe o 
reconhecimento de uma co-autoria naquilo que um livro pode 
ser conseqncia do acesso a documentos e  memria de um 
perodo. Uma amizade de quase trinta anos acompanhou a sua 
ateno e prestimosidade. Heitor foi secretrio de Golbery de 
1964 a 1967 e de Geisel de 71 a 79. Catapultado como capito, 
aos 27 anos, para o centro do poder, manteve por mais de duas 
dcadas um dirio manuscrito que em 1985 somava dezessete 
cadernos escolares com cerca de meio milho de palavras, 
suficiente para formar uma obra de 1500 pginas. Deu-me 
cpias do perodo que vai de 1964 a 1976. Da em diante, 
forneceu-me excertos e deu-me vista em outros casos. Naqueles 
cadernos, parcialmente udos por Geisel, est o mais minucioso 
e surpreendente retrato do poder j feito em toda a histria 
do Brasil.
A esse material somam-se cerca de trezentas horas de 
gravaes de conversas soltas e audincias formais, feitas 
com a colaborao e concordncia expressa (escrita e gravada) 
de Geisel, e com o conhecimento de Golbery. Elas cobrem os 
ltimos meses de 1973, quando se formava o governo, at maro 
de 74, quando ele foi empossado. Os principais colaboradores 
de Geisel nesse perodo, bem como seus familiares, sabiam da 
existncia desse registro.
16        A DITADURA ENVERGONHADA
At 1992 Heitor Ferreira acompanhou a produo do manuscrito. 
Em todas as suas leituras teve um s interesse a defender: o 
idioma e a sua sintaxe. As poucas sugestes que fez ao 
contedo mantiveram-se sempre na estrita preocupao pela 
fidelidade aos fatos. Quis preservar a memria do perodo que 
to intensamente acompanhou. Tendo-a preservado, nunca se 
interessou por rev-la. Nem sequer em discutir a maneira como 
est apresentada, diante da qual mantm reservas e 
discordncias que a mim cabe apenas presumir, pois nunca as 
explicitou. Deve-se a ele no s a pertincia, mas sobretudo 
a ousadia de quem agiu e viveu convencido de que fazia o 
certo e guardava o necessrio. Inmeras vezes tive de 
responder  mesma pergunta, que certamente ocorrer ao 
leitor: Por que eles guardaram esse material? S h uma 
resposta: porque desejavam preservar o registro histrico de 
suas atividades pblicas.
Somam cerca de duzentas as pessoas com as quais busquei 
informaes ao longo de dezoito anos. Algumas em demoradas 
conversas, outras em telefonemas breves. Nas notas de p de 
pgina as referncias a essas fontes mencionam seus nomes e a 
poca em que a informao foi recebida. Os informantes vo 
listados no fim do volume.
A generosidade de Amlia Lucy Geisel, qualidade que aprendi a 
reconhecer ainda durante o governo de seu pai, e a solicitude 
do velho amigo Humberto Barreto foram valioso socorro para 
esclarecimentos relacionados com a vida e os hbitos de 
Geisel.
O professor Candido Mendes de Almeida ajudou-me a conhecer as 
nuances da ao poltica da Igreja catlica. D. Eugnio Sales 
teve pacincia para esclarecer algumas dvidas. Ralph delia 
Cava orientou-me, com seu conhecimento, suas lembranas e seu 
arquivo, na reconstruo da atividade das Igrejas crists.
Ao embaixador Lincoln Gordon devo especial ajuda no trabalho 
de reconstituio da poltica americana em relao ao Brasil 
em 1964. Ao amigo Marcelo Medeiros, a preservao do arquivo 
de Carlos Medeiros Silva, parte do qual me confiou. Ao 
professor Romualdo Pessoa Campos Filho, o acesso a dezenas de 
entrevistas relacionadas com a guerrilha do Araguaia. Ronald 
Levinsohn conseguiu-me cpias de papis que pareciam ter 
desaparecido.
EXPLICAO        17
Aos generais Leonidas Pires Gonalves, Antonio Carlos Muricy, 
Gustavo Moraes Rego, Jos Maria de Toledo Camargo, Newton 
Cruz e Oc tavio Costa devo a narrativa de fatos histricos e 
boa parte do entendimento da estrutura militar. Por exemplo, 
a diferena entre um batalho e uma brigada. Ao coronel 
Carlos Alberto Brilhante Ustra devo longos esclarecimentos 
sobre a estrutura dos DOIs e do GTE.
O professor Delfim Netto, com sua prodigiosa memria, ajudou-
me na reconstruo de episdios centrais para a histria da 
gesto econmica do perodo. Dvida semelhante tenho com Mano 
Henrique Simonsen e Joo Manuel Cardoso de Mello. Antonio 
Carlos Magalhes, Franco Montoro, Jos Sarney, Paulo Brossard 
e Thales Ramalho deram-me seu tempo para reconstituir 
acontecimentos que corriam o risco de desaparecer debaixo do 
manto da discrio.
Meus velhos amigos Armnio Guedes, Givaldo Pereira de 
Siqueira, Luiz Mrio Gazzaneo, Joo Guilherme Vargas Netto e 
Salomo Malina permitiram-me conhecer melhor a ao do PCB, 
no qual ingressei em 1962. Francisco Carlos de Andrade, 
Ariston Lucena e Jos Carlos Giannini ensinaram-me muito da 
histria da ALN e da VPR.
Marcos S Corra, Getulio Bittencourt e Jos Casado cederam-
me os arquivos que acumularam em suas pesquisas na 
documentao do governo americano. Ayrton Baffa deu-me acesso 
aos papis que guardou a respeito do SNI. Muitas outras so 
as gratides. Quando possvel, elas foram registradas nas 
notas que acompanham o texto. Dois informantes, ambos 
militares, permanecem annimos.
Ao historiador Marco Antonio Villa devo oportunas sugestes, 
a
leitura atenta do original e a conferncia das notas de p de 
pgina dos
documentos e livros citados.
Devo aos profissionais dos servios de documentao e 
pesquisa da Editora Abril, da Folha de S.Paulo, dO Globo, do 
Jornal do Brasil e dO Es tado de S. Paulo a pacincia no 
resgate da parte da histria que obstinadamente preservam. A 
Fernando Gasparian devo o acesso  coleo do semanrio 
Opinio. Ceclia Coimbra ajudou-me a conseguir uma coleo 
completa do Projeto Brasil: nunca mais. Flora Abreu e Alcir 
Henrique da Costa foram solcitos dirimidores de dvidas a 
respeito dos pores militares.
18        A DITADURA ENVERGONHADA
Diversos amigos leram verses parciais do texto. Pela leitura 
do texto completo devo a Wanderley Guilherme dos Santos a 
imposio de rigorosas observaes ao contedo. A ele devo 
tambm longas conversas que muito influenciaram a compreenso 
e os limites da documentao sobre a qual trabalhei. Manolo 
Florentino, alm de discutir o texto, reestruturou a 
bibliografia de acordo com seu elevado padro profissional. 
Mrcio Thomaz Bastos e Fernando Lottenberg salvaram-me de 
erros jurdicos. Lilia Moritz Schwarcz, Claudio Haddad e Joo 
Moreira Salles fizeram correes e sugeriram caminhos que, 
espero, venham a ajudar o leitor. Jonathan Kandell, 
correspondente do The New York Times duran te o governo 
Geisel, foi um leitor atento de uma das primeiras verses, 
levando-me a alterar o plano inicial. A ele se deve a 
existncia dos dois captulos que contam a deposio de Joo 
Goulart. Quando o livro tinha trezentas pginas, eu achava 
que isso era desnecessrio.
Este livro no existiria sem a ajuda dos seis modelos de 
computadores surgidos durante o tempo que levou para ser 
escrito. Sinto-me no de ver de registrar que, por conta da 
insana poltica de reserva de mercado, os dois primeiros 
chegaram  minha mesa pelos desvos da alfndega. Aos 
contrabandistas da poca, minha homenagem. Lus Fernando 
Gonalves desenvolveu uma verso pessoal de um banco de dados 
que permitiu a acumulao de 28 mil fichas e sua pesquisa. A 
sofisticao de seu trabalho, concludo em 1986, ainda no 
foi alcanada pelos fabricantes do original americano.
Maria da Gloria Faria guiou-me na desconhecida condio de 
autor. Maria da Glria Prado e Jos Mauro B. Prado copiaram o 
arquivo do general Golbery e de Heitor Ferreira, 
reconstruindo pacientemente cerca de 150 pastas.
At o incio de 2001, minha idia era s publicar o trabalho 
quando ele estivesse concludo, com o ttulo de Geisel e 
Golbery, o Sacerdote e o Feiticeiro Por mais de dez anos 
acreditei que, tendo escrito dois livros, estava na metade do 
terceiro. Acabei descobrindo que, a menos que de cidisse 
publicar um catlogo telefnico, j eram quatro.
A essa altura tive outra sorte. A de ceder  persistncia de 
Luiz
Schwarcz, entregando  Companhia das Letras a edio do que 
escrevera. Poucas vezes em minha vida profissional tive 
contato com uma equipe
EXPLICAO        19
to qualificada. Maria Emlia Bender coordenou com pacincia 
e zelo o emaranhado de questes que acompanharam o processo 
editorial. Entre elas, a mais complexa foi a checagem de 
centenas de referncias a jornais e revistas. So de Raul 
Loureiro o projeto grfico e a capa. A caada e a seleo das 
fotografias que vo nos cadernos de ilustraes so produto 
da competncia, dos conhecimentos histricos e da memria vi 
sual de Viadimir Sacchetta. Durante seis meses Rosangela de 
Souza Mai nente dedicou-se a checagens adicionais e  
converso de todas as notas de p de pgina que mencionavam 
edies esgotadas de livros republicados recentemente (o 
Combate nas trevas, de Jacob Gorender, por exemplo). Os 
leitores jamais havero de perceber quanto devo a Mrcia 
Copola, responsvel pela edio do texto. Defendeu as normas 
ortogrficas, a concordncia e a clareza com uma persistncia 
e elegncia que s a qualificao permite. Miguel Said Vieira 
buscou a correta grafia dos nomes de centenas de pessoas 
citadas. Como o trabalho de edio de texto desaparece em 
beneficio dos autores, muita gente pensa que eles escrevem 
sem erros e acredita que, por isso, fazem parte de uma casta 
de iluminados. Neste caso, isso seria uma lorota.
Com toda essa ajuda, os erros que certamente tero 
sobrevivido devem ficar por conta exclusiva do autor. (Sempre 
que eu lia essa ressalva nos livros dos outros achava que era 
uma redundncia. S agora percebi que seria uma impropriedade 
mencionar amigos, fontes e colabora dores sem deixar claro 
que eles no tm nada a ver com os defeitos do resultado 
final.)
Aquilo que foi um ensaio, virou um livro e acabou em quatro 
segue
um plano.  este:
Nos dois primeiros vai contado o perodo de 31 de maro de 
1964
ao final do governo do general Emilio Medici, no incio de 
74. Um vai da
deposio de Joo Goulart, em 1964, ao perodo imediatamente 
posterior
 edio do Ato Institucional n 5, em dezembro de 68. O outro 
vai da
 aniquilao da guerrilha do Araguaia, ocorrida entre 
dezembro de 1973
e o primeiro semestre de 74. De certa forma, constituem um 
prembulo
 histria do Sacerdote e do Feiticeiro.
20        A DITADURA ENVERGONHADA
Nos outros dois iro contadas as vidas de Geisel e Golbery, a 
trama que os levou de volta ao Planalto e os quatro primeiros 
anos do governo de Geisel. Terminaro na noite de 11 de 
outubro de 1977, quando o ministro do Exrcito, general 
Sylvio Frota, foi dormir depois de ter visto um filme de 
James Bond, sem saber que Geisel o acordaria chamando-o ao 
palcio, para demiti-lo. At esse ponto, depois de dezoito 
anos, os textos esto escritos.
Falta escrever a histria que vai da manh de 12 de outubro 
de 1977 at o dia 15 de maro de 1979, quando Ernesto Geisel, 
tendo acabado com a ditadura do AI-5, tirou a faixa 
presidencial e foi-se embora para Terespolis. Como no tenho 
interesse pelo governo do general Figueiredo, sua 
administrao ficar no esquecimento que pediu. Dois 
posfcios levaro at a exploso da bomba no Riocentro, em 
1981, e ao final das existncias do Sacerdote e do 
Feiticeiro, quando continuavam ligados pela amizade, porm 
separados na poltica.
Em nenhum momento passou pela minha cabea escrever uma 
histria da ditadura. Falta ao trabalho a abrangncia que o 
assunto exige, e h nele uma preponderncia de dois 
personagens (Geisel e Golbery) que no corresponde ao peso 
histrico que tiveram nos 21 anos de regime militar. O que eu 
queria contar era a histria do estratagema que marcou suas 
vidas. Fizeram a ditadura e acabaram com ela.
Durante o perodo estudado, o Brasil teve duas moedas 
(cruzeiro e cruzeiro novo), bem como uma inflao capaz de 
destruir o significado de qualquer referncia monetria. Por 
isso, sempre que julguei conveniente, a moeda nacional foi 
convertida em dlares no mercado paralelo da poca, com base 
na tabela de Clarice Pechman, em seu trabalho O dlar 
paralelo no Brasil. Feito isso, convm esclarecer que um 
dlar da quela poca equivale a cinco dlares de 2002.
Por ltimo, pelo relevo, devo a Dorrit Harazim a pacincia 
para aturar um marido que, no meio de um jantar, passava a 
contar-lhe uma nova verso para um fato ocorrido no sculo 
passado. Ademais, teve de ler um mesmo livro quatro vezes. A 
ela devo as sugestes de reconstruo de captulos 
estruturados desastrosamente e uma voz permanente de sbio 
rigor. Sua perseverante indignao foi uma baliza que o tempo 
no abateu.
INTRODUO
Em Braslia o dia 12 de outubro de 1977 era feriado em louvor 
a Nossa Senhora Aparecida, a padroeira do Brasil. Exceto a 
consagrao dos quatro sinos do campanrio da catedral, 
distante um quilmetro do palcio do Planalto, nada se 
esperava que sucedesse naquela quarta-feira. Era Dia da 
Criana, O Eixo, a grande avenida que corta a capital, 
estava fechado ao trnsito para que a garotada pudesse 
brincar. s 8h20, logo de pois de chegar ao palcio, o 
presidente da Repblica, Ernesto Geisel, mandou comunicar ao 
ministro do Exrcito, Sylvio Frota, que desejava v-lo ainda 
naquela manh.
Nas ltimas semanas abrira-se um fosso entre o presidente e o 
ministro. Frota chegara ao cargo trs anos antes, pela morte 
do titular. Calara-se sobretudo na sua falta de expresso 
poltica, mas acabara se tornando candidato a presidente. 
Havia um ano comportava-se como um ostensivo adversrio da 
poltica de liberalizao do regime conduzida por Geisel. 
Desde 1945, sempre que o presidente e o ministro do Exrcito 
tomaram caminhos separados, o presidente viu seu cargo 
ameaado ou at mesmo perdido. Alm disso, pela tradio do 
regime militar iniciado em 1964, sempre que as tentativas de 
democratizao se chocaram publicamente com a ditadura, 
prevaleceu a ditadura.
Os dois sentaram-se  mesa de reunies do salo de despachos 
do
presidente. As relaes entre eles jamais haviam sido 
afetuosas, mas ul timamente eram glidas. Oito dias antes, 
Frota pedira aos servios burocrticos
22        A DITADURA ENVERGONHADA
do palcio que cancelassem uma audincia rotineira com o 
presidente, pois no tinha assuntos pendentes a tratar.
Geisel, com 67 anos, filho caula de um humilde imigrante 
alemo, chegara  Presidncia pelo mesmo caminho que seus 
trs antecessores desde 1964, quando as Foras Armadas 
derrubaram o presidente Joo Goulart: o Exrcito. Pelo porte 
marcial, com 1,77 m de altura, pelo hbito de levantar 
subitamente a voz, por um estrabismo que dava ao seu olhar um 
aspecto inquietante e sobretudo por uma personalidade 
explosiva, era um presidente temido. Baixo, com pouco mais de 
1,65 m, gordo, de voz fina e gestos to discretos quanto sua 
carreira, Frota era o oposto. Tinha aquela humildade 
dissimulada de alguns catlicos ultramontanos. Fazia parte da 
grande leva de coronis que chegara rapidamente ao generalato 
em 1964 graas ao expurgo praticado pelo regime vencedor 
contra centenas de oficiais fiis ao governo deposto. O 
presidente vinha da tumultuada gerao de militares que 
comeara a se meter em poltica nos anos 20. O ministro vinha 
de um perodo em que a carreira de um oficial era construda 
com menores riscos polticos.
 cabeceira da grande mesa de reunies de seu gabinete, com 
um
retrato de d. Pedro i s costas, Geisel abriu a conversa:
 Frota, ns no estamos mais nos entendendo. A sua 
administrao no ministrio no est seguindo o que 
combinamos. Alm disso voc  candidato a presidente e est 
em campanha. Eu no acho isso certo. Por isso preciso que 
voc pea demisso.
 Eu no peo demisso  respondeu Frota.
 Bem, ento vou demiti-lo, O cargo de ministro  meu, e no 
deposito mais em voc a confiana necessria para mant-lo. 
Se voc no vai
pedir demisso, vou exoner-lo.
1 Waider de Ges, O Brasil do general Geisel, p. 80.
2 Ernesto Geisel, 1982 e julho de 1992. H duas verses 
semelhantes para esse dilogo. Uma, de
Geisel, em seu depoimento a Maria Celina dAraujo e Celso 
Castro (orgs.), em Ernesto Geisel, p.
406. A verso de Frota est em sua Nota para a imprensa de 
12 de outubro de 1977. Ela se encontra resumida em Waider de 
Ges, O Brasil do general Geisel, pp. 86-7.
INTRODUO        23
Xxx        
Em menos de cinco minutos a audincia estava encerrada. Frota 
le vantou-se, ficou em posio de sentido por um instante e 
saiu sem cum primentar o presidente. Aqueles dois homens 
haviam jogado nos ltimos meses uma partida em que procuraram 
se destruir pelas regras sutis da ditadura, sem que o resto 
do pas percebesse o tamanho das manobras de cada um. 
Comeava naquele momento o jogo bruto, pblico.
Frota ainda estava na ante-sala do gabinete presidencial, 
quando Geisel mandou chamar seu chefe do Gabinete Civil, 
general Golbery do Couto e Silva. E veio o Bruxo, Sat, 
Satnico Dr. Go, Corcunda, Dr. Gol, Corca, Genedow  Golbery, 
aos 66 anos, era a eminncia parda do go verno. No falava em 
pblico, no dava entrevistas, deixava correr a len da 
segundo a qual no conversava com jornalistas. Estava por 
trs de tu do, inclusive das coisas com as quais nada tinha a 
ver. Por trs da queda de Frota, estava. Fazia dois anos que 
no pensava em outra coisa. Sem ne nhuma originalidade na 
aparncia, descuidado no vestir e socialmente retrado, 
carregava um nome espalhafatoso. Originalmente, nem nome era, 
mas sobrenome de um obscuro burocrata francs do Oitocentos. 
Gol bery ganhara notoriedade nacional em 1964. Fora um dos 
principais ar ticuladores da conspirao contra Joo Goulart, 
transformando-se nu ma espcie de idelogo da nova ordem. 
Fundara o Servio Nacional de Informaes e, por meio dele, 
acompanhava a vida dos outros sem que se pudesse acompanhar a 
sua. Desde 1974 era o principal colaborador de Geisel no 
processo de abertura poltica. Odiavam-no  direita porque sa 
biam que tramava o fim do regime. Odiavam-no  esquerda 
porque, de claradamente, pretendia manter, ainda que mudada, 
uma ordem de coi sas que havia dez anos ela combatia. Deixara 
o Exrcito em 1961 e desde o incio do governo de Geisel era 
atacado por oficiais que faziam circu lar panfletos contra 
ele pelos quartis. No Centro de Informaes do Exr cito, 
uma das usinas produtoras desses folhetos, apelidavam-no de 
Hiena Caolha, numa referncia ao fato de ele enxergar s com 
o olho direito des de 1975, quando sofrera dois descolamentos 
de retina.
3 Phillipe Marie Aim de Golbery (1786-1854) nasceu na cidade 
de Colmar. Foi juiz e arquelo go. Jornal do Brasil, 25 de 
junho de 1975.
4 Para o apelido, coronel Luiz Helvecio da Silveira Leite, 
maio de 1985.
24        A DITADURA ENVERGONHADA
Cham-lo de general vinha a ser uma impropriedade. Tinha o 
ttu lo por fora de uma lei que dava promoes cumulativas 
aos militares que se aposentavam, e que acabara levando o 
Exrcito brasileiro a ter, em 1975,73 marechais e 3500 
generais na reserva. Na ativa, Golbery no pas sara de 
coronel. Combatia a interferncia militar na poltica e 
desdenha va os oficiais que nela se envolviam. No incio de 
1975, na prgola envi draada da granja do Ip, sua 
residncia oficial, ele dizia:
O presidente disse que eu devo melhorar as minhas relaes 
com os mili tares, que devo convidar alguns generais para 
jantar aqui em casa. Olhe, devo muito ao Exrcito, mas quando 
fui para a reserva, a pedido, em 1961, fiz isso por asco. 
Asco do medo, da pusilanimidade, que foram os fatores 
essenciais para permitir a posse do Joo Goulart na 
Presidncia, depois da renncia do Jnio. Eu sa porque 
estava enojado. E no haveria de ser ago ra que ia me meter 
de novo nisso. Se algum general quiser Vir aqui na mi nha 
casa para comer, que passe na geladeira. L tem comida. Eu 
no vou conversar nem perder meu tempo com gente aborrecida. 
Prefiro ler meus livros. Os oficiais que fazem o seu trabalho 
no tm razo para vir aqui, nem eu, que estou fora dos 
servios da tropa, para convid-los.
Chamado por Geisel aps a curta conversa com o ministro do 
Exr cito, Golbery tomou o pequeno elevador privativo das 
autoridades e foi do seu gabinete, no quarto andar, para o do 
presidente, no terceiro. Quan do a porta se abriu, para 
constrangimento mtuo, Frota e ele ficaram fren te a frente. 
Limitaram-se a trocar cumprimentos. Um entrava, outro saa. 
Nas horas seguintes ficaria claro se era essa a melhor 
descrio do que acabava de suceder. A partida seria definida 
diante de um pas que, de pois de nove anos de censura  
imprensa, perdera o hbito de acompa nhar crises polticas. 
Desde a manh de 11 de novembro de 1955, quan 
5 Dirio de Heitor Ferreira, 27 de junho de 1975 e 28 de maio 
de 1975. APGCS/HF. Sobre a nomen clatura militar, veja o 
apndice no fim do volume.
6 Golbery do Couto e Silva, 1975.
7 Idem, 1984.
INTRODUO        25
do o ministro da Guerra, Henrique Lott, iniciara o 
defenestramento de dois presidentes da linha de sucesso 
constitucional, nenhuma crise se desenrolara de forma to 
reclusa, ao largo da opinio pblica e com o Con gresso, 
escaldado, mantendo-se longe da hlice.
Frota batalhou. At o incio da noite, quando passou o cargo 
ao ge neral Fernando Belfort Bethlem, escolhido para 
substitu-lo, tentou acio nar os dispositivos de um golpe de 
estado. Seguiu  risca o manual dos pronunciamientos latino-
americanos. Divulgou um manifesto  Aos Meus Comandados!  no 
qual revelava que via ruir, fragorosamente, o edifcio 
revolucionrio Denunciou a complacncia criminosa com a in 
filtrao comunista e a propaganda esquerdista Convocou uma 
reunio do Alto-Comando que traria a Braslia os comandantes 
dos quatro Exr citos, com bases em Porto Alegre, So Paulo, 
Rio de Janeiro e Recife. Como  hbito na poltica latino-
americana, todos os grandes combates do dia deram-se por 
telefone.
O manual falhou. O Frota passou o dia movendo-se pela cidade 
no Ford Landau de ministro do Exrcito. Se ele tivesse se 
movido de tanque, o resultado seria outro, lembrou o coronel 
Kurt Pessek, assistente-secre trio do general Hugo Abreu, 
chefe do Gabinete Militar da Presidncia. Desde o incio da 
manh, quando foi chamado ao palcio, Frota estava preso numa 
armadilha. Para ele, esse seria o segundo golpe de sua car 
reira. Geisel, que fizera o primeiro lance, jogava com as 
brancas depois de ter participado de quatro golpes 
vitoriosos, em 1930, 37, 45 e 64. Sa bia como se ganha. Por 
ter perdido em outras trs ocasies (1955, 61 e 65), sabia 
onde e como se fracassa. Dizia com freqncia: Esse negcio 
de golpe  muito dificil. Vi sete, posso falar
8 Em 25 de fevereiro de 1967, o Ministrio da Guerra passou a 
se denominar Ministrio do Exr cito.
9 Nota para a imprensa de Sylvio Frota, 12 de outubro de 
1977, oito pginas datilografadas, rubri cadas e assinadas. 
APGCS/HF.
10 Coronel Kurt Pessek, novembro de 1984.
11 Geisel repetia ao longo de suas entrevistas essa 
observao, tanto para se referir ao episdio da demisso de 
Frota, como para comentar as dificuldades de um hipottico 
golpe contra a eleio e a posse de Tancredo Neves na 
Presidncia da Repblica, em 1985.
26        A DITADURA ENVRRGONHADA
O Frota queria me emparedar, mas eu emparedei ele explicava 
Gei sei. Ele vira, doze anos antes, como o ministro da 
Guerra, general Ar thur da Costa e Silva, emparedara o 
marechal Humberto Castello Bran co e o obrigara a aceit-lo 
como seu sucessor. Como chefe do Gabinete Militar de 
Castelio, nunca se conformou com o fato de ele no ter segui 
do seus conselhos e arriscado um confronto com Costa e Silva. 
O dia 12 de outubro de 1977, para o general-de-exrcito 
Ernesto Geisel, era uma revanche da batalha que perdera em 
65, como general-de-diviso.
Enquanto Frota procurava dar um golpe de manual, com generais 
chamados ao QG, manifesto e a indefectvel lembrana do 
perigo ver melho, Geisel conduzia do Planalto duas operaes 
simultneas. Uma, resultante da natureza pblica da demisso, 
o pas podia perceber. A ou tra deveria escapar  
publicidade. A primeira era tirar Frota. A segun da, colocar 
no seu cargo um novo ministro sem que houvesse dvida de que 
era o presidente quem mandava no Exrcito. Precisava da pri 
meira para continuar no poder. A segunda era necessria para 
restabe lecer a ordem nos quartis e prosseguir seu projeto 
de lenta, gradati va e segura distenso, anunciado cinco 
meses depois de ele tomar posse, em 1974.
Os detalhes de natureza prtica da execuo de Frota so 
curiosos a partir da data, escolhida por Geisel. No dia 12 de 
outubro o feriado era uma exclusividade dos moradores de 
Braslia. Enquanto todas as guar nies militares do pas 
trabalhavam normalmente, a da capital, onde o ministro do 
Exrcito tinha os seus oficiais de estrita confiana, estava 
qua se sem pessoal. O general, apanhado de surpresa, teria 
dificuldade para movimentar suas peas. Imaginada havia 
meses, decidida duas semanas antes e planejada por quase dez 
dias, a demisso do ministro coincidia propositalmente com o 
feriado.
Os generais de Frota acordaram tarde e os de Geisel, de 
vspera. Quan do o ministro, a bordo de seu Landau, passou a 
caminho do Planalto pelo
12 Ernesto Geisel, 1981.
13 Discurso de Geisel aos dirigentes da Arena, 28 de agosto 
de 1974, em Ernesto Geisel, Discursos,
vol. 1: 1974,p. 122.
INTRODUO        27
QG da 3 Brigada de Infantaria Motorizada, a mais poderosa 
fora mili tar de Braslia, no mastro do quartel tremulava o 
estandarte do coman dante. O general Roberto Frana 
Domingues, casado com uma sobrinha de Geisel, estava em seu 
posto de comando, apesar do feriado, O presi dente montara um 
dispositivo pelo qual os oficiais fiis ao seu esquema 
souberam antecipadamente da demisso. Desde o sbado anterior 
o che fe do Gabinete Militar da Presidncia, general Hugo 
Abreu, tomara o que ele mais tarde chamaria de medidas de 
segurana preliminares Con sistiam num dispositivo pelo 
qual, no exato momento em que Frota fos se demitido, os 
comandantes dos quatro Exrcitos estariam sendo avisa dos em 
nome do Planalto.
Por cautela, Geisel tomara suas prprias medidas de segurana 
com plementares e avisara dois desses quatro generais. Um de 
seus mais an tigos colaboradores, o general Gustavo Moraes 
Rego, da 1 1 Brigada de Infantaria Blindada, em Campinas, 
levara a notcia ao cmandante do ii Exrcito, em So Paulo. 
Dois dias antes, Geisel revelara o segredo ao comandante do i 
Exrcito, Jos Pinto de Araujo Rabello, sob cujas ordens 
estavam as tropas do Rio e de Minas Gerais. J devia ter 
tirado, respon deu-lhe o general.
Para a operao do dia 12, o chefe da segurana de Geisel, 
tenente- coronel Germano Arnoldi Pedrozo, reforara a sua 
prpria guarda, tan to com homens como com armas. O 
secretrio particular do presiden te, Heitor Aquino Ferreira, 
homem de confiana de Golbery, conta que naquele dia os 
corredores estavam povoados com gente que eu nunca tinha 
visto, um pessoal que no se separava de umas maletinhas Em 
al gumas dessas maletinhas havia submetralhadoras. A prpria 
gaveta de Hei tor guardava uma pistola. Sobre a grande laje 
do teto do Planalto, Pedro zo dispusera observadores capazes 
de controlar as cercanias do palcio. O chefe da segurana, 
considerado um obsessivo at por seus amigos, pro ps a 
Geisel que um de seus homens ficasse no gabinete durante a 
audin 14 Hugo Abreu, O outro lado do poder, p. 131.
15 Ernesto Geisel, 1982.
16 Heitor Ferreira, dezembro de 1977.


28        A DITADURA ENVERGONHADA
cia, para evitar qualquer possvel contratempo. A idia foi 
rejeitada pelo presidente. A segurana do palcio, 
ingrediente essencial em toda cri se militar, tinha motivos 
para ser reforada. Poucos meses antes, Frota co locara no 
comando do Batalho da Guarda Presidencial um coronel de sua 
confiana. Pela rotina, em outubro o Planalto estava entregue 
a uma tropa do Regimento de Cavalaria de Guarda, comandado 
por um ofi cial leal ao presidente e ntimo do chefe do seu 
Servio Nacional de In formaes, o general Joo Baptista 
Figueiredo.
Garantidos os principais comandantes de tropa nos estados, 
assegu rada a proteo do palcio, preservado o sigilo e 
encerrada a audincia com o ministro, Geisel conclura o que 
se poderia chamar de primeira parte da engenharia da 
demisso. Marchara para o confronto sem nenhum receio quanto 
ao seu desfecho. Diante de uma pergunta relacionada com sua 
segurana pessoal, responderia: Se eu tivesse qualquer 
receio, no teria deixado minha mulher e minha filha no 
Alvorada
A partir de ento jogavam as pretas, as pedras de Frota.
De volta ao seu quartel-general, o ministro fez acrscimos ao 
texto de um discurso que havia preparado semanas antes, 
adaptando-o s novas circunstncias, e convocou os dez 
generais que compunham o Alto- Comando do Exrcito. O feriado 
voltava a atrapalh-lo. Trs dos quatro generais comandantes 
de exrcitos encontravam-se em suas sedes, lon ge de 
Braslia, enquanto quatro dos que deveriam estar na capital 
tinham viajado, O chefe do Estado-Maior, por exemplo, estava 
no Piau. O dire tor do Material Blico, em So Paulo. At o 
seu chefe-de-gabinete estava no Rio. No uartel-general, onde 
habitualmente trabalhavam 2500 pes soas, havia cerca de 
duzentas. Quando a notcia da demisso se espa 17 Ernesto 
Geisel, 1984.
18 Para a amizade do coronel Francisco Rabelo Leite com 
Figueiredo, anotao manuscrita de
Figueiredo ( meu amigo) em duas folhas onde um informante 
lhe dava conta da situao po ltica, em 5 de outubro de 
1977. APGCS/HF.
19 Ernesto Geisel, 1995.
20 O Estado de S. Paulo, 6 de novembro de 1977. Para o chefe-
de-gabinete, general Bento Bandeira
de Melio, Armando Daudt dOliveira, que o encontrou no 
aeroporto do Rio, maio de 1988.
21 Walder de Ges, O Brasil do general Geisel, p. 90.
INTRODUO        29
lhou, comearam a chegar ao QG oficiais dispostos a resistir. 
Um coronel de seu servio de imprensa, localizado num clube, 
veio de bermudas. Alguns traziam granadas na cintura. Em 
uniforme de campanha, vieram os comandantes do Batalho da 
Guarda e da Polcia do Exrcito, unida des de elite. Somadas, 
tinham poder de fogo equivalente ao das demais unidades da 
capital, compostas em sua maioria de recrutas.
s quinze horas Frota ouviu de um jornalista:
 General, qual  a evoluo lgica dos acontecimentos?
 No sei. Estamos esperando que as coisas aconteam.
Quatro horas depois o mesmo jornalista voltou a telefonar, 
com a
mesma pergunta. Frota j no esperava por mais nada: Voc 
acha que
pode ter alguma coisa? [ A situao agora  com o presidente
Estava terminada a batalha. Entre quinze e dezenove horas 
Sylvio Fro ta viu que os generais comandantes de exrcitos, 
chamados ao seu gabi nete para uma reunio em que Geisel 
seria deposto ou emparedado, pas saram primeiro no Planalto. 
Um a um haviam sido recebidos pelo presidente, que os 
convencera a apoi-lo. O golpe de manual rura.
O general Lauro Rocca Dieguez, que comandava as mesas da Dire 
toria do Patrimnio, tinha uma pistola no coldre e um nmero 
(267-5420) na cabea. Sups ser possvel conseguir o apoio 
verbal do ex-presidente Emilio Garrastaz Medici, de quem 
fora subordinado e continuava ami go. Militarmente 
prestigiado, Medici encarnara o xito da ditadura e, des de 
sua sada do governo, em 1974, vivia calado em seu 
apartamento de Copacabana. Dieguez telefonou-lhe sob as 
vistas de Frota. Uma testemu nha do lado brasiliense do 
dilogo narraria:
22 Telex de Marinilda Carvalho, da sucursal de Veja em 
Braslia, consultado em 1987, na pasta
Slvio Frota, do Departamento de Documentao (Dedoc) da 
Editora Abril.
23 Depoimento do general Enio Pinheiro, em Maria Celina 
dAraujo, Glucio Ary Dillon Soares
e Celso Castro (orgs.), A volta aos quartis, p. 239.
24 Walder de Ges, O Brasil do general Geisel, p. 83.
30        A DITADURA ENVERGONHADA
Ouvi a conversa, mas ele s dizia: Sim, senhor. Sim, 
senhor. No dizia uma palavra, no comentava coisa alguma. 
Estava mesmo muito pertur bado.
L pelas tantas desligou o telefone, e o Frota, que estava 
olhando, per guntou: O que ele disse?.
O general Dieguez disse que o Medici tinha dito apenas o 
seguinte:
Pe gua na cabea. Pe gua para esfriar a cabea.
E o Frota: Tudo bem.  isso mesmo. Acabou.
No era um golpe de todo tolo. Dos quatro comandantes de 
exrci tos, Frota podia esperar pelo apoio de dois  Fernando 
Bethiem, do iii, com as tropas do Sul, e Argus Lima, do iv, 
no Nordeste. Alm disso, su punha ter ao seu lado os generais 
das guarnies da Bahia, de Minas Ge rais e, sobretudo, a 
maior parte da tropa de Braslia. Tanto era assim que, por 
determinao do general Hugo Abreu, um tenente-coronel fora 
en viado ao Rio de Janeiro e pusera em prontido a Brigada 
Pra-Quedis ta. Em caso de necessidade, ela cairia sobre a 
capital. Sem o respaldo do Alto-Comando e sem guarnies 
relevantes  sua disposio, restava ao ministro exonerado a 
possibilidade de um aventuroso ataque ao palcio, proposto 
por oficiais sem tropa. Descartou-o.
No dia 12 de outubro o general Sylvio Frota teve muitas 
surpresas. Entre elas, nenhuma foi to grande quanto o nome 
de seu sucessor. De manh, quando ia de casa para o Planalto, 
o ministro estava certo de que Geisel o chamava para discutir 
o texto de um documento confidencial intitulado Relatrio 
Especial de Informaes, assinado um ms antes pe lo general 
Fernando Bethlem. Nele fazia-se um duro ataque  poltica de 
abertura do governo.
Dizia o comandante do iii Exrcito:
25 Depoimento do general Enio Pinheiro, em Maria Celina 
dAraujo, Glucio Ary Dilion Soares
e Celso Castro (orgs.), A volta aos quarteis, p. 239.
26 Armando Falco, Geisel, p. 245.
27 Depoimento de Sylvio Frota, em Armando Falco, Tudo a 
declarar, p. 393.
INTRODUO        31
A Volta aos Quartis Volta ao Estado de Direito e a 
Redemocratiza o. Estes so os atuais temas que insinuam a 
ingerncia da classe militar na vida poltica, econmica e 
at mesmo social do pas. [ A Volta aos Quartis significa 
o afastamento ou o alheamento dos rgos de seguran a que se 
estruturam  base de informaes, como o SNI, DOl-CODI, CGI; 
ain da pretende que as Foras Armadas, por seus chefes 
militares, no mais tu telem a vigilncia dos princpios 
revolucionrios que nortearam o movimento de 1964.28
Nesse relatrio, Bethlem repetia o raciocnio segundo o qual 
o gover no era delegado da Revoluo Democrtica que, por 
sua vez, tinha nas Foras Armadas, por seus chefes, sua 
tutora. Ou seja, em caso de necessi dade os militares 
poderiam, em nome da Revoluo, mudar o governo, ou pelo 
menos empared-lo. Assim se fizera em 1965, quando o general 
Cos ta e Silva emparedara o marechal Castelo Branco. Assim 
fora em 1968, quan do a guarnio do Rio de Janeiro resolveu 
emparedar Costa e Silva. Assim acontecera em 1969, quando se 
impediu a posse do vice-presidente Pedro Aleixo depois que 
Costa e Silva sofreu uma isquemia cerebral e, com isso, 
lanou-se o pas num perodo de anarquia militar, durante o 
qual foi go vernado por dois meses por uma junta pattica. 
Assim seria feito tantas ve zes quantas fossem necessrias, 
acreditavam no s os radicais como tam bm a maioria dos 
oficiais, habituados a ver o cumprimento dessa norma.
O relatrio de Bethlem, nas mos de Geisel, era visto como 
uma pro vocao. Tudo indicava que o presidente, num impulso, 
o demitiria. Se resolvesse faz-lo, o ministro do Exrcito 
receberia apenas uma notifica o, nunca uma consulta. Como 
j lhe dissera muitas vezes, voc cuida da classificao dos 
coronis, eu cuido da dos generais Mesmo assim, Frota estava 
disposto a um confronto em torno de Bethlem. Na tarde do dia 
11 falara pelo telefone com o general, que se achava em 
frias no Rio
28 Relatrio Especial de Informaes n O1/77-E2, Apreciao 
da Poltica Nacional, marcado con fidencia1 de 5 de 
setembro de 1977, assinado pelo general Bethiem. APGcs/HF.
29 Ernesto Geisel, outubro de 1986. Geisel admitiu que, numa 
outra circunstncia, talvez demi tisse Bethlem.
30 Ernesto Geisel, 1982.
32        A DITADURA ENVERGONHADA
e estranhara um telefonema do Gabinete Militar informando-o 
de que seria procurado por um oficial no incio da manh 
seguinte. (Era a mon tagem do dispositivo de Hugo Abreu, mas 
poderia ser qualquer outra coi sa.) Frota, que podia 
desconfiar de qualquer outra coisa, menos do pro psito do 
dispositivo do general Hugo, dissera a Bethlem que concordava 
com os termos do relatrio. Para reforar o apoio, estava-lhe 
mandando uma carta. Pediu-lhe que ditasse o endereo e 
anotou: Rua Andrade Ne ves, 105, apartamento 1201, Tijuca.
Sentou-se  mesa e escreveu:
Soube hoje, atravs de informes, que o Relatrio Especial de 
Informaes n O 1/77 foi do conhecimento de elementos do 
Planalto que esto envene nando junto ao presidente da 
Repblica o assunto do mesmo. Nada vi de anormal, seno um 
exame sincero e franco da situao.  provvel que al gum 
lhe procure para falar oficiosamente sobre a matria.  
apenas uma oferta, mas acho que voc no dever tratar com 
ningum sobre is to. Diga que neste terreno, especificamente, 
s se entender com o minis tro, que nada lhe falou a 
respeito, devendo, por isto, estar de acordo. E es tou com 
tudo o que voc fizer!
Frota sublinhou a ltima frase.
A carta deveria ser levada a Bethlem por Armando Daudt 
dOlivei ra, dono do Biotnico Fontoura. O empresrio 
carioca, bem relaciona do, elegante e discreto, tinha a 
confiana do ministro Frota. Estava na sua residncia oficial 
quando ele conversou com Bethlem, e ouviu um lado da 
conversa. Daudt saiu de Braslia  noite, chegou tarde ao Rio 
e foi para sua manso, em Laranjeiras. Tinha dois casais 
convidados para jantar. Deixou para entregar a carta no dia 
seguinte.
31 Armando Daudt dOliveira, maio de 1988.
32 Veja, 14 de maro de 1979, com a ntegra da carta.
33 Armando Daudt dOliveira, abril de 1988. Para os dois 
casais convidados para jantar, depoi mento do coronel Tulio 
Teixeira no artigo Foi assim, publicado na Tribuna de 
Petrpolis de 3 de
dezembro de 2000.
34 Armando Daudt dOliveira, maio de 1988.
INTRODUO        33
Frota foi para o palcio com um golpe na cabea. Estava certo 
de que Geisel tentaria degolar Bethlem (que teria recebido 
sua carta  noite). Protestaria contra a demisso e, a partir 
da, iria buscar a solidariedade dos outros membros do Alto-
Comando. Em xeque, o presidente pode ria jogar tudo numa mo 
de cartas, ou deixar o assunto para depois. Nes se caso, 
depois de ter determinado a demisso de um general e se ver 
de sobedecido, estaria magnificamente emparedado.
O ministro julgava ter no comandante do iii Exrcito um 
aliado. Na verdade, tinha um substituto. Se Geisel demitiu 
Frota por razes entre as quais estava a sua hostilidade  
poltica de abertura, por que botou Beth lem em seu lugar? 
Como conciliar a poltica do governo com o relatrio do 
general sobretudo se, com a demisso de Frota, a abertura 
deveria ga nhar velocidade?
Eu precisava de um ministro fraco explicaria Geisel anos 
mais tarde, acrescentando: Ali foi necessrio algum 
maquiavelismo De fa to, no poderia haver ministro mais 
fraco que Bethiem depois de mudar to radicalmente de 
posio. Passados alguns dias, para tornar dificil a vida do 
novo ministro, oficiais ligados a Frota fizeram vazar para a 
im prensa o texto do seu relatrio.
No incio da noite do dia 12 o presidente empossou o novo 
minis tro no palcio do Planalto, diante das principais 
autoridades do pas. Nes sa cerimnia deu-se um rpido 
episdio. Durou apenas alguns segundos, e, afora as pessoas 
nele envolvidas, ningum o percebeu. Logo que Beth lem 
assinou o termo de posse, o presidente da Cmara dos 
Deputados, Marco Maciel, moveu-se na direo do general. 
Geisel, que estava ao seu lado, sups que o jovem deputado 
fosse cumprimentar o ministro. Con gelou a cena chamando 
Bethlem: Ministro, quero apresent-lo ao pre sidente da 
Cmara Passaram-se anos sem que Maciel desse importn cia ou 
buscasse explicao para a cena. Para Geisel, tudo fora muito 
simples: No  o presidente da Cmara quem se apresenta ao 
ministro
35 Para a certeza de Frota, Hugo Abreu, O outro lado do 
poder, p. 136.
36 Ernesto Geisel, 1984 e outubro de 1986.
34        A DITADURA I
do Exrcito, mas o ministro do Exrcito, um colaborador do 
presidente,
que deve ser apresentado ao presidente da Cmara.
No momento em que o presidente dava ateno a detalhes desse 
tipo, o governo estava preocupado com a realizao da 
cerimnia de transfe rncia do cargo, pois Bethiem, 
acompanhado por todos os generais de quatro estrelas, deveria 
encontrar Frota no quartel-general, batizado de Forte Apache 
pelos moradores de Braslia. Temia-se que o ministro 
demitido, com a ajuda de alguns oficiais e sargentos, 
tentasse um golpe de mo, prenden do o Alto-Comando. Cuidado 
com ciladas, disse o presidente a Bethlem. Exigiu que o 
cargo fosse transmitido naquele mesmo dia porque sabia que a 
noite  m companheira de presidentes que demitem ministros 
do Exr cito. Na tarde de 10 de novembro de 1955, o 
presidente Carlos Luz demi tira o general Henrique Lott e 
fora dormir. Acordara deposto.
Quando o dia acabou, Frota estava fora do ministrio, da 
poltica e da farda. Na noite seguinte, de terno azul-escuro, 
acompanhado pela mulher, embarcou num avio de carreira de 
volta ao Rio de Janeiro, onde sempre vivera. Tornou-se o 
pacato morador de um pequeno apartamen to no bairro do 
Graja, na Zona Norte. Nos dias imediatamente seguin tes  
sua exonerao, recebeu algumas visitas. A pelo menos uma mos 
trou fichas de comunistas que o Golbery protege Depois, 
raramente falou de poltica, e numa das vezes em que falou, 
contra o processo de abertura e a anistia de 1979, ningum 
lhe deu importncia. Morreu em 1996, aos 86 anos, deixando 
atrs de si o murmrio de que teria escrito um livro de 
memrias.
No dia 12 de outubro de 1977, com a demisso de Frota, 
dissolveu-
se a mais perversa das anomalias introduzidas pela ditadura 
na vida p0-
37 A partir de 1984, Geisel repetiu essa explicao diversas 
vezes em suas entrevistas e conversas.
38 Ernesto Geisel, 1984.
39 Idem, setembro de 1985 e dezembro de 1993. Para a 
exigncia, comunicada pelo chefe do Es tado-Maior das Foras 
Armadas, O Estado de S. Paulo, 6 de novembro de 1977.
40 M. F. do Nascimento Brito, 1984 e 1988. Ele visitou Frota 
em seu apartamento poucos dias de pois da demisso.
INTRODUO        35
ltica brasileira, restabelecendo-se a autoridade 
constitucional do presi dente da Repblica sobre as Foras 
Armadas. Encerrou-se o ciclo aberto em 1964, no qual a figura 
do chefe do governo se confundia com a de re presentante da 
vontade militar, tornando-se ora seu delegado ora seu pri 
sioneiro. A maioria dos instrumentos jurdicos do regime 
ditatorial so breviveria ainda por alguns anos, mas a 
recuperao do poder republicano do presidente significou a 
disponibilidade do caminho da redemocrati zao. 
Paradoxalmente, essa restaurao partiu no s de um presiden 
te militar, mas do mais marcial dos generais que ocuparam a 
Presidn cia. Geisel restabeleceu o primado da Presidncia 
por meio de uma crise militar da qual manteve afastados os 
polticos, a imprensa e a opinio p blica. Podem-se contar 
nos dedos de uma s mo os civis que tiveram al gum tipo de 
relevo na jornada de 12 de outubro de 1977. Nesse parado xo, 
contudo, no est mais uma das charadas da vida poltica do 
pas, e sim a soluo do enigma que acompanha tanto os 
mecanismos pelos quais os militares tomam o poder como 
aqueles pelos quais o deixam.
 bvio que, na rpida cena ocorrida na cerimnia do 
Planalto, nem Geisel, nem Bethlem, muito menos Marco Maciel 
acreditavam que no mun do real do poder o presidente da 
Cmara fosse hierarquicamente supe rior ao ministro do 
Exrcito. Geisel, porm, mostrava sua capacidade de retirar 
do aparato ditatorial a fora necessria para fazer que 
Bethlem e Maciel se comportassem como se a supremacia 
hierrquica do deputado existisse.
Desde 1968, quando atravs da vigncia do Ato Institucional n 
5 o Brasil entrara no mais longo perodo ditatorial de sua 
histria, dois pre sidentes prometeram restaurar as franquias 
democrticas. Geisel, o ni co a no fazer essa promessa, 
acabou com a ditadura. Entre 1974, ao as sumir o governo, e 
1979, ao deix-lo, transformou uma Presidncia inerte, 
entregue a um colegiado de superministros, num governo 
imperial. Con verteu uma ditadura amorfa, sujeita a perodos 
de anarquia militar, num regime de poder pessoal, e quando 
consolidou esse poder  ao longo de um processo que culmina 
no dia 12 de outubro de 1977 desmantelou o regime. Quando 
assumiu, havia uma ditadura sem ditador. No fim de seu 
governo, havia um ditador sem ditadura. No dia 31 de dezembro 
de 1978, 74 dias antes da concluso de seu mandato, acabou-se 
o Ato Insti
36        A DITADURA ENVERGONHADA
tucional n 5, o instrumento parajurdico que vigorara por dez 
anos, por meio do qual o presidente podia fechar o Congresso, 
cassar mandatos par lamentares e governar por decretos uma 
sociedade onde no havia direi to a habeas corpus em casos de 
crimes contra a segurana nacional. An tes, acabara com a 
censura  imprensa e com a tortura de presos polticos, 
pilares do regime desde 1968.
O objetivo desta obra  contar por que e como Geisel e 
Golbery, dois militares que estiveram na origem da 
conspirao de 1964 e no centro do primeiro governo 
constitudo aps sua vitria, retornaram ao poder dez anos 
depois, com o propsito de desmontar a ditadura. Geisel era 
um mo ralista, defensor convicto de um Executivo forte, 
adversrio do sufrgio universal como forma de escolha de 
governantes e crtico acerbo do Par lamento como instituio 
eficaz. Golbery, que em 1956  em pleno go verno 
constitucional  pedia a criao de um Servio Nacional de In 
formaes, fundou-o em 64 e dirigiu-o at 67. Conviveu com 
ele a partir de 1974, ajudou a transformar o seu chefe, 
general Joo Baptista Figuei redo, em presidente da Repblica 
e, em 81, chamou sua criatura de monstro Deixou o governo 
amaldioando o que se denominava Co munidade de Informaes: 
Vocs pensam que vo controlar o pas come tendo crimes e 
encobrindo seus autores, mas esto muito enganados. Vo ser 
postos daqui para fora, com um p na bunda, disse Golbery ao 
ge neral Octavio Aguiar de Medeiros, chefe do SNI, no dia em 
que saiu do palcio do Planalto, em agosto de 1981.
Foram pessoas to diversas que s a caracterstica comum da 
curio sidade pode t-los aproximado. Geisel, o Sacerdote, foi 
um crente na evoluo dos seres, das sociedades e da vida em 
geral, uma pessoa reser vada e de trato aparentemente 
difcil. Defensor quase religioso da insti tuio militar, 
trazia da caserna o sentido de ordem e uma viso prtica da 
atividade pblica capaz de lev-lo, com freqncia, ao 
antiintelectua lismo. Golbery, o Feiticeiro, foi um curioso. 
Ctico e irnico, parecia gos tar de problemas muito mais 
para lidar com as charadas do que para os tentar solues. 
Geisel acreditava em muitas coisas, inclusive em si prprio.
41 Golbery do Couto e Silva, 1984.
INTRODUO 37
Golbery no acreditava em quase nada, muito menos em si 
mesmo. Sua frase predileta, tomada a Ivan Karamazov, revelava 
esse ceticismo que ele chamava de rebeldia: Deus morreu, 
tudo  permitido
O Sacerdote e o Feiticeiro acreditavam no Brasil e nele 
mandaram co mo poucas pessoas o fizeram. Suas trajetrias 
ensinam como  fcil che gar a uma ditadura e como  difcil 
sair dela.
At o incio dos anos 90, quando os pesquisadores do CPDOC 
come aram a publicar os depoimentos da memria militar do 
perodo, a bi bliografia da ditadura esteve espremida entre 
dois absolutos. Num es tivera a retrica militar de um regime 
que caducara. No outro, um revisionismo que, por falta de 
fontes ou vontade de busc-las, menospre zou a voz calada. 
Pode-se estimar que entre 1979 e 2000, para cada dez livros 
de memrias e biografias de oposicionistas, publicou-se 
apenas um relacionado com as lembranas ou a vida dos 
hierarcas da velha ordem. A voz dos militares foi recuperada 
pela trilogia coordenada pelos profes sores Glucio Ary 
Dillon Soares, Maria Celina dAraujo e Celso Castro. Os dois 
ltimos enriqueceram essa bibliografia com o depoimento de Er 
nesto Geisel.
Dessa srie de entrevistas, publicada depois de sua morte, 
Geisel emer ge como o nico general a defender a tortura: 
Acho que a tortura em cer tos casos torna-se necessria, 
para obter confisses. Logo ele, que acabou com ela. Fez 
essa defesa por duas razes. Primeiro, porque realmente con 
siderava a tortura necessria. Segundo, porque tinha tamanha 
vergonha de ser apanhado mentindo que por mais de cinqenta 
anos deve ter sido uma das poucas pessoas que jogavam pquer 
sem jamais recorrer ao blefe: Eu nunca blefei.  um jogo que 
voc joga com as cartas, com as fichas e com o temperamento 
dos parceiros. A  que entra o blefe. Para mim seria uma 
decepo to grande ser apanhado blefando que nunca blefei
 vasta a literatura sobre a entrada dos militares no 
processo polti co dos pases subdesenvolvidos.  bem menor, 
infelizmente, a bibliogra
42 Compem a trilogia: Vises do golpe, Os Anos de Chumbo e A 
volta aos quarts. O ttulo do de poimento  Ernesto Geisel.
43 Ernesto Geisel, junho de 1994.
38        A DITADURA ENVERGONHADA
fia da sada. No poder, os generais raramente contam as 
maquinaes po lticas de que participam. Fora dele, 
raramente so procurados para fa lar do passado. Essa 
circunstncia diminui o conhecimento dos motivos e dos 
mecanismos pelos quais se processam as retiradas, exceto 
quando elas so conseqncia de desastres militares, como 
sucedeu na Argenti na depois da Guerra das Malvinas, em 1982, 
e na Grcia dos coronis de pois da aventura cipriota, em 74.
O mais caudaloso dos generais que tomaram o poder no sculo 
xx, Charles de Gaulle, escreveu cinco volumes de memrias e 
neles foi de su prema avareza na narrativa do metabolismo da 
poltica militar. Ao lon go de todos os seus livros, fala com 
freqncia da grandeza da Frana, de seu Exrcito e da 
encarnao dos dois: De Gaulle. Quando se trata de pro curar 
os mecanismos polticos a que recorreu para desmontar a 
associa o dos militares com a extrema direita, a represso 
poltica e o colonia lismo na Arglia, tudo somado no junta 
dez pginas.
 possvel arriscar uma explicao para esse fenmeno. Os 
milita res procuram preservar a prpria mstica segundo a 
qual, em quase to dos os idiomas, as Foras Armadas, por suas 
virtudes, colocam-se acima dos partidos e da poltica dos 
civis.  uma questo de pudor diria Gei sel. Por isso, 
mesmo quando relembrava os dias de seu governo, rara mente se 
referia s razes que o levaram a pr o general Fernando Beth 
lem no lugar de Sylvio Frota.
Se h uma grande diferena entre a poltica dos civis e a dos 
milita res, ela est no fato de que esta envolve uma 
corporao burocrtica fe chada que precisa acima de tudo 
preservar alguma forma de coeso. Quando as Foras Armadas 
esto metidas na poltica, a remoo de um coronel de 
lealdade duvidosa  decidida geralmente de maneira semelhan 
te  transferncia de um diretor de hospital municipal que, 
depois de ter- se ligado  oposio, perdeu a confiana do 
prefeito. Contudo, se a san o o mdico  muitas vezes 
apresentada orgulhosamente como vingana, a remoo do 
coronel  sempre apresentada como puro produto da ro 44 
Charles de Gaulle, Mmoires despoir, tomo 1: Le Renouveau 
1958-1962.
45 Ernesto Geisel, 1985.
INTRODUO        39
tina. Prefeitos e mdicos podem brigar abertamente. Ambos 
podem mu dar de partido, de hospital e, at mesmo, deixar a 
poltica ou a medici na. Os militares no podem fazer isso 
com a mesma facilidade, pois um capito-de-fragata no pode 
trocar de Marinha nem um major de cava laria, de Exrcito. 
Permanecendo na corporao, convivem com a mes ma gerao de 
colegas, respeitando praticamente a mesma hierarquia ao longo 
de todas as suas vidas. No mundo civil, o primeiro colocado 
nu ma turma de engenharia perde-se na lembrana dos tempos. 
J nos quar tis, o primeiro colocado na Academia , pela 
eternidade, uma espcie de campeo olmpico. Vivem como 
passageiros de um imenso transatln tico no qual se fazem 
amizades e antipatias sob o compromisso de man ter o barco  
tona, f no destino e, se possvel, o conforto a bordo. Sep 
tuagenrios e poderosos, jamais esquecem um capito cuja 
mulher saa em aventuras vespertinas ou um tenente-coronel 
que colava na Escola de Estado-Maior. Jamais se esquecem, por 
exemplo, os apelidos da juven tude, ganhos no tempo das 
escolas militares. Para um aspirante dos anos 30, o Brasil 
foi presidido de 1964 a 1985 por Tamanco, Portugus, Milito, 
Alemo e Figa.
O silncio dos generais foi compensado pela utilizao macia 
de con ceitos tericos. Com isso, freqentemente misturaram-
se idias brilhan tes e preconceitos, dando-se fora de dogma 
a algumas racionalizaes que, no mximo, seriam bons 
instrumentos de especulao. Para expli car a brutalizao da 
poltica, recorreu-se demais ao que se chama de Dou trina de 
Segurana Nacional ou, na sua denominao crtica, Ideologia 
da Segurana Nacional. Trata-se do sistema atravs do qual se 
teria pro cessado, calculadamente, a articulao da ditadura. 
Nesse arcabouo dou trinrio, formulado e desenvolvido na 
Escola Superior de Guerra, seria possvel encontrar, 
arrumadas, as idias do regime militar. Nessa racio nalizao 
juntaram-se tanto defensores como adversrios do regime.
A deficincia central da Doutrina de Segurana Nacional, 
tanto para quem combateu a ditadura como para quem a adorou, 
est no fato de que ela nada teve de doutrina, muito menos de 
ideologia. A expresso se gurana nacional embutiu um 
preconceito, talvez uma idia. Como uma personagem do 
escritor V. 5. Naipaul, ela tem muitas opinies, mas no 
chegam a formar um ponto de vista. Nos seus 21 anos de vida, 
o re
40
A DITADURA F
gime militar operou nas questes de segurana do Estado por 
meio de elementares prticas policiais. Quando essas prticas 
foram colocadas em portugus mais complicado, isso foi feito 
para construir racionalizaes justificativas. Primeiro se 
deu  tortura a condio de poltica de Estado. Depois  que 
se criou um Sistema de Segurana Interna, que nem sis tema 
chegou a ser.
Exagerar a importncia do que seria uma astuciosa ideologia 
espe cfica da Revoluo Redentora de 31 de Maro de 1964 
faz que se veja racionalidade onde no houve. Tome-se o caso 
da interferncia de mili tares ligados ao Servio Nacional de 
Informaes no projeto de desma tamento da floresta que 
deveria ser coberta em 1980 pelo lago da hidre ltrica de 
Tucuru, no Par. Se a operao tivesse dado certo, caberia 
como uma luva a explicao segundo a qual negcio to 
lucrativo foi en tregue a militares da reserva porque isso 
fazia parte do projeto de for talecimento do poder do Estado 
na Amaznia. Deu errado e, em 1985, custara ao pas cerca de 
30 milhes de dlares. Tudo se resumia a uma negociata 
envolvendo meia dzia de espertalhes ligados ao SNI. Tucu 
ru seria uma exceo? Tome-se ento o caso da indstria de 
material b lico. Seria um ingrediente de fortalecimento do 
poder nacional. Suas ati vidades clandestinas, operaes 
negras e a desenvoltura com que se traficaram influncias 
prenunciavam o colapso de uma fraude. Finalmen te, gastaram-
se milhes de dlares no projeto secreto de construo de um 
artefato nuclear. Havia uma iniciativa para o enriquecimento 
de ur nio na Marinha e outra na Aeronutica. Havia tambm o 
projeto de abertura de um buraco de trezentos metros de 
profundidade por um me tro e meio de dimetro, na serra do 
Cachimbo, na Amaznia. Seria a rea de teste do artefato. A 
equipe do buraco foi a nica que chegou ao final.
A Doutrina de Segurana Nacional serviu tambm de conduto 
para racionalizar tudo o que aconteceu de ruim na ditadura. 
Quando essa mes ma ditadura comeou a se retrair, jogou-se 
fora a demonologia militar e entronizou-se a beatificao das 
massas. Cada recuo do regime foi enten 46 Depoimento do 
brigadeiro Scrates da Costa Monteiro a Maria Celina dAraujo 
e Celso Castro
(orgs.), em Militares e poltica na Nova Repblica, p. 166. O 
buraco foi tapado em 1990.
INTRODUO        41
dido como conseqncia de uma presso das foras libertrias 
da socie dade. A f em que o povo unido jamais ser vencido 
 insuficiente para explicar mudanas ocorridas antes que 
aparecessem, como tais, as pres ses.  este, por exemplo, o 
caso da suspenso da censura  imprensa, pro cesso 
cautelosamente iniciado em 1974 e concludo dois anos depois.
Atribuir o fim da censura a qualquer tipo de presso direta 
sobre o governo seria um exagero, pois se a censura tem uma 
utilidade, esta  a de colaborar decisivamente para a 
desmobilizao poltica da sociedade. Atribu-lo a um 
movimento dos proprietrios de jornais, revistas e emis 
soras, um despropsito. Dev-lo a uma resistncia macia dos 
jornalis tas, cortesia impossvel. O fim da censura s se 
explica atravs do com plexo mecanismo de uma deciso 
imperial do presidente Ernesto Geisel:
Recebi no palcio todos os donos de rgos de comunicao. 
Nenhum me pediu o fim da censura. Quem pedisse perderia seu 
tempo.
Para quem quiser cortar caminho na busca do motivo por que 
Gei sel e Golbery desmontaram a ditadura, a resposta  
simples: porque o re gime militar, outorgando-se o monoplio 
da ordem, era uma grande ba guna.
Como ela tomou conta do pas e como a desmancharam  uma his 
tria mais comprida. Comea na noite de 30 de maro de 1964, 
quando
a democracia brasileira tomou o caminho da breca.
47 Ernesto Geisel, 1984. Geisel equivocou-se ao dizer que 
recebeu todos os donos de rgos de
comunicao. Nunca se encontrou com Octavio Frias de 
Oliveira, dono da Folha de S.Paulo, e quan do recebeu Julio 
de Mesquita Neto, diretor responsvel do Estado de S. Paulo, 
em dezembro de
1976, a Censura j sara do jornal havia quase dois anos.
PARTE i A queda
O Exrcito dormiu janguista
O presidente Joo Goulart estava na ante-sala de seus 
aposentos, no pri meiro andar do palcio Laranjeiras, sua 
residncia oficial no Rio de Ja neiro. Naquela noite de 
segunda-feira, 30 de maro de 1964, deveria dis cursar para 
um auditrio de suboficiais e sargentos das Foras Armadas 
reunidos no salo do Automvel Clube, na Cinelndia, a menos 
de meia hora de distncia. Com Jango  apelido pelo qual o 
presidente era ca rinhosamente chamado desde a infncia  
estavam o deputado Tancre do Neves, lder do governo na 
Cmara, e o secretrio de Imprensa da Pre sidncia, Raul 
Ryff. Ambos tentavam convenc-lo a no ir  reunio. 
Argumentavam que a presena do presidente jogaria lenha na 
crise mi litar que o pas atravessava.
Tancredo tinha a amarga experincia adquirida como ministro 
da Justia na crise de agosto de 1954, quando Getulio Vargas 
se matara com um tiro no peito diante de uma rebelio 
militar. Achava que o presiden te s poderia ir ao encontro 
com os sargentos se isso fizesse parte de um plano pelo qual 
estivesse disposto a patrocinar um fulminante processo de 
radicalizao poltica. Mesmo nesse caso, s deveria ir se j 
estivesse numa campanha militar. Jango se aborreceu com o 
receio de Tancredo.
O chefe do Gabinete Militar, general Argemiro de Assis 
Brasil, pe gara a conversa pelo meio. Ele era o pai de um 
chamado dispositivo mi litar que, pelas suas contas, 
assegurava a Jango uma indita lealdade dos quartis. Horas 
antes estimara que haveria 20 mil pessoas na Cinelndia. 
Entre elas estaria a esmagadora maioria dos suboficiais e 
sargentos do Exr
46        A DITADURA ENVERGONHADA
cito, Marinha e Aeronutica baseados no Rio. De cara fechada, 
o general disse a Jango: Presidente, tudo pronto, o esquema 
j entrou em execu o. Jango foi.
A comitiva serpenteou pela estrada que desce a colina sobre a 
qual est o Laranjeiras, e Tancredo teve um de seus momentos 
de fatalismo pessimista: Deus faa com que eu esteja 
enganado, mas creio ser este o passo do presidente que ir 
provocar o inevitvel, a motivao final para a luta armada
Pela primeira vez em sua vida poltica Joo Goulart tomava a 
ofen siva no meio de uma crise militar. Tinha 45 anos e fora 
abatido duas vezes por pronunciamentos militares. Em 
fevereiro de 1954 um mani festo de coronis tirara-o do 
Ministrio do Trabalho. Em 1961, quan do Jnio Quadros 
renunciou, era o vice-presidente e viu-se vetado pe los 
ministros militares. S assumira, depois de uma crise em que 
o pas esteve perto da guerra civil, porque aceitara uma 
frmula pela qual se fabricou um humilhante regime 
parlamentarista cuja essncia residia em permitir que 
ocupasse a Presidncia desde que no lhe fosse entre gue o 
poder.
Sua fora derivava da mquina da previdncia social e das 
alianas com a esquerda no controle dos sindicatos. Sua 
biografia raqutica fazia dele um dos mais despreparados e 
primitivos governantes da histria na cional. Seus prazeres 
estavam na trama poltica e em pernas, de cavalos ou de 
coristas. Tinha 15 mil hectares de terra em So Borja e um 
reba nho de 65 mil animais. Movia-se no poder por meio 
daqueles sistemas de recompensas e proveitos que fazem a fama 
dos estancieiros astucio sos. Introvertido e tolerante, era 
um homem sem inimigos. Os dios que
1 Abelardo Jurema, Sexta-feira, 13, p. 170. Para a frase de 
Assis Brasil, Hlio Silva, 1964 Golpe
ou contragolpe?, p. 363.
2 Abelardo Jurema, Sexta-feira, 13, p. 171.
3 Seu ministro do Planejamento, Celso Furtado, disse dele: 
Era um primitivo, um pobre de ca rter Em Playboy, 
entrevista a Roberto Pompeu de Toledo, abril de 1999.
4 Entrevista de Maria Thereza Goulart a Palmrio Dria e 
Paulo Silber: No houve vedete do
Carlos Machado que ele no tivesse comido Revista Interview, 
ed. 141, agosto de 1991, p. 28.
5 Discurso de Antonio Carlos Magalhes na Cmara dos 
Deputados, 1 de abril de 1964, e Anto nio Carlos Magalhes, 
fevereiro de 1988.
O EXRCITO DORMIU JANGUISTA 47
despertou vieram todos da poltica, nunca da pessoa. Sua 
presena no pal cio do Planalto era um absurdo eleitoral a 
servio de um imperativo constitucional. Em 1960,5,6 milhes 
de brasileiros haviam votado em J nio Quadros, um demagogo 
que fizera a campanha eleitoral usando a vas soura como 
smbolo. Jnio prometera varrer a ordem poltica de que Jan 
go era produto. Pela Constituio de 1946, a escolha do 
presidente e a de seu vice no estavam vinculadas. Assim, 
elegeram-se ao mesmo tempo Jnio, com sua vassoura, e Jango, 
que, a juzo dos seguidores do novo pre sidente, encarnava o 
lixo a ser varrido.
Goulart recuperara os poderes presidenciais em janeiro de 
1963, de pois de um plebiscito, com 9,5 milhes de votos 
contra 2 milhes dados ao parlamentarismo. Tentara um golpe 
em outubro, solicitando ao Con gresso a decretao do estado 
de stio, e vira-se abandonado pela esquer da, que repeliu a 
manobra. No mnimo, deporia os governadores de So Paulo e da 
Guanabara. No mximo, deporia tambm o governador es 
querdista Miguel Arraes, de Pernambuco. Seu dispositivo 
fora to lon ge que planejara o seqestro, por uma tropa 
pra-quedista, do governa dor carioca Carlos Lacerda. Por 
ordem do ministro da Guerra, Lacerda seria capturado por uma 
patrulha, durante uma visita matutina ao hos pital Miguel 
Couto. Deu tudo errado. O coronel escalado para a ao pediu 
ordens escritas, O general encarregado da operao procurou 
dois outros oficiais, mas ambos ficaram na mesma linha. 
Quando conseguiu um coronel disposto a fazer o servio, 
Lacerda j tinha partido. Desam parado, Jango submeteu-se  
humilhao de retirar o projeto que reme tera  Cmara.
6 Goulart teve 4,5 milhes de votos. Seus dois adversrios, 
Milton Campos e Fernando Ferrari, ambos montados num discurso 
moralizador, somaram 6,3 milhes. Em Maria Victoria de 
Mesquita Benevides, A UDN e o udenismo, p. 110.
7 Depoimento de Darcy Ribeiro, em Dnis de Moraes, A esquerda 
e o golpe de 64, p. 139.
8 Para a ordem do ministro da Guerra, general Jair Dantas 
Ribeiro, depoimento do general Al fredo Pinheiro Soares 
Filho, comandante do Ncleo da Diviso Aeroterrestre, citado 
no Oficio 14/GAB/cIRc/64, de 8 de junho de 1964, no qual o 
tenente-coronel Joo Baptista Figueiredo, chefe do Servio 
Federal de Informaes e Contra-Informao, encaminha o 
Extrato de Pronturio de Jair Dantas Ribeiro ao general 
Ernesto Geisel. A documentao destinava-se a instruir o 
proces so de cassao do ex-ministro. APGCS/HF.
9 Para uma descrio do episdio, Agnaldo del Nero Augusto, A 
grande mentira, pp. 106-10.


48        A DITADURA ENVERGONHADA
Depois de tentar um golpe sem a esquerda, infletiu o governo 
na sua direo. Acelerara nos primeiros meses de 1964, at 
que no dia 13 de maro, num grande comcio na praa em frente 
 Central do Brasil (ao lado do Ministrio da Guerra), 
anunciou sua disposio de lanar o governo na campanha pelas 
reformas de base. Assinou dois decretos. Um desapropriava as 
terras ociosas das margens das rodovias e audes federais. 
Outro encampava as refinarias particulares de petrleo. No pa 
lanque, o lder do governo no Senado disse que se o 
Congresso Nacio nal no aprovar as reformas, perder sua 
identidade com o povo. Era um governo em crise, com a 
bandeira das reformas hasteada no mas tro da intimidao.  
tenso poltica somava-se um declnio econmi co. O 
presidente dizia que o vertiginoso processo inflacionrio a 
que estamos submetidos ir fatalmente arrastar o pas  
bancarrota, com to do o sinistro cortejo de um desastre 
social de propores Os investimentos estrangeiros haviam 
cado  metade. A inflao fo ra de 50% em 1962 para 75% no 
ano seguinte. Os primeiros meses de 1964 projetavam uma taxa 
anual de 140%, a maior do sculo. Pela pri meira vez desde o 
fim da Segunda Guerra a economia registrara uma contrao na 
renda per capita dos brasileiros. As greves duplicaram, de 
154 em 1962, para 302 em 63. O governo gastava demais e 
arreca dava de menos, acumulando um dficit de 504 bilhes de 
cruzeiros, equi valente a mais de um tero do total das 
despesas. Num pas onde a tradio dava aos ministros da 
Fazenda uma mdia de vinte meses de permanncia no cargo, 
Goulart dera pouco mais de seis meses a seus cinco 
ministros.
A guinada dividira o pas. O conservadorismo paulista 
respondera
ao comcio do dia 13 com uma Marcha da Famlia com Deus pela 
Liber 10 Luiz Adolfo Pinheiro, A Repblica dos golpes, p. 77.
11 Entrevista de Joo Goulart  revista Manchete de 30 de 
novembro de 1963, p. 20.
12 Donald V. Coes, Macroeconomic crises, policies, and growth 
in Brazil  1964-90, p. 12.
13 Alfred Stepan, The military in politics, p. 140.
14 DonaldV. Coes, Macroeconomic crises, policies, and growth 
in Brazil  1964-90, p. 12.
15 Leigh A. Payne, Brazilian industrialists and democratic 
change, p. 34.
16 Dnis de Moraes, A esquerda e o golpe de 64, p. 122.
17 Wanderley Guilherme dos Santos, Sessenta e quatro, p. 124.
O EXRCITO DORMIU JANGUISTA 49
dade em que se reuniram perto de 200 mil pessoas com faixas 
ameaa doras (T chegando a hora de Jango ir embora) e 
divertidas (Verme lho bom, s batom). O Congresso, com 
maioria conservadora, mos trava-se disposto a bloquear os 
projetos de reforma e a cozinhar o surto esquerdista at o 
ano seguinte. Em outubro de 1965 o ex-presidente Jus celino 
Kubitschek e o governador da Guanabara, Carlos Lacerda, dispu 
tariam o palcio do Planalto. Uma pesquisa realizada em oito 
capitais in dicava que JK tinha 37% das preferncias, contra 
25% de seu principal adversrio. 19
Ao cultivar o choque com o Congresso, Goulart dava a 
impresso de que pretendia atropelar a sucesso, como fizera 
Getulio Vargas em 1937. Seus adeptos mais apaixonados 
chegavam a falar em Constituinte com Jango e a defender uma 
reforma poltica que lhe permitisse disputar a reeleio, 
vedada pela Carta de 1946. Em janeiro, numa entrevista  TV 
Tupi, Luiz Carlos Prestes, o mitolgico secretrio-geral do 
Partido Co munista, anunciou seu apoio implcito  manobra: 
O prprio presiden te Joo Goulart pode pretender ser 
candidato. Talvez mesmo, o candida to do presidente Goulart  
presidncia da Repblica seja ele mesmo. No sei como 
pretende chegar l. Ser atravs de uma reforma constitucio 
nal? Pode ser, no? Reformar a Constituio para permitir a 
reeleio Prestes e os postes sabiam que o Congresso no 
votaria esse tipo de emenda. Minutos depois, responderia: 
Poderamos concordar com a dissoluo do Congresso se 
houvesse um governo que desse as necess rias garantias 
democrticas a todas as foras patriticas e democrticas e 
assegurasse eleies livres para uma Assemblia Constituinte. 
[ Uma Assemblia muito mais avanada que esse Congresso, que 
no reflete a opinio pblica do nosso pas.
Jango foi ao encontro dos sargentos no meio da maior crise 
militar de seu governo. Ela explodira inesperadamente uma 
semana antes. Enquan to o presidente aproveitava os feriados 
da Semana Santa na sua fazenda, em So Borja, o ministro da 
Marinha mandara prender doze graduados
18 Para as faixas, Helosa Maria Murgel Starling, Os senhores 
das Gerais, pp. 33-4.
19 Antnio Lavareda, A democracia nas urnas, p. 174.
20 Suplemento especial de Novos Rumos de 24 a 30 de janeiro 
de 1964.
50
A DITADURA ENVERGONHADA
que haviam transformado uma irrelevante Associao de 
Marinheiros e Fuzileiros Navais numa entidade parassindical, 
monitorada pelo Parti do Comunista.
Sargentos, cabos e marujos amotinaram-se no palcio do Ao, 
sede do Sindicato dos Metalrgicos do Rio de Janeiro, 
controlado pelo PCB. Por quatro dias recusaram-se a abandon-
lo, exigindo que as punies fossem revogadas. Uma tropa de 
fuzileiros enviada para desaloj-los foi desmoralizada por 23 
de seus soldados, que jogaram as armas ao cho e aderiram  
revolta. S se contornou a crise quando oficiais do Gabinete 
Militar da Presidncia foram ao sindicato e sentaram  mesa 
de negocia es com o lder da rebelio, o marinheiro de 
primeira classe Jos Ansel mo dos Santos, nacionalmente 
conhecido como Cabo Anselmo. O arran jo sado dessas 
conversas resultara numa dupla humilhao para a oficialidade 
da Marinha. Primeiro, porque os marinheiros, presos, foram 
levados para quartis do Exrcito. Segundo, porque logo 
depois, soltos, saram pelas ruas do Rio em passeata, 
carregando dois almirantes de es querda nos ombros. O 
ministro da Marinha se demitira, e Jango, sem conseguir um 
oficial da ativa para substitu-lo, nomeara o almirante Paulo 
Mrio da Cunha Rodrigues, quadro da reserva da Fora, prximo 
ao Partido Comunista. O almirante, de 68 anos, estava fora da 
tropa des de 1959 e mal completara trs dias na cadeira.
A ida do presidente ao Automvel Clube indicava que o governo 
esporeava a crise, aceitando o seu agravamento como parte de 
uma ofensiva ampla e radical. O calendrio de manifestaes 
desse ataque era pblico. Na sexta-feira, 3 de abril, Jango 
deveria ir a Santos. Uma sema na depois estaria em Santo 
Andr, no ABC paulista. No dia 11 voaria para Salvador, onde 
provavelmente decretaria o monoplio da distribuio
21 Para o monitoramento da associao pelo PCB, Percival de 
Souza, Eu, Cabo Anselmo, pp. 77
e segs.
22 O PCB detinha cinco dos sete cargos da diretoria executiva 
do sindicato. Jos Ricardo Rama lho e Marco Aurlio Santana 
(orgs.), Trabalho e tradio sindical no Rio de Janeiro, p. 
27.
23 Luiz Alberto Moniz Bandeira, O governo Joo Goulart, p. 
170. Eram os almirantes Cndido Ara go e Pedro Paulo Suzano.
24 Para a proximidade do almirante Paulo Mrio com o PCB, 
Hlio de Ansio, coronel da reserva
da FAB, junho de 1997.
O EXRCITO DORMIU JANGUISTA 51
dos derivados de petrleo. Em seguida participaria de grandes 
manifes taes populares em Belo Horizonte e Braslia. No 
dia 1 de maio o pre sidente deveria estar num comcio em So 
Paulo.
Havia dois golpes em marcha. O de Jango viria amparado no 
dis positivo militar e nas bases sindicais, que cairiam 
sobre o Congresso, obri gando-o a aprovar um pacote de 
reformas e a mudana das regras do jo go da sucesso 
presidencial. Na segunda semana de maro, depois de uma 
rodada de reunies no Rio de Janeiro, o governador Miguel 
Arraes, de Pernambuco, tomou o avio para o Recife avisando a 
um amigo que o levara ao aeroporto: Volto certo de que um 
golpe vir. De l ou de c, ainda no sei.
O ex-governador gacho Leonel Brizola achava que viria de c, 
do presidente, seu cunhado. Veterano militante do varguismo, 
sara de uma infncia pobre e, formado engenheiro, casara-se 
em 1950 com a ir m de Jango. Tivera Getulio como padrinho. 
Devia muito de sua carrei ra ao presidente, mas o cunhado 
devia  sua tenacidade o levante das for as civis que lhe 
permitiram assumir a Presidncia, durante a crise de 1961. 
Fazia tempo que Brizola repetia: Se no dermos o golpe, eles 
o daro con tra ns.
No dia 29 de maro, num artigo intitulado Em colapso o 
sistema
militar anti-Goulart, Carlos Castello Branco, o mais 
respeitado colunis 25 Wilson Figueiredo, A margem esquerda, 
em Os idos de maro e a queda em abril, de Alberto
Dines e outros, p. 225.
26 Sobre uma viso do golpe de Jango, ver carta de 22 de 
fevereiro de 1964 do coronel Humber to Freire de Andrada, 
secretrio de Segurana de Pernambuco, ao governador Miguel 
Arraes, nar rando-lhe uma conversa com o jornalista Samuel 
Wainer, para quem o presidente estava abso lutamente 
empolgado com a idia. Em Glauco Carneiro, Histria das 
revolues brasileiras, p. 513. Segundo o embaixador Lincoin 
Gordon, Wainer falou-lhe de um encontro com Jango em que ele 
se via diante de trs caminhos: tornar-se um presidente 
simblico, renunciar ou mandar ver En trevista de Gordon a 
Paulo Sotero, O Estado de S. Paulo, 6 de maio de 2001, 
Caderno 2.
27 Arajo Netto, A paisagem, em Alberto Dines e outros, Os 
idos de maro e a queda em abril,
p.
28 Jacob Gorender, Combate nas trevas, p. 67. Gorender cita a 
narrativa de Paulo Schilling de uma reunio do comando 
nacional do Grupo dos Onze, realizada no dia 24 de maro de 
1964.
29 Entrevista de Joo Goulart a Luiz Alberto Moniz Bandeira, 
em Moniz Bandeira, O governo Joo Goulart, p. 130.
52 A DITADURA ENVERGONHADA
ta poltico do pas, escrevera: A impresso das correntes 
oposicionistas ...j  a de que, se no ocorrer um milagre, 
nos prximos dias, se no nas prximas horas, o Sr. Joo 
Goulart, ainda que no o queira, cobrir os objetivos que lhe 
so atribudos de implantar no pas um novo tipo de Repblica 
[
Se o golpe de Jango se destinava a mant-lo no poder, o outro 
des tinava-se a p-lo para fora. A rvore do regime estava 
caindo, tratava-se
de empurr-la para a direita ou para a esquerda.
O dispositivo do general Assis Brasil era impressionante. A 
Mari nha, tradicional reduto do conservadorismo militar, 
estava desmoraliza da. Na Aeronutica entendia-se que o apoio 
macio dos sargentos  pe as vitais na engenharia do 
funcionamento da Fora  neutralizaria os arroubos dos 
oficiais descontentes. No Exrcito, onde os golpes se deci 
dem, a situao parecia esquematicamente clara. O ministro da 
Guerra, general Jair Dantas Ribeiro, apoiava Jango e fora 
cumpriment-lo  sa da do palanque do comcio do dia 13.31 
No havia comando importan te em mos duvidosas, O i 
Exrcito, que controlava a tropa do Rio de Ja neiro, estava 
com o general Armando de Moraes ncora, amigo do ministro, 
soldado disciplinado. Se ncora piscasse, tinha abaixo o gene 
ral Oromar Osorio, to simptico ao governo que figurava 
entre os cha mados generais do povo Oromar comandava a mais 
poderosa guarni o do pas, a 1 Diviso de Infantaria, 
aquartelada na Vila Militar, no Rio de Janeiro. Salvo em 
1961, o grosso da tropa carioca decidira ou consu mara todos 
os levantes militares da histria nacional. Em So Paulo, o
ii Exrcito era comandado pelo general Amaury Kruel, amigo e 
compa dre de Jango, a quem servira como chefe do Gabinete 
Militar e como mi nistro da Guerra.
30 Jornal do Brasil, 29 de maro de 1964, p. 4.
31 Jos Gomes Talarico, Jos Talarico  Depoimento ao CPDOC, 
p. 205.
32 Em 1831 e em 89 a tropa carioca destronara dois 
imperadores. Em 1930, consumara o levan te gacho. Em 1937 
assegurara a implantao do Estado Novo. Em 1945 e em 54 
derrubara Getu lio Vargas. Na noite de 11 de novembro de 
1955, depusera o presidente Carlos Luz.
33 Para amigo e compadre, depoimento de Fernando Gasparian, 
em Histrias do poder, de Alberto
Dines, Florestan Fernandes Jr. e Nelma Salomo (orgs.), vol. 
3: Vises do Executivo, p. 166.
O EXRCITO DORMIU JANGUISTA 53
No iii Exrcito, que reunia as tropas do Sul, estava o 
general Benja mm Rodrigues Galhardo, to leal ao 
dispositivo quanto ncora. Assis Brasil ainda contava com a 
infiltrao feita em alguns postos relevantes, nos quais 
classificara coronis da confiana do governo e, em poucos ca 
sos, membros do Partido Comunista.
A base militar do PCB, conhecida apenas pela sua cpula, 
denomi nava-se Setor Mil. S Prestes e dois membros da 
comisso executiva sa biam os nomes de seus oficiais, 
divididos em compartimentos estanques. Numa estimativa 
prudente, os oficiais da ativa que militavam no parti do e, 
em tese, poderiam ser mobilizados por sua direo, estariam 
em torno de cem. Os oficiais superiores eram mais de vinte 
mas no passa vam de trinta. Alguns deles tinham identidade 
ideolgica com o parti do, seguiam a sua linha poltica, mas 
no se reuniam formalmente como militantes comunistas. A 
principal influncia (desarmada) do PCB esta va no Conselho 
de Segurana Nacional, onde o coronel Paulo Eugenio Pinto 
Guedes chefiava o gabinete de sua secretaria geral. Tambm 
gra vitava em torno do PCB, no Rio, o coronel Joaquim Ignacio 
Cardoso. Como ele, o ajudante-de-ordens do general Assis 
Brasil, capito Eduar do Chuahy. Na FAB podem ter sido vinte, 
entre os quais dois brigadeiros e trs coronis. Com quatro 
estrelas, o brigadeiro Francisco Teixeira co mandava a 
poderosa iii Zona Area, sediada no Rio. Uma das bases da 
FAB, a Olavo Bilac, era composta por cinco oficiais que 
usavam como codinomes a identidade completa do poeta: Olavo, 
Brs, Martins, Gui mares e Bilac.
O cuidado com que fora montado o dispositivo podia ser 
melhor percebido quando se olhava para os generais que 
certamente estariam cons pirando. Podia-se temer a capacidade 
de articulao do general Oswal do Cordeiro de Farias. 
Conspirador e insurreto desde 1924, era uma es pcie de 
patriarca das revoltas militares nacionais. Comandara a 
artilharia da Fora Expedicionria Brasileira, no front 
italiano da Segunda Guerra
34 Para essa estimativa e para os nomes, vali-me das 
informaes dadas pelos coronis Hlio de
Ansio e Srgio Cavaliari em junho de 1997. Em outras 
oportunidades fui socorrido pelas lem branas de Marco 
Antnio Coelho, Givaldo Siqueira e Eduardo Chuahy.
35 Srgio Cavallari, junho de 1997.
54        A DITADURA ENVERGONHADA
Mundial. Sem funo, comandava o motorista do seu automvel. 
O ge neral Orlando Geisel, outrora poderoso chefe-de-gabinete 
do ministro da Guerra, chefiava baterias de telefones na 
subdiretoria de material de engenharia. Seu irmo Ernesto, 
que at bem pouco comandara a guar nio do Paran, cara 
para a 28 Subchefia do Departamento de Proviso Geral, onde 
movia papis. O coronel Golbery do Couto e Silva, que des de 
1952 redigira todos os manifestos sediciosos contra Vargas e 
Jango, pas sara voluntariamente para a reserva em 61. Mesmo 
generais que em ou tras pocas ficaram fora do golpismo mas 
no inspiravam confiana, tinham sido mantidos longe da 
tropa, naquele limbo burocrtico da ad ministrao militar 
que se denomina canil Ao quatro-estrelas Arthur da Costa e 
Silva, ex-comandante do iv e do ii Exrcito, haviam dado o 
Departamento de Produo e Obras, onde se queixava de 
comandar um contingente de apenas vinte e poucos homens. 
Pressionado pelo soldo modesto e pela falta de sorte nas 
cartas, andara mal de finanas e chega ra a pedir ao poderoso 
Oromar Osorio que lhe conseguisse uma embai xada. Mesmo 
depois do comcio de Jango na Central do Brasil o gene ral 
Costa e Silva sentia o peso do dispositivo Num encontro em 
que Cordeiro de Farias o convidou para botar a tropa na rua, 
reagiu: Voc est maluco? Ns no podemos fazer nada.
Entre os mais respeitados quatro-estrelas estava o general 
Humber to de Alencar Casteilo Branco, um cearense de 63 anos, 
fisicamente ines quecvel por desconexo. Tinha as pernas 
compridas demais para o tron co atarracado, em que estava 
enfiada uma das mais tpicas cabeas chatas produzidas pelo 
Nordeste. Sua postura rgida, projetando-lhe o peito e os 
ombros, parecia reflexo de um temperamento hiertico quando 
na reali dade era uma construo do colete ortopdico de 
alumnio e lona em que o general vivia amarrado. De uma ponta 
a outra media 1,64 m. Estava havia menos de um ano na chefia 
do Estado-Maior do Exrcito, funo
36 Olympio Mouro Filho, Memrias, p. 288.
37 Aspsia Camargo e Waider de Ges, Meio sculo de combate  
Dilogo com Cordeiro de Farias,
p. 561. A adeso de Costa e Silva  conspirao depois do dia 
13 de maro est documentada tam bm em Hernani dAguiar, Ato 
5, pp. 50-1.
38 Casteilo tinha diversas anomalias na coluna e raramente 
tirava o colete, salvo para dormir. Co ronel-mdico Americo 
Mouro, outubro de 1992 e fevereiro de 1998.
O EXRCITO DORMIU JANGUISTA 55
biograficamente honorfica e operacionalmente incua. 
Comandava o sexto andar do prdio do Ministrio da Guerra, no 
centro do Rio. Fora isso, mandava apenas em sua casa da rua 
Nascimento Silva, em Ipanema. Fora um respeitado chefe da 
seo de operaes da Fora Expedicionria Brasileira. Nas 
primeiras horas da crise provocada pela renncia de Jnio 
Quadros, em 1961, defendera reservadamente a posse de Joo 
Goulart. Mais tarde, condenara as jogadas militares do 
dispositivo janguista. Num documento enviado ao ministro 
Jair Dantas Ribeiro, advertira: Tu telando policialmente o 
pas, mais sofreremos vexames, perante a Nao, dos 
qualificativos rudes de gorilas, reacionrios golpistas 
e patetas.
Na noite do comcio da Central, Castello estarrecera-se com a 
ida de Jair ao palanque. Uma semana depois, distribuiu aos 
seus comanda- dos no Estado-Maior uma Circular Reservada, na 
qual atacava o gru pamento pseudo-sindical acusando-o de 
antiptria, antinao e anti- povo, e pedia aos 
subordinados para perseverar, sempre dentro dos limites da 
lei
Castello fora trazido para a conspirao por dois velhos 
amigos, o marechal Ademar de Queiroz, na reserva desde 
dezembro de 1963, e o general Cordeiro de Farias. Em 
fevereiro estava documentadamente nela. Em carta a um coronel 
amigo que servia no Recife, informava: 01v Exr cito, na 
reao legalista,  bsico. Basta durar na ao umas 48 
horas. No ficar s.
Sua circular era um exerccio em torno da reao legalista 
Apesar do prestgio da assinatura, o documento no sacudiu 
aquele grande pe dao da oficialidade que vive numa rotina em 
que a ordem e a disciplina se misturam  carreira, formando o 
perfil do militar a quem os governan tes chamam de 
profissional e os conspiradores de indeciso, O prprio 1 
subchefe do Estado-Maior, general Aurelio de Lyra Tavares, 
recebeu o do cumento com sobressalto, a ponto de julgar-se 
obrigado a uma resposta.
39 Ernesto Geisel, outubro de 1994.
40 Carta de Castelio ao ministro Jair Dantas Ribeiro, de 4 de 
outubro de 1963, em Documentos
histricos do Estado-Maior do Exrcito, pp. 365-7.
41 Carlos Luiz Guedes, Tinha que ser Minas, pp. 166-8.
42 Carta de Castelio Branco ao coronel Helio Ibiapina, de 2 
de fevereiro de 1964. APHACB.
56        A DITADURA ENVERGONHADA
Deu-a por escrito, numa carta a Casteilo, deixando claro que 
s vira o pa pel na vspera de sua expedio (portanto, no 
ajudara a escrev-lo). Em seguida, protestou: Continuo a 
julgar que o referido documento devia, e deve, ser discutido 
com o ministro, antes de sua expedio definitiva Uma cpia 
da circular chegara aos generais do dispositivo, e a cabea 
de Casteilo ficou a prmio. Jango decidiu que o demitiria.
Uma semana depois da distribuio da circular, a revolta dos 
mari nheiros deu  advertncia do chefe do Estado-Mior quase 
que um tom de profecia. O que sucedera na Marinha fora a 
quebra da hierarquia. O ministro da Justia de Jango, 
Abelardo Jurema, percebera a extenso des se estrago logo que 
a confuso comeou. Paraibano loquaz e bomio, era um 
agradvel freqentador da noite carioca. Encontrara-se num 
restau rante com um amigo, o coronel da Aeronutica Lino 
Teixeira, que o aler tara: em defesa da hierarquia militar, 
seria capaz de se juntar aos piores adversrios do governo. 
Lino, alm de amigo de Jurema, era irmo do bri gadeiro 
Francisco Teixeira. Nem sequer no Setor Mil do partido havia 
simpatia para com a baderna. Carlos Marighella, secretrio de 
agitao e propaganda da comisso executiva do PCB, telefonou 
ao coronel Kardec Lemme, veterano suspeito de militncia 
comunista, e disse-lhe: Kar dec, vem para o Sindicato dos 
Metalrgicos. Aqui est se decidindo o des tino do Brasil O 
coronel respondeu: Se voc ainda fosse marinheiro, eu 
poderia perder um minuto. Mas como voc  uma pessoa 
informada politicamente, no vou te dar uma aula por 
telefone. Vou descer, tomar uma coca-cola e depois dormir
 direita, no havia data nem base definidas, mas havia uma 
senha. Ela seria qualquer ato de fora do governo, quer 
contra o Congresso, quer contra os governadores que lhe eram 
hostis. A base mais slida estava em Minas Gerais, pois se 
desejava que o movimento eclodisse numa rea
43 Carta de Lyra Tavares a Castelio Branco, de 21 de maro de 
1964. APHACB.
44 Hlio Silva, 1964 Golpe ou contragolpe?, p. 354.
45 Abelardo Jurema, Sexta-feira, 13, p. 163.
46 Depoimento do coronel Kardec Lemme a Dnis de Moraes, em A 
esquerda e o golpe de 64,
p. 103. Coronel Kardec Lemme, julho de 2001.
47 Para o fato de no haver data, Ernesto Geisel, novembro de 
1994.
O EXRCITO DORMIU JANGUISTA 57
onde houvesse harmonia entre as tropas rebeladas e o poder 
civil que as deveria amparar. Em nenhum outro estado-chave os 
generais e o gover nador tinham-se aproximado tanto no 
planejamento da insurreio. Mi litarmente inexpressiva, 
Minas era governada por Jos de Magalhes Pin to, um 
banqueiro que sonhava com a Presidncia. Ligara-se a Casteilo 
e acabara de formar um secretariado suprapartidrio. Nele 
dera ao ex- chanceler Afonso Arinos a bizarra funo de 
secretrio de Relaes Exte riores. Divulgara um manifesto 
pedindo a restaurao da ordem consti tucional Mobilizara 
sua polcia militar, estocara gasolina e confessara-se ao 
arcebispo de Belo Horizonte, d. Joo Resende Costa. Dele 
recebera uma bno pessoal para a causa de Minas contra o 
comunismo
Os dois generais de Minas tinham pressa. O comandante da 
Infan taria Divisionria/4, Carlos Luiz Guedes, e o general 
Olympio Mouro Filho, da 4 Regio Militar e da 48 Diviso de 
Infantaria, no podiam es perar pela senha. Mouro estava a 
um passo da compulsria, com pou cos meses de vida no servio 
ativo, depois dos quais seria metido num pijama. Guedes 
estava a um passo da substituio. J sabia o nome do oficial 
que viria rend-lo, relegando-o a um fim de carreira no 
canil O dispositivo no confiava neles e os deixara nos 
postos porque, juntos, no somavam um regimento adestrado. 
Detestavam-se. Mouro cha mava Guedes de falastro 
insuportvel e Guedes o vira como um in deciso. A idia de 
Mouro era derrubar Jango atravs de um golpe ful minante que 
denominava Operao Popeye. Desceria de seu quartel, em Juiz 
de Fora, a 150 quilmetros do Rio, com uma tropa pequena e 
bem treinada. Acreditava que poderia tomar de assalto o 
prdio do Minist rio da Guerra em menos de 24 horas. O resto 
cairia de podre. Guedes e Magalhes Pinto, em Belo Horizonte, 
trabalhavam noutra linha, que consistia em rebelar Minas 
Gerais, separando-a do governo Goulart. O resto cairia de 
podre.
48 Pedro Gomes, Minas  Do dilogo ao front em Alberto 
Dines e outros, Os idos de maro
e a queda em abril, p. 98. Para a estocagem de gasolina, ver 
tambm Luiz Alberto Moniz Bandei ra, Ogoverno Joo Goular4 p. 
16.
49 Mouro sobre Guedes, em Olympio Mouro Filho, Memrias, p. 
351. Guedes sobre Mouro,
em Carlos Luiz Guedes, Tinha que ser Minas, p. 180.
58        A DITADURA ENVERGONHADA
Os conspiradores do Rio de Janeiro planejavam um levante com 
base em So Paulo.  meia-noite do dia 30 de maro, esse 
plano assentava-se em condicionais. Dependia do comportamento 
de Goulart. No espe ravam muita coisa dos generais mineiros. 
Um emissrio de Guedes visi tara almirantes para comunicar-
lhes que a ID-4 se rebelaria no dia 30 de maro. Mas seria 
difcil para esses oficiais acreditar na eficcia do movi 
mento depois que lhes fosse explicada a razo pela qual 
Guedes se fixa ra naquela data: Porque 30  o ltimo dia de 
lua cheia, e eu no tomo nenhuma iniciativa na minguante; se 
no sairmos sob a cheia, irei espe rar a lua nova, e ento 
ser muito tarde
As conversas mineiras podiam parecer coisa de lunticos, mas 
quan do a Mercedes de Jango com seus batedores ia a caminho 
do Automvel Clube, j haviam chegado a Washington dois 
informes da Central Intel ligence Agency, a CIA, tratando dos 
planos dos conspiradores revolucio nrios em Minas Gerais. 
Segundo um deles, o comandante de uma uni dade militar 
informava que o presidente Goulart deve ser deposto 
rapidamente e admitia a possibilidade de a rebelio estourar 
no dia se guinte. Esse mesmo relatrio dizia que os 
conspiradores receavam ficar sem combustvel e advertia: 
Petrleo  um problema. Os comunistas con trolam os portos e 
as ferrovias, mas no as rodovias. As reservas de pe trleo 
em estados-chave foram mantidas no mnimo, em geral na base 
de um dia de uso. O cnsul americano em Belo Horizonte, 
Herbert Okun, estivera com Magalhes no palcio da Liberdade 
a pretexto de convid lo para um concerto sinfnico. O 
governador falara em reao caso Jan go no punisse os 
marinheiros rebelados, mas o que mais impressionou o jovem 
diplomata foi ver a sede do governo mineiro superprotegida, 
com PM5 armados de submetralhadoras nos corredores do 
casaro. Outro te-
50 Telegrama do coronel Vernon Walters ao Estado-Maior 
Conjunto, em Washington, de 30 de
maro de 1964. BLBJ.
51 Carlos Luiz Guedes, Tinha que ser Minas, p. 193.
52 Marcos S Corra, 1964 visto e comentado pela Casa Branca, 
p. 63.
53 Telegrama do cnsul americano em Belo Horizonte, Herbert 
Okun, ao Departamento de Es tado, de 30 de maro de 1964. 
BLBJ. Embaixador Okun, outubro de 1997. O embaixador Okun in 
formou que no foi a fonte dos dois telegramas da CIA. A 
Agncia tinha um funcionrio america no em Belo Horizonte. 
Ele se dispensou de revelar seu nome.
O EXRCITO DORMIU JANGUISTA 59
legrama, do adido militar, baseado no Rio, anunciava a 
iminncia de ou tra rebelio, marcada para a semana seguinte.
Em Washington, trabalhava-se havia dez dias na armao de uma 
fora-tarefa naval que, em caso de necessidade, zarparia para 
a costa bra sileira. Sua formao fora proposta pelo 
embaixador americano, Lincoln Gordon. Professor de economia 
da Universidade de Harvard, fora man dado ao Brasil pelo 
falecido presidente John Kennedy dentro do mesmo esprito de 
reformismo iluminado que remetera John Kenneth Galbraith para 
a embaixada em Nova Delhi. Homem de memria prodigiosa, Gor 
don entrara em Harvard aos dezessete anos, formara-se aos 
vinte e rece bera seu PhD por Oxford aos 23.Amadurecera como 
economista nas mais seletas equipes do liberalismo americano. 
Antes que os procedimentos burocrticos da sua nomeao para 
o Rio comeassem a tramitar, Ken nedy ofereceu-lhe o cargo de 
secretrio de Estado assistente para Assun tos 
Interamericanos, hierarquicamente mais valioso. Ele preferiu 
a em baixada no Brasil. Apresentara suas credenciais no final 
de 1961. Pela primeira vez desde 1945, quando Franklin 
Roosevelt mandou para o Bra sil seu amigo Adolf Berle Jr., 
desembarcou no Rio um embaixador dos Estados Unidos que sabia 
ler portugus.
A costura militar do embaixador era antiga e profunda. Era 
ante rior ao plebiscito que devolvera os poderes 
presidenciais a Jango e se ba seava no receio de que se 
estivesse caminhando para uma ditadura pes soal e populista 
Gordon reunira-se com Kennedy na Casa Branca na manh de 30 
de julho de 1962, quando o presidente estava inauguran do o 
sistema de gravao clandestina de suas conversas no Salo 
Oval. Dessa conversa sobreviveram as lembranas de Gordon e 
28 minutos de
54 Telegrama do coronel Vernon Walters ao Estado-Maior 
Conjunto, de 30 de maro de 1964. BLBJ.
55 Entre 1940 e 1973 todos os presidentes americanos gravaram 
conversas que tiveram na Casa
Branca. Alguns, como Franklin Roosevelt e Harry Truman, 
fizeram poucos registros. Kennedy foi
o primeiro a grav-las extensivamente. Entre julho de 1962 e 
sua morte, em outubro de 63, dei xou pelo menos 248 horas de 
reunies e doze de conversas telefnicas. Thepresdential 
recordings
John E Kennedy, vol. 1: July 30-August 1962, editado por 
Timothy Naftali, p. xx.
60        A DITADURA ENVERGONHADA
fita. O embaixador dissera a Kennedy que a hiptese de um 
golpe mili tar estava no baralho. Opunha-se  idia de se 
pensar na deposio de Jango como estratgia, mas desejava 
ter a carta  mo. Tiveram o seguin te dilogo:
[  Creio que uma de nossas tarefas mais importantes consiste 
em fortalecer a espinha militar.  preciso deixar claro, 
porm com discri o, que no somos necessariamente hostis a 
qualquer tipo de ao mili tar, contanto que fique claro o 
motivo.
 Contra a esquerda  cortou Kennedy.
 Ele est entregando o pas aos...
 Comunistas  completou o presidente.
 Exatamente. H vrios indcios de que Goulart, contra a sua 
von tade ou no [ 56
Kennedy decidiu reforar a base militar da embaixada. A 
reunio com Gordon levou-o a temer uma derrocada, nada menos 
que a insta lao de um regime comunista ao longo de 1963: 
Do jeito que o Bra sil vai, daqui a trs meses o Exrcito 
pode vir a ser a nica coisa que nos resta Abandonara a 
poltica de hostilidade a golpes militares e esta va pronto 
para reconhecer a junta que duas semanas antes derrubara
o presidente do Peru. Referindo-se aos militares brasileiros, 
o secret rio de Estado assistente para Assuntos 
Interamericanos, Richard Good win, arriscara: Ns podemos 
muito bem querer que eles assumam at o fim do ano, se 
puderem. Combinaram a transferncia do coronel
56 Timothy Naftali (ed.), Thepresidential recordings John E 
Kennedy, vol. 1: July 30-August 1962, pp. 5-25. Transcrito na 
reportagem de Carlos Haag, Todos os tapes do presidente 
Valor, 19 de outubro de 2001.
57 Kennedy fez dois comentrios posteriores sobre a situao 
brasileira, O primeiro, horas de pois do encontro com Gordon. 
Timothy Naftali (cd.), The presidential recordings  John F. 
Kennedy, vol. 1: July 30-August 1962, p. 37. O segundo, no 
dia 6 de agosto, no qual falou da possi bilidade de 
instalao de um regime comunista. Atribuiu essa prevjso a 
Gordon. Idem, p. 237. 58 Timothy Naftali (ed.), 
Thepresidential recordings John E Kennedy, vai. 1: July 30-
August 1962, p. 19.
O EXRCITO DORMIU JANGUISTA 6i
Vernon Walters, adido do exrcito em Roma, para o Rio. Aos 46 
anos, enorme e desengonado, Walters j era uma lenda na 
diplomacia mili tar. Fluente em sete lnguas, servira como 
oficial de ligao entre o v Corpo de Exrcito e a FEB na 
frente italiana, e traduzira todas as entre vistas de 
presidentes brasileiros e americanos desde o encontro do ma 
rechal Dutra com Harry Truman, em 1947. Vivera no Rio de 
Janeiro de 1945 a 1948 como adido assistente. O coronel 
detestou a idia de dei xar um posto de primeira grandeza com 
uma equipe de trinta pessoas para chefiar um escritrio onde 
havia apenas um major e uma secre tria: Se eles querem que 
eu faa o que eu penso que eles querem, eu no terei status 
suficiente Chegou a pensar em pedir transferncia para a 
reserva. Em outubro desceu no Rio, com treze generais espe 
rando-o no aeroporto.
No dia 20 de maro de 1964, uma semana depois do comcio da 
Cen tral, o presidente Lyndon Johnson autorizara a formao 
de uma fora naval para intervir na crise brasileira, caso 
isso viesse a parecer necess rio. A deciso foi tomada 
durante reunio na Casa Branca a que compa receram Gordon, o 
secretrio de Estado Dean Rusk, o chefe da Central 
Intelligence Agency, John McCone, e representantes do 
Departamento de Defesa. Eram ao todo oito ou dez pessoas. 
Quando o embaixador exps seu plano, McCone revelou que um 
empresrio paulista (Alberto Bying ton) procurara a CIA em 
Washington e pedira que se estudasse um siste ma de 
distribuio de combustvel para abastecer as reas 
insurretas. Nesses mesmos dias o general Cordeiro de Farias 
fizera solicitao seme 59 Walters falava ingls, portugus, 
espanhol, italiano, francs, alemo e russo. Vernon A. Wal 
ters, Silent missions, pp. 5 e 355 para os idiomas. Sabendo 
que era considerado burro, brincava:
Falo todas essas lnguas, mas no penso em nenhuma. Paulo 
Casteilo Branco, 1972.
60 Carta de 31 de agosto de 1962, de Vernon Walters a 
Hildegarde (Hildy) Shishkin, secretria de Averell Harriman, 
subsecretrio de Estado para Assuntos Polticos. Essa carta 
se encontra no ar quivo de Averell Harriman. Agradeo a Kai 
Bird, bigrafo de John McCloy, a cesso de uma cpia. 61 Para 
os treze generais, Vernon A. Walters, Silent missions, p. 
374.
62 Para a observao de McCone, Lincoln Gordon, julho de 
1989. O diretor da CIA no identi ficou o autor da gesto. H 
uma referncia s gestes de Alberto Byington para conseguir 
petr leo na entrada de 2 de abril do dirio de Adolf Berle, 
ex-embaixador dos Estados Unidos no Bra sil. Ver Beatrice 
Bishop Berle e Travis Beal Jacobs (eds.), Navigating the 
rapids  1918-1971, pp.
788-9.
62        A DITADURA ENVERGONHADA
lhante a Walters. Gordon pedira a Washington uma demonstrao 
de fora naval, para mostrar a bandeira, indicando em que 
direo ela tre mulava. Diante da informao levada por 
McCone, decidiu-se incorpo rar alguns navios-tanques  frota. 
O Departamento de Defesa ficou en carregado do trabalho 
logstico do que viria a ser denominado Plano de 
Contingncia 2
A Mercedes de Jango parou em frente ao Automvel Clube, um 
pr dio onde funcionara no Imprio o Cassino Fluminense e, na 
Repblica, um museu de cera. No grande salo transformado em 
auditrio fazia um calor insuportvel. O personagem mais 
aplaudido da noite fora o Cabo Anselmo, com 23 anos e sorriso 
de menino. Zanzava atrs da mesa das autoridades depois que 
militares preocupados com o tamanho da crise o tinham 
impedido de discursar. Ganhara um grande e espalhafatoso abra 
o do ex-comandante do Corpo de Fuzileiros Navais, Cndido 
Arago,
o Almirante do Povo, para a platia janguista, ou o Almirante 
Vermelho, para a maioria das Foras Armadas. Havia a bordo 
sete ministros, inclu sive os trs militares. J se estava 
pelo vigsimo discurso quando o pre sidente entrou. No 
entrou propriamente o presidente, mas uma bola hu mana, no 
meio da qual, arrastando ligeiramente a perna direita, com 
seu habitual meio sorriso e a cabea um pouco abaixada, ia 
Joo Goulart. No era um demagogo de multides. Aos gritos de 
Manda brasa, presiden te, respondia com gestos quase 
modestos. Os oradores apressaram-se, e em alguns minutos ele 
estava diante do microfone. Passava um pouco das 22 horas. A 
essa hora j chegara  Casa Branca um telegrama do consu lado 
americano em So Paulo. Ele informava: Duas fontes ativas do 
mo 63 Aspsia Camargo e Waider de Ges, Meio sculo de 
combate  Dilogo com Cordeiro de Farias,
p. 571, para o pedido de Cordeiro.
64 Carta do embaixador Lincoin Gordon ao autor, de 5 de junho 
de 1989, e Lincoin Gordon, ju lho de 1989. Para a denominao 
do plano, telegrama do Joint Chiefs of Staff, de 31 de maro 
de
1964. BLBJ.
65 Mrio Victor, Os cinco anos que abalaram o Brasil, pp. 
505-6. Nessa cena, o ministro da Guer ra era o general Genaro 
Bontempo, que ocupava a pasta interinamente, pois o titular, 
Jair Dantas
Ribeiro, estava hospitalizado.
O EXRCITO DORMIU JANGUISTA 63
vimento contra Goulart dizem que o golpe contra o governo do 
Brasil
dever vir nas prximas 48 horas.
 tarde, Jango tivera trs textos para ler no Automvel 
Clube. Di vertiu-se quando um amigo selecionou o mais 
moderado. Viera de Luiz
Carlos Prestes.
O presidente disse a parte decisiva de improviso, nervoso, 
agressi vo: A crise que se manifesta no pas foi provocada 
pela minoria de pri vilegiados que vive de olhos voltados 
para o passado e teme enfrentar o luminoso futuro que se 
abrir  democracia pela integrao de milhes de patrcios 
nossos.
Em Juiz de Fora, o general Mouro decidira sair com sua tropa 
na quela madrugada.  tarde, se aborrecera com Magalhes 
Pinto porque o governador, apesar do que tinham combinado, 
relutara em pedir publi camente a deposio de Jango. Sentira 
dores no peito e colocara uma pas tilha de trinitrina debaixo 
da lngua. Estava diante da televiso, quis sair da sala para 
no ver, mas sua mulher, Maria, convenceu-o a ficar.
Quem fala em disciplina, senhores sargentos, quem a 
alardeia, quem procura intrigar o presidente da Repblica com 
as Foras Armadas em nome da disciplina, so os mesmos que, 
em 61, em nome da disciplina e da pretensa ordem e legalidade 
que eles diziam defender, prenderam de zenas de sargentos.
Em Ipanema, Casteilo Branco via a cena na sala de sua casa. 
Esta vam com ele os generais Ernesto Geisel e Golbery do 
Couto e Silva. To dos achavam que a reao ainda demoraria 
alguns dias. Geisel gostou do discurso. Se o tivesse escrito, 
no faria melhor.
A disciplina se constri sobre o respeito mtuo, entre os 
que coman dam e os que so comandados.
66 Telegrama do consulado geral dos Estados Unidos em So 
Paulo ao Departamento de Estado,
de 30 de maro de 1964, transmitido s dezesseis horas e 
mandado  Casa Branca s 20h17, hora
de Washington. BLBJ.
67 Aspsia Camargo e outros, Artes da poltica  Dilogo com 
Amoral Peixoto, p. 467.
68 O discurso de Goulart est em Alberto Dines e outros, Os 
idos de maro e a queda em abril, pp.
396-400.
69 Olympio Mouro Filho, Memrias, p. 309.
70 Ernesto Geisel, agosto de 1988 e novembro de 1994.
64        A DITADURA ENVERGONHADA
O telefone tocou na manso tropical do embaixador americano, 
na rua So Clemente, em Botafogo. Gordon tinha a televiso 
ligada e dois convidados na sala. No entendiam uma palavra 
do que Jango dizia. Acrobaticamente, o embaixador tentava ser 
gentil traduzindo pedaos, ao mesmo tempo que procurava no 
se distrair. Do outro lado da linha, entrou o secretrio de 
Estado Dean Rusk. Queria saber o que Jango di zia. Gordon 
avisou que o processo de radicalizao avanava. Rusk leu- 
lhe trechos do rascunho de um telegrama de instrues que 
seguiria pouco depois. Mostrava-se preocupado com a 
viabilidade de um golpe militar e com a legitimidade do 
governo que dele resultasse. Ponderava que embarcaes com 
armas e munies no poderiam chegar ao Sul antes de dez 
dias, temia meter-se num fiasco, mas advertia: No pode mos 
ficar paralisados por filigranas tericas Para Rusk a 
questo cen tral era determinar at onde est se 
apresentando uma oportunidade que poder no vir a se 
repetirY s 22h58 o Departamento de Estado de terminara a 
todos os consulados no Brasil que informassem diretamen te a 
Washington qualquer desenvolvimento significativo envolvendo 
re sistncia militar ou poltica a Goulart Mais: Todos os 
postos devem manter um alerta de 24 horas para esses 
acontecimentos
Se os sargentos me perguntassem  estas so as minhs 
ltimas pa lavras  donde surgiram tantos recursos para 
campanha to poderosa, para mobilizao to violenta contra o 
governo, eu diria, simplesmente, sargen tos brasileiros, que 
tudo isto vem do dinheiro dos profissionais da remes sa 
ilcita de lucros que recentemente regulamentei atravs de 
uma lei.  do dinheiro maculado pelo interesse enorme do 
petrleo internacional.
Na redao do Correio da Manh, matutino liberal que se 
batera pela
posse deJango em 1961, o jornalista Edmundo Moniz, veterano 
trotskis ta, havia baixado  oficina o texto de um editorial 
para o alto da primei-
71 Telegrama de Dean Rusk a Lincoln Gordon, das 21h52 (hora 
de Washington) de 30 de maro
de 1964, em Lincoin Gordon, Brazils second chance, pp. 68-
70. BLBJ.
72 Telefonema de Dean Rusk a Lyndon Johnson, de 30 de maro 
de 1964, fita WH6403.19, BLBJ,
Recordings of conversations and meetings, traduzida por 
Lincoln Gordon e publicada na Folha
de S.Paulo de 10 de setembro de 1999. Para o alerta, 
telegrama de Dean Rusk  embaixada no Rio
e a todos os consulados no Brasil, de 30 de maro de 1964.
O EXRCITO DORMIU JANGUISTA 65
ra pgina da edio seguinte. Seu ttulo: Basta!. Seu 
ltimo pargrafo:
O Brasil j sofreu demasiado com o governo atual. Agora, 
basta!.
Se quiserem saber quais as cores que presidiro as reformas 
que se ro realizadas, basta olhar a tnica de comandantes e 
comandados do nos so Exrcito, da nossa Aeronutica, da nossa 
Marinha, da Polcia Militar. E ali, em cada tnica, 
encontraro o verde-oliva que  o verde da bandei ra 
brasileira. O azul da Aeronutica e da Marinha, que  o azul 
da ban deira brasileira.  com essas cores, verde, amarelo e 
azul, que faremos as reformas.
Para a platia, que temia um discurso conciliador, Jango 
parecia em
grande forma, numa nova forma. O auditrio respondia: Manda 
brasa,
presidente!.
No admitirei o golpe dos reacionrios, O golpe que ns 
desejamos  o golpe das reformas de base, to necessrias ao 
nosso pas. No que remos o Congresso fechado. Ao contrrio, 
queremos o Congresso aber to. Queremos apenas que os 
congressistas sejam sensveis s mnimas rei vindicaes 
populares.
Goulart entrava no final de sua fala. O senador Ernni do 
Amara! Peixoto, genro de Getulio Vargas, ex-oficial da 
Marinha e um dos mais respeitados caciques do Congresso, 
estava na varanda de seu apartamen to na praia do Flamengo. 
Com sua experincia em golpes, ora como be neficirio, ora 
como vtima, deu sua sentena: O Jango no  mais pre 
sidente da Repblica.
73 Correio da Manh, 31 de maro de 1964. Os quatro 
principais redatores de editoriais do Correio nesses dias 
eram Edmundo Moniz, Osvaldo Peralva, Newton Rodrigues e Otto 
Maria Carpeaux. A redao do Basta!  freqentemente 
atribuda a Moniz, que coordenava o trabalho de seus co 
legas, a quem cabia a deciso final sobre os textos. Moniz e 
Peralva negaram, em conversas sepa radas, em agosto de 1988, 
que o tivessem redigido, embora admitissem que o tivessem 
discutido. Carpeaux morreu em 1978. Nem Moniz nem Peralva 
insinuaram que ele fosse o redator. Em ju lho de 1999, o 
jornalista Carlos Heitor Cony contou-me que a base do 
editorial, na sua primeira verso, foi manuscrita por 
Carpeaux. Submetida a Moniz, comeou um processo de redao 
con junta, da qual participaram ele (Cony), Carpeaux e Moniz. 
Cony informa que o tom do texto pode ser atribudo a ele e a 
Carpeaux. Na boa tcnica da produo dos editoriais, esse 
foi resultado de um trabalho coletivo. Entraram idias de 
diversas pessoas. Um bom editorial, em termos de au toria,  
coletivo como uma catedral gtica.
74 Aspsia Camargo e Outros, Artes da poltica  Dilogo com 
Amaral Peixoto, p. 468.
66        A DITADURA ENVERGONHADA
As foras progressistas deste pas podem estar tranqilas, e 
espe cialmente tranqilas, depois de ouvirem ao longe e 
assistirem pela tele viso esta memorvel assemblia. Ningum 
mais pode se iludir com um golpe contra o governo, contra o 
povo.
Terminara.
s 23h35, quando Jango j retornara ao Laranjeiras, em seu 
rancho, no Texas, o presidente Lyndon Johnson recebeu um 
telefonema de Rusk. Ele informava: A coisa pode estourar a 
qualquer momento. [ Pedi ao Bob McNamara que apronte alguns 
navios-tanque para suprimentos. [ Esta  uma oportunidade que 
pode no vir a se repetir. Acho que  poss vel que esse 
assunto brasileiro exploda de hoje para amanh, e vou estar 
em contato com o senhor sobre isso, para que o senhor possa 
se planejar
Johnson ouviu-o por nove minutos e disse-lhe que, se fosse o 
caso, voaria para Washington. Tocou para seu assessor de 
Imprensa e combi nou as mincias da possvel viagem 
inesperada. A essa hora o general An drew OMeara, chefe do 
Comando Sul das foras militares americanas, que estava em 
Nova York, recebera ordens para apresentar-se na capital.
Nas primeiras horas do dia 31, o Jornal do Brasil comeara a 
circu lar. Trazia um artigo de Carlos Castello Branco 
intitulado Minas desen cadeia luta contra Jango Registrava 
dois prognsticos da liderana opo sicionista para um 
desfecho da situao nacional Num, ele ocorreria em 24 
horas. Noutro, em 72. Dava conta de que a oposio poderia 
ten tar transferir a sede do Congresso para So Paulo ou Belo 
Horizonte. Ad mitia a possibilidade de uma renncia teatral 
de Jango.
Em Juiz de Fora, o general Mouro Filho iniciava um 
solilquio
com seu dirio.
75 Robert McNamara, secretrio de Defesa.
76 Fita WH6403.19, BLBJ, Recordings of conversations and 
meetings, traduzida por Lincoin
Gordon e publicada na Folha de S.Paulo de 10 de setembro de 
1999.
77 Fita WH6403.19, BLBJ, Recordings of conVersations and 
meetings
78 Idem.
79 Jornal do Brasil, 31 de maro de 1964, p. 4.
O EXRCITO DORMIU JANGUISTA 67
s 2h30 da manh ele registrou: Acendi o cachimbo e pensei: 
no estou sentindo nada e, no entanto, dentro de poucas 
horas deflagrarei um
movimento que poder ser vencido, porque sai pela madrugada e 
ter de
,,,
parar no meio do caminho
Uma hora depois, despedia-se da vida: Nunca abaixei minha 
cris ta para ningum, nunca curvei minha espinha para fazer 
pedidos na car reira e nunca desviei ou deixei desviar um 
ceitil da Fazenda Nacional. Mor ro pobre, mas at a ltima 
hora posso andar de cabea erguida. Viva o Brasil!
Mouro tinha muito boa opinio a respeito de si. Em 1937, 
como aluno da Escola de Estado-Maior e chefe do servio 
secreto da Ao In tegralista Brasileira, fora o redator de 
um hipottico esquema de subver so comunista. O exerccio de 
fico fora batizado de Plano Cohen e, da do por autntico, 
servira de justificativa para o golpe do Estado Novo. O 
general Mouro sempre se defendeu dizendo que entre o seu 
trabalho e o embuste pelo qual era apresentado como documento 
verdadeiro, pro duzido pela Internacional Comunista, houvera 
uma falcatrua. Infelizmen te, na poca, o capito Mouro, se 
no participara conscientemente da fraude, baixara a crista 
quando viu o destino dado  sua obra. Naquela madrugada, 
combatia mais uma vez com o fantasma do Plano Cohen:
S numa nao de boais como a nossa uma besteira deste jaez 
pode pro gredir No h registro de que Mouro tenha curvado 
a espinha, mas pedidos fazia. Em novembro de 1960, quando 
presidia a Comisso Tc nica de Rdio, um cargo de natureza 
civil, escrevera ao ministro da Guer ra, pedindo que no 
fosse retirado do quadro de oficiais, porque nesse caso 
perderia, alm de outras vantagens, automvel, gasolina, 
ajudan te-de-ordens, e a quantia de 8750 cruzeiros [ 
equivalente a 45 dla resl. Sua opinio sobre Jango j fora 
melhor: em setembro de 1961 lhe
80 Olympio Mouro Filho, Memrias, pp. 369 e 371.
81 Idem,p.371.
82 Carta do general Olympio Mouro Filho ao ministro Odylio 
Denys, de 9 de novembro de 1960.
APGCS/HF. A converso para o dlar baseia-se na tabela 
publicada por Clarice Pechman, em O dlar
paralelo no Brasil, pp. 128-39. Todas as converses feitas 
neste livro se basearo na tabela de co tao do dlar no 
mercado paralelo.
68
A DITADURA ENVERGONHADA
telegrafara, cumprimentando-o pela sua posse na cadeira de 
onde que ria agora ape-lo.
s cinco horas, Mouro anotou: Eu estava de pijama e roupo 
de seda vermelho. Posso dizer com orgulho de originalidade: 
creio ter sido o nico homem no mundo (pelo menos no Brasil) 
que desencadeou uma revoluo de pijama Em seguida, disparou 
sua metralhadora. Tinha nmeros por munio e o telefone por 
artefato.
O primeiro tiro foi para 25-8432 e acordou o deputado Armando 
Fal co. Dono de um cartrio de registro de imveis, 
conspirava em tempo
integral.
O senhor est articulado com algum? perguntou Falco, que 
ali mentou o tiroteio atingindo o aparelho 47-1428 na mesa-
de-cabeceira do
general Casteilo Branco.
Surpreendido pela notcia, o chefe do Estado-Maior agiu em 
duas
direes. Numa, empurrou a insurreio para a frente, noutra, 
procurou
paralis-la.
No ataque, acordou o irmo do comandante do ii Exrcito e 
infor mou-o de que Mouro estava pondo a tropa na rua. Pediu-
lhe que avi sasse o general Amaury Kruel, pois, a seu ver, 
sem ele tudo no passaria de uma aventura Castello e Kruel 
haviam sido amigos na juventude, mas um desentendimento, 
ocorrido durante os combates da FEB, na It lia, envenenara a 
camaradagem para o resto de suas vidas. Dias antes tinham 
conversado e acertaram que agiriam juntos. O recado chegou
83 Dirio de Heitor Ferreira, 8 de abril de 1965: E...] 
encontrei um telegrama do general Mouro
cumprimentando Jango pela posse... em 1961! Heitor Ferreira 
remeteu o documento ao arqui vo do SNI. APGCS/HF.
84 Olympio Mouro Filho, Memrias, p. 372.
85 Idern, p. 373, e Armando Falco, Tudo a declarar, p. 245.
86 Hlio Silva, 1964 Golpe ou contragolpe?, p. 348.
87 Em dezembro de 1944, durante o terceiro ataque da FES a 
Monte Castelo, o ento tenente Er nani Ferreira Lopes, da 7S 
Companhia do 32 Batalho do 1 1 RI, viu o coronel Amaury 
Kruel ten tando agredir Castello na barraca do posto de 
comando. Kruel foi afastado pelo capito Olegrio
Memria. Horas antes, Castello ordenara que a companhia fosse 
lanada na direo do local onde
uma tropa brasileira estava imobilizada pela artilharia 
alem. No entendimento de Kruel, essa or dem significava uma 
intil superposio de foras. General Ernani Ferreira Lopes, 
agosto de 2001.
88 General Antonio Carlos Muricy, agosto de 1988.
O EXRCITO DORMIU JANGUISTA 69
ao quartel-general do I Exrcito, em So Paulo, mas quela 
hora Kruel era o amigo de Jango, que acabara de nomear seu 
filho agente do Lide Brasileiro em Nova Orleans e que lhe 
conseguira financiamentos pbli cos para a compra de uma 
fazenda de caf no Esprito Santo. Menos de duas horas 
depois, ao receber novamente a notcia do levante, Kruel deu 
um passa-fora no emissrio: Isso no passa de uma quartelada 
do Sr. Mou ro, no entrarei nela
O movimento seguinte de Castelio foi na direo oposta. 
Acabara de saber que Mouro chamara a Juiz de Fora o general 
Antonio Carlos Muricy, um conspirador tonitruante e ardoroso 
que o dispositivo em pilhara na subdiretoria da reserva.
Castello tocou para o general Guedes:
 O que est havendo por a em Minas? O Muricy me comunicou 
que foi chamado pelo Mouro, e eu lhe disse que fosse para 
prevenir qualquer bo bagem que aquele pretendesse fazer.
 No vai haver. Houve. Desde as seis horas da manh as 
nossas tro pas se deslocam em vrias direes. Deflagramos a 
revoluo.
Mas isso  uma precipitao; vocs esto sendo precipitados; 
vo
prejudicar tudo.
 Falei no tempo passado, partimos, mas, se houver alguma 
coi sa em cogitao a no Rio, ainda haver tempo de sobra 
para uma toma da de posio. Hoje, nos deteremos na divisa 
com o estado do Rio, no cor te Paraba-Paraibuna, na 
expectativa do comportamento da tropa do i Exrcito.
 Cuidado! Cuidado! Veja o que diz.
89 Para a nomeao do filho de Kruel, conversa de Goulart com 
Marco Antnio Coelho, maro
de 1964. Marco Antnio Coelho, agosto de 1988. Para os 
financiamentos, Ernesto Geisel, agosto
de 1988, e general Rubens Resstel, setembro de 1988.
90 Jayme Porteila de Meilo, A Revoluo e o governo Costa e 
Silva, p. 128.
91 Para esse chamado, feito pelo promotor Antonio Neder, que 
disse falar em nome de Mouro,
depoimento do general Muricy ao CPDOC, vol. 3, fita 38, p. 
12. Mouro Filho, em suas Memrias,
p. 412, desmente que tenha mandado chamar Muricy.
70        A DITADURA ENVERGONHADA
 Silncio era at o desencadeamento da operao. Agora nada 
mais temos a temer.
 Bem, vou sair e avisar o pessoal  encerrou Castello.
Nova ligao do chefe do Estado-Maior, dessa vez para o 
nmero 27-4759, ao lado do qual dormia o banqueiro Jos Lus 
de Magalhes Lins, sobrinho do governador de Minas Gerais e 
principal executivo de seu ban co, o Nacional. Banqueiro de 
cineastas brilhantes sem crdito e de jor nalistas de crdito 
com pouco saldo, Z Lus era um homem sem som bra que nas 
ltimas semanas vagara pelas guaritas da conspirao. 
Castello pediu-lhe que falasse com o tio para verificar se 
ainda era possvel retar dar Mouro. Menos de uma hora depois 
ele estava na casa do general, dizendo-lhe que Magalhes j 
no via como recuar. Por volta das dez horas Castelio deixou 
Ipanema e foi para o trabalho, no sexto andar do Ministrio 
da Guerra. De l, ainda tentaria segurar o levante duas 
outras vezes. Numa disse ao general Guedes que no foi 
possvel fazer nenhu ma articulao; a soluo  vocs 
voltarem, porque, se no, vo ser mas sacrados Noutra, falou 
direto com Magalhes Pinto: Se no voltarem agora, voltaro 
derrotados
A notcia do levante espalhava-se aos cacos. Havia algo em 
Minas, mas no se sabia precisamente o qu. A insurreio 
estava envolta numa nuvem que se parecia ora com uma 
quartelada sem futuro ora com uma tempestade de boatos. O 
general Assis Brasil sabia que Mouro e Guedes maquinavam 
contra o governo, mas desdenhava-os: So dois velhinhos 
gags! No so de nada Acreditava no seu dispositivo e 
acionou-o.
O aeroporto de Braslia foi fechado pouco depois das nove 
horas. O deputado oposicionista Luiz Viana Filho acabara de 
desembarcar do l timo vo que sara do Rio. Ouviu a notcia 
do fechamento das pistas e
92 Carlos Luiz Guedes, Tinha que ser Minas, p. 215.
93 Jos Lus de Magalhes Lins, agosto de 1988.
94 Pedro Gomes, Minas  Do dilogo ao front, em Alberto 
Dines e Outros, Os idos de maro
e a queda em abril, p. 106, e Jos Lus de Magalhes Lins, 
agosto de 1988.
95 Carlos Luiz Guedes, Tinha que ser Minas, p. 215.
96 Joo Pinheiro Neto, Jango, p. 78.
O EXRCITO DORMIU JANGUISTA 71
assustou-se: Camos numa ratoeira, estamos perdidos! Ao 
meio-dia a reao do dispositivo era visvel e severa. Na 
avenida Brasil, principal sada do Rio e caminho para Juiz de 
Fora, marchavam duas colunas de caminhes. Numa iam 25 carros 
cheios de soldados, rebocando canhes de 120 mm, pertencentes 
ao Grupo de Obuses. Noutra, em 22 carros, ia o Regimento 
Sampaio, o melhor contingente de infantaria da Vila. De Pe 
trpolis, a meio caminho entre o Rio e Mouro, partira o 1 
Batalho de Caadores. Era tropa para dar e vender. No 
palcio Laranjeiras havia tamanha calma que o ministro 
Abelardo Jurema, inquieto com o que se dizia de Minas, 
surpreendeu-se.
No incio da tarde nenhum soldado de Mouro tinha sado do lu 
gar, mas ele j trocara o roupo de seda pelo uniforme de 
campanha, um pouco folgado na sua pequena e magra figura. 
Tanto ele como Guedes, alcanados por telefonemas de 
jornalistas e oficiais ligados ao governo, desmentiam que 
estivessem rebelados. Mouro estava inspecionando o 10 
Regimento de Infantaria  pea-chave em seu esquema  quan do 
teve a primeira contrariedade. O comandante, coronel Clovis 
Calvo, acabara de saber que, ao contrrio do que lhe haviam 
dito de manh, o ministro da Guerra no apoiava o levante. 
Ele, portanto, estava fora. Ta manha divergncia, com um 
general querendo derrubar o governo e um coronel comandante 
de regimenio mostrando-se leal ao ministro, pode ria parecer 
um srio impasse militar, mas os dois resolveram o problema 
com a ajuda da legislao trabalhista. Calvo pediu frias, e 
Mouro as deu, cumprindo at mesmo a praxe burocrtica de 
mandar lavr-las no boletim oficial do governo que pretendia 
depor.
Sem mais a fazer, Calvo foi para casa. Dois outros 
coronis re cusaram-se a ficar no levante e combinaram com o 
general que perma 97 Antonio Carlos Magalhes, fevereiro de 
1988.
98 Pedro Gomes, Minas  Do dilogo ao front em Alberto 
Dines e outros, Os idos de maro
e a queda em abril, p. 120.
99 Abelardo Jurema, Sexta-feira, 13, p. 182.
100 Olympio Mouro Filho, Memrias, pp. 3 10-1. Carlos Luiz 
Guedes, Tinha que ser Minas, p.
217. Correio da Manh, 1 de abril de 1964, em Jeferson de 
Andrade e Joel Silveira, Um jornal as sassinado, p. 5.
101 Olympio Mouro Filho, Memrias, p. 375.
72
A DITADURA ENVERGONHADA
neceriam em suas casas, no intervindo nem atrapalhando 
Fracassara tambm a tentativa de levantar a Escola de 
Sargentos, em Trs Coraes. s treze horas o general teve 
fome e foi para casa almoar. Depois, man tendo seus hbitos, 
dormiu. Julgava-se  frente de uma revoluo, mas 
continuava a 150 quilmetros do Rio de Janeiro. Tinham-se 
passado oito horas desde o momento em que se considerara 
insurreto. Salvo os dis paros telefnicos e a movimentao de 
um pequeno esquadro de reco nhecimento que avanara algumas 
dezenas de quilmetros, sua tropa con tinuava onde sempre 
estivera: em Juiz de Fora.
Alguma fama Mouro j conseguira. Em Washington, o Departamen 
to de Estado fazia chegar  Casa Branca um perfil do General 
Olimpia Mouro Filho O texto, nada galante, classificava-o 
como uma espcie de oportunista e opinitico, interessado 
em economia a ponto de se fan tasiar de economista O 
documento conclua, cruel e pessimista: Ele no  bem-visto 
no Exrcito e provavelmente no liderar uma conspirao 
contra o governo, em parte porque no tem muitos seguidores. 
 visto como uma pessoa que fala mais do que pode fazer s 
treze horas, sur preendido pela rebelio, Gordon respondeu  
questo colocada por Dean Rusk na noite anterior: Meu 
julgamento  de que esta pode no ser a l tima oportunidade, 
mas pode ser a ltima boa oportunidade para apoiar uma ao 
contra o grupo de Goulart
A essa hora o general Guedes j conclura a gesto mais 
sigilosa de seu dia. Segundo relatou nas suas memrias, 
entrara na garagem de um prdio da rua Goitacazes e subira 
pelo elevador de servio at um apar tamento do terceiro 
andar. Era a casa de um sobrinho. L encontrou o
102 Jayme Portelia de Melio, A Revoluo e o governo Costa e 
Silva, p. 121.
103 Olympio Mouro Filho, Memrias, p. 375. Carlos Luiz 
Guedes, Tinha que ser Minas, p. 217. Mouro Filho no foi o 
primeiro general a tirar a sesta no dia de seu golpe. O 
general Goes Mon teiro dormiu depois do almoo no dia 29 de 
outubro de 1945, quando derrubou Getulio Vargas. Em 
Depoimento de Gois Monteiro, publicado em Paulo Bonavides e 
Roberto Amaral, Textos polticos da histria do Brasil, vol. 
5, p. 487. No stio do Centro Brasileiro de Estudos Latino-
Ame ricanos: 
<http://www.cebela.org.br/txtpolit/socio/vol5/E_216_O1.html>.
104 Documento do Departamento de Estado ao secretrio Dean 
Rusk, de 31 de maro de 1964. ELBI. O nome do general, como 
se v, foi grafado erradamente.
105 Telegrama de Lincoln Gordon a Dean Rusk, das treze horas 
(hora de Washington) de 31 de maro de 1964, em Lincoin 
Gordon, Brazils second chance, pp. 70-1.
O EXRCITO DORMIU JANGUISTA 73
vice-cnsul americano, Lawrence Laser. Conheciam-se, e Guedes 
via nele um funcionrio em busca de informaes Contou-lhe 
que a rebelio precisava de apoio. Para j, blindados, 
armamentos leves e pesados, mu nies, combustvel [ 
aparelhagem de comunicaes Para mais tarde, equipamento 
necessrio para mobilizar 50 mil homens.
Mouro surpreendera os dois lados. Com isso, beneficiara o 
dispo sitivo, que parecia engolir a quartelada. Kruel 
estava calado. O i Exrci to, insensvel, obediente. Pior, 
Casteilo Branco estaria preso ou, pelo me nos, em vias de s-
lo. 107
Durante toda a manh, o principal foco de conspiradores da 
antiga capital fora a Escola de Comando e Estado-Maior do 
Exrcito. Situada na praia Vermelha, a E5CEME era to 
prestigiosa quanto militarmente in til. Tinha algo como 
quatrocentos alunos e instrutores, quase todos ma jores e 
tenentes-coronis indignados com o governo e dispostos a 
lutar contra ele, mas todo o esforo armamentista a que se 
haviam dedicado nos ltimos dias juntara um arsenal de apenas 
28 pistolas calibre 45, trinta fuzis e trs 
submetralhadoras. A notcia do levante mineiro agi tou a 
escola, provocou a suspenso das aulas e estimulou os 
oficiais a pro curar seus postos de combate.
No havia combates  vista, at que chegou  escola um 
tenente-co ronel pedindo que se formasse uma guarda para 
proteger Castelio no Es tado-Maior. Foram destacados 
sessenta oficiais. Essa viria a ser a maior movimentao de 
tropas revolucionrias no Rio de Janeiro durante o dia
31. Eles foram para o quartel-general a fim de impedir a 
priso de Cas tello e, se possvel, dominar o prdio.
106 Carlos Luiz Guedes, Tinha que ser Minas, pp. 223-4. 
Guedes data esse encontro na manh do
dia 31. O telegrama da CIA onde est narrado o pedido de 
combustvel feito por um comandan te integrado aos 
conspiradores de Minas Gerais  de 30 de maro.
107 Em seu dirio, o general Ladrio Pereira Telles, 
comandante da 1 Regio Militar na manh
do dia 31, e nomeado para o comando da 6 Diviso de 
Infantaria s quinze horas, registrou que
Goulart lhe pediu que comunicasse ao comandante do 1 Exrcito 
seu desejo de ver o general Cas tello preso e levado para o 
forte da Lage. Em Hlio Silva, O poder militar, p. 398.
108 Hernani dAguiar, A Revoluo por dentro, p. 144.
109 Idem.
110 Coronel Luiz Helvecio da Silveira Leite, maio de 1985.
74        A DITADURA ENVERGONHADA
Durante algumas horas da jornada de 31 de maro de 1964,0 
gran de edificio do Ministrio da Guerra abrigou um cenrio 
de faroeste. Os expedicionrios instalaram-se no sexto andar, 
em torno de Castelio. Des ligaram os elevadores principais e 
bloquearam as passagens de quatro pa vimentos. A revolta 
controlava os corredores do quinto ao oitavo andar, enquanto 
o governo funcionava do trreo ao quarto e do nono (onde es 
tava o gabinete do ministro) ao dcimo. Uma situao desse 
tipo no po deria durar. Por volta das 15h30 o grande ptio 
interno do QG foi ocupa do por carros de choque da Polcia do 
Exrcito. Entraram com as sirenes ligadas e despejaram a 
tropa, que ocupou os andares de baixo. Conta o coronel Luiz 
Helvecio da Silveira Leite, que viera da ESCEME:
Perguntamos: E se a PE tentar subir?.
Resposta: Atirem
Engatilhei minha pistola, olhando os homens l embaixo. [ 1 
Havia um verdadeiro paliteiro de carros-de-combate apontados 
para o Ministrio da Guerra. Fiz pequena orao, entregando 
minha alma a Deus, estava pronto para o que desse e viesse. 
Que afastasse de mim qualquer sentimento de co vardia, de 
medo. [ 1 Diziam que iam nos desentocar com bazucas,  noite.
De repente, veio o coronel Tulio Chagas Nogueira e nos disse 
que po deramos nos retirar. Que o general Castelio Branco, 
livre, acabava de dei xar o QG e se dirigia  praia Vermelha, 
para onde devamos ir.
Muitos ficaram frustrados e um deles comentou comigo: Seu 
Hei vecio, que vergonha essas revoluezinhas que no do em 
nada..
Outro disse: Revoluozinha de expediente
Castello deixara o prdio do ministrio s dezesseis horas, 
em com panhia de Geisel. Caram na clandestinidade e 
trancaram-se num apa relho, na avenida Atlntica. O chefe do 
Estado-Maior telefonou ao co 111 Coronel Luiz Helvecio da 
Silveira Leite, maio de 1985.
112 Ernesto Geisel, novembro de 1994.
113 Carta de 28 de abril de 1964, de Castello Branco a Carlos 
Bicalho Goulart, proprietrio do
apartamento 101 da avenida Atlntica, 3916. APGCS/HF.
O EXRCITO DORMIU JANGUISTA 75
mandante da ESCEME, seu amigo Jurandyr de Bizarria Mamede, 
ordenan do-lhe que reiniciasse as aulas interrompidas pela 
manh, quando am bos tiveram a impresso de que seria 
possvel amparar Mouro. O gene ral Mamede, veterano 
conspirador, prendera oito oficiais-alunos e alguns sargentos 
que se haviam recusado a apoiar a revolta. Diante da nova si 
tuao, mandou libert-los. Quando os expedicionrios 
voltaram  praia Vermelha e contaram o que acontecera, o 
tenente-coronel Newton Araujo de Oliveira e Cruz no 
acreditou no que ouvia. Zero a zero e bo la ao centro. 
Quando eu vi isso, cheguei a chorar, porque revoluo que 
comea e acaba com todo mundo voltando para casa no d em 
nada. No ia haver revoluo nenhuma
S o dispositivo avanava. No Rio o general Lus Tavares da 
Cunha Melio, designado chefe da operao militar que iria 
buscar Mouro Fi lho nas montanhas, comunicou ao seu estado-
maior: Bem, meus senho res, as ordens esto dadas, a 
situao perfeitamente esclarecida, vamos to car para a 
frente. Preparem rapidamente suas unidades porque amanh 
iremos almoar em Juiz de Fora. Temos conversado
No fim da tarde a vanguarda da tropa mineira descera 25 
quilme tros em direo ao Rio, deslocando-se pela estrada 
Unio e Indstria, e parara na localidade de Estao 
Paraibuna. Chefiava-a o general Anto nio Carlos Muricy. 
Apanhado de surpresa, perdera a manh ao volante de sua 
camionete Willys, serra acima. Depois de inspecionar as 
tropas de Juiz de Fora, Muricy percebeu que mais de metade de 
seus homens eram recrutas mal instrudos. Pior, tinha munio 
para poucas horas. Mou ro aborrecera-se com o imobilismo de 
Guedes  sua retaguarda, em Belo Horizonte: Resolvi me 
abstrair desse idiota Atirara um manifesto con tra Jango: 
No merece ser havido como guardio da Lei Magna e, por 
tanto, h de ser afastado do poder de que abusa.
14 Jayme Porteila de Melio, A Revoluo e o governo Costa e 
Silva, p. 132.
15 General Newton Cruz, setembro de 1987.
116 Carlos Luiz Guedes, Tinha que ser Minas, pp. 206 e segs.
117 General Antonio Carlos Muricy, agosto de 1988.
118 Olympio Mouro Filho, Memrias, pp. 377 e 311.
76        A DITADURA ENVERGONHADA
As foras legalistas tambm atiravam. Um avio T-6 da Fora 
Area bombardeara Juiz de Fora com panfletos. Eles traziam 
duas notas oficiais. Uma, da Presidncia da Repblica, 
confiava no esprito legalista das For as Armadas A outra 
vinha do ministro da Guerra, Jair Dantas Ribeiro, que estava 
fazia uma semana internado no hospital dos Servidores do Es 
tado, onde se operara de um cncer na prstata. Jair garantia 
a lealdade do dispositivo Exonerava os dois generais 
rebeldes e avisava: No hesitarei em sacrificar minha 
prpria sade para cumprir este dever que tenho para com 
minha ptria e para com o regime democrtico que defendo. 
Have remos de cumprir nossa misso haja o que houver, custe o 
que custar.
As coisas pareciam cada vez mais difceis. Os conspiradores 
recuavam. O general Costa e Silva, por exemplo, decidira 
abandonar seu gabinete no quartel-general argumentando que 
estamos nos arriscando demais e po demos ser presos. Kruel 
continuava parado. O nico general a entrar no gabinete de 
Jango com algum tipo de proposta foi o chefe do Estado Maior 
das Foras Armadas, Pery Constant Bevilaqua, que meses antes 
cha mara as bases sindicais do governo de serpentrios de 
peonhentos ini migos da democracia Pery entregou ao 
presidente um documento em que denunciava o risco da 
ignomnia de uma ditadura comuno-sindi cal Dizia que ainda 
era possvel restabelecer a necessria confiana das Foras 
Armadas o presidente, desde que ele, com seu agudo senso po 
ltico, tomasse algumas atitudes afirmativas. De concreto, 
pedia uma poltica de combate s greves. Queria tambm uma 
derrubada ministe rial e acreditava que, com isso, seria 
possvel recompor a situao.
Enquanto as lascas do levante choviam em forma de boatos 
sobre Braslia, alguns parlamentares que namoravam o golpe do 
dispositivo viam nas notcias um pretexto para lances mais 
audaciosos. Francisco Ju ho, chefe das Ligas Camponesas, que 
organizavam trabalhadores rurais
119 Carlos Luiz Guedes, Tinha que ser Minas, pp. 218-9.
120 Nelson Dimas Filho, Costa e Silva, p. 67.
121 Nota de Instruo n 7, de 15 de setembro de 1963, do 
general Pery Constant Bevilaqua, co mandante do o Exrcito. 
Citado em Posio do EMFA face aos Recentes Acontecimentos 
Ocorridos
no Pas, de Pery Bevilaqua, transcrito em Bilac Pinto, Guerra 
revolucionria, p. 211.
122 Depoimento do marechal Pery Bevilaqua a Hlio Silva, 
publicado em Histria, revista men sal, n 27, s. d., So 
Paulo, Editora Trs, pp. 58-72.
O EXRCITO DORMIU JANGUISTA 77
no interior do Nordeste, anunciava que a vontade do povo 
prevalecer, com Congresso ou sem Congresso, porque a esta 
altura dos aconteci mentos  intil querer resistir. Julio 
supunha iminente a rebelio das massas inconformadas do 
Brasil. O deputado Guerreiro Ramos, so cilogo por diploma 
e linguagem, discursara no incio da sesso da C mara, 
fazendo um paralelo explcito entre Jango de 1964 e Getulio 
Var gas de 37, s vsperas do golpe que jogou o pas nos oito 
anos de ditadura do Estado Novo: Talvez a Histria leve o 
Sr. Presidente Joo Goulart, nes te ponto, a repetir Vargas, 
tomando os burgueses e os capitalistas deste pas, em sua 
maioria cegos, pela gola do palet, e obrigando-os a fazer a 
Revoluo burguesa nacional, que eles no tm capacidade de 
fazer.
No Senado, o lder do governo, Arthur Virglio, ia no mesmo 
tom:
Ns vamos pagar para ver. [ Esses homens que h muitos anos 
pen sam no golpe, preparam o golpe, tramam o golpe, desta vez 
vo demons trar se tm coragem de fato para a luta, porque 
ns vamos pagar para ver! Vamos convocar aqui todos os 
impatriotas que esto tramando contra esta nao!.
No Rio de Janeiro, Luiz Carlos Prestes convocara uma reunio 
dos dirigentes do comit central do Partido Comunista que 
estavam no Rio e relatara-lhes os contatos que fizera durante 
a manh. Parecia tranqi lo. Em fevereiro mostrara a fora de 
Jango e o prestgio do PCB ao pri meiro-ministro sovitico 
Nikita Kruchev, com quem almoara no Krem lin. Kruchev 
admirou-se quando ouviu que o partido tinha dois generais no 
Alto-Comando do Exrcito. Pouco depois, numa reunio no Depar 
tamento de Relaes Internacionais do pcus, Prestes 
informara: Se a rea o levantar a cabea, ns a 
cortaremos. Na ltima semana, j no Bra sil, usara duas 
vezes a mesma expresso. Repetiu a profecia ao comit 
central. Aos 66 anos, o veterano chefe do PCB estava feliz. 
Metido em le 123 Francisco Julio, discurso de 31 de maro de 
1964, em Grandes momentos do Parlamento brasileiro,
vol. 2, pp. 289-90.
124 Dirio do Congresso Nacional, 1 de abril de 1964, pp. 
1934-6.
125 Idem, p. 666.
126 Maria Prestes, Meu companheiro 40 anos ao lado de Luiz 
Carlos Prestes, pp. 22-3.
127 Jacob Gorender, Combate nas trevas, p. 70. Prestes 
repetiu a frase rio dia 27 de maro na ABI e
no dia 29 no estdio do Pacaembu.


78        A DITADURA ENVERGONHADA
vantes desde 1924, sempre acabara fugido, exilado ou preso. 
Era a pri meira vez que jogava com a camisa do governo. 
Encontrara-se secreta- mente com Jango no incio de janeiro e 
defendia sua reeleio, mano bra impossvel sem que se 
golpeasse a Constituio. Dois generais no Alto-Comando, 
nunca tivera. Um dos participantes da reunio, Orestes 
Timbava, arriscou uma pergunta: Camarada Prestes, e se os 
generais com quem voc conversou estiverem enganados? 
Prestes no deu im portncia a Timbava e foi adiante com os 
itens de sua agenda.
Em dezenas de unidades militares, oficiais e sargentos leais 
ao gover no dominavam a situao. Os conspiradores no 
conseguiram furar a cou raa do i Exrcito. Os comandantes 
dos Drages da Independncia, do Re gimento de Reconhecimento 
Mecanizado e do 2 Batalho de Infantaria Blindada refugaram 
convites para aderir ao levante. O comandante do Instituto 
Militar de Engenharia, estabelecimento vizinho da E5CEME, 
recu sou-se at mesmo a ceder meia dzia de rdios aos 
insurretos. Na baa de Guanabara uma tentativa de levar 
alguns barcos para fora da barra fracas sou. Na ilha do 
Mocangu, onde estavam atracados dois submarinos, o al 
mirante Sylvio Heck, ex-ministro da Marinha, depois de 
desembarcar de uma lancha disfarado de pescador, descobriu 
que perdera a viagem, pois a um deles faltavam peas e ao 
outro, tripulantes. No palcio Guanaba ra, o governador 
Carlos Lacerda, barricado em caminhes de lixo, soube que 
dispunha de apenas seis minutos de tiro. Tinha razo o 
general Cas tello Branco, que o chamara ao telefone no meio 
da tarde sugerindo que abandonasse o palcio, pois o 
Guanabara  indefensve1 Como regis traria o general Guedes: 
O Rio era impermevel Em So Paulo, no pa lcio dos Campos 
Elseos, o governador Adhemar de Barros desligara o te lefone 
quando Lacerda lhe perguntou se apoiava o levante. Na 2 
Diviso de Infantaria, a principal unidade militar do estado, 
o general Aluizio de
128 Maria Prestes, Meu companheiro 40 anos ao lado de Luiz 
Carlos Prestes, p. 24. Novos Rumos,
suplemento especial, 24 a 30 de janeiro de 1964.
129 Salomo Malina, agosto de 1988.
130 Jayme Portelia de Meilo, A Revoluo e o governo Costa e 
Silva, pp. 131-2.
131 Araken Tvora, Brasil, 12 de abril, pp. 127-8.
132 Carlos Lacerda, Depoimento, pp. 284-5.
133 Carlos Luiz Guedes, Tinha que ser Minas, p. 241.
O EXRCITO DORMIU JANGUISTA 79
Miranda Mendes dizia-se disposto a prender Kruel caso ele 
tentasse ade rir. No Rio Grande do Sub comandante da 6 
Diviso de Infantaria, Adal berto Pereira dos Santos, fugira 
de Porto Alegre para resistir ao dispositi vo a trezentos 
quilmetros de distncia, em Cruz Alta.
Em Juiz de Fora, Mouro dera-se conta de que o 12 Regimento 
de Infantaria, prometido por Guedes havia dias, no aparecia. 
s 22 horas, quando chegou, estava sem armas automticas, sem 
comida e sem dinhei ro. A embaixada americana advertia 
Washington da to falada movi mentao de Mouro:  
importante observar que embora tenhamos ou vido essa 
informao de diversas fontes, no estamos absolutamente 
seguros de que o movimento j tenha comeado Mesmo quando 
Kruel divulgou uma nota dizendo que a situao das tropas no 
estado era de expectativa, a embaixada acautelava: O 
significado que isso possa ter no alinhamento poltico de 
Kruel  obscuro. Certo mesmo, o telex do Departamento de 
Estado registrava:
-2. ?)9:(-63 9! -4.36 !94:3 04953:58,& 04838$3,5 90-)-:3 8 
,92:9. 7938 9! 4.6 09)8:3 -,$ .-48,3 285#!8;3 .-41.
(A salada significava: A proteo do palcio do presidente 
est sendo fei ta por um bloqueio da Polcia do Exrcito e de 
fuzileiros com cinco tan ques M-41 e um scout car.)
s 19h05 o coronel Walters alarmara-se: A rebelio parece 
estar per dendo momentum por falta de apoio, particularmente 
de So Paulo e ou tros estados. As foras democrticas esto 
em srio perigo O chefe da
134 Para o telefonema de Lacerda, John W. E Dulies, Carlos 
Lacerda A vida de um lutador, vol.
2: 1960-1977, p. 225. Para Miranda Mendes, depoimento do 
general Euryale de Jesus Zerbini, em
Hlio Silva, 1964 Golpe ou contragolpe?, p. 390.
135 Para Adalberto Pereira dos Santos, sua narrativa, de 
quatro folhas, intitulada Acontecimentos
Poltico-Militares de Maro e Abril de 1964, fi. 3. APGCS/HF.
136 Olympio Mouro Filho, Memrias, p. 315.
137 Telegrama da embaixada dos Estados Unidos a Washington, 
de 31 de maro de 1964. BLBJ.
138 Telegrama da embaixada dos Estados Unidos a Washington, 
de 31 de maro de 1964. ELBI.
139 Telegrama dos adidos militares a Washington, de 31 de 
maro de 1964. BLBJ.
80
A DITADURA ENVERGONHADA
representao americana em Brasilia acreditava que o 
movimento fracas sara. No palcio Guanabara, um assessor de 
Lacerda dizia ao presidente da UDN paulista Roberto de Abreu 
Sodr: , no adianta. O Kruel no vem mesmo. Acho que ns 
entramos pelo cano. Irritado, Sodr retirou-se da sala: No 
agento esse pessimismo de vocs. Assim no  possvel.
Nas sesses noturnas da Cmara e do Senado, a oposio a 
Jango co meava a exercitar a retrica do sacrifcio. O 
dispositivo ocupara mili tarmente as sadas da cidade e 
controlava as comunicaes. A fita com a gravao de um 
pronunciamento do presidente do Senado, Auro Mou ra Andrade, 
fora confiscada e no conseguira ir ao ar. Da tribuna, o se 
nador Aloysio de Carvalho denunciava: Ningum tem dvida, 
pelos atos praticados em Braslia, de que o presidente da 
Repblica no pre tende outra coisa seno se fazer ditador no 
pas, utilizando as foras ar madas no seu objetivo 
disfarado, a pretexto de garantir a ordem e o re gime. 
Depois do fato consumado, da luta, se transformar em 
ditador.
O plenrio da Cmara se transformara num pandemnio. A muito 
custo os parlamentares mais experientes conseguiam impedir 
que a ses so degenerasse em pancadaria, deixando  seo de 
taquigrafia o expur go dos palavres que pontilhavam os 
apartes. O deputado Amaral Netto, dentro do sentimento 
catastrofista dos conspiradores, proclamava: Fi quemos neste 
mausolu, morramos aqui dentro, mas que todos morram com 
dignidade, que ningum se curve a este homem que no mais pre 
side o pas legalmente. 143
A oposio alternava perodos de desnimo e espasmos de 
euforia com a chegada ao plenrio de notcias segundo as 
quais Kruel, o grande mudo do dia, aderira  rebelio. 
Passava pouco da meia-noite, e, diante de um reaparecimento 
do boato, o lder do PTB, deputado Doutel de An drade, 
ironizava: Essa notcia no tem amparo na verdade dos fatos. 
Na realidade, ela j foi difundida esta noite cerca de seis 
vezes. Por seis vezes
140 Herbert Okun, outubro de 1997
141 Claudio Meio e Souza, O vizinho do presidente em 
Alberto Dines e outros, Os idos de maro
e a queda em abril pp. 179-80.
142 Dirio do Congresso Nacional, 12 de abril de 1964, Seo 
B, p. 5.
143 Idem, Suplemento, p. 7.
O EXRCITO DORMIU JANGUISTA 8i
testada e por seis vezes foi desmentida e quero acreditar que 
antes que a
primeira estrela surja, ser desmentida mais vinte e mais cem 
vezes.
Doutel iria mais longe. Por seu intermdio, o brao civil do 
disposi tivo exercitava a retrica do triunfo: Vossas 
excelncias tentaram passar o primeiro de abril com uma 
antecipao de 24 horas. [ Merc de Deus, est salva a 
democracia neste pas, est restaurado o imprio da lei. 
Merc de Deus este festival de insurreio est findo, est 
agonizante, est mori bundo, est desesperado. Dele nada mais 
restar, como disse, seno a frus trao, seno o sentimento 
de no ver os intentos golpistas consumados.
O general Cordeiro de Farias, que desde a manh voara do Rio 
para So Paulo e de l para Minas Gerais, fechava seu dia de 
conspirador com uma ponta de amargura. Vinte e seis anos 
depois ele recordaria: A ver dade   triste dizer   que o 
Exrcito dormiu janguista no dia 31.... 146
144 Dirio do Congresso Nacional, Suplemento, p. 9. Para a 
hora, discurso de.Doutel de Andrade
de 31 de maro de 1964, em Grandes momentos do Parlamento 
brasileiro, vol. 2, pp. 304-7.
145 Dirio do Congresso Nacional, 2 de abril de 1964, p. 
1974.
146 Aspsia Camargo e Waider de Ges, Meio sculo de combate 
 Dilogo com Cordeiro de Farias,
p. 566.
O Exrcito acordou revolucionrio
... E acordou revolucionrio no dia 1 prosseguiria o general 
Cor deiro.
Jango pareceu estar a um passo da vitria. S quando chegou 
perto
dela,  que se pde perceber a fora da teia que o levante 
tirara da semi-
clandestinidade.
Para que o presidente vencesse nos termos em que seu 
dispositi vo colocara a questo, era indispensvel que se 
atirasse num ltimo lan ce de radicalismo, lmpido, 
coordenado e violento. Contra o levante mi neiro, a bandeira 
da legalidade era curta. Para prevalecer no quadro que 
radicalizara, Jango precisaria golpear o Congresso, intervir 
nos gover nos de Minas Gerais, So Paulo e Guanabara, 
expurgar uma parte da ofi cialidade das Foras Armadas, 
censurar a imprensa, amparar-se no dis positivo, na 
sargentada e na mquina sindical filocomunista. Tratava-se de 
buscar tamanha mudana no poder que, em ltima anlise, 
durante o dia 31 de maro tanto o governo (pela esquerda) 
como os insurretos (pela direita) precisavam atropelar as 
instituies republicanas. Discur sando na Cmara, o vice-
lder Almino Affonso vocalizava a radicaliza o pela 
esquerda: Os trabalhadores ho de parar porto por porto, na 
vio por navio, fbrica por fbrica, e as greves vo tambm 
parar o campo. [ Querem a guerra civil, pois teremos a 
revoluo social. Querem san 1 Aspsia Camargo e Waider de 
Ges, Meio sculo de combate  Dilogo com Cordeiro de 
Farias,
p. 566.
84        A DITADURA ENVERGONHADA
gue, pois ns aceitaremos o sangue. [ Uma guerra civil no se 
faz com marechais, almirantes e generais. Faz-se com a tropa, 
e essa tropa  po vo e  o povo que compe todos os quartis. 
So os sargentos, os cabos, os marinheiros
Esse passo, de natureza revolucionria, Jango no deu. Nessa 
vaci lao, misturaram-se dois ingredientes. Um, de natureza 
histrica, reu nia o presidente, seu dispositivo e todas as 
foras polticas que haviam mandado brasa nas ltimas 
semanas. Vigorosos na retrica, murcha ram como um balo 
furado. O segundo ingrediente estava na prpria per 
sonalidade de Jango. Aprende-se que condicionantes de classe 
interferem na conduta dos homens pblicos, podendo lev-los 
da temeridade  va cilao e dela ao imobilismo, mas no caso 
de Joo Goulart, independen temente da classe em que 
estivesse, ele seria sempre um pacato vacilante. Os conflitos 
que tivera com a plutocracia e a cpula militar alimentaram- 
lhe muito mais o conformismo do que a combatividade. No era 
um co varde, mas se habituara a contornar os caminhos da 
coragem. Avisado ainda na manh do dia 31 do levante de 
Mouro, permaneceu fechado no palcio Laranjeiras, confiante 
na precariedade da tropa sublevada, na capacidade do 
dispositivo de desbarat-la e na sua prpria de achar um 
entendimento. O homem que havia menos de 24 horas discursara 
no Au tomvel Clube manteve-se em silncio.
Com o tempo, cristalizou-se em torno das 48 horas de 1964 um 
acordo historiogrfico entre vencedores e vencidos. A 
apologia dos ven cedores, procurando abrir a porteira das 
adeses, estabeleceu que Jango foi derrubado pela vontade 
geral do povo e das Foras Armadas. A ne crologia dos 
vencidos, procurando fechar o diafragma das responsabili 
dades, atribuiu  inrcia de Jango a causa do desmoronamento 
do dis positivo militar e poltico sobre o qual se abrigava 
o radicalismo. Sem dvida a inrcia de Goulart foi um 
detergente para as foras que o apoia vam. No entanto, 
ningum apoiava Jango supondo-o um resoluto. Alm disso, 
nenhuma fora  esquerda do presidente tomou iniciativa 
militar relevante durante o dia 31.
2 Dirio do Congresso Nacional, I de abril de 1964, 
Suplemento, p. 9.
O EXRCITO ACORDOU REVOLUCIONRIO 85
Prestes manteve os 40 mil militantes do Partido Comunista em 
es tado de sobreaviso. As temidas Ligas Camponesas, que 
pareciam briga das pr-revolucionrias, dispunham, no mximo, 
de 2 mil homens e no produziram nenhuma mobilizao 
organizada. Leonel Brizola, feroz cr tico da poltica de 
conciliao do cunhado, consumiu o dia 31 articu lando um 
esquema militar defensivo em Porto Alegre. Seus Grupos dos 
Onze, que reuniriam dezenas de milhares de militantes, no se 
move ram. Na manh do dia 1 em Braslia, alguns deles 
participaram de uma indita operao de montagem de uma 
milcia popular por meio de um sistema de cadastramento. 
Convocaram o povo ao teatro Nacional e re ceberam cerca de 
mil pessoas. A cada um pediu-se que preenchesse uma ficha em 
que devia informar nome, endereo e profisso. Receberiam ins 
trues e armas no dia seguinte, num ncleo de colonizao 
rural nas cercanias da cidade. O cadastro foi levado para o 
Sindicato dos Servi dores Civis.
O Comando Geral dos Trabalhadores, central sindical 
controlada pe lo governo em condomnio com os comunistas, 
recomendou ao povo que se mantivesse unido em sua vigorosa 
repulsa  insurreio A UNE pe diu aos estudantes que se 
mobilizassem em passeatas e atos pblicos, per manecendo em 
estado de alerta para a hiptese da resistncia. Sua sede 
achava-se desarmada. O radicalismo dos marinheiros estava ao 
desam paro de qualquer apoio logstico. O Cabo Anselmo 
perdera o rumo, es condendo-se nas cercanias de Mag. Salvo 
os ferrovirios da Leopoldi na que ocuparam a estao 
central, bloqueando-lhe os trilhos, e o chefe do Gabinete 
Civil, Darcy Ribeiro, que desde o primeiro momento defen dia 
o bombardeio das tropas de Mouro, nenhum personagem ou gru 3 
Wanderley Guilherme dos Santos, dezembro de 2000.
4 Fernando Csar Mesquita, janeiro de 2001.
5 Notas do CGT e da UNE, de 31 de maro de 1964, em Hemlcio 
Fres, Vspera do primeiro de abril,
pp. 177-80. Diretor da rdio Nacional, Fres preservou 54 das 
mensagens transmitidas pela Rede
da Legalidade entre a noite de 31 de maro e a tarde de 12 de 
abril. Nenhuma delas fala em resis tncia armada. Diversas, 
como a do Sindicato dos Bancrios do Rio, pedem aos 
trabalhadores que
se renam nos sindicatos, suave sugesto de que no fossem 
para as ruas.
6 Jos Anselmo dos Santos  Declaraes Prestadas nesta 
Especializada de Ordem Social, do Setor
de Anlise, Operaes e Informaes do DOPS de So Paulo, s. 
d., fi. 3.
86        A DITADURA ENVERGONHADA
po significativo da esquerda tomou posio de ataque ou 
lembrou-se de
mandar brasaY
 noite, Luiz Carlos Prestes telefonou ao brigadeiro 
Francisco Tei xeira indagando-lhe quais condies tinha de 
bombardear o palcio Gua nabara. Teixeira respondeu-lhe que 
meus tenentes j esto todos do ou tro lado. Em pelo menos 
outra ocasio, esse bombardeio foi sugerido a Teixeira, que 
refugou a iniciativa, dizendo que s agiria por ordem do pre 
sidente da Repblica. Mesmo que a recebesse, no tinha 
condies para reunir oficiais da Base de Santa Cruz 
dispostos a voar para bombardear a cidade. Uma expedio 
area contra os jardins do palcio (visto que o bombardeio do 
prdio poria em risco os moradores dos edifcios vizi nhos) 
seria muito mais um ato terrorista do que uma ao militar.
Nas altas horas da noite de 31 de maro o golpe tinha uma 
bandei ra: tirar Jango do poder, para combinar o resto 
depois. J a defesa do go verno cara numa posio canhestra. 
Tratava-se de manter Jango no pa lcio, sem se saber direito 
para qu, nem em beneficio de quem. As poucas foras 
conservadoras que, por razes de convenincia, ainda estavam 
as sociadas ao presidente, dispunham de meios para ajud-lo, 
mas no ti nham um propsito para mant-lo no poder. As 
foras da esquerda, que tinham o propsito, no tinham os 
meios. A rvore do regime constitu cional comeava a dar 
sinais de que cairia para a direita.
A esquerda temia que Jango a trasse. No meio da tarde do dia 
31, o deputado Max da Costa Santos, petebista radical, estava 
certo de que Mou ro seria esmagado em poucas horas e 
mostrava-se preocupado com a fora que o Jango ter nas 
mos s 23 horas, depois de receber instru 7 Depoimento de 
Darcy Ribeiro, em Dnis de Moraes, A esquerda e o golpe de 
64, p. 297, e Darcy
Ribeiro, Confisses, p. 353.
8 Dnis de Moraes, A esquerda e o golpe de 64, p. 195.
9 Aloisio Teixeira ouviu de seu pai o relato de uma conversa, 
na manh do dia 12, com o almiran te Cndido Arago. Nela 
Arago levantou a hiptese de um bombardeio do palcio. 
Aloisio Tei xeira, junho de 1997. O coronel Srgio Cavaliari 
informou ao autor, em junho de 1997, que Teixei ra recebeu 
ordem de Jango para no atirar.  dele tambm a informao a 
respeito da Base de Santa
Cruz. Para a posio de Teixeira, ver sua entrevista a 
Manchete, em Carlos Chagas, O Brasil sem
retoque 1808-1964,vol.2,p. 1122.
10 Marco Antnio Coelho, agosto de 1988.
O EXRCITO ACORDOU REVOLUCIONRIO 87
es da direo do Partido Comunista, o secretrio do comit 
universi trio do Rio de Janeiro, Jos Sailes, reuniu  porta 
da Faculdade Nacional de Filosofia o comando dos estudantes 
que a haviam ocupado e disse- lhes que evitassem radicalizar, 
pois Jango controlara a situao e pode ria usar seu 
fortalecimento para golpear a esquerda.
A direita tinha o mesmo receio. O ex-presidente Juscelino 
Kubits chek terminara a manh do dia 31 achando que Jango 
estava acabado. Divulgara um manifesto sibilino em que 
defendia uma legalidade que re pousava simultaneamente na 
disciplina (ofendida pela rebelio minei ra) e na 
hierarquia (ofendida pela insubordinao dos marinheiros). 
No meio da tarde, JK foi ao Laranjeiras e sugeriu a Jango que 
fizesse um pronunciamento afastando-se das lideranas 
sindicais e da retrica dos sargentos.  noite, recebeu 
Lincoln Gordon em seu apartamento. En quanto o embaixador 
falava da necessidade de se conduzir a substitui o de Jango 
atravs do Congresso e de um processo que guardasse al gum 
sinal de legitimidade, o ex-presidente ouvia ao mesmo tempo o 
embaixador e dois aparelhos de rdio, trocando nervosamente 
de esta o, em busca de notcias de Kruel.
Por volta das dez horas da noite do dia 31,0 general Kruel, 
num dra mtico telefonema, pediu ao presidente que rompesse 
com a esquerda. Queria a demisso de Abelardo Jurema do 
Ministrio da Justia e de Darcy Ribeiro da chefia do 
Gabinete Civil. Eram os colaboradores do pre sidente mais 
identificados com o radicalismo. Pedia tambm que o Co mando 
Geral dos Trabalhadores fosse posto fora da lei. Jango 
ponderou que esse tipo de acordo o levaria a uma capitulao 
humilhante, trans formando-o num presidente decorativo 
Kruel aos poucos mudou de
Ii Cena testemunhada pelo autor.
12 Telegrama de Lincoln Gordon ao Departamento de Estado, 
narrando uma conversa de Jimmy
Minotto com Kubitschek, e Lincoln Gordon, julho de 1989. 
BLBJ.
13 Suplemento do Dirio do Congresso Nacional, 12 de abril de 
1964, p. 6.
14 Depoimento do general Pery Bevilaqua, em 1964 Golpe ou 
contragolpe?, de Hlio Silva, pp.
402-3. Para a ida de JK a Jango no meio da tarde, Humberto 
Braga, Juscelino e a Revoluo de
1964, em Revista do Tribunal de Contas do Estado do Rio de 
Janeiro, n 144, abril-junho de 1999,
p. 50.
15 Lincoln Gordon, maro e julho de 1989.
88        A DITADURA ENVERGONHADA
tom, mostrando-se formal e cerimonioso, O presidente encerrou 
a con versa com rispidez: General, eu no abandono os meus 
amigos. Se es sas so as suas condies, eu no as examino. 
Prefiro ficar com as minhas origens. O senhor que fique com 
as suas convices. Ponha as tropas na rua e traia 
abertamente.
Kruel no o estava traindo. Telefonava na presena de outros 
oficiais. Durante todo o dia os generais do dispositivo que 
comandavam as prin cipais unidades do ii Exrcito oscilaram 
entre a inquietao e a cautela. Des de a manh, quando 
recebeu o aviso de Castelo, Kruel ficara literalmente sem 
saber para onde ir. No incio da tarde abandonara seu 
quartel-gene ral, no centro da cidade, com receio de que ele 
fosse atacado pelos conspi radores. Foi para o comando da 28 
Diviso de Infantaria, nos jardins do Ibirapuera, mas  
noitinha resolveu voltar para o centro. Quando chegou ao seu 
QG, viu-se numa armadilha, pois se tentasse ficar com o 
governo, um grupo de oficiais estava disposto a seqestr-lo, 
enfiando-o numa casa de subrbio. A ambigidade de Kruel 
corroera-lhe o comando.A essa al tura a guarnio paulista 
dava sinais de eroso. O general sabia que o co ronel Carlos 
Alberto Cabra! Ribeiro, do 42 Regimento de Infantaria, de Qui 
tana, uma das peas-chaves da estrutura militar em So 
Paulo, alinhava-se  rebelio. O comandante do ii Exrcito 
entrara na sublevao precisa mente como previra dias antes o 
general Casteilo Branco:  preciso que o Kruel marche, nem 
que seja com uma baioneta nas costas.
Na Cmara dos Deputados, A!mino Affonso estava na tribuna 
quan do Doutel de Andrade lhe passou um bilhete: Krue! 
aderiu. No pal cio Guanabara, Roberto de Abreu Sodr 
voltou  sala onde os !acerdistas faziam sua viglia cvica: 
Vo todos pra puta que os pariu que o Krue! j est vindo. 
Em Copacabana, onde alguns quarteires estavam sem luz,
16 Luiz Alberto Moniz Bandeira, O governo Joo Goulart, p. 
180, baseado em entrevistas com Goulart
e Kruel.
17 GeneraJ Rubens Resstel, setembro de 1988, e Roberto de 
Abreu Sodr, maro de 1991.
18 General Rubens Resstel, setembro de 1988.
19 Almino Affonso, abril de 1988.
20 Claudio Meio e Souza, O vizinho do presidente em Os idos 
de maro e a queda em abril, de
Alberto Dines e outros, p. 180.
O EXRCITO ACORDOU REVOLUCIONRIO 89
o marechal Floriano de Lima Brayner abriu a porta de servio 
de seu apar tamento para um visitante inesperado que se 
anunciara um coronel Na soleira uma vela iluminava o rosto 
do coronel Vernon Walters, seu cama rada dos tempos da FEB. 
Procurava notcias, e Brayner disse-lhe: Kruel aca ba de 
lanar um manifesto Graas a Deus!, respondeu Walters, um 
de voto catlico. Eram quase 23 horas.
O dispositivo de Jango comeava a desabar. Durante as doze 
horas que se seguiram aos disparos telefnicos de Mouro ele 
funcionara por inrcia, sustentado pela modorra que invade as 
instituies burocrticas postas diante de situaes 
imprevistas. Fora de Minas Gerais, nenhum general em comando 
de tropa aderira publicamente ao movimento. A cpula militar 
manteve um olho para cima, esperando pela ao do go verno, e 
outro para baixo, esperando a reao dos oficiais. A inrcia 
do governo exacerbou-lhe as vulnerabilidades, tanto no 
sentido vertical  da linha de comandos  como no horizontal 
 na base da oficialidade.
Goulart no podia contar com a ao de dois dos seus trs 
ministros militares. O general Jair Dantas Ribeiro, da 
Guerra, achava-se recluso no hospital, abatido por 
complicaes ps-operatrias. O ahnirante Paulo Mrio mal 
conhecia seu gabinete, O comando das operaes legalistas es 
tava entregue a Assis Brasil, um oficial medocre que acabara 
de ganhar as estrelas de general-de-brigada. Diante da 
hostiidade de Castelo Bran co, o dispositivo decidira 
substitu-lo pelo general Benjamin Rodrigues Galhardo, que 
estava no comando do iii Exrcito. Parecia uma manobra 
brilhante, pois no mesmo lance designou-se o general Ladrio 
Pereira Te! les (em frias em Friburgo) para o comando da 6 
Diviso de Infantaria, em Porto Alegre, abandonada por seu 
titular, Adalberto Pereira dos Santos. Por ser o general-de-
diviso mais antigo na rea, Ladrio se tornaria coman dante 
interino do iii Exrcito, o mais poderoso do pas. Com uma 
cajada da matavam-se dois coelhos, Castelo e Adalberto. Na 
realidade, quebra ram-se dois cajados, e no se matou coelho 
algum. Galhardo no chegou a pr o p no Estado-Maior, e 
Ladrio caiu num comando desarticulado.
21 John W. F. Dulies, Castelio BrancoO caminho para a 
Presidncia, p. 347.
22 Darcy Ribeiro retrata Assis Brasil em suas Confisses, 
chamando-o de ingnuo e tolo p. 312.
90        A DITADURA ENVERGONHADA
O poderoso esquema do Sul ainda tinha mais surpresas. Em 
Porto Ale gre o dispositivo contava com os generais 
Floriano Machado (3 Regio Militar) e Rubens Barra 
(Artilharia Divisionria/3). Subindo-se em dire o ao norte, 
no Paran tinha os generais Crisanto de Figueiredo (Infan 
taria Divisionria/5) e Silvino Castor da Nbrega (5 Regio 
Militar). Os quatro se encontravam em frias no dia 31 de 
maro. Crisanto e Silvino, que estavam no Rio de Janeiro, 
tomaram um avio para Curitiba e, por fal ta de visibilidade 
para pousos, acabaram descendo em Porto Alegre.
No ii Exrcito, a principal pea do dispositivo era o 
general Eu ryale de Jesus Zerbini, comandante da Infantaria 
Divisionria/2, em Ca apava. Assumira a guarnio na vspera 
e mal conhecia os coronis que comandavam os regimentos com 
que o governo contava para contro lar o vale do Paraba, 
principal via de comunicao entre So Paulo e o Rio. Por 
conta disso,  uma da manh do dia 1 , quando telefonou para 
o comandante do 59 Regimento de Infantaria, teve a surpresa 
de verificar que o quartel estava vazio. Zerbini mandou uma 
patrulha mo torizada procurar o 52 RI. Anos depois, 
comentaria: Nunca eu tive no tcias dela
Ao amanhecer do dia 1 de abril Kruel persistia na posio de 
em paredar Jango sem dep-lo. Em seu manifesto dissera que 
era necessrio salvar a ptria em perigo, livrando-a do jugo 
vermelho, mas no men cionara o presidente. Declarara-se 
fiel  Constituio e  manuteno dos poderes 
constitudos, e informava que o objetivo do II Exrcito vi 
sava exclusivamente a neutralizar a ao comunista que se 
infiltrou em alguns rgos governamentais Depois do 
telefonema das 22 horas, fa lara com Jango duas outras vezes, 
sempre pedindo-lhe, em vo, que jo gasse a esquerda ao mar.
23 M. Poppe de Figueiredo, A Revoluo de 1964, p. 59, e 
Hernani dAguiar, A Revoluo por den tro, p. 129.
24 Hlio Silva, 1964 Golpe ou contragolpe?, p. 392.
25 Glauco Carneiro, Histria das revolues brasileiras, p. 
523, e O Estado de S. Paulo, segundo clich, 1 de abril de 
1964.
26 Eurilo Duarte, 32 mais 32, igual a 64, em Alberto Dines 
e Outros, Os idos de maro e a queda em abril, p. 144.
O EXRCITO ACORDOU REVOLUCIONRIO 91
No iv Exrcito, com sede no Recife, o general Justino Alves 
Bastos, que dera a Jango a garantia do controle de sua rea e 
a Casteilo a certe za da adeso, aproximava-se cautelosamente 
do levante. s dez horas do dia 1 recebeu em seu gabinete o 
economista Celso Furtado, superin tendente da Sudene e ex-
ministro do Planejamento de Jango. Disse-lhe que esperava um 
expurgo dos ministros de esquerda, uma guinada do presidente. 
Nada mais que isso. Estava disposto a prender quem atentas se 
contra a ordem pblica.
A mudana de posio de Kruel e, em certo sentido, a de 
Justino re sultaram da decomposio da base militar do 
governo. Ambos tiveram doze horas para ver em que direo o 
vento sopraria, e ele soprou com tamanha clareza que chegou a 
ser um exagero esperar tanto.
A revolta dos marinheiros, na semana anterior, e o discurso 
de Jan go no Automvel Clube, na vspera, desestabilizaram as 
Foras Arma das. A organizao militar, baseada em princpios 
simples, claros e anti gos, estava em processo de dissoluo. 
Haviam sido abaladas a disciplina e a hierarquia. Alm disso, 
o discurso do presidente mostrara que a ma zorca tinha o seu 
amparo. Desde 1961, quando os sargentos foram peas 
importantes para neutralizar a ao de oficiais que 
pretendiam impedir a posse de Jango, algumas unidades viviam 
sob uma espcie de duplo co mando. Centenas de oficiais 
suportaram situaes vexatrias. Numa uni dade da Vila 
Militar havia sargentos que no cumpriam escalas de guar da e 
mantinham paiis particulares. Um deles ameaara os senhores 
reacionrios: O instrumento de trabalho dos militares  o 
fuzil. Ou-
27 Para a adeso a Castelio, carta de Justino Alves Bastos a 
ele, de 23 de maro de 1964. Para o
apoio a Jango, Joo Ribeiro Dantas (Dantinhas), dezembro de 
1985, e entrevista de Assis Brasil a
Manchete, em 1979, transcrita em Jos Wilson da Silva, O 
tenente vermelho, pp. 125-7.
28 Celso Furtado, Obra autobiogrfica de Celso Furtado, tomo 
II: A fantasia desfeita, p. 293.
29 Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, maro de 1988.
30 Adolpho Joo de Paula Couto, Revoluo de 1964, p. 68, 
citando um trecho de discurso do sub tenente Jelsy (Rodrigues 
Corra), no dia 11 de agosto de 1963, na comemorao do 
aniversrio
do general Osvino Ferreira Alves.
92        A DITADURA ENVERGON8ADA
tro, eleito deputado, falava em enforcamento dos 
responsveis pela ti rania dos poderes econmicos Em 1963 o 
general esquerdista Osvino Ferreira Alves, o mais destacado 
dos generais do povo, comemorara seu aniversrio com uma 
festa a que compareceram oitocentos subtenentes e sargentos. 
Os marinheiros usavam a rede de transmisso dos navios para 
comunicar suas palavras de ordem e, pelo menos uma vez, 
abriram o cofre do Conselho do Almirantado para copiar a ata 
de umareunio secreta. Sua associao recebera do Gabinete 
Civil da Presidncia um cheque de 8 milhes de cruzeiros, 
cinco dos quais deveriam ser repassa dos a um grupo de 
sargentos paulistas. Essa anarquia era protegida por alguns 
poucos oficiais simpticos ao governo e tolerada por muitos 
ou tros, temerosos de enfrentar o dispositivo e, com isso, 
arriscar a liqui dao de suas carreiras. A revolta dos 
marujos ofendeu a grande massa politicamente amorfa. O 
levante de Mouro sugeriu-lhe a possibilidade do desafio. A 
inrcia do governo incentivou-a a mover-se ou, pelo me nos, a 
no fazer nada.
Fosse qual fosse o governo, fosse qual fosse o presidente, 
depois de acontecimentos como a insubordinao da marujada e 
o discurso do Au tomvel Clube, em algum lugar do Brasil 
haveria um levante. Por defini o, esse levante no poderia 
ser reprimido utilizando-se tropas subme tidas aos 
regulamentos convencionais. Um governo que tolerava a 
indisciplina no deveria acreditar que seria defendido de 
armas na mo por militares disciplinados, obedecendo a ordens 
da hierarquia. Repetiu- se nos quartis o dilema que 
paralisou Goulart durante o dia 31: o situa cionismo esperou 
ser defendido pela estrutura convencional que desafia ra, 
quando s lhe restava o caminho de atac-la, antes que ela o 
liquidasse.
A fraqueza inata da base do dispositivo achava-se espalhada 
no pr prio corao da tropa que o governo mandou serra acima 
para conter Mou ro. Na coluna que marchava pela avenida 
Brasil na manh do dia 31 en contravam-se o Grupo de Obuses e 
a 1 Bateria do 8 Grupo de Canhes
31 Agnaldo dei Nero Augusto, A grande mentira, pp. 105 e 103.
32 Avelino Bioen Capitani, A rebelio dos marinheiros, pp. 35 
e 46.
33 Depoimento de Jos Anselmo dos Santos  Polcia Federal, 
10 de junho de 1964, fi. 5.
O EXRCITO ACORDOU REVOLUCIONRIO 93
Automticos de 90 mm. Os obuses estavam sem os percussores. A 
ba teria era comandada pelo capito Carlos Alberto Brilhante 
Ustra, conhe cido por ter se atritado com sargentos 
militantes e se recusado a servir como ajudante-de-ordens de 
um general do povo Acreditar que um ca pito como Ustra 
dispararia seus canhes por Jango era excesso de oti mismo. 
Sua tropa entrou na estrada submetida a um complicado meca 
nismo de comando. Ustra tinha o armamento, os cabos e os 
soldados da l Bateria. Ainda assim, empurraram-lhe os 
sargentos da 2 mal equi pada, porm servida por janguistas. 
Alm disso, mandaram-no levar no seu jipe outro capito, mais 
antigo que ele e devoto do governo. Ele mentar: no alto da 
serra, ao menor sinal de vacilao, seria deposto do comando 
pelos sargentos e substitudo pelo carona. Durante o tempo 
gas to na estrada, Ustra armou um contragolpe atravs do 
ordenana, cons pirando com um cabo e meia dzia de soldados 
que o ajudaram at mes mo a provocar um engarrafamento na 
avenida Brasil para retardar a marcha da coluna. Assim, o 
dispositivo se protegia com os canhes de um capito que 
no lhe era leal, supondo que ele poderia ser neutraliza do 
pelos sargentos, os quais, por sua vez, tinham de enfrentar o 
compl do capito com os cabos. Uma verdadeira anarquia.
Essa embrulhada repetia-se no principal corpo de tropa que o 
go verno mobilizara. O comandante do 12 Regimento de 
Tnfantaria, coro nel Raymundo Ferreira de Souza, era homem da 
confiana do general Oro- mar Osorio, mas fora tambm 
assistente-secretrio do general Odylio Denys, veterano 
conspirador, reservista e rebelde. Durante toda a tarde, at 
chegar a Trs Rios, cidade situada a meio caminho entre o Rio 
e Juiz de Fora, o coronel Raymundo marchou como um soldado de 
Oromar. s 22 horas sua tropa aproximava-se do que poderiam 
ser as linhas de combate, mas tropeou numa linha telefnica. 
No posto de gasolina Trin
34 Depoimento do coronel Alberto Fortunato, em Jos Amara! 
Argolo e outros, A direita explo siva no Brasil, p. 187.
35 Na hierarquia militar um oficial  mais antigo e o outro 
mais moderno quando, tendo a mesma patente, um chegou a ela 
antes do Outro. Assim, um capito promovido em maro de um 
ano  mais antigo que outro, promovido em dezembro do mesmo 
ano. O oficial mais antigo tem precedncia sobre o mais 
moderno
36 Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, maro de 1988.
94        A DITADURA ENVERGONHADA
guio, o coronel atendeu a uma chamada de Denys, que estava na 
casa- grande de uma fazenda, convidando-o a aderir. Ele no 
vacilou: Eu e to da minha tropa nos solidarizamos com o 
movimento revolucionrio
Muricy, que vinha descendo no comando da vanguarda rebelde, 
es tava num grande dia. Comeara com uma tropa mal instruda, 
preocu pado apenas em localizar desfiladeiros que lhe 
permitissem tirar parti do das montanhas mineiras para conter 
o avano dos legalistas enquanto esperava que outras unidades 
se rebelassem. Tnhamos munio para poucas horas, mas eu 
vivi as revolues de 1930 e 1932 e sabia como so os 
indecisos. Nessa hora de indeciso, voc pode fazer o diabo 
e, quan tomais diabofizer, melhor, explicou mais tarde. 
Antes de saber por Denys que o Regimento Sampaio no lhe 
daria combate, o general recebera uma proposta de adeso de 
dois tenentes que comandavam pelotes na pri meira linha do 
12 Batalho de Caadores, de Petrpolis. Pela sua locali 
zao geogrfica, no alto da serra, o c era a vanguarda da 
tropa legalis ta. Pela hora em que se aproximou das linhas 
mineiras, Muricy concluiu que o haviam reunido s pressas. 
Quando soube da adeso dos tenen tes, percebeu que o batalho 
estava desarticulado. Afinal de contas, na linha de fogo 
poderia haver, no mximo, cinco pelotes. Se dois troca vam 
de lado, com cerca de cinqenta homens, o inimigo estava se 
des manchando.
Com o tempo, tanto a adeso do coronel Raymundo como a dos 
ofi ciais do 12 BC passaram a ser assinaladas como 
estandartes de uma mar cha triunfal e a ser antecipadas para 
a noite do dia 31 pela historiografia do xito. Apesar das 
conversas da noite anterior, Muricy s recebeu os pe lotes 
do 12 BC por volta de meia-noite, e a adeso do comandante do 
12 RI s se consumou s sete horas da manh seguinte. 
Estvamos flutuan do, sem apoio algum e na expectativa de um 
ataque das tropas que su biam a serra, escreveu Mouro  uma 
hora da madrugada.
37 Odylio Denys, Ciclo revolucionrio brasileiro  Memrias, 
p. 120. Hugo Abreu, em Tempo de
crise, p. 253, conta que anos depois, j promovido a general, 
Raymundo Ferreira de Souza narrou lhe os episdios dessa 
noite negando importncia ao telefonema do marechal Denys. 
Segundo ele,
desde a hora da partida do Rio estava disposto a juntar-se s 
tropas rebeldes.
38 General Antonio Carlos Muricy, agosto de 1988.
O EXRCITO ACORDOU REVOLUCIONRIO 95
O Exrcito, que no dia 31 dormira janguista, acordaria 
revolucion rio, mas sairia da cama aos poucos. No meio da 
madrugada, no Recife, um filho do governador Miguel Arraes 
interrompeu a viglia montada no palcio das Princesas e 
entrou no salo gritando: Os soldados esto cercando a 
casa!. Houve um sobressalto, mas o menino sorriu e confes 
sou a brincadeira: Primeiro-de-abril.. . Comeara, de fato, 
um gigan tesco Dia da Mentira, no s pelo que nele se 
mentiu, mas sobretudo pe lo que dele se falseou.
No forte de Copacabana, no Rio de Janeiro, preservou-se uma 
nar rativa intitulada A Revolta do Forte, Vitria da 
Legalidade. So trs fo lhas rubricadas por oficiais 
rebelados e se propem a contar os aconte cimentos, 
exatamente como se passaram, desde a noite em que o 
comandante do forte informou aos revoltosos da E5CEME que ia 
se rebe lar, at as sete horas da manh seguinte, quando a 
unidade se sublevou, reforada por 27 oficiais da Escola de 
Estado-Maior. Os fatos esto cor retamente apresentados, mas 
a relquia contm uma falsidade: a data. Se gundo a 
narrativa, o forte rebelou-se na manh de 31 de maro, poucas 
horas depois de Mouro e vinte horas antes da proclamao de 
Kruel. Na realidade, os acontecimentos se passaram exatamente 
um dia depois, 27 horas depois de Mouro e sete depois de 
Kruel.
Na madrugada de 1 de abril, o general Castello Branco mudou 
trs vezes de esconderijo. Costa e Silva, codinome Tio Velho, 
duas. Ambos procuravam coordenar a insurreio no i Exrcito, 
mas por toda a ma nh do dia 19 atiraram a esmo, usando 
artilharia telefnica e oficiais sem comisso. Um general da 
reserva que trabalhava na companhia telef nica socorreu os 
revoltosos abrindo-lhes linhas interurbanas. Costa e Sil va 
fixou-se num apartamento em Botafogo onde, valendo-se dos 
dois telefones da casa, disparou em poucas horas cerca de cem 
ligaes. Man dou trs generais levantarem as principais 
unidades do Rio. Um rebela ria a 1 Diviso de Infantaria, 
outro tomaria o 19 Batalho de Carros- de-Combate, e o 
terceiro ficaria com a Brigada Pra-Quedista. Nenhum
39 Violeta Arraes, maio de 1991.
40 A Revolta do Forte, Vitria da Legalidade, cpia do texto 
em poder do general Newton Cruz.
41 Para o codinome, Jayme Portelia de Mello, A Revoluo e o 
governo Costa e Silva, p. 646.
96        A DITADURA ENVERGONHADA
deles conseguiu levantar sequer uma sentinela nas primeiras 
doze ho ras do dia 12.42
Quando o dia raiou, no Rio de Janeiro s havia fogo na 
trincheira do Correio da Manh. Num editorial intitulado 
Fora, estampado no al to de sua primeira pgina, atirava: 
No resta outra sada ao Sr. Joo Gou lart seno a de 
entregar o governo ao seu legtimo sucessor. S h uma coisa 
a dizer ao Sr. Joo Goulart: saia A essa coragem civil no 
corres pondia um equivalente desassombro militar. No fim da 
manh do dia 1 estavam rebeladas apenas duas unidades de 
combate em todo o Rio: o forte de Copacabana e a fortaleza de 
So Joo. Juntas, no somavam tro pa para enfrentar uma 
companhia de fuzileiros. O grosso da guarnio movia-se para 
a rebeldia, mas ainda no decidira tornar riscos.
s oito da manh a rdio Nacional transmitiu o Reprter Esso, 
tes temunha ocular da histria Era o principal noticirio 
radiofnico do pas e oferecia a smula do oficialismo: Jair 
Dantas Ribeiro assumira o coman do das operaes contra a 
rebelio, Goulart recebera uma delegao de industriais e 
comerciantes no Laranjeiras e divulgara uma nota oficial con 
tando com a fidelidade das Foras Armadas Tudo fantasia. 
At a pre viso do tempo: instvel, com chuvas, melhorando 
no decorrer do pe rodo O chuvisco da tarde acabou em 
temporal  noite.
No Laranjeiras, Jango ouvia de tudo. Apelos para que se 
livrasse da esquerda, sugestes para buscar entendimento com 
Magalhes Pinto e um plano para ocupar o Rio de Janeiro em 
duas horas. Uma conversa, porm, haveria de marc-lo. O 
deputado mineiro Francisco Clementino
42 Para as ligaes telefnicas, John W. E Duiles, Casteilo 
Branco  O caminho para a Presidn cia, p. 343. O general 
Raphael de Souza Aguiar levantaria a 1 DI, Jos Horacio da 
Cunha Garcia, o 1 BCC, e Augusto Cezar Moniz de Arago, a 
Brigada. Idem, pp. 345-6. Hernani dAguiar, A Revoluo por 
dentro, p. 149, menciona duas tentativas infrutferas de 
sublevao do BCC, feitas pelo general Cunha Garcia durante a 
manh.  certo que  tarde ele estava sublevado.
43 Hernani dAguiar, A Revoluo por dentro, pp. 131 e 148.
44 Noticirio do Reprter Esso, 1 de abril de 1964, em 
Vspera do primeiro de abril, de Hemlcio Fres, pp. 173-6.
45 O entendimento com Magalhes foi sugerido e tentado por 
San Tiago Dantas. O plano para ocupar o Rio foi lembrado pelo 
general da reserva Osvino Ferreira Alves. Abelardo Jurema, 
Sexta- feira, 13, p. 191.

Nota do scaneador
As pginas que seguem so fotos. H apenas textos a baixo das 
fotos.
Fim da nota

Joo Goulart era um homem sem inimigos. Os dios que 
despertou vieram todos da poltica.
13 de maro de 1964. Jango no palanque do comcio da Central, 
com sua mulher, Maria Thereza. Ela, numa de suas raras 
aparies pblicas.
1
/
___
A ltima manifestao popular do governo Goulart, ao lado do 
Ministrio da Guerra, foi animada pela Banda dos Fuzileiros 
Navais e protegida pela Polcia do Exrcito.
r
19 de maro de 1964. O palanque da Marcha da Famlia com Deus 
pela Liberdade, em So Paulo.
27 de maro de 1964. Marinheiros rebelados carregam o 
almirante Cndido Arago, o Almirante do Povo ou Almirante 
Vermelho.
Manh de 10 de abril de 1964. Sob o comando do tenente 
Freddie Perdigo Pereira, tanques do 12 RecMec guardam o 
porto do palcio Laranjeiras, onde est Joo Goulart. 
Simbolizam o apoio do Exrcito ao presidente.
12 de abril. Joo Goulart, acompanhado de um guarda-costas e 
de seu secretrio
j particular, Eugenio Caillard (a direita),
abandona a ratoeira do Rio de Janeiro.
Tarde de 1 de abril de 1964. Os mesmos tanques, comandados 
pelo mesmo tenente, deixam o Laranjeiras e vo guardar o 
palcio Guanabara, onde est o governador Carlos Lacerda. 
Simbolizam a vitria da rebelio.
Trs vencedores: os generais Antonio Carlos Muricy e Mouro 
Filho (de cachimbo), com o governador de Minas Gerais, 
Magalhes Pinto.
Rio de Janeiro, 2 de abril. A Marcha da Vitria, abenoada 
pelo cardeal Jaime Cmara, que atribuiu a derrubada do 
governo ao auxilio divino obtido por nossa Me Celestial, 
pelo Venervel Anchieta, pelos quarenta mrtires do Brasil e 
outros santos protetores de nossa ptria
2 de abril de 1964. Um grupo a caminho da Marcha da Vitria, 
organizada pela Camde,
a Campanha da Mulher pela Democracia.
Luiz Carlos Prestes        Amaury Kruel        San Tiago Dantas
Darcy Ribeiro        Carlos Lacerda        Lincoin Gordon
Abril de 1964. Depois de ter sido amarrado  traseira de um 
jipe e conduzido pelas ruas do Recife, o comunista Gregrio 
Bezerra, de 64 anos, foi mostrado  imprensa no ptio do 
quartel onde havia sido espancado.
O palanque da nova ordem, O general Mouro Filho conversa com 
o vice-presidente Jos Maria de
Alkmim, e o presidente Castelio Branco com o ministro da 
Guerra, Arthur da Costa e Silva.
No centro, de culos, o governador Carlos Lacerda.
/
O coronel Vernon Walters, adido do Exrcito        Cassado, o ex-
presidente Juscelino Kubitschek
da embaixada americana, e seu velho amigo        foi humilhado com 
sucessivas convocaes
Castello Branco.        para depor em quartis.
O general Ernesto Geisel recusou um comando turstico (a 
Artilharia de Costa do Rio) e tornou-se chefe do Gabinete 
Militar do marechal Casteilo Branco.
O general Golbery do Couto e Silva concebeu, montou e chefiou 
o Servio Nacional de Informaes:
Ns ramos meia dzia de gatos-pingados. Intitulava-se 
ministro do silncio
Aos 27 anos, o capito Heitor Ferreira foi para o palcio 
Laranjeiras, como assistente de Golbery. Os trs dividiam a 
mesma sala. L, em junho de 1964, Heitor comeou seu dirio.
nio Silveira, dono da Editora Civilizao Brasileira, 
publicava um livro por dia. Em 1965, foi preso. Era acusado 
de, entre outras faltas, ter oferecido uma feijoada a Miguel 
Arraes.
1967. O jornalista Marcio Moreira Alves, do Correio da Manh, 
chega  Polcia Federal para depor. Consegue liberar seu 
livro Torturas e torturados.
Na pgina ao lado, bilhete do presidente Castelo Branco a 
Geisel, reclamando da priso
de nio Silveira.  a seguinte a sua ntegra:
Reservado
 Por que a priso do Enio? S para depor? A repercusso  
contrria a ns, em grande escala.
O resultado est sendo absolutamente negativo.
Por que anunciar a priso de Helio de Almeida?
H como que uma preocupao de mostrar que se pode prender. 
Isso nos rebaixa.
 Penso que devemos tomar medidas decisivas. Comprometo-me a 
amparar os 1PM. Mas no devo
estar apoiando uma espcie de chi cana policial e judicial.
 Devemos fazer fora para que os inquritos cheguem a 
resultados corretos e os conselhos funcionem.
Tudo sem perda de tempo. H uma verdadeira deteriorao. Os 
companheiros do governo se sentem
constrangidos.  difcil a defesa do que desejam fazer 
Martineli, Pina, etc.
 Apreenso de livros. Nunca se fez isso no Brasil. S de 
alguns (alguns!) livros imorais. Os resultados
so os piores possveis contra ns,  mesmo um terror 
cultural.
[ expresso terror cultural foi criada por Tristo de 
Athayde. Era ridicularizada pelo governo
e pelos intelectuais que o apoiavam.I
.
?
1
-
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02
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PP DA PEPL)BUCA GABINETE DO
o
u
O marechal Castelio Branco e seu sucessor, general Arthur da 
Costa e Silva, ministro da Guerra.
Nota do scaneador
Fim das fotos, segue o livro.
Fim da nota

O EXRCITO ACORDOU RRVOLUCIONRIO
97
de San Tiago Dantas, erudito professor de direito que 
transitava com igual desenvoltura da elite  esquerda, chegou 
ao Laranjeiras no final da ma nh do dia 12 e exps-lhe uma 
ameaa:
No devemos nos deixar perturbar pelas emoes.  hora de nos 
manter mos com a cabea fria. No podemos nos dar ao luxo de 
sermos mais im prudentes. Como o senhor deve saber, 
presidente, o Departamento de Es tado norte-americano hoje 
no sofre mais a influncia da poltica de Kennedy, sofre 
outras influncias, bem diversas. No  impossvel que esse 
movimento de Minas venha a ser apoiado pelo Departamento de 
Estado. No  impossvel que ele tenha se deflagrado com o 
conhecimento e a con cordncia do Departamento de Estado. No 
 impossvel que o Departa mento de Estado venha a reconhecer 
a existncia de um outro governo em territrio livre do 
Brasil.
O presidente perguntou se San Tiago estava especulando. 
No, respondeu o professor.
San Tiago soubera da disposio americana de apoiar um 
governo de insurretos pelo ex-chanceler Afonso Arinos, a quem 
Magalhes Pin to dera dias antes a Secretaria de Relaes 
Exteriores do governo minei ro. At que ponto San Tiago se 
baseou apenas na conversa de Arinos, no se sabe. Jango tomou 
a advertncia como um recado do embaixador Gordon. Sua 
intuio ia na direo certa. Gordon mandara recados a 
governadores e militares, estimulando-os a produzir um 
desfecho que pu desse ser considerado legtimo.
O deputado fantasiava num ponto. O dispositivo militar dos 
ame ricanos comeara a ser montado em julho de 1962, no Salo 
Oval da Casa
46 Hlio Silva, 1964 Golpe ou contragolpe?, p. 404.
47 Luiz Alberto Moniz Bandeira, O governo Joo Goulart, p. 
181.
48 Joo Pinheiro Neto, longo, p. 52. Pinheiro Neto estava no 
palcio Laranjeiras quando San Tiago
se entrevistou com Jango, e ouviu dele um relato da conversa.
98        A DITADURA ENVERGONHADA
Branca, pelo presidente Kennedy. Um ano depois, Gordon 
advertira o De partamento de Estado: Parece-me cada vez mais 
claro que o objetivo de Goulart  perpetuar-se no poder 
atravs de um golpe como o de Vargas em 1937. Baseava-se em 
opinies de todo tipo: desde aquelas de inimi gos de Jango, 
como Juracy Magalhes, s de pessoas de sua intimidade, como 
o jornalista Samuel Wainer, incluindo as de diplomatas 
conserva dores como o nncio apostlico e as de comunistas 
como o embaixador iugoslavo: Se Deus  realmente brasileiro, 
Goulart ter uma recada do problema cardaco que sofreu em 
1962.
O telegrama de Gordon desencadeara uma reao burocrtica em 
Washington. No dia 30 de setembro o Departamento de Estado 
esboara uma proposta de poltica de curto prazo para o 
Brasil na qual se inclura um programa clandestino de 
penetrao no meio militar e desde logo se recomendara o 
apoio e imediato reconhecimento de qualquer regime que os 
brasileiros estabeleam para substituir Goulart O servio de 
estima tivas da CIA, que em julho confiara no flego de 
Jango, mudara de rumo em outubro: Achamos que no  mais 
apropriado estimar que, a despei to dos profundos problemas 
polticos e econmicos do Brasil, as chances ainda 
favorecem a permanncia do presidente Goulart at o fim do 
seu mandato Tambm propunha o reconhecimento do regime que 
viesse a emergir de um golpe, desde que ele parea 
razoavelmente instalado
Tudo isso no governo Kennedy.
Nessa poca, San Tiago estivera convencido de que Brizola 
planeja va um golpe e chamara um jovem diplomata em quem 
depositava gran de confiana para uma conversa no Jardim 
Botnico. Falou-lhe de seus temores e contou-lhe que apoiava 
um projeto de resistnci articulado
49 Telegrama 373, de 21 de agosto de 1963, do embaixador 
Lincoin Gordon ao Departamento de
Estado. Jango sofreu uma isquemia durante uma visita oficial 
ao Mxico. BJFK.
50 Proposed Short Term Policy: Brazl, 12 pginas do 
Departamento de Estado, de 30 de setembro
de 1963. BJFK.
51 Cinco pginas do Office of National Estimates, Central 
Inteiligence Agency, de 18 de outubro
de 1963. BLBJ.
52 Comisso de Poltica Latino-Americana  Poltica de Curto 
Prazo Aprovada para o Brasil, da Central
Intelligence Agency, de 11 de outubro de 1963, em O 
testamento de Kennedy para Jango, de
Rosental Calmon Alves, Jornal do Brasil, 27 de novembro de 
1988, Caderno B Especial, pp. 4-6.
O EXdRCITO ACORDOU REVOLUCIONRIO 99
em Minas Gerais. Precisava que o amigo estivesse a postos 
para a even tualidade de ir aos Estados Unidos negociar o 
suprimento de armas.
s 11h30 da manh de 31 de maro de 1964, quando Mouro mal 
ti nha tirado seu roupo de seda vermelho e o general Muricy 
ainda subia a serra ao volante de sua camionete, estavam 
reunidos em Washington o secretrio de Estado, Dean Rusk, o 
secretrio de Defesa, Robert McNama ra, o chefe da junta de 
chefes de Estado-Maior, general Maxwell Taylor, e o diretor 
da CIA, McCone. A agenda tinha seis itens. O quarto era um re 
latrio sobre a capacidade de apoio areo e naval americano 
aos revol tosos. A Casa Branca acordara cedo. Uma hora e 
vinte minutos depois dessa reunio, enquanto Mouro dormia a 
sesta, o contra-almirante John Chew, vice-diretor de 
operaes navais, ordenava ao comandante-em-che fe da 
Esquadra do Atlntico o deslocamento de um porta-avies  
frente de uma fora-tarefa para a rea ocenica nas 
vizinhanas de Santos, Bra sil. Era o plano que o presidente 
Lyndon Johnson aprovara no dia 20.
A esquadra foi composta pelo porta-avies Forrestal, seis 
contrator pedeiros com 110 toneladas de munio, um porta-
helicpteros, um posto de comando aerotransportado, e quatro 
petroleiros que traziam 553 mil barris de combustvel. O 
Plano de Contingncia 2-61 ganhou o co dinome de Operao 
Brother Sam. Os barcos de guerra estavam instru- dos para 
entrar na zona de operaes com os tanques to cheios quanto 
possvel, mas o Forrestal no poderia chegar a Santos antes 
do dia 10 de abril. Os cargueiros poderiam aportar entre os 
dias 8 e Vinham com
53 A conversa foi com o secretrio Marclio Marques Moreira. 
Ver seu Diplomacia, poltica efinanas,
organizado por Dora Rocha eAlexandra de Meilo e Silva, pp. 
91-4. Em dezembro de 1963, depois da
morte de Kennedy, San Tiago tivera um encontro com o 
embaixador Lincoln Gordon no qual o acon selhou a comunicar-
se com alguns crculos do Exrcito, especialmente com o 
ministro da Guerra
Jair (Dantas Ribeiro), entendendo que o Brasil possa vir a 
precisar de matrias-primas, peas de repo sio e petrleo 
Telegrama de Gordon ao Departamento de Estado, de 13 de 
dezembro de 1963. BLEJ.
54 Agenda da reunio das 11h30, em Washington. BLBJ.
55 Marcos S Corra, 1964 visto e comentado pela Casa Branca 
p. 32.
56 O telegrama 5395 dos chefes de Estado-Maior informa o 
movimento de quatro petroleiros:
Santa Inez, Chepachet, Hampton Roads e Nash Bulk. BLBJ.
57 Para a data de chegada dos navios, telefonema de George 
Bail a Lyndon Johnson, de 31 de maro
de 1964, fita WH6403.19, BLBJ, traduzido por Lincoln Gordon e 
publicado pela Folha de S.Paulo de
10 de setembro de 1999.
100        A DITADURA ENVERGONHADA
o combustvel equivalente a um dia do consumo nacional, 
bastante para impedir que a revolta ficasse com o tanque 
vazio. Os prazos pareceram muito longos, e levantou-se a 
possibilidade de a primeira remessa de ga solina ser feita 
por avio. No meio da tarde do dia 31, quando o coronel 
Helvecio rezava, com sua pistola engatilhada, no sexto andar 
do Minis trio da Guerra, o Departamento de Estado informou 
ao embaixador que a hiptese do transporte areo requereria 
um aeroporto seguro para re ceber jatos e provavelmente 
cobertura de combate durante o trnsito pelo Brasil
Por volta das 16h30, o professor Gordon recebeu de Washington 
um
questionrio para uma teleconferncia da qual participaria o 
subsecre trio de Estado, George BaIl. Lista curta e grossa:
O dilema que temos pela frente :
a) nossa preocupao de no deixar a oportunidade passar, 
pois ela pode no voltar;
b) nossa preocupao de no pr o governo americano  frente 
de uma causa perdida. Sugerimos, portanto, que no sejam 
mandadas novas men sagens a governadores ou militares 
brasileiros at que tenhamos tido a opor tunidade de chegar a 
uma deciso com base nesta teleconferncia e em ou tros 
acontecimentos durante o dia.
[ Voc j mandou recados aos governadores enfatizando a neces 
sidade de criao de um governo que possa dizer-se legtimo. 
Na nossa ma neira de ver, as condies para a ajuda do 
governo americano so:
a) a formao de um governo que diga ser o governo do Brasil;
b) o estabelecimento de algum tipo de legitimidade;
c) a tomada e manuteno de uma parte significativa do 
territrio bra sileiro por esse governo, e
d) um pedido de reconhecimento e de ajuda deste governo e de 
ou tros Estados americanos, para manter o governo 
constitucional.
58 Comunicao do Departamento de Estado para a embaixada no 
Rio de Janeiro. BLBJ.
O EXRCITO ACORDOU REVOLUCIONRIO 101
(...] Os elementos mnimos de legitimidade que requeremos so 
uma
espcie de combinao dos seguintes:
a) o entendimento de que Goulart praticou atos 
inconstitucionais;
b) reivindicao da Presidncia por algum que esteja na 
linha da su cesso;
c) ao do Congresso ou de alguns elementos do Congresso que 
rei vindiquem a autoridade do Legislativo;
d) reconhecimento ou ratificao por alguns ou todos os 
governos es taduais.
[ Quem so os possveis civis que podem reivindicar a 
Presidncia num novo governo? Isso no exclui a possibilidade 
de uma junta militar como ltimo recurso, o que, porm, 
tornaria muito mais dificil a ajuda ame ricana.
O governo americano estava pronto para se meter abertamente 
na crise brasileira caso estalasse uma guerra civil.
s 17h38 tocara novamente o telefone do presidente Lyndon 
John son, que continuava em seu rancho do Texas. Era o 
subsecretrio de Es tado, George Bali. Na extenso estava o 
secretrio de Estado assistente para Assuntos 
Interamericanos, Thomas Mann. Bali contou-lhe o que disse ra 
a Gordon. Johnson aprovou: Acho que devemos tomar todas as 
me didas que pudermos e estar preparados para fazer tudo que 
for preciso, exatamente como faramos no Panam  desde que 
seja vivel. [ Eu seria a favor de que a gente se arrisque um 
pouco
Parece improvvel que o Forrestal continuasse a descer o 
Atlntico se o levante tivesse sido imediatamente sufocado, 
mas  certo que, na hip tese de os revoltosos controlarem um 
porto e pistas de pouso capazes de receber avies-tanques, os 
Estados Unidos estavam dispostos a garantir o suprimento de 
combustvel e at mesmo armas. No h registro documen 59 
Comunicao do Departamento de Estado para a embaixada no Rio 
de Janeiro. BLBJ.
60 Telefonema de George Bali a Lyndon Johnson, de 31 de maro 
de 1964, fita wH6403.19, BLBJ,
traduzida por Lincoin Gordon e publicada pela Folha de 
S.Paulo de 10 de setembro de 1999.
102        A DITADURA ENVERGONHADA
tado que previsse um desembarque de tropa, e o Forrestal 
jamais chegou a entrar em guas brasileiras. A frota 
americana s foi avistada doze anos depois, quando o 
jornalista Marcos S Corra desenterrou os documen tos da 
Operao Brother Sam na Biblioteca Lyndon Johnson, no Texas.
Apesar do poderio militar mobilizado pelo governo americano e 
do significado que ele traria caso viesse a ser conhecido, 
nenhum brasileiro, civil ou militar, participou da deposio 
de Joo Goulart porque os Esta dos Unidos a desejavam. Nessa 
associao de interesses comuns, ou mesmo complementares, 
deu-se o inverso. Ela tambm no era a nica associao de 
interesses internacionais envolvidos no episdio. Noutra, 
oposta, jun tavam-se  esquerda os governos sovitico e 
cubano. Na manh de 1 de abril, quando San Tiago Dantas 
advertiu Goulart, registrou-se o bvio: o go verno americano 
apoiava a insurreio, e a embaixada nela se envolvera.
61 Durante trinta anos, de 1971 a 2000, discuti com o 
embaixador Lincoln Gordon, em conver sas que somaram mais de 
vinte horas, o real alcance da sua deciso de requisitar a 
fora naval. Em 1964 ele proclamava que nem um s dlar 
esteve envolvido com a insurreio (Selees, novem bro de 
t964, p. 97, O pas que salvou a si prprio, por Clarence 
W. Hall). Posteriormente, Gor don insistiu em que nunca se 
planejou nenhuma interveno militar. Tratava-se de mostrar 
a ban deira e de intimidar os partidrios de Jango Essa 
posio do embaixador est amparada na documentao.
Em julho de 1989 perguntei-lhe: Admitamos que houvesse uma 
guerra civil, que os navios apor tassem em Santos, que os 
combates continuassem e que os revoltosos pedissem tropas. O 
senhor aconselharia que se embrulhasse a bandeira e retirasse 
a frota?
Gordon respondeu numa carta de 13 de abril de 1990: Eu no 
sei se teria recomendado uma in terveno direta. Felizmente 
ns nunca tivemos que encarar essa questo e s o teramos 
feito quan do a sua hiptese se materializasse. Ento, 
teramos que fazer uma nova avaliao do quadro bra sileiro e 
uma reavaliao de suas repercusses no Brasil, nos Estados 
Unidos, no hemisfrio e no mundo. Qualquer deciso desse tipo 
seria tomada em Washington, e no no Rio. Repito que, em todo 
caso, a Operao Brother Som no estava equipada para uma 
interveno militar direta e no havia plano para intervir
Em julho de 1990, o embaixador acrescentou:  possvel que 
planejadores militares no Pentgo no ou no Panam tenham 
discutido essa possibilidade, como muitas vezes o fazem em 
planos de contingncia. Nunca houve, porm, discusses desse 
tipo comigo ou na minha presena
Sem guardar relao direta com a profundidade projetada para 
a interveno, mas refletindo o entendimento que tivera da 
participao de seu governo na queda de Joo Goulart, o 
presidente americano Lyndon Johnson costumava dizer que sou 
um presidente caipira, que no foi a Har vard, mas o Brasil 
ainda no virou um pas comunista (Declarao feita ao 
jornalista Hugh Si dey, publicada na revista Life 
International de 17 de outubro de 1966, referida em telegrama 
do Departamento de Estado  embaixada no Rio de Janeiro, de 
10 de dezembro de 1966. ELBI.)
O EXRCITO ACORDOU REVOLUCIONRIO 103
Abatido pela deciso de Kruel, pela adeso do 1 RI e pelo 
agouro de San Tiago, Jango resolveu voar. Determinou ao seu 
piloto que preparas se o Avro presidencial, enquanto tentava 
conseguir um jato da Varig. Va mos, vou sair daqui. Vou para 
Braslia. Isto aqui est se transformando numa ratoeira, 
disse a Raul Ryff. O presidente decolou s 12h45. Pouco 
antes, estivera com o general Moraes ncora, comandante do 1 
Exrcito, que o aconselhara a deixar o Rio. O ministro da 
Guerra, Jair Dantas Ri beiro, telefonara-lhe com o mesmo 
ultimato que Kruel formulara doze horas antes: exigia que 
rompesse com a esquerda. Jango recusou nova mente a oferta, e 
Jair respondeu: A partir desse momento, presidente, no sou 
mais seu ministro da Guerra
O general pulava do barco antes do naufrgio. Seria o nico 
mem bro do ministrio a tentar o transbordo. quela altura, 
j no se servia caf no Laranjeiras. Do segundo andar do 
palcio, a deputada Yara Var gas gritava: O Jango foi 
embora! E pelo tamanho do avio pedido, acho que ele vai para 
o Uruguai
Goulart voou de uma ratoeira para uma arapuca. A partida do 
pre sidente para Braslia precipitou a dissoluo do 
dispositivo no 1 Exr cito. No Nordeste, o IV Exrcito 
estava rebelado, e o governador Miguel Arraes, cercado. As 
tropas de Kruel moviam-se no vale do Paraba. Mu ricy, na 
pequena cidade de Areal, preparava-se para encontrar a coluna 
do general Cunha Melio. No Rio Grande do Sul, onde Jango 
supunha dis por de uma base mais slida, os principais 
entroncamentos ferrovirios estavam obstrudos por rebeldes. 
Num deles, um coronel bloqueara to da uma composio mandada 
a Santa Cruz do Sul para levar a Porto Ale gre o 8 Regimento 
de Infantaria.
Ao meio-dia uns poucos automveis pararam em frente ao quar 
tel-general da Artilharia de Costa, vizinho lindeiro do forte 
de Copaca 62 Hlio Silva, 1964 Golpe ou contragolpe?, p. 
400.
63 Joo Pinheiro Neto, Jango, p. 125.
64 M. Poppe de Figueiredo, A Revoluo de 1964, p. 65.
104
A DITADkJRA ENVERGONHADA
bana. De um dos carros desceu um senhor que, ao ser 
interceptado pela sentinela, deu-lhe um empurro e, de arma 
na mo, entrou no quartel. Era o coronel Cesar Montagna de 
Souza. Atrs dele, armados e gritan do, entrariam dezenove 
oficiais, todos em roupas civis, O comandante da Artilharia 
de Costa, general Antonio Henrique Almeida de Moraes, 
tolerara a rebelio do forte. Limitara-se a pedir ao coronel 
rebelado que mudasse de idia. Como ele no mudou, ficaram de 
um lado os revol tosos com o forte edo outro o general com o 
QG, doze sargentos e vin te soldados. Durante toda a manh a 
revolta e a legalidade confundiram- se pastosamente. Os dois 
quartis no tinham sequer uma cerca a separ-los. Os 
rebeldes entravam pelos fundos do terreno do QG sem ser 
incomodados e sem incomodar o general. Quando a Artilharia de 
Cos ta foi invadida, o tenente-coronel Newton Cruz, um dos 
rebeldes do for te, estava no QG do general Almeida de 
Moraes. Ele conta: Estvamos l dentro, com a situao 
controlada, quando o Montagna entrou. Eles entraram gritando. 
Eu perguntei o que era tudo aquilo e eles gritavam mais, como 
se estivessem num combate. Pensei comigo mesmo: mal, no vai 
fazer No havia razo para aquele espalhafato. O QG estava 
toma do. Foi um golpe contra meia dzia de burocratas que 
estavam l den tro. Uma palhaada
Uma palhaada para quem olhava de dentro para fora. Para quem 
olhava de fora para dentro, a revolta militar que em mais de 
24 horas no produzira uma nica troca de tiros, acabara de 
ter o seu grande momen to. A guarita do QG ficava debaixo das 
janelas da maior emissora de tele viso do pas  a TV Rio  
e parte do episdio fora filmado. Pouco de pois, estava no 
ar, com grande sucesso.
O dispositivo esfacelava-se, mas ainda assim os rebeldes 
no con seguiam levantar unidades importantes do Rio, como a 
Diviso Aeroter restre. O tenente-coronel Hugo Abreu tentara 
rebelar o Regimento Es cola de Cavalaria e fora polidamente 
rechaado: Despedi-me e sa. O coronel no quis nos apoiar, 
mas tambm no me denunciou aos seus
65 General Newton Cruz, 1987, e Mrio Victor, Os cinco anos 
que abalaram o Brasil, p. 531.
66 Para a cena da tomada do QG, Paulo Cesar Ferreira, Pilares 
via satlite  Da rdio Nacional 
Rede Globo, pp. 128-9.
1
O EXRCITO ACORDOU REVOLUCIONRIO 105
superiores Ningum sabia o que poderia acontecer quando 
Cunha Mel- lo e Muricy se encontrassem. A situao militar de 
Muricy era precria. quela altura, porm, nem ele nem seus 
colegas jogavam uma partida mi litar. Jogavam cartadas 
polticas.
A primeira, fulminante, era trazer os indecisos para o lado 
da revol ta, ao menor preo possvel, permitindo que o 
governo fosse deposto sem fraturas sangrentas nas Foras 
Armadas. Isso vinha sendo conseguido de forma brilhante. O 
governo estava por um fio, e em todo o territrio na cional 
no morrera um s soldado. Revoltosos e legalistas conviviam 
bu rocrtica e cavalheirescamente, dentro da doutrina de 
quem no ajuda tambm no atrapalha
Na segunda cartada, tratava-se de decidir o que fazer depois 
que o governo estivesse no cho, de forma a permitir que a 
desordem da re belio fosse imediatamente cauterizada, 
mantendo-se intactas a cadeia de comando e a hierarquia 
militar. Os generais de 1964 queriam evitar a baguna que 
haviam produzido como tenentes em 30, quando o Exr cito, 
lacerado por levantes, levou quase uma dcada para se 
rearrumar, dividido entre tenentes e carcomidos 
rabanetes e picols Co mo disse Cordeiro de Farias, antes 
de comear, revoluo  uma con ta de dividir. Depois de 
vitoriosa,  uma conta de multiplicar. Multipli ca bastante
Buscava-se preservar o mximo possvel de unidade militar, 
esque cendo-se as lealdades e malquerenas da vspera. A pea 
tpica desse cuidado fora o Manifesto dos Generais da 
Guanabara. Redigida por Gol bery na manh de l de abril e 
assinada por Castelio e Costa e Silva, a proclamao acusava 
Jango de ser dominado por um ostensivo conluio com notrios 
elementos comunistas e de ter cado em flagrante ilega 67 
Hugo Abreu, Tempo de crise, pp. 252-3.
68 Chamavam-se carcomidos os oficiais ligados ao governo 
deposto; rabanetes os militares
exaltados que seriam vermelhos por fora e brancos por dentro. 
Picols eram os oficiais que, ex pulsos do Exrcito em 
rebelies anteriores, haviam sido promovidos rapidamente s 
patentes a
que teriam direito se tivessem permanecido na tropa.
69 Aspsia Camargo e Walder de Ges, Meio sculo de combate  
Dilogo com Cordeiro de Farias,
p. 582.
io6        A DITADURA ENVERGONHADA
lidade Fazia um apelo para que, coesos e unidos, 
restauremos a legali dade, e conclua repetindo o refro: 
Camaradas do Exrcito, unamo nos em defesa do Brasil
No final da manh, Castello, Geisel e Golbery estavam 
escondidos num apartamento em Copacabana, artilhados com os 
telefones do an fitrio e de um vizinho. Na sala estava 
tambm o marechal Ademar de Queiroz. Sentia-se no ar o cheiro 
da vitria quando o marechal fi losofou: Agora vem o pior, a 
fase das ambies Por falar em ambies, eles comearam a 
estruturar o novo dispositivo Com papel  mo, listaram os 
nomes dos oficiais e de comandos. Quem onde? resumia 
Ademar.
Do seu aparelho, Costa e Silva sugeriu ao general ncora que 
se ren desse, argumentando que o movimento rebelde tinha 
fora e razes fun das, pois no nascera como tiririca 
ncora, surpreendentemente, in vocou uma promessa feita a 
Jango e pediu para conferenciar com Kruel na Academia Militar 
das Agulhas Negras, a AMAN, a meio caminho entre o Rio e So 
Paulo. O i Exrcito estava grogue, mas ainda no cara. s 
14h30, enquanto num telefonema Costa e Silva dizia a ncora 
que ele es tava perdido, noutro, dois generais que designara 
para levantar unida des na Vila trocavam queixas. Viam que 
tinham desperdiado seu tem po vagando pelas portas de 
quartis da Zona Norte e retornaram ao remanso da Escola de 
Estado-Maior.
ncora chegou  AMAN no meio da tarde, disposto a render-se, 
mas
Kruel s apareceu s dezoito horas. Em Areal, sem a tropa do 
12 RI,
Cunha Meilo percebeu que defendia uma legalidade sem 
retaguarda. Mu 70 Glauco Carneiro, Histria das revolues 
brasileiras, pp. 523-4, e Luiz Viana Filho, O governo
Castello Branco, p. 27.
71 John W. F. DulIes, Castelio Branco  O caminho para a 
Presidncia, pp. 349-50.
72 Dirio de Heitor Ferreira, 31 de agosto de 1972. APGCS/HF.
73 Hernani dAguiar, A Revoluo por dentro, p. 148. Para a 
hora do telefonema, Jayme Porteila
de Melio, A Revoluo e o governo Costa e Silva, p. 178.
74 Uma explicao para o atraso de Kruel est em Eurilo 
Duarte, 32 mais 32, igual a 64 em Alber to Dines e outros, 
Os idos de maro e a queda em abril, p. 151. Viajando num 
comboio de trs viatu ras, seu carro enguiou, e os outros 
dois distanciaram-se, deixando-o, em uniforme de campanha
no meio da estrada. Foi socorrido por uma patrulha da Polcia 
Rodoviria, que o levou a Resende.
O EXf ACORDOU REVOLUCIONRIO 107
ricy mandara-lhe um recado informando que como cavalheiro 
no da ria o primeiro tiro sem avis-lo. Antes do pr-do-sol 
o general enviou um emissrio ao comandante rebelde. Sabia do 
encontro da AMAN e jul gava-se sem comandante. Queria retrair 
sua tropa, mas pedia aos revol tosos que s avanassem duas 
horas depois de sua retirada, para que ela no parecesse 
fuga. Muricy deu-lhe uma hora de vantagem e comeou a descer 
a serra.
O que Jango pretendeu ao mandar ncora falar com Kruel, no 
se sabe. Do seu campo partiam mensagens desencontradas. De um 
lado, in formava-se que havia pedido a Juscelino Kubitschek 
que tentasse uma me diao com o governador Magalhes 
Pinto.76 De outro, o chefe de seu Ga binete Civil, Darcy 
Ribeiro, planej ara a ocupao do Congresso e convocara ao 
palcio do Planalto dois dirigentes do Partido Comunista 
Brasileiro. Um deles era o deputado federal Marco Antnio 
Coelho, velho conheci do de Darcy, que o recrutara para o PCB 
em 1942.78 Para esse encontro h duas verses e uma elipse. 
Uma, que circulou na poca, foi confirmada ao autor em julho 
de 1969 por Darcy e em 88 por Marco Antnio. O professor 
teria oferecido aos comunistas submetralhadoras e uma lista 
de polticos que deveriam ser executados. Nela estariam os 
nomes do presidente do Supremo Tribunal Federal (lvaro 
Ribeiro da Costa), do presidente do Senado (Auro Moura 
Andrade) e de alguns parlamenta res, entre os quais Milton 
Campos e Bilac Pinto. A oferta foi rejeitada. Darcy no 
registrou esse fato em suas memrias. Na elipse, lembrou-se 
que, nessa tarde, deu ordens incumprveis Em 1999 Marco 
Antnio
75 General Antonio Carlos Muricy, agosto de 1988.
76 Senador Edmundo Levy, em Dirio do Congresso Nacional, 2 
de abril de 1964, p. 685.
77 Para a ocupao do Congresso por cerca de mil 
trabalhadores acantonados no teatro Nacio nal, ver Darcy 
Ribeiro, Confisses, p. 355.
78 Entrevista de Marco Antnio Coelho, em Alberto Dines, 
Florestan Fernandes Jr. e Nelma Sa lomo (orgs.), Histrias 
do poder, vol. 1: Militares, Igreja e sociedade civil, p. 68.
79 A confirmao de Darcy ocorreu em julho de 1969, durante 
uma convivncia de duas sema nas no Batalho de Comando do 
Corpo de Fuzileiros Navais, na ilha das Cobras.
80 Marco Antnio Coelho, agosto de 1988, no que se refere  
reunio com os representantes do
PCB. O outro dirigente comunista era Walter de Souza Ribeiro, 
desaparecido em 1974. Marco Antnio
Tavares Coelho, Herana de um sonho, p. 268.
81 Darcy Ribeiro, Confisses, p. 355.
108        A DITADURA ENVERGONHADA
concluiu suas memrias e, duvidando de sua lembrana, 
registrou uma situao diferente. As armas, com certeza, 
limitavam-se a um fuzil-me tralhadora. O propsito teria sido 
prender, e no matar, as pessoas que constavam da lista. Os 
comunistas responderam que no se lanariam a atos de 
terrorismo
No edifcio de mrmore branco e vidros verdes da embaixada 
ame ricana, no centro do Rio, o embaixador Gordon, preocupado 
com a aglo merao popular na Cinelndia, a trezentos metros 
de seu gabinete, man dara levar os documentos secretos para o 
ltimo andar do prdio e determinara que se desligasse o 
sistema de ar refrigerado do edifcio, para evitar um 
incndio caso a embaixada fosse atacada.
O que Kruel pretendeu indo se encontrar com ncora em Resende 
j parece mais claro. Jango estava no cho, vivia-se a fase 
das ambies, e o comandante do ii Exrcito, que comeara a 
decidir a parada ao aban donar o presidente, tinha um 
fantasma  sua frente: o seu velho inimigo Castelio Branco e 
todo aquele grupo de oficiais que passara a girar em torno do 
chefe do Estado-Maior. Um passo em falso, e Casteilo poderia 
ultrapass-lo. ncora chegou  AMAN em estado deplorvel, 
abatido por uma crise de asma. Os dois generais entenderam-
se. O i Exrcito se ren deria, e o general Costa e Silva, 
conforme proposta de Kruel, assumiria o Ministrio da Guerra. 
Pelo manual, na ausncia de titular, o cargo ca bia ao chefe 
do Estado-Maior do Exrcito.
Castelio sabia disso. s 17h45 saiu da clandestinidade, tomou 
um car ro e foi visitar o forte de Copacabana, onde 
resolveram homenage-lo, como se fosse o novo ministro, com 
uma salva de 24 tiros dos velhos ca nhes Schneider. Ao 
quinto disparo espalhou-se o pnico na Zona Sul, e a salva 
foi interrompida, sendo assim cinco os cartuchos de 
artilharia consumidos em todo o pas. O general demorou-se um 
pouco e saiu para o quartel-general.
82 Marco Antnio Coelho, agosto de 1999.
83 Lincoin Gordon, agosto de 1988.
84 Jos Stacchini, Maro 64, pp. 99 e 102-3.
85 John W. E Dulies, Casteilo Branco  O caminho para a 
Presidncia, p. 353.
o CXRCITO ACORDOU RCVOLUCIONRIO 109
Chegou s vinte horas. Logo depois, apareceu Costa e Silva. 
Foi ao
gabinete de Casteilo, onde estava Geisel, tratar do futuro.
O ento tenente-coronel Leonidas Pires Gonalves, saindo do 
banhei ro, cuja porta ficava no corredor do gabinete de 
Castello, presenciou o
seguinte dilogo de Geisel com Costa e Silva:
 Por que o senhor no vai assumir o i Exrcito?
 Porque eu vou assumir essa coisa toda  respondeu Costa e 
Sil va, elevando a voz.
Costa e Silva assumiu na marra. Seu cacife estava no apoio de 
Kruel,
que via no tropeiro de passado inexpressivo uma barreira 
eficaz para cor tar o caminho de Castello.
Essas manobras pareciam no ter importncia para a classe 
mdia do Rio de Janeiro, que enfeitava com papel picado a 
forte chuva que caa so bre a cidade. No tinham importncia 
tambm para o governador Carlos Lacerda, que, aos prantos, 
falava pelo telefone com a TV Rio: Obrigado, meu Deus, muito 
obrigado Nem eram relevantes para o governador de So Paulo, 
Adhemar de Barros, que atribua a vitria da rebelio a mais 
um milagre de Nossa Senhora Aparecida, de quem se dizia 
devoto. Tambm no mereciam a ateno da embaixada americana, 
onde Gordon anuncia va a Washington que a revolta 
democrtica est 95% vitoriosa Tratando do futuro, informava 
que comeamos um trabalho de equipe sobre pos sveis 
necessidades de ajuda em segurana interna, estabilizao 
financeira etc?. Tudo isso com o ar-refrigerado religado. A 
essa altura a embaixada sovitica queimava papis, com medo 
de ser atacada. Sensao geral de alvio escreveu em seu 
dirio o poeta Carlos Drummond de Andrade.
86 General Leonidas Pires Gonalves, agosto de 1998.
87 Mensagem da embaixada no Rio de Janeiro ao Departamento de 
Estado, de 1 de abril de 1964.
BLBJ.
88 Entrevista de Nikolai V. Mostovietz, chefe do Departamento 
de Amricas do pcus em 1964, a
Jaime Spitzcovsky, Folha de S.Paulo, 27 de maro de 1994, B-
2, Caderno Especial 30 anos depois.
89 Jos Maria Canado, Os sapatos de Orfeu  Biografia de 
Carlos Drummond deAndrade, p. 290.
110
A DITADURA ENVERGONHADA
O governo de Joo Goulart se desmanchara. s quatro da tarde 
de 12 de abril de 1964, os cinco tanques M-41 do 12 Regimento 
de Reconhe cimento Mecanizado, sob o comando do tenente 
Freddie Perdigo Pe reira, fizeram o percurso emblemtico das 
derrotas, indecises e vit rias da jornada. A coluna de 
Perdigo guardava a entrada do parque Guinle, sobre o qual 
est encarapitado o palcio Laranjeiras. Tivera a so berba 
misso de proteger o presidente. Jango voara para Braslia, e 
o te nente vigiava um porto no caminho de um casaro vazio. 
Convidado a aderir ao levante por um major da ESCEME, 
Perdigo justificou-se: no o fizera ainda porque sua unidade 
continuava leal ao governo e tambm porque temia a reao dos 
quatro sargentos de seu peloto. Mais tarde, chegou-se a um 
acordo. Os sargentos ficaram com um dos tanques e re 
gressaram ao quartel, enquanto Perdigo saiu com os outros 
quatro, tri pulados por cabos.
O tenente percorreu a curta distncia que separa o palcio 
Laran jeiras do Guanabara. Minutos depois, os ferros que 
protegiam o gover no de Jango passaram a guarnecer Lacerda e 
a revolta. Os tanques do te nente Perdigo chegaram 
antecedidos por um Volkswagen em cujo estribo subiu o major 
Etchegoyen, que estava pela redondeza, procurando uma 
trincheira. Em questo de minutos criou-se a lenda herica 
segundo a qual aqueles tanques, sob o comando do major, 
salvaram o Guanabara, Lacerda e o Brasil. Lacerda abraou o 
carona e chorou. Fizeram-se foto grafias e discursos. O 
tenente Perdigo perdeu-se na multido. Sua ope rosidade s 
voltou a ser necessria no dia seguinte, quando se tratou de 
devolver os tanques  garagem do RecMec. No caminho, ele 
cruzou com os primeiros agrupamentos da primeira celebrao 
pblica da nova or dem, a Marcha da Vitria.
Jango passou em Braslia apenas o tempo necessrio para notar 
que
trocara de ratoeira. Na capital o presidente do Senado, Auro 
Moura An
90 Depoimento de Freddie Perdigo Pereira, em Jos Amaral 
Argolo e outros, A direita explosiva no Brasil, pp. 246-7, e 
Hernani dAguiar, A Revoluo por dentro, pp. 162-3.
91 Depoimento de Perdigo, em Jos Amara! Argolo e outros, A 
direita explosiva no Brasil, p. 247. Ver tambm Hernani 
dAguiar, A Revoluo por dentro, p. 162. E, ainda, Boletim 
n 1 (Colaborao de jornalistas que esto cobrindo a crise no 
palcio Guanabara, 1 de abril de 1964) em Mauro Magalhes, 
Carlos Lacerda, o sonhador pra gmtico, pp. 181-6.
O EXRCITO ACORDOU REVOLUCIONRIO 111
drade, preparava a associao do Congresso  rebelio. 
Militarmente, era um pobre. Dispunha de seis submetralhadoras 
e doze fuzis. Politicamen te, encarnava com sua voz de baixo 
um Congresso que j percebera o fim do governo. s 22h30 o 
presidente abandonou a granja do Torto e voou para Porto 
Alegre num Avro da FAB. Nem sequer passou pelo palcio do 
Planalto para limpar a mesa ou o cofre. Deixou  mulher, 
Maria There za, uma linda gacha de 27 anos, a tarefa de 
tirar os filhos da cama, jun tar algumas malas e segui-lo 
para o Sul. Ela viajou com um tailleur, duas mudas de roupa e 
uma bolsa de maquiagem. O avio em que embar caria pousou no 
Torto com a ajuda de automveis com faris acesos a balizar a 
pista.
Enquanto o presidente voava para o Rio Grande do Sul, Auro 
Mou ra Andrade, baseado nos fatos e no regimento declarou 
vaga a Presi dncia da Repblica e organizou uma cerimnia 
bizarra. No meio da madrugada, acompanhado pelo presidente do 
Supremo Tribunal Fe deral, rumou para o palcio do Planalto. 
Levava consigo o deputado Ra nieri Mazzilli, que, como 
presidente da Cmara, seria o sucessor de Jan go, caso a 
Repblica estivesse acfala. Formaram a menor comitiva de 
posse de um presidente da histria republicana. Atravessaram 
a praa dos Trs Poderes nuns poucos automveis e encontraram 
o Planalto s escuras. O deputado Luiz Viana Filho subiu as 
escadas com a ajuda de fsforos acesos e a certa altura viu-
se ao lado de Robert Bentley, o jovem secret rio de 
embaixada encarregado das relaes parlamentares da represen 
tao americana em Braslia. O comandante da Regio Militar, 
general Nicolau Fico, passara as ltimas horas aceitando 
ordens de Costa e Silva e de Darcy. Quando Mazzilli comeou a 
ser empossado, a legalidade, re presentada por Darcy e Fico, 
estava no piso de cima. Encontraram-se na escurido. Deu-se 
uma discusso em torno da lealdade do general. Darcy chamou-o 
de macaco traidor (estou vendo os plos crescendo no seu
92 Auro Moura Andrade, Um Congresso contra o arbtrio, pp. 
235-6.
93 Para as roupas, entrevista de Maria Thereza Goulart a Luiz 
Antonio Ryff, Folha de S.Paulo,
23 de novembro de 1997, Brasil 1-6.
94 Grandes momentos do Parlamento brasileiro, 1999. CD-4, 
trilha 4.
95 Luiz Viana Filho, O governo Casteilo Branco, p. 46.
112        A DITADURA ENVERGONHADA
corpo) e foi-se embora. Um empurro, dado no Rio por um 
coronel numa sentinela, e um insulto humilhante, imposto em 
Braslia por um professor a um general, simbolizaram a 
violncia dos combates na c pula do regime e na vanguarda da 
rebelio.
Na rua, a revolta militar saiu mais cara. No Recife dois 
estudantes foram mortos quando uma passeata marchou para o 
palcio das Prin cesas e se encontrou com as tropas que o 
cercavam. Alguns manifestan tes davam vivas ao Exrcito 
brasileiro quando se ouviram alguns dis paros. Chegou-se a 
pensar que eram balas de festim do dispositivo No Rio de 
Janeiro militares atiraram contra manifestantes que se haviam 
reu nido em frente ao Clube Militar, na Cinelndia. Ainda 
assim, na conta bilidade das quarteladas latino-americanas, a 
deposio do presidente Joo Goulart foi praticamente 
incruenta. Custou sete vidas, todas civis, nenhu ma em 
combate.
A posse do deputado Ranieri Mazzilli na Presidncia era 
inconsti tucional, visto que Joo Goulart ainda se encontrava 
no Brasil. Preenchia, contudo, a necessidade de um desfecho 
aparentemente legtimo. O De partamento de Estado americano 
estava pronto para receb-lo desde se tembro de 1963. Em 
poucas horas a Casa Branca e a embaixada no Rio comearam a 
discutir o texto e a oportunidade de uma nota do presiden te 
Lyndon Johnson reconhecendo o novo governo brasileiro. A 
Consti tuio determinava que, em caso de vacncia da 
Presidncia na segunda metade do mandato do seu titular, a 
vaga deveria ser preenchida pelo Con gresso. Mazziili no 
tinha biografia que lhe permitisse durar. Como in formava a 
CIA  Casa Branca no dia 2 de abril, Ranieri Mazzilli acumu 
96 Waidir Pires, junho de 2002. Darcy Ribeiro, Confisses (p. 
355), e depoimento de Waidir Pires
em Caros Amigos, n 12, maro de 1998, ano 1, pp. 34-6.
97 No dia 1 de abril morreram sete pessoas. No Rio de 
Janeiro, em frente  Faculdade Nacional de Direito, foi 
baleado Ari de Oliveira Mendes Cunha; na Cinelndia, Labib 
Elias Abduch; na Fa culdade Nacional de Filosofia, o 
estudante Antnio Carlos Silveira Alves, baleado acidentalmen 
te quando a arma de um colega caiu no cho. No Recife, a 
tropa do Exrcito que cercava o pal cio das Princesas matou 
os estudantes Ivan Rocha Aguiar e Jonas Jos Albuquerque. Em 
Governador Valadares, Minas Gerais, pistoleiros 
arregimentados pelo delegado da cidade mataram Augusto Soares 
da Cunha e seu filho, Otvio Soares da Cunha. (Otvio, 
baleado no rosto, morreu no dia 4 de abril.) Nilmrio Miranda 
e Carlos Tibrcio, Dos filhos deste solo, pp. 545-7 e 558. 
Ver tambm Dossi dos mortos e desaparecidos polticos a 
partir de 1964, pp. 41-6.
O EXRCITO ACORDOU REVOLUCIONRIO 113
lou considervel fortuna, mas sua riqueza no veio de 
herana. Ela foi ame alhada ao longo de uma dura ascenso 
burocrtica
Enquanto Mazzilli tomava posse no Planalto, o Avro AC2501 
pousa va em Porto Alegre com o presidente. Durante o resto da 
madrugada de 2 de abril Jango explorou a fantasia da 
resistncia. Foi para a casa do co mandante do iii Exrcito 
escoltado pela Companhia de Guarda, reuniu- se com Brizola, 
colecionou notcias desastrosas e teve uma crise de cho ro. 
No incio da manh, como sucedera no Rio e em Braslia, viu-
se novamente na ratoeira. O general Floriano Machado entrou 
no quarto onde estava o presidente e avisou: Tropas de 
Curitiba esto marchando sobre Porto Alegre. O senhor tem 
duas horas para deixar o pas se no quiser ser preso.
s 11h45 Jango voou com o general Assis Brasil para a Fazenda 
Ran cho Grande, em So Borja, onde j estavam Maria Thereza e 
seus filhos. A permanncia na mais conhecida de suas fazendas 
era uma temeri dade. Assis Brasil organizara uma segurana 
precria valendo-se dos pees. Garantindo-se, mantiveram 
abastecidos os trs avies da proprie dade. Tomaram um C-47 e 
mandaram-se para um rancho s margens do rio Uruguai. 
Esconderam o avio no mato. O presidente cozinhou um 
ensopadinho de charque com mandioca enquanto fazia seus 
planos. Queria ir para o Xingu, no meio da mata amaznica. 
Fazer o qu, no se sabe.
Nas barrancas do rio Uruguai, Joo Goulart viveu os ltimos 
mo mentos de seu aniquilamento poltico num estado de 
deprimente soli do.  conhecida a orfandade dos fracassos, 
mas alguns aspectos do com portamento dos generais de Jango 
acabaram por engrandecer sua pequena figura. Desde o momento 
em que Moraes ncora lhe sugeriu que dei xasse o Laranjeiras 
at a hora em que Floriano Machado lhe disse que fugisse do 
Brasil, os oficiais do dispositivo praticamente enxotaram o
98 Perfil do presidente Ranieri Mazzilli, Central 
Inteiligence Agency, 2 de abril de 1964. BLBJ.
99 Para a chegada de Jango, M. Poppe de Figueiredo, A 
Revoluo de 1964, p. 67. Para os aconteci mentos na casa do 
comandante do III Exrcito, Jos Wilson da Silva, O tenente 
vermelho, pp. 103-8.
100 Entrevista do general Argemiro de Assis Brasil  revista 
Manchete, em 1979. Em Jos Wilson
da Silva, O tenente vermelho, pp. 125-7.
114        A DITADURA ENVERGONHADA
presidente, do Rio para Braslia, de Braslia para Porto 
Alegre e de Porto Alegre para o diabo que o carregasse, desde 
que fosse para longe de suas biografias. Faziam isso em 
derradeira tentativa de buscar a qualquer pre o um acordo 
que lhes salvasse as dragonas.
As excees se deram no meio civil. Numa sesso da Cmara em 
que se tomara o cuidado de evitar a conflagrao da madrugada 
anterior e se pusera em votao um projeto que isentava de 
impostos os equipamen tos para o beneficiamento do sisal, o 
deputado petebista Zaire Nunes afun dava atirando: O meu 
Estado, o Rio Grande do Sul, que vinha pelas suas foras 
vivas resistindo ao golpe  fui informado h poucos minutos  
cessou. O povo gacho foi tambm esmagado por essas foras 
que se uni ram contra as aspiraes de libertao nacional
O governo que se instala o faz na base da tirania e da 
ditadura, de nunciava o deputado Fernando Santana, eleito 
com os votos comunistas
da Bahia.
Quando Jango contou a Assis Brasil que estava pensando em ir 
para uma fazenda no Xingu, o general rebateu: O senhor vai 
sozinho? Eu te nho que me apresentar ao Exrcito, porque caso 
contrrio serei consi derado desertor Passou algum tempo, e 
o assunto voltou. O general foi mais fundo: O senhor vai 
acabar sendo jogado numa ilha qualquer co mo Fernando de 
Noronha. Tem duas crianas e uma mulher. Pode agentar, mas 
ser que essas crianas resistiro, com o pai na priso? 
Comearam a traar o caminho da fuga. Numa folha de caderno 
es colar, o presidente escreveu uma nota ao governo uruguaio 
pedindo asi lo. Esse texto nervoso, onde grafou Rep. em vez 
de Repblica, foi entregue ao piloto que levara Maria 
Thereza e os dois filhos para Mon tevidu.
101 Dirio do Congresso Nacional, sesso de 2 de abril de 
1964, p. 1990.
102 Idem, p. 1993.
103 Entrevista do general Argemiro de Assis Brasil  revista 
Manchete, em 1979. Em Jos Wilson
da Silva, O tenente vermelho, pp. 125-7.
104 O destinatrio da carta era seu amigo Joo Alonso 
Mintegui, adido comercial da embaixada
do Brasil em Montevidu. Jango datou-a de 4 de abril, mas 
segundo Juan Carlos Mintegui, filho
do adido, ela foi escrita no dia 3. Entrevista de Mintegui a 
Jos Mitchell, Jornal do Brasil, 29 de no vembro de 1992, p. 
16, com a reproduo do manuscrito.
O EXRCITO ACORDOU REVOLUCIONRIO 115
 solido do pampa contrapunha-se a ansiedade de Braslia e 
Wash ington. Joo Goulart estava mais que deposto, mas o 
artigo 85 da Cons tituio s permitia que a Presidncia 
fosse declarada vaga se ele dei xasse o pas sem autorizao 
do Congresso. Jango continuava em Rancho Grande quando o 
embaixador Ljncoln Gordon avisou a Washington:
Estou confuso diante da situao jurdica discutvel que 
envolve a pos se de Mazzilli, nesta manh. A declarao do 
presidente do Congresso, senador Moura Andrade, de que a 
Presidncia ficou vaga, no tem o am paro do voto dos 
parlamentares. O presidente do Supremo Tribunal Fe deral 
dirigiu a cerimnia de posse de Mazzilli, mas no tinha o 
ampa ro de um voto da Corte. Trs horas depois a questo 
parecia resolvida. Gordon revelava que, segundo um informe 
confivel, o presidente es tava voando para Montevidu, 
aonde chegaria a qualquer momento.
Enquanto isso, os americanos conversavam. Em Braslia, Auro 
reu niu-se com o chefe da representao americana na capital. 
No Rio, o ge neral Castelio Branco encontrou-se com o coronel 
Vernon Walters, seu amigo desde a guerra na Itlia. Na 
embaixada, Gordon redigiu o rascu nho do que haveria de ser a 
cerimoniosa indicao do lado para o qual a bandeira 
americana tremulava: um telegrama de felicitaes do presi 
dente Lyndon Johnson a Mazzilli.
Jango continuava nas barrancas do rio Uruguai. De l 
decolaria duas vezes, sempre em direo s suas fazendas. 
Durante as 72 horas em que vagou pelo pampa, descendo em 
quatro de suas propriedades, compor tou-se mais como um 
estancieiro administrando uma longa ausncia do que como um 
governante que procura se manter no poder. Ele s che gou a 
Montevidu no dia 4, mas isso j no tinha a menor 
importncia. Johnson telegrafara a Mazzilli na noite do dia 2 
apresentando-lhe calo rosos votos de felicidade e 
proclamando que as relaes de amizade e cooperao entre 
nossos dois governos e povos representam um grande legado 
histrico e arma preciosa para os interesses da paz, da 
prosperi dade e da liberdade neste hemisfrio e no mundo Por 
via das dvidas,
105 Teleconferncia das quinze horas GMT do dia 2 de abril, 
entre a embaixada americana no Rio
de Janeiro e a Casa Branca. Marcos S Corra, 1964 visto e 
comentado pela Casa Branca, p. 136.
106 Idem, p. 137.
116        A DITADURA ENVERGONHADA
cortou-se um trecho da minuta, evitando-se dizer que a posse 
se dera de
acordo com as disposies constitucionais
A Operao Brother Sam foi desativada, e o comandante da 
frota ins trudo para camuflar a movimentao atravs de uma 
simulao de ma nobras de combate. Era quase meia-noite de 2 
de abril em Washington quando o Departamento de Estado saiu 
do ar e o subsecretrio George Bali mandou uma mensagem 
pessoal ao embaixador Lincoin Gordon: Fe licitaes a voc e 
a sua equipe pelos nervos firmes e bons conselhos du rante o 
perodo crtico, e pelos excelentes relatrios sob condies 
de gran de confuso. Boa noite e parabns
A grande confuso mal comeara. Mazzilli era um presidente 
sem futuro e Costa e Silva, chefe revolucionrio sem passado. 
Tomara o Mi nistrio da Guerra com o propsito de empalmar o 
poder sem aprofun dar rachaduras no meio militar. Enquanto as 
rdios e televises anuncia vam que houvera uma revoluo, 
ele se comportava como se eia realmente tivesse ocorrido. A 
partir da manh de i de abril a conduta audaciosa de Costa e 
Silva encontra poucos paralelos nas quarteladas nacionais. 
Mis turou habilidade e intolerncia, tendo sempre como 
objetivo a constru o de uma base de poder nos quartis. Se 
em alguns momentos sua con duta pareceu ridcula, no foi 
dele a culpa. Pelo contrrio, o general teve a clarividncia 
de tomar atitudes extravagantes, numa situao que, por si, 
extravagncias exigia.
Costa e Silva despachou a todas as unidades militares um 
radiogra ma, informando que se sagrara dono da coisa toda:
O Exmo. Sr. General Armando de Moraes ncora, nomeado hoje 
minis tro da Guerra interino, deixou este cargo em cerimnia 
que contou com a presena de todos os generais. Dada a 
situao de fato criada com os lti 107 Marcos S Corra, 
1964 Visto e comentado pela Casa Branca, pp. 138-9.
108 Idem, pp. 51 e 139.
O EXdRCITO ACORDOU REVOLUCIONRIO 117
mos acontecimentos, comunico que, em virtude de ser o membro 
do Alto- Comando mais antigo, assumi na mesma cerimnia o 
comando do Exr cito Nacional.
General-de-Exrcito Arthur da Costa e Silva
Comandante do Exrcito Nacional.
O Brasil tomava conhecimento da existncia do general Arthur 
da Costa e Silva atravs de um documento prodigioso. Afora a 
data  12 de abril  o radiograma no continha uma nica 
afirmao verdadeira. A saber:
1. A nomeao do general ncora para ministro da Guerra era 
uma fantasia. S uma pessoa podia nome-lo, precisamente 
aquela que esta va sendo deposta: Joo Goulart. (A mentira 
destinava-se a sugerir aos quar tis que a mudana tinha sido 
feita de acordo com o protocolo, a disci plina e a norma 
administrativa.)
2. ncora no deixou o cargo durante uma cerimnia nem a 
ela compareceram todos os generais No compareceram sequer 
os dois co mandantes da revolta. Mouro Filho e Muricy 
ouviram a notcia na ser ra, pelo rdio de seus carros. 
Mouro suspeitava que desejassem frit-lo e descia 
preocupadssimo em chegar na Guanabara antes do Kruel 
Quando ouviu que Costa e Silva assumira, teve uma crise de 
angina e bri gou com a mulher. (A mentira destinava-se a 
fornecer s guarnies distantes a idia de que no quartel-
general reinavam a paz e a unidade, sem vencedores nem 
vencidos.)
3. A expresso membro do Alto-Comando mais antigo carece de 
sentido. Como o Alto-Comando  formado pelos generais de 
quatro es trelas em funo no Exrcito, integr-lo 
significava, por definio, me recer alguma confiana do 
presidente da Repblica. Costa e Silva era um
109 Nelson Dimas Filho, Costa e Silva, p. 71. H outra Verso 
dessa nota, num manuscrito mais
extenso redigido por Geisel e copiado sob o ttulo de Nota 
para a imprensa e rdio No se re feria a ncora, mencionava 
a presena dos generais que estavam na Guanabara. Nela Costa 
e Sil va assumia as funes de Comandante-em-chefe do 
Exrcito Nacional
110 Olympio Mouro Filho, Memrias, pp. 320 e 382.
n8        A DITADURA ENVERGONHADA
general de quatro estrelas com assento no Alto-Comando por 
deciso do presidente Joo Goulart. J o general Cordeiro de 
Farias, mais antigo que Costa e Silva e Jair, era um quatro-
estrelas sem comisso e, portanto, sem assento no Alto-
Comando, igualmente por deciso do presidente, que, por todos 
os motivos, no confiava nele. (A mentira destinava-se a dar 
a idia de que Costa e Silva ocupava o ministrio pelo 
imperativo de uma qualificao hierrquica.)
4. Costa e Silva referiu-se a uma situao de fato criada 
com os l timos acontecimentos No definiu nem qualificou a 
situao nem os acon tecimentos. (A ambigidade destinava-se 
a manter aberto o porto aos indecisos. Um oficial outrora 
ligado ao dispositivo poderia se constran ger em aderir a 
uma revoluo que buscava a deposio do presidente, mas 
ficaria mais a gosto se aceitasse uma genrica situao de 
fato cria da por indefinidos ltimos acontecimentos
5.0 telex comea dizendo que um ministro interino  ncora 
 deixara seu cargo e termina informando que Costa e Silva 
assumira o co mando do Exrcito nacional. Ou seja, dentro do 
regulamento e de acor do com o cerimonial, recebera um cargo, 
mas assumira outro. Se isso fos se pouco, o cargo de 
comandante do Exrcito simplesmente no existia. (Ao 
atribuir-se um cargo inexistente, Costa e Silva fabricava a 
percepo de que dele no podia ser demitido.)
Na diviso do butim militar, Costa e Silva assenhoreou-se do 
i Exr cito, nomeando para comand-lo o general-de-diviso 
Octaclio Terra Uru rahy, o Gordo. Para Mouro Filho, a 
notcia no fazia sentido. Ele co meara o levante e agora 
seria subordinado de um trs-estrelas que, alm de estar sem 
comisso, nada tivera a ver com a revolta. Chegou ao quar 
tel-general s 2h30 do dia 2 de abril, e disseram-lhe que o 
ministro esta va dormindo. Mandou acord-lo e reclamou, 
dizendo que, pelo regula mento, o lugar de Ururahy lhe 
pertencia. De fato, em caso de vacncia do comando, ele 
deveria ocup-lo, por ser o general mais antigo em ser vio 
no i Exrcito. Costa e Silva explicou-se: Foi tudo 
resolvido na base
11 Se a antiguidade desse a Ururahy precedncia sobre Mouro, 
Cordeiro a teria sobre o prprio
Costa e Silva.
O EXRCITO ACORDOU REVOLUCIONRIO 119
da hierarquia. Assumi o comando por ser o mais antigo aqui no 
Rio e o Ururahy o general-de-diviso mais antigo. Eu quis 
colocar o Gordo co mo mola, pra-choque entre mim e a tropa 
do i Exrcito. Ele no veio comandar nada. No se preocupe, 
velho, isto vai dar certo. [
No dia seguinte o ministro teve uma idia. Sugeriu-lhe que 
assumis se a presidncia da Petrobrs em nome do comando 
revolucionrio.
Mouro gostou.
Na Escola de Comando e Estado-Maior, o tenente-coronel Newton 
Cruz surpreendeu-se ao ver um oficial controlando a entrada 
do prdio. Tinha nas mos duas tabelas e marcava um pauzinho 
para quem entrava, outro para quem saa. Perguntou-lhe o que 
era aquilo e soube que eram ordens do coronel Joo Baptista 
Figueiredo, encarregado de distribuir misses aos voluntrios 
da nova ordem. Foi saber de Figueiredo por que razo man dara 
o oficial riscar pauzinhos. Ele veio aqui pedir uma misso. 
Eu no ti nha nada para mandar ele fazer e disse-lhe que 
fizesse precisamente isso. Para que ele faa alguma coisa. O 
levante transbordava em apoios.
Na distribuio dos grandes comandos, Ademar de Queiroz 
obtivera para o general Orlando Geisel a 1 Diviso de 
Infantaria. Era a Vila Militar, unidade mais poderosa do i 
Exrcito. Uma semana antes o ministro Jair Dan tas Ribeiro 
conseguira que Jango assinasse a promoo de Orlando a ge 
neral-de-diviso. O irmo, Ernesto, ficara com o comando da 
Artilharia de Costa, uma posio turstica. Rejeitou-o. 
Manteve-se no crculo prximo a Castelio, em cujo gabinete a 
movimentao era tamanha que alguns con diibulos ocorriam em 
seu espaoso banheiro, onde se puseram cadeiras.
O chefe do Estado-Maior emergia como o mais forte candidato a 
pre sidente. Estava suficientemente ligado aos conspiradores 
civis para ter a confiana de Lacerda, em quem ele e a mulher 
votaram para vereador, deputado e governador. Somava ao seu 
prestgio militar um verniz le
12 Olympio Mouro Filho, Memrias, pp. 383 e 322. Para a hora 
da chegada de Mouro, Jayme
Portelia de Meilo, A Revoluo e o governo Costa e Silva, p. 
152.
113 Olympio Mouro Filho, Memrias, p. 324.
114 General Newton Cruz, fevereiro de 1988.
115 Ernesto Geisel, novembro de 1994.
16 John W. F. DuIles, Carlos Lacerda A vida de um lutador, 
vol. 2:1960-1977, p. 250.
120        A DITADURA ENVERGONHADA
galista que acalmava o juscelinismo. Atendia a todos os que 
desejavam um general esquentando a cadeira at a eleio do 
novo presidente, em outubro do ano seguinte. Oposio real ao 
seu nome s houve mesmo a de Costa e Silva. O comandante do 
Exrcito argumentara que era im possvel haver uma s 
candidatura militar e que a disputa levaria  divi so das 
Foras Armadas. Depois, sustentara que a presena de um ge 
neral no palcio reeditaria a rivalidade havida entre os 
marechais Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto no amanhecer 
da Repblica. Escalava- se para o papel de Floriano.
At as primeiras horas da manh do dia 2 o poder militar de 
Cos ta e Silva era uma inteno bem encaminhada porm ainda 
no com provada. Ele se intitulava comandante do Exrcito 
nacional, mas nun ca o Exrcito tivera tantos comandantes. 
Castelio indicava generais, Kruel candidatava-se  condio 
de vice-rei do Sul, e a Escola de Esta do-Maior preparava 
leis. A surpreendente vitria do levante, bem como a cautela 
para no dividir os quartis entre vencedores e vencidos, po 
tencializava a balbrdia tpica dos golpes. Nessa hora o 12 
Grupo de Obu ses 105, na Vila Militar, ficou com dois 
comandantes. Orlando Geisel man tivera o titular e devolvera 
ao quartel-general o tenente-coronel enviado pelo gabinete do 
ministro. No era o primeiro que rebarbava. Assim, an tes de 
chegar  antinomia Deodoro x Floriano, Costa e Silva teve de 
re solver outro conflito, tambm antigo: o do ministro com o 
comandan te da Vila. O regime de 1964 ainda no completara um 
dia. No havia sequer governo, mas Costa e Silva imps-se com 
uma canetada. Demi tiu Orlando Geisel.
A unidade militar proclamada sobre os escombros do governo 
Gou lart era to falsa quanto aquela que Golbery oferecera no 
texto de seu ma nifesto na manh de 12 de abril. Contudo, se 
os generais podiam diver gir a respeito de muitas coisas, 
numa estavam de acordo: dispunham-se a utilizar a fora 
contra o que restava do governo civil. Queriam isso no s 
porque achavam necessrio o expurgo  limpeza da casa, como 
di 117 Armando Falc8o, Tudo a declarar, p. 259.
118 Jayme Porteila de Melio, A Revoluo e o governo Costa e 
Silva, p. 187.
119 Idem,p. 156.
r -
O EXRCITO ACORDOU REVOLUCIONRIO        121
ziam  mas tambm porque ele se transformaria imediatamente 
em fon te de poder e legitimidade burocrtica.
Nenhum general janguista dormiu preso nas horas seguintes  
vi tria do levante. Pelo contrrio, na noite de 1 de abril 
Orlando Geisel li bertou seu colega Almeida de Moraes, detido 
na Escola Superior de Guer ra. Quando o coronel Joo Paulo 
Burnier desembarcou no 112 andar do Ministrio da Aeronutica 
vestindo botas, macaco de vo, capacete de ao e trazendo 
granadas na cintura e submetralhadora na mo, os bri gadeiros 
e coronis que estavam no gabinete do ministro riram. Cos ta 
e Silva chegou a visitar o ex-ministro Jair Dantas Ribeiro no 
dia 4, ca so nico de cortesia para com um ministro deposto. 
As tropas de Mouro Filho desceram a serra sem um s tiro, 
sequer um protesto.
Joo Goulart caiu no dia 12 de abril. O regime de 1946, nos 
dias se guintes. Por conta da radicalizao que levara o 
conflito para fora do cr culo estrito das cpulas poltica e 
militar, a vitria no podia extinguir- se com a deposio do 
presidente. Fosse qual fosse o lado vitorioso, ao seu triunfo 
corresponderia um expurgo poltico, militar e administrati 
vo. O levante se apresentara como um movimento em defesa da 
ordem constitucional, mas a essncia dos acontecimentos 
negava-lhe esse cami nho. Seria impossvel imaginar Joo 
Goulart no Uruguai e seu cunhado Leonel Brizola na Cmara. Da 
mesma forma que teria sido inconcebvel, na hiptese da 
derrota de Mouro, a permanncia do governador Maga lhes 
Pinto no palcio da Liberdade. A questo da pureza 
constitucional nem sequer se colocava. Alguns comandantes 
militares, agindo por pr pria conta, j haviam aprisionado 
os governadores Miguel Arraes, de Pernambuco, e Seixas Dria, 
de Sergipe.
Na sua edio de 2 de abril a Tribuna da Imprensa pedia a 
cassao dos direitos polticos do comando civil 
janguista. Foram inmeras as
propostas de demolio das franquias constitucionais. Uma das 
primei-
120 Dirio de Heitor Ferreira, 1 de abril de 1964. APGCS/HF.
121 Depoimento do brigadeiro Joo Paulo Burnier, em Jos 
Amaral Argolo e outros, A direita ex plosiva no Brasil, p. 
195.
122 Tribuna da Imprensa, 2 de abril de 1964, em O Rio de 
Janeiro atravs dos jornais  1888-1969,
de }oo Marcos Weguelin: 
<http:Ilwww.uol.com.brlrionosjornaislrj47,htrn>.
122        A DITADURA ENVERGONHADA
ras foi mandada a Costa e Silva pelo empresrio Antonio 
Gallotti, presi dente da Light, empresa de capital canadense 
concessionria da produ o e distribuio de energia 
eltrica no Rio de Janeiro e em So Paulo. Golbery guardou 
consigo uma outra, intitulada Decreto Institucional. Pre via 
a suspenso das garantias constitucionais por seis meses, a 
cassao dos direitos polticos e o banimento de Jango, de 
trs governadores e de uma quantidade indefinida de deputados 
e senadores. Uma terceira pro posta vinha do jornalista 
Julio de Mesquita Filho, proprietrio dO Esta do de S. 
Paulo. Redigida com a colaborao do advogado Vicente Ro, ca 
tedrtico de Direito Civil da Universidade de So Paulo e 
ministro da Justia no Estado Novo, foi a primeira a chamar-
se Ato Institucional. Sugeria a dissoluo do Senado, Cmara 
e assemblias legislativas, anulava o man dato dos 
governadores e prefeitos, suspendia o habeas corpus e pressu 
punha que seria o primeiro de uma srie. Um quarto projeto, 
chama do Ato Operacional Revolucionrio, cujo texto  
desconhecido, foi farejado pela CIA no dia 5. de abril. 
Previa o expurgo do Congresso como recurso extremo, capaz de 
evitar o seu fechamento. Conhece-se tambm um manuscrito, 
produzido no Ministrio da Aeronutica, em que, alm dos 
expurgos civis, propunha-se o banimento de militares 
comunistas.
Oito notveis do Congresso reuniram-se em Brasilia para mais 
um pro jeto. Entre eles estava a fina flor do liberalismo do 
regime de 1946. Chega ram a uma frmula pela qual os 
expoentes da ordem deposta perderiam os direitos polticos 
por quinze anos. A idia de mutilar o corpo poltico do pas 
era defendida at mesmo pelo cardeal do Rio de Janeiro, d. 
Jaime de Barros Cmara, para quem punir os que erram  uma 
obra de miseri crdia. Cada um dos participantes da reunio 
de Braslia sangrou um pouco de sua biografia libertria. O 
gacho Daniel Krieger, girondino exal 123 Antonio Gallotti, 
dezembro de 1985.
124 Duas folhas manuscritas, sem data nem assinatura. 
APGCS/HF.
125 Jos Stacchini, Maro 64, p. 18, para a autoria e 
proposta, e pp. 22-4, para a ntegra.
126 Telegrama da agncia Rio de Janeiro da Central 
Inteiligence Agency para Washington, de 6
de abril de 1964. BLBJ.
127 Alberto Dines, Florestan Fernandes Jr. e Nelma Salomo 
(orgs.), Histrias do poder, VOl. 1:
Militares, Igreja e sociedade civil, pp. 360-1.
128 John W. F. DulIes, Castelio Branco  O caminho para a 
Presidncia, p. 384.
O EXRCITO ACORDOU REVOLUCIONRIO 123
tado e valente; o mineiro Adaucto Lcio Cardoso, audaz e 
elegante, signa trio do Manifesto dos mineiros contra a 
ditadura de Vargas; Ulysses Gui mares, ex-ministro de Jango. 
Tentavam fugir avanando, pois como o Con gresso no se 
dispunha a cassar os mandatos da bancada esquerdista, 
firmara-se um acordo tcito segundo o qual a violncia viria 
de fora. A ma nobra falhou grosseiramente, pois na noite do 
dia 8, quando um emiss rio levou o texto a Costa e Silva, 
ele recusou a ajuda. J tinha munio.
Desde o incio da tarde de tera-feira, 7 de abril, o jurista 
Francisco Campos estava no gabinete do general. Autor da 
Carta de 1937, ltimo ins trumento ditatorial da Repblica 
brasileira, Chico Cincia era um minei ro mido, autoritrio, 
brilhante e extrovertido. Chegou ao Ministrio da Guerra 
acompanhado pelo ex-colaborador e amigo Carlos Medeiros Sil 
va, que, em 1937, datilografara e revira em segredo toda a 
Constituio. Me deiros aprontara no domingo, dia 5, um Ato 
Constitucional Provisrio que previa uma fornada de cassaes 
de mandatos e suspenses de direitos po lticos pelo prazo 
mximo de cinco anos. Casteilo e Costa e Silva recebe ram 
cpias do Ato Provisrio entre a madrugada e a manh de 
segunda- feira, dia 6.130 Reunido com Costa e Silva e um 
grupo de generais, Francisco Campos captou neles uma vontade 
de praticar a violncia poltica, inibi da pelo escrpulo de 
atropelar a Constituio. Agitado, andando de um ge neral 
para outro, atirou: Os senhores esto perplexos diante do 
nada!. E deu uma aula sobre a legalidade do poder 
revolucionrio. Era o que eles precisavam ouvir. Perguntaram-
lhe do que precisava para redigir uma proclamao: Papel e 
mquina de escrever respondeu. Mostraram-lhe a proposta 
mandada por Gallotti, e ele a julgou obra de amanuense.
129 Daniel Krieger, Desde as Misses, pp. 171-2. Para o 
depoimento de Ulysses Guimares a res peito desse episdio, 
ver Luiz Gutemberg, Mo iss, codinome Ulysses Guimares, pp. 
180 e segs. Tam bm formavam o grupo os deputados Martins 
Rodrigues, Bilac Pinto, Paulo Sarasate, Pedro Alei xo e Joo 
Agripino.
130 Mao de seis folhas manuscritas, de Carlos Medeiros 
Silva, duas das quais com um rascunho do Ato Constitucional 
Provisrio. AA. Para a data, Ato Institucional de 9 de Abril 
de 1964, de Carlos Medeiros Silva. AA.
131 Para a cena de Francisco Campos, Carlos Medeiros Silva, 
1968. Em 1972 Carlos Medeiros es creveu um depoimento 
intitulado Ato Institucional de 9 de Abril de 1964. Nele h 
uma narrativa formal desses episdios, sem o monlogo de 
Campos. AA.
124 A DITADURA ENVERGONHADA
O Ato Constitucional Provisrio de Carlos Medeiros, ligeiramente modificado, transformou-
se num Ato Institucional com onze artigos que expandia os poderes do Executivo, limitava os do 
Congresso e do judicirio, e dava ao presidente sessenta dias de poder para cassar mandatos e 
cancelar direitos polticos por dez anos, bem como seis meses para demitir funcionrios pblicos 
civis e militares."' Campos deu-lhe a introduo, verdadeiro crebro, articulando o argumento da 
subverso jacobina que o quartel-general buscava fazia vrios dias: "A Revoluo vitoriosa se 
investe no exerccio do Poder Constitucional. Este se manifesta pela eleio popular ou pela 
Revoluo. Esta  a forma mais expressiva e mais radical do Poder Constituinte" 133
Como escreveu dias depois o cronista Rubem Braga, todas as vezes que se acendiam as luzes 
do professor Chico Cincia, dava-se um curtocircuito nas instituies republicanas.
Fardado, o general Olympio Mouro Filho chegou com uma escolta  praa Pio x, sede da 
Petrobrs. Era o smbolo do novo regime e ia assumir a presidncia da empresa. Foi recebido pelo 
secretrio-geral, Amaro Alonsi Belo, o Dr. Belo.
O veterano petroleiro explicou ao general que por mais que o ministro Costa e Silva 
desejasse v-lo no comando da Petrobrs, s um ato do presidente da Repblica poderia investi-lo 
na funo. Feito isso, precisaria trazer uma carteira de identidade (provando que era brasileiro nato) 
e um recibo de cauo de aes da empresa, visto que s um acionista poderia exercer a sua 
presidncia. Mouro explicou que estava ali em nome da Revoluo. 0 Dr. Belo concordou, 
insistindo em que os documentos eram indispensveis, por determinao do estatuto da Petrobrs. 
Ademais, eram documentos fceis de ser providenciados. Coisa de um dia, no mximo. 0 general 
aceitou a ponderao do vete
132 Todas as verses do Ato Constitucional Provisrio estabelecem prazo de cinco anos para as cassaes. 0 primeiro documento com 
referncia a dez anos  uma folha manuscrita, de caligrafia desconhecida, em papel timbrado do Ministrio da Guerra. AA.
133 Paulo Bonavides e Roberto Amaral, Textos polticos da histria do Brasil, vol. 7, p. 485. No stio do Centro Brasileiro de 
Estudos Latino-Americanos: <http://www.cebela.org.br/txtpolit/so-cio/vo17/G 273.html>.
O EXRCITO ACORDOU REVOLUCIONRIO 125
rano burocrata, deu uma entrevista anunciando seu programa de 
ao na empresa e voltou para Juiz de Fora. Quando se deu 
conta, o ma rechal Ademar de Queiroz, com os papis em ordem, 
assumira a pre sidncia da Petrobrs.
No dia 11 de abril, depois de um concilibulo de governadores 
e ge nerais destinado a evitar a coroao de Costa e Silva, o 
general Humber to de Alencar Castello Branco foi eleito 
presidente da Repblica pelo Con gresso Nacional, como 
mandava a Constituio. Prometeu entregar, ao iniciar-se o 
ano de 1966, ao meu sucessor legitimamente eleito pelo po vo 
em eleies livres, uma nao coesa Em 1967 entregou uma 
nao dividida a um sucessor eleito por 295 pessoas.
134 Olympio Mouro Filho, Memrias, p. 324. Para a 
identificao do funcionrio que recebeu o general, e para as 
outras exigncias mencionadas na conversa, Ernesto Geisel e 
Humberto Barre to, outubro de 1994. Para a entrevista, Carlos 
Luiz Guedes, Tinha que ser Minas, pp. 239-40.
PARTE ii A violncia
O mito do fragor da hora
Existiu uma identidade, uma relao e um conflito entre o 
regime insta lado em 1964 e a manifestao mais crua da 
essncia repressiva que o Es tado assumiu na sua obsesso 
desmobilizadora da sociedade: a tortura.
Durante os 21 anos de durao do ciclo militar, sucederam-se 
pe rodos de maior ou menor racionalidade no trato das 
questes polti cas. Foram duas dcadas de avanos e recuos, 
ou, como se dizia na po ca, aberturas e endurecimentos 
De 1964 a 1967 o presidente Casteilo Branco procurou exercer 
uma ditadura temporria. De 1967 a 1968 o marechal Costa e 
Silva tentou governar dentro de um sistema consti tucional, e 
de 1968 a 1974 o pas esteve sob um regime escancaradamen te 
ditatorial. De 1974 a 1979, debaixo da mesma ditadura, dela 
come ou-se a sair. Em todas essas fases o melhor termmetro 
da situao do pas foi a medida da prtica da tortura pelo 
Estado. Como no primei ro dia da Criao, quando se tratava 
de separar a luz das trevas, podia- se aferir a profundidade 
da ditadura pela sistemtica com que se tor turavam seus 
dissidentes.
No incio e no fim dessa partida entre a tortura e a 
sociedade esto os generais Ernesto Geisel e Golbery do Couto 
e Silva. Ambos participa ram dos primeiros lances da 
construo, em 1964, de um aparelho repres sivo incapaz de 
conviver com um regime constitucional. Geisel, coloca Para a 
caracterstica desmobilizadora do regime, ver Peter 
McDonough, Power and ideology in
Brazil, p. 13.
130        A DITADURA ENVERGONHADA
do por Castelio na chefia do Gabinete Militar da Presidncia, 
estava no olho do furaco da usina de punies polticas 
instalada no amanhecer do regime. Golbery, concebendo, 
organizando e dirigindo o Servio Na cional de Informaes, 
criou o ncleo da rede de espionagem e repres so que, a 
partir de 1968, tomaria conta do Estado.
Segundo a embaixada americana, nas semanas seguintes  deposi 
o de Joo Goulart prenderam-se pouco mais de 5 mil pessoas. 
Pela pri meira vez desde a ditadura de Getulio Vargas, levas 
de brasileiros deixa ram o pas como exilados. J no dia 7 de 
abril, o general Adalberto Pereira dos Santos, comandante da 
68 Diviso de Infantaria, no Rio Grande do Sul, propunha ao 
Alto-Comando da Revoluo que se reintroduzisse o banimento 
na vida poltica nacional: Ser medida de autodefesa e da 
mais elementar profilaxia, a deportao dos principais 
lderes do governo de posto, civis e militares Isso foi 
feito atravs de um processo tcito. En tre 1964 e 1966 
passaram pelas embaixadas latino-americanas do Rio de Janeiro 
e pela embaixada da Iugoslvia, a nica que funcionava em Bra 
slia, cerca de quinhentos asilados polticos. Montevidu e 
Buenos Aires receberam alguns milhares de brasileiros fugidos 
pela fronteira, entre os quais o presidente Joo Goulart e 
Leonel Brizola.
Por meio da suspenso das garantias constitucionais o 
Executivo va leu-se da prerrogativa de cassar mandatos 
eletivos, suspender os direi tos polticos de cidados e 
anular o direito  estabilidade dos funcion rios pblicos 
civis e militares. Criou-se a figura do cassado termo 
depreciativo pelo qual se designaram, por mais de uma dcada, 
as vti mas do regime. Entre 1964 e 1966 cerca de 2 mil 
funcionrios pblicos foram demitidos ou aposentados 
compulsoriamente, e 386 pessoas ti-
2 Um memorando enviado pelo Departamento de Estado  Casa 
Branca no dia 6 de maio de 1964 calculava que naquela data os 
presos eram pouco mais de 5 mil. Gordon Chase a McGeorge 
Bundy, Arrests and Suspensions in Brazil. BLBJ. No dia 8 de 
abril a embaixada inglesa calculava as prises em 3500. 
Geraldo Cantarino, 1964A revoluo para ingls ver, p. 109. 
No h um n mero oficial de prises. Elas podem ter passado 
de 5 mil. Admitindo-se que tenham sido 7 mil, esse  o piso 
dos clculos do total de presos no perodo de represso  
revolta comunista de 1935. R. S. Rose, Uma das coisas 
esquecidas  Getlio Vargas e controle social no Brasil 1930-
1954, p. 91. 3 Trs folhas datilografadas, anexas a uma carta 
de 7 de abril de 1964 do general Adalberto Perei ra dos 
Santos ao ministro Costa e Silva. APGCS/HF.
O MITO DO FRAGOR DA HORA 131
veram seus mandatos cassados e/ou viram-se com os direitos 
polticos
suspensos por dez anos.
Nas Foras Armadas 421 oficiais foram punidos com a passagem 
com-
pulsria para a reserva, transformando-se em mortos vivos, 
com paga mento de penses aos familiares. Pode-se estimar que 
outros duzentos
foram tirados da ativa atravs de acertos, pelos quais 
escaparam do ex-
purgo pedindo uma passagem silenciosa para a reserva. Somados 
todos
os expedientes, expurgaram-se 24 dos 91 generais.
Sete em cada dez confederaes de trabalhadores e sindicatos 
com
mais de 5 mil associados tiveram suas diretorias depostas. 
Estimando-
se que cada organizao de trabalhadores atingida tivesse 
vinte dirigen tes, expurgaram-se 10 mil pessoas. Retomara-se 
o padro repressivo praticado pela ditadura de Getulio 
Vargas.
Nos primeiros nove meses do regime morreram mais treze 
pessoas,
nmero indiscutivelmente baixo nas estatsticas do golpismo 
latino-ame-
ricano, porm mdio para as quarteladas nacionais. Nove 
teriam se sui cidado, quatro pulando de janelas. Um deles, o 
ferrovirio Jos de Sou-
4 Lcia Klein e Marcus F. Figueiredo, Legitimidade e coao 
no Brasil ps-64, pp. 155 e 171.
5 Almanaque do pessoal militar do Exrcito, de 1964 e de 
1965. Exemplo de cassao persuasria
deu-se com o general Aluizio de Miranda Mendes, comandante da 
2 Diviso de Infantaria, em
So Paulo. Sustentculo do dispositivo at as ltimas horas 
da noite de 31 de maro de 1964, pe diu passagem para a 
reserva meses depois.
6 Kenneth Paul Erickson, Sindicalismo no processo poltico no 
Brasil, p. 209.
7 Almir Pazzianotto Pinto, Sindicatos, corporativismo e 
poltica, na coletnea 21 anos de regime
militar, organizada por Glucio Ary Dillon Soares e Maria 
Celina dAraujo, p. 108.
8 Afora os sete mortos do dia i de abril, morreram mais treze 
pessoas ao longo de 1964. Alm de Jos de Souza, no dia 8 de 
abril, em conseqncia de uma queda, morreu Astrogildo 
Pascoal Vianna, tesoureiro da Federao Nacional dos 
Estivadores. No dia 13, segundo o 1 Exrcito, o sar gento Edu 
Barreto Leite pulou do oitavo andar do prdio onde morava, 
quando se viu na imi nncia de ser preso. Denncias 
publicadas no Correio da Manh de 27 de setembro de 1964 do 
conta de que ele teria sido jogado da janela de um prdio da 
Polcia do Exrcito. Dois teriam se matado enquanto resistiam 
 priso. Segundo o Exrcito, o sargento Bernardino Saraiva 
matou- se com um tiro na cabea depois de ferir um soldado da 
escolta que fora prend-lo, em So Leo poldo (Rs), no dia 14 
de abril. Em maio, segundo a polcia, o comerciante Carlos 
Schirmer deu- se um tiro no queixo, em Divinpolis (MG). Dois 
outros suicidas teriam se envenenado: Albertino de Oliveira, 
presidente da Liga Camponesa de Vitria do Santo Anto, em 
abril, e Pedro Domien se de Oliveira, em maio, na Bahia. O 
nono suicida, Pricles Gusmo Rgis, teria cortado os pul 
sos, em maio, no quartel onde estava preso, na Bahia. No dia 
9 de maio, por conta daquilo que o
132        A DITAIJURA ENVERGONHADA
za, depois de trs dias de cativeiro no edifcio da Polcia 
Central do Rio de Janeiro, voou do terceiro andar, caindo no 
ptio interno, no dia 17 de abril de 1964. Esse ptio atraa 
suicidas desde 1936, quando a polcia in formou que o 
advogado comunista Victor Allan Barron e o assassino de um 
dos policiais que prenderam Luiz Carlos Prestes percorreram a 
mes ma trajetria.
No dia 2 de abril, no Recife, o dirigente comunista Gregrio 
Bezer ra foi amarrado seminu  traseira de um jipe e puxado 
pelos bairros po pulares da cidade. No fim da viagem, foi 
espancado por um oficial do Exrcito, com uma barra de ferro, 
em praa pblica. Machucado e sen tado no cho do ptio do 
quartel da Companhia de Motomecanizao, no bairro da Casa 
Forte, Gregrio Bezerra foi visto na noite de 2 de abril 
pelos espectadores da TV Jornal do Commercio, que o 
filmara. Epis dios semelhantes repetiram-se em algumas 
cidades do pas. Eram par te do jogo bruto provocado pela 
radicalizao dos ltimos anos. O me do entrara na transao 
poltica. De sua coluna diria no jornal Correio da Manh, do 
Rio de Janeiro, Carlos Heitor Cony, primeira voz deste mida a 
denunciar as violncias, escrevia, no dia 7 de maio: Para 
aten der a essa gente, a todos os Joes de Tal que no 
voltaram ou no volta ro um dia, espero merecer a ateno e 
o respeito de todos. preciso que algum faa alguma coisa. E 
j que no se pode mais pedir justia, peo caridade
Exrcito chamou de conseqncias naturais, morreu no Rio o 
sargento Manuel Alves de Olivei ra, preso desde abril. Em 
agosto matou-se Dilermano Meio do Nascimento, tenente da 
reserva do Exrcito e veterano da Fora Expedicionria 
Brasileira, que ocupara o cargo de diretor da Divi so de 
Material do Ministrio da Justia no governo Goulart. Depois 
de um interrogatrio na sede do prprio ministrio, jogou-se 
do quarto andar, tendo deixado um bilhete onde dizia: Basta 
de tortura mental. Basta de desmoralizao. Em setembro 
desapareceram na Paraba os lavradores Joo Alfredo Dias e 
Pedro Incio de Arajo, vice-presidente da Liga Camponesa de 
Sap. Pedro Incio fora preso no dia 8 de maio e levado para 
o 1 5 Regimento de Infantaria. Sua mulher foi visit-lo no 
dia 10 de setembro, e o 15 RI informou que ele fora posto em 
liberdade no dia 7. Dos vinte mortos de 1964 s um, de acordo 
com a verso oficial, morreu em confronto armado. No dia 4 de 
abril, o coronel Roberto Hiplito da Costa matou a tiros seu 
colega Alfeu de Alcntara Monteiro. Dados em Nilmrio Miranda 
e Carlos Tibrcio, Dos filhos deste solo, p. 311.
9 Stanley Hilton, Brazil and the Soviet chalienge  1917-1 
947, pp. 82-3.
10 Paulo Cavalcanti, O casaco conto, como o caso foi, p. 361.
11 Carlos Heitor Cony, O ato e ofato, p. 76.
O MITO DO FRAGOR DA HORA        133
A violncia ia alm dos Joes de Tal ou dos dirigentes 
comunistas. No dia 2 de junho, Cony publicou em sua coluna 
uma carta de Dilma Arago, filha do almirante Cndido Arago, 
o comandante dos fuzilei ros navais de Joo Goulart. Ela 
conseguira visitar o pai, capturado no dia 2 de abril e preso 
havia dois meses na fortaleza da Lage, na entrada da baa de 
Guanabara. Dizia: Encontrei-o relegado a uma condio to de 
primente que s um verme cheio de peonha mereceria ter. [ O 
espec tro de homem que vi chora e ri desordenadamente, e no 
consegue ar ticular uma frase sequer, no mesmo assunto. O 
desespero me faz pedir, por esmola, que cobrem o crime 
(poltico) de um ser humano, mas na condio de seres 
humanos.
O tratamento dado pela Marinha ao almirante Arago rompia, 
pela primeira vez em mais de meio sculo, o cdigo pelo qual, 
a despeito das divergncias polticas, os oficiais das Foras 
Armadas podiam esperar de seus colegas um comportamento de 
cavalheiros.
Vinte anos depois, rememorando esses dias, Golbery observava:
Nos meses seguintes  Revoluo houve excessos. Eu achava que 
tudo no passava de acontecimentos produzidos pelo calor da 
hora, como, por exem plo, o que fizeram com o Gregrio 
Bezerra. Voc no faz uma omelete sem quebrar ovos. Casos 
como esse, as levas de exilados e os problemas indivi duais 
provocados pela reao emocional, me pareciam tolerveis 
porque haveriam de ser controlados no futuro. Alm disso, eu 
achava que muitas das denncias eram fruto do exagero. 
Outras, por certo, eram produto de condutas ignorantes. Quem 
no se lembra daquele caso da patrulha que apreendeu os 
exemplares do romance O vermelho e o negro, de Stendhal? Mas, 
numa hora dessas, que se h de fazer?
Nos primeiros dias, houve de fato o predomnio da paixo e 
at do
medo dos vitoriosos. Nem mesmo o mais otimista dos 
conspiradores
12 Carlos Heitor Cony, O ato e ofato, p. 117.
13 Golbery do Couto e Silva, 1983.
134
A DITADURA ENVERGONHADA
acreditara que o governo do presidente Joo Goulart, com seu 
apoio sir dical e seu louvado dispositivo militar, casse 
to rpida e facilment De um lado e do outro esperou-se, por 
alguns dias, a temida reao dc camponeses, dos operrios, 
dos esquerdistas em geral, mas era fantasi mtua.
A represso poltica, porm, emanava do corao do regime e t 
nha uma nova qualidade. No se tratava mais de espancar o 
notrio d. rigente comunista capturado no fragor do golpe. A 
tortura passara a s praticada como forma de interrogatrio em 
diversas guarnies mil; tares. Instalado como meio eficaz 
para combater a corrupo e a sul:
verso, o governo atribua-se a megalomanaca tarefa de 
acabar cor ambas. O instrumento desse combate eram os 
inquritos policial militares (IPM5), abertos em todos os 
estados e submetidos, inicialmeri te, ao controle de uma 
comisso geral de investigaes, CGI, chefiada pc um 
marechal. Pode-se estimar que os IPM5 abertos entre 1964 e 
196 tenham sido mais de cem e menos de duzentos, resultando 
em proces sos judiciais para cerca de 2 mil pessoas. 
Apuravam desde a subver so nas universidades at a corrupo 
no governo federal. Cada in qurito era presidido por um 
oficial, a quem se dava a autonomia d autoridade policial.
Pode-se dizer que, em cada dez IPMS, nove eram conduzidos com 
estrito respeito s garantias dos acusados. Era comum que se 
convocas sem por carta ou at por editais publicados na 
imprensa os depoentes sa bidamente incriminados. Numa pequena 
percentagem, a tortura era pr tica acessria s 
investigaes. Isso na represso poltica. Na defesa d 
moralidade pblica, muito mais um ingrediente de propaganda 
do qu um compromisso efetivo, a batalha durou pouco. Nos 
primeiros mese do que se denominava Operao Limpeza, o 
presidente da CGI, o ma rechal Estevo Taurino de Rezende, 
reconheceu que o problema do co munismo perde expresso 
diante da corrupo administrativa nos lti mos anos e se 
confessava abatido pela extenso das irregularidades j 
verificadas, pois mesmo sendo triste para um soldado ter de 
dizer ist
14 O Projeto Brasil: nunca mais catalogou 2127 nomes de 
pessoas processadas, ressalvando qm
havia cidados indiciados em mais de um 1PM. Brasil: nunca 
mais, p. 85.
O MITO DO FRAGOR DA HORA 135
[ a impresso  de que, se fosse tudo apurado, o Brasil se 
esvaziaria Ao encerrar suas atividades, em novembro de 1964, 
a CGI examinara 1110 processos envolvendo 2176 pessoas e 
recomendara punies para 635.16 Enquanto isso, s um 1PM, o 
da rebelio dos marinheiros, indiciara 839 cidados, levara 
284 a julgamento e terminara com 249 condenaes, to das a 
penas superiores a cinco anos de priso. Nenhum larpio foi 
con denado a metade disso.
Perseguir subversivos era tarefa bem mais fcil do que 
encarcerar cor ruptos, pois se os primeiros defendiam uma 
ordem poltica, os outros acei tavam quaisquer tipos de 
ordens. Fariam parte do regime, fosse qual fos se. Poderosas 
eram suas conexes. O 1PM da UNE engordou, mas o da 
Previdncia Social foi ao arquivo. Tendo incriminado diversos 
funcion rios, tomou um contravapor quando o cardeal-
arcebispo do Rio de Ja neiro, d. Jaime Cmara, colocou um 
deles sob a proteo de sua prpu ra, visitando-o em seu 
gabinete. Como dizia o ministro Roberto Campos, do 
Planejamento, ao presidente Castelio: Se continuarem a 
varrer todo o tempo o p da cozinha, no terei condies para 
comear a cozinhar
Aos poucos, a ordem revolucionria teve de conviver tanto com 
os corruptos como com os torquemadas que, infiltrando-se nas 
cabeceiras do regime, desejavam fazer do combate  ladroeira 
uma alavanca para o poder pessoal. Nasceu nessa poca a 
expresso linha dura Designava os ultra-revolucionrios, 
mas tambm um grupo de oficiais que, alm de radicais, 
atravessavam com facilidade a fronteira da indisciplina. 
Geisel haveria de defini-los como os zurrapas Sua face mais 
exibida eram oficiais que usavam os IPMs como forma de 
afirmao de um poder pa ralelo ao do presidente da 
Repblica.
Sua base espalhava-se pelos quartis, e sua articulao 
agrupava os
descontentamentos  direita do regime. Golbery via nela uma 
emotivi 15 Correio da Manh, 28 de maio de 1964.
16 Idem, 1 de novembro de 1964.
17 Projeto Brasil: nunca mais, tomo III: Perfil dos 
atingidos, p. 124.
18 Ivo Cailiari, D. Jaime Cmara, p. 595.
19 Roberto Campos, A lanterna na popa  Memrias, p. 725.
20 Dirio de Heitor Ferreira, 15 de abril de 1975. APGCS/HF.
136        A DITADURA ENVERGONHADA
dade primria porm sincera, bem-intencionada, positiva, 
moralista, ditatorial e anti-reformista. A linha dura 
opunha-se ao desejo do pre sidente Casteilo Branco de limitar 
os poderes excepcionais de que dis punha, para normalizar a 
vida poltica nacional. Pelo Ato Institucional fora-lhe dada 
a prerrogativa de cassar mandatos parlamentares e de sus 
pender direitos polticos de cidados. O Ato baixado em abril 
no tinha nmero, pois seria o nico. Desde os primeiros dias 
do seu governo, Cas tello esteve espremido entre a 
indisciplina e sua preocupao em con ter a violncia 
poltica. Ele dizia que o clima provocado pelas cassaes era 
pior do que a Inquisio e argumentava: Cada episdio fora 
da lei  um passo atrs na opinio pblica [ e uma restrio 
no estran geiro. No sou somente presidente de expurgos e 
prises. desabafou.
 significativo que essa frase, transformada em epgrafe e 
compro vao biogrfica do liberalismo de Castello, tenha 
sido encontrada nu ma carta dirigida ao tenente-coronel Helio 
Ibiapina, seu amigo, que ser via no iv Exrcito. Quando 
Castello escreveu essa carta, j ocorrera um notvel encontro 
entre Ibiapina e d. Helder Cmara, arcebispo de Olin da e 
Recife, em que o coronel dissera:
Muitas vezes o senhor tem vindo ao iv Exrcito reclamar de 
torturas con tra presos polticos. Traz os nomes e as 
torturas a que estes homens foram submetidos e no sei como 
consegue estas informaes. Invoco o seu tes temunho para 
dizer que nunca neguei que as torturas existissem. Elas exis 
tem e so o preo que ns, os velhos do Exrcito, pagamos aos 
jovens. Caso tivessem os oficiais jovens empolgado o poder os 
senhores estariam hoje reclamando, no de torturas, mas de 
fuzilamentos. Ns torturamos para no fuzilar.
21 Apreciao Geral n lo, do SNI, de 2 de novembro de 1964. 
APGcs/HF.
22 Carta de Castelio Branco ao coronel Helio Ibiapina, de 10 
de setembro de 1964. APHACB.
23 John W. F. Duiles, Castello Branco, o presidente 
reformador, p. 62.
24 Marcio Moreira Alves, Torturas e torturados, p. 25.
O MITO DO FRAGOR DA HORA 137
Casteilo queria um ato institucional que durasse s trs 
meses. As sinou trs. Queria que as cassaes se limitassem a 
uma ou duas dezenas de dirigentes do regime deposto. Cassou 
cerca de quinhentas pessoas e demitiu 2 mil. Seu governo 
durou 32 meses, 23 dos quais sob a vigncia de outros 37 atos 
complementares, seis deles associados aos poderes de barao e 
cutelo do Executivo. Debaixo da Constituio que conclamou os 
seus subordinados a defender em maro de 1964, manteve-se 
apenas nove meses. Era um oficial de formao liberal, sem 
dvida, mas faltou- lhe, em diversas ocasies, a vocao para 
o risco.
O Casteilo demorava demais sobre os problemas. Voc ia a ele 
e pro punha uma linha de ao. Ele esperava e, dias depois, 
perguntava se no era o caso de se fazer o que voc sugerira. 
Ora, quela altura a sugesto tinha perdido o valor. A ao 
proposta j era incua. A situao muda ra recordou Geisel.
O presidente recua, recua, at a hora em que ele sente a 
gua do rio
molhando-lhe o traseiro. A  que ele resolve atacar, 
repetia no palcio
Laranjeiras o tenente-coronel Gustavo Moraes Rego.
Na origem dessa vacilao estava um ingrediente de natureza 
pol tica: o medo de perder a base militar, dividindo-a e 
tornando-se vulne rvel a uma revanche das foras depostas e, 
sobretudo, aos ataques de seus adversrios polticos que 
rondavam quartis, tipos que menosprezava: Vi vandeiras 
alvoroadas, vm aos bivaques bulir com os granadeiros e pro 
vocar extravagncias do Poder Militar
Poucas foram as pocas em que os granadeiros praticaram 
tantas ex travagncias. Uma crise em torno dos helicpteros e 
avies do velho na vio-aerdromo Minas Gerais envenenou por 
dois anos as relaes entre a Marinha e a Aeronutica, custou 
a cadeira de dois ministros de cada la do e acabou produzindo 
at mesmo um tiroteio no aerdromo de Tra 25 Com os Atos 
Complementares, o presidente da Repblica legislava dentro do 
esprito do Ato
Institucional, livre da deliberao do Congresso e da 
apreciao do Judicirio. Essa figura surgiu
em outubro de 1965.
26 Ernesto Geisel, 1981.
27 General Gustavo Moraes Rego, 1984.
28 Discurso de Castelio Branco no Estado-Maior do Exrcito, 
25 de agosto de 1964. APGCS/HF.
138        A DITADURA ENVERGONHADA
manda, no Rio Grande do Sul. Narrado pelo prprio Castelio, 
o inciden te resultara da conjugao das indisciplinas de um 
almirante provocador que mandara um helicptero pousar numa 
base da FAB e de um briga deiro-bufo que ordenara aos seus 
oficiais a sua captura. A eles se junta ram um capito-de-
fragata que pousara sem licena da torre e um ma jor que se 
julgara capaz de prend-lo e mandara dois capites passarem 
fogo no helicptero. Por pouco a base no foi invadida por um 
destaca mento de fuzileiros navais.
O que houve em 1964 no foi uma revoluo. As revolues 
fazem- se por uma idia, em favor de uma doutrina. Ns 
simplesmente fizemos um movimento para derrubar Joo Goulart. 
Foi um movimento contra, e no por alguma coisa. Era contra a 
subverso, contra a corrupo. Em primeiro lugar, nem a 
subverso nem a corrupo acabam. Voc pode re primi-las, mas 
no as destruir. Era algo destinado a corrigir, no a cons 
truir algo novo, e isso no  revoluo, explicaria o 
general Ernesto Gei sel em 1981.
Castello vacilara, mas no fim de seu mandato construra-se 
uma ten tativa de constitucionalizao do regime. Apesar da 
anarquia e da indis ciplina que o atazanaram, seu governo foi 
o que mais contribuiu para a profissionalizao das Foras 
Armadas brasileiras em toda a histria do pas. Acabou com a 
patente de marechal. Com mais de cem, o Brasil ti nha mais 
militares com essa patente do que os exrcitos da Frana e da 
Inglaterra, ao longo de todas as guerras do sculo. Conteve 
tambm o sistema de promoes cumulativas que levara um 
coronel como Golbery a passar para a reserva como general-de-
diviso, promovido  segunda estrela pelo simples fato de ter 
sado da ativa e  terceira por ter partici pado da FEB. 
Finalmente, mudou a estrutura da cpula militar brasilei ra, 
alterando-lhe o sistema de clculo para a aposentadoria 
compuls 29 Exposio do presidente Castelio Branco aos 
ministros da Marinha e da Aeronutica, de 6 de
janeiro de 1966. APGCS/HF.
30 Ernesto Geisel, 1981.
31 Estimativa feita com base no fato de que em 1975 o Brasil 
ainda tinha 73 marechais. Dirio de
Heitor Ferreira, 27 de maio de 1975. APGCS/HF.
O MITO DO FRAGOR DA HORA 139
ria. Essa foi sua maior obra. Modificou para sempre a 
essncia e a am plitude da participao dos militares na 
poltica.
Pelo sistema antigo, os generais-de-brigada iam para a 
reserva aos 62 anos, os generais-de-diviso aos 64 e os 
generais-de-exrcito aos 66. Criavam-se assim aqueles que 
Castelio denominava de os generais chi neses cujo prottipo 
era Cordeiro de Farias. Feito general-de-brigada em 1942, 
permaneceria na ativa at 67, completando 25 anos de gene 
ralato, treze como quatro-estrelas. A reforma manteve as 
mesmas ida des-limites, mas introduziu trs novos critrios. 
Nenhum oficial podia ser general por mais de doze anos. 
Ademais, cada um dos trs nveis do generalato obrigava-se a 
uma renovao de 25% ao ano. Se ela ocorres se naturalmente, 
muito bem, caso contrrio iriam para casa os mais ve lhos. 
Esse mecanismo, alm de garantir a renovao dos quadros, man 
dava os generais para a reserva antes que se transformassem 
em vacas sagradas. Noutra medida profissionalizante, Castello 
estabeleceu um pra zo mximo de dois anos para a presena dos 
oficiais em cargos civis sem se desligarem do quadro de sua 
Fora. Cordeiro seria novamente o pro ttipo da distoro: 
chefiara a polcia de So Paulo por trs anos, tam bm por 
trs anos fora interventor no Rio Grande do Sul, e governara 
Pernambuco por quatro.
Castello sofria procurando preservar alguma forma de 
legalidade, mas Costa e Silva, seu sucessor, numa s 
vacilao, precipitou o pas na ditadura dezoito meses depois 
de entrar no palcio. A partir de 1969 o terceiro general-
presidente, Emilio Garrastaz Medici, eleito atravs de um 
simulacro de votao de oficiais, ainda assim maquiado pelo 
Alto- Comando do Exrcito, ocupou a cadeira de presidente, 
deixando os as suntos da ditadura entregues a um consulado 
militar-administrativo.
As contores institucionais do regime de 1964 pouco deveram 
s caractersticas pessoais dos generais-presidentes. 
Castello era um ho mem de hbitos simples, porm refinados, 
lia Anatole France e ouvia Men delssohn. Costa e Silva se 
orgulhava de s ler palavras cruzadas. Medici freqentava 
estdios de futebol com um radinho de pilha no ouvido e um 
cigarro na boca. A partir da tarde de 31 de maro de 1964, 
quando o general Olympio Mouro Filho marchou de Juiz de Fora 
em direo ao Rio de Janeiro, onde se definiu como uma vaca 
fardada, o Brasil entrou
140        A DITADURA ENVERGONHADA
num regime militar em que conviveram esquizofrenicamente uma 
ob sesso pela ordem pblica e a desordem nos quartis.
No dia 8 de junho, quando a Revoluo no completara ainda no 
venta dias de existncia, Mouro reuniu-se com capites e 
majores nu ma casa em So Paulo. Segundo a narrativa de um 
espio do governo, o general reafirmou a disposio de levar 
adiante o ideal revolucionrio at atingir os seus objetivos 
e para isso, continuarei como o lder de vo cs [ se a 
coisa no endireitar, teremos de partir para outra, ainda que 
tenha de partir sozinho. Conversa fiada.
A anarquia atacava a ordem militar, corroendo-a e 
desmoralizan do-a. Em seu livro Os militares na poltica, o 
professor americano Alfred Stepan apontava, em 1971, a lgica 
inexorvel dessa degenerescncia:
Argumentos sobre a unidade e o monoplio da fora 
baseiam-se na hiptese de que um governo militar oferece 
estabilidade Na prtica h o fato bvio, mas muito 
desprezado, de que os governos militares so fre qentemente 
derrubados pela prpria instituio militar
Durante o regime civil da Constituio de 1946 os quartis 
rebela ram-se em 54 para depor Getulio Vargas e, um ano 
depois, para derru bar os presidentes Caf Filho e Carlos 
Luz. Conte-se a revolta fracassada contra a posse de Joo 
Goulart, e em dezoito anos os levantes foram trs. Somando-se 
a eles duas quarteladas amaznicas, uma revolta de sargen tos 
em Braslia e a baderna dos marinheiros, chega-se a sete 
tumultos. Um a cada 36 meses. Na ordem dos generais, alguns 
comandantes de guar nies da Vila ameaaram rebelar-se em 
1965 contra Casteilo, em 68 con tra Costa e Silva, e em 69, 
durante os dias da escolha de seu sucessor, a oficialidade 
entrou em estado de anarquia. Em menos de seis anos, fo ram 
trs as desordens, uma a cada 22 meses. Todas com profundos 
refle xos na ordem constitucional.
32 Olympio Mouro Filho, Memrias, p. 382. A autodefinio 
foi publicada na edio do Correio
da Manh de 6 de maio de 1964: Em matria de poltica, no 
entendo nada. Sou uma vaca far dada.
33 Trs folhas datilografadas, sem assinatura, datadas de 14 
de junho de 1964, intituladas Informao
sobre as Atividades do General Mouro Filho em So Paulo. 
APGcs/HF.
34 Alfred Stepan, The military in politics, p. 253.
O MITO DO FRAGOR DA HORA 141
A violncia poltica percorreu um ciclo no regime brasileiro. 
Intro duziu palavras no lxico cotidiano, tais como cassar, 
eufemismos no vo cabulrio poltico, como a expresso maus-
tratos, para designar pura e simplesmente a tortura; siglas 
no direito constitucional, como AI, abre viatura dos 
dezessete atos institucionais baixados na desordem legiferan 
te nascida com a noo segundo a qual a Revoluo legitima a 
si pr pria, proclamada no prembulo do AI-1. Coroando essa 
confuso semntica, o prprio regime, autoproclamado 
Revoluo ao nascer (revoluozinha sul-americana como 
dezenas de outras, como disse Gil berto Amado sobre 193O), 
foi ao jazigo aceitando a classificao de au toritrio, 
quando, para conhec-lo, no se dispe, h mais de dois mil 
anos, de palavra melhor que ditadura.
Nos primeiros meses do governo Casteilo Branco, por suas 
ambigi dades, por sua noo de ditadura temporria e pela 
entrada dos milita res como agentes do poder coercitivo, 
instalaram-se os elementos de de sordem que envenenariam a 
vida poltica brasileira nos vinte anos seguintes. Se tudo 
desse certo, o Ato Institucional de abril de 1964 seria o 
nico. No foi. Se tudo desse certo, o marechal Costa e Silva 
gover naria com a Constituio de 1967. No governou. Se pelo 
menos algu mas coisas dessem certo, o AI-5 duraria menos de 
um ano. Durou dez. Se as coisas no dessem to errado, as 
Foras Armadas, depois de se envol verem com tarefas de 
represso poltica, regressariam s suas tarefas pro 
fissionais. No regressaram.
A direita brasileira precipitou o Brasil na ditadura porque 
construiu um regime que, se tinha a fora necessria para 
desmobilizar a socieda de intervindo em sindicatos, 
aposentando professores e magistrados, prendendo, censurando 
e torturando, no a teve para disciplinar os quar tis que 
garantiam a desmobilizao. Essa contradio matou primeiro a 
teoria castelista da ditadura temporria, em seguida liquidou 
as pro messas inconsistentes de abertura poltica feitas por 
um governo desas 35 Gilberto Amado, Presena na poltica, p. 
1.
142        A DITADURA ENVERGONHADA
troso como o de Costa e Silva ou simplesmente falsas, como a 
de Garras taz Medici. Restabeleceu-se a ordem com Geisel 
porque, de todos os pre sidentes militares, ele foi o nico a 
perceber que, antes de qualquer pro jeto poltico, era 
preciso restabelecer a ordem militar. No Exrcito no h 
chefia. So uns generais de borra, como dizia o Casteilo, 
vituperava Geisel em 1976, no auge de uma das mais graves 
crises militares de seu governo.
Os acontecimentos posteriores a 1968, quando o regime assumiu 
sua natureza ditatorial por meio do AI-5, fizeram que se 
desse pouca impor tncia  natureza da violncia aparecida em 
64 e  forma como ela foi en frentada pelo governo Castello 
Branco. Ali esteve a gnese do fenmeno e, sobretudo, o 
surgimento de uma poltica de compromisso que arrui naria as 
instituies polticas e militares do pas. As torturas 
foram o mo lho dos inquritos levados a efeito nos desvos 
dos DOPS ou dos quar tis e toda a sociedade ficou dominada 
pelo medo, angstia e sofrimento. Esta onda terrvel comeou 
no governo Castello Branco que, demasia damente fraco, no 
conseguiu conter os militares, denunciava nos anos 70 o 
general Mouro Filho.
O governo do marechal Casteilo Branco foi colocado diante da 
ques to da tortura bem depois do fragor da hora, ou, numa 
expresso de Gei sel, do calor da luta Em julho de 1964, 
quando a administrao j ha via retomado um curso 
relativamente normal, os crceres comearam a gritar. Uma das 
primeiras denncias acusava a presena de torturadores no 
quartel do 12 Batalho de Polcia do Exrcito, em So 
Cristvo, no Rio de Janeiro. Desmentindo-a, a Diviso de 
Relaes Pblicas do gabi nete do ministro da Guerra 
proclamou que o quartel no tinha masmor ras pois seu 
presdio, relativamente novo,  limpo e seco e dispe de luz
36 Dirio de Heitor Ferreira, 26 de janeiro de 1976. 
APGCS/HF.
37 Os DOPS eram as delegacias de Ordem Poltica e Social. 
Orgos do poder estadual, faziam par te da estrutura das 
secretarias de Segurana.
38 Olympio Mouro Filho, Memrias, p. 434.
39 Duas folhas datilografadas intituladas Algumas Idias para 
o Esclarecimento, redigidas por Gei sei para a sesso do STM 
de 30 de outubro de 1967, quando discutiu as denncias de 
torturas ocor ridas no governo Castello. APGCS/HF.
O MITO DO FRAGOR DA HORA 143
diria Uma semana depois, refletindo o impacto que as 
denncias de torturas produziam na opinio pblica, Carlos 
Heitor Cony lanou uma coletnea de seus artigos no livro O 
ato e o fato e, alm de ter batido o re corde de freqncia 
para uma noite de autgrafos, assinando 1600 exem plares, viu 
a primeira edio esgotar-se em poucas semanas.
Por dois meses publicaram-se denncias esparsas na imprensa, 
at que no dia 12 setembro o Correio da Manh abriu em suas 
pginas uma das memorveis campanhas da histria da imprensa 
brasileira. Num edi torial intitulado Tortura e 
insensibilidade denunciava:
Todos os dias, desde 1 de abril, o pblico e as autoridades 
tomam conhe cimento com detalhes cada vez mais precisos e em 
volume cada vez maior de atentados contra o corpo e a mente 
de prisioneiros culpados e inocen tes. No entanto, desde o 
dia 1 de abril, o silncio pesa por sobre esses cri mes. No 
h uma explicao, uma nota, um protesto oficial sobre as de 
nncias. Esse silncio, e a prpria freqncia com que se 
toma conhecimento das torturas, provocam uma reao ainda 
mais sinistra: verifica-se a ten dncia para cair numa 
gradual insensibilidade, esgotando-se a capacidade de sentir 
horror e revolta.
No se tratava, como se v, de um libelo contra os 
torturadores, mas de uma presso sobre o governo para que 
rompesse a silenciosa cum plicidade que oferecia ao crime. A 
partir desse artigo, o Correio passou a estampar diariamente 
denncias de torturas. Com um grau cada vez maior de 
preciso, publicava-as sempre na ltima pgina do primeiro 
caderno, um dos pontos mais nobres do jornal.
Amparada por sucessivos pronunciamentos no Congresso, a cam 
panha do Correio feriu o governo, e sua reao foi o primeiro 
captulo de uma tragdia em que o poder do governo se 
confundiu com a violncia da tortura. No corao do regime, o 
general Golbery apontou ambgua
40 Correio da Manh, 8 de julho de 1964.
41 Idem, 16 de julho de 1964.
42 Idem, 1 de setembro de 1964.
144        A DITADURA ENVERGONHADA
e timidamente o fenmeno da tortura. Ele inaugurara a prtica 
de en viar semanal ou quinzenalmente a Castelio Branco um 
documento do SNI intitulado Impresso Geral, em que produzia 
uma mistura de resenha poltica e conselhos. Eram maos de 
at sete folhas datilografadas em es pao apertado, todas com 
a marca de secreto Na Impresso Geral n 4, redigida nos 
primeiros dias de setembro, referia-se s denncias:
Manifestaes incontroladas e emocionais da linha dur no 
setor das in vestigaes e inquritos [ 1 continuaram a 
intranqilizar o pas, prejudi cando a imagem da autoridade 
constituda do governo federal, e dando al guma substncia a 
denncias, em grande parte exageradas embora, de perseguies 
e torturas que estariam ocorrendo, sobretudo no Nordeste. 
Tudo isso em desfavor, no campo internacional, do crdito que 
j vem a duras penas granjeando a Revoluo e o atual governo 
em seus sinceros propsitos de normalizao da vida do pas.
O que Golbery queria dizer com denncias de alguma 
substncia embora em grande parte exageradas? No se 
tratava, por certo, de ca sos tpicos de violncias cometidas 
no fragor da hora. No dia 13 de agos to, por exemplo, o 
Correio da Manh informara que o advogado e ex- deputado 
paranaense Walter Pecoitis, que organizava camponeses na 
regio de Cascavel, ficara cego de um olho seis dias depois 
de ter sido pre so pelo Exrcito. O chefe do SNI negaceava. 
Nessa Impresso Geral, bem como nas outras dezoito 
existentes, a tortura no  apresentada correta mente nem no 
seu alcance nem no seu efeito. No chegam a dez as linhas que 
lhe so dedicadas, e so apenas quatro as vezes em que ela  
mencio nada. Pouco mais que o espao destinado a uma crise 
ocorrida na ilha de Chipre. Em todos os casos a tortura  
vista como uma conseqncia da linha dura, quando, na 
realidade, a maneira como o governo a enfren tava fornecia 
aos radicais o alicerce de indisciplina e ilegalidade sobre o 
qual se edificaria a ditadura.
43 Impresso Geral n 4, do SNL, de 6 de setembro de 1964. 
APGCS/HF.
44 Correio da Manh, 13 de agosto de 1964.
O MITO DO FRAGOR DA HORA 145
Golbery desenvolveu um combate funcional  linha dura e  
violn cia poltica. Em setembro, no primeiro grande 
relatrio ultra-secreto preparado pelo SNI sobre a situao 
do pas, recomendava que as aes punitivas fossem 
cuidadosamente discriminadas, de modo a poupar os 
elementos recuperveis das esquerdas ideolgicas e 
progressistas, sem prejuzo de coibir quaisquer violncias 
capazes de sensibilizar espritos generosos Pretendia 
reduzir a extenso das atividades policiais e pro punha que 
elas fossem reordenadas. Para isso, dizia ser necessrio 
refor ar o dispositivo de represso militar, constituindo, 
em cada rea sens vel, tropas de choque cuidadosamente 
selecionadas e convenientemente equipadas para aes de tipo 
especia1 Arrematando, sugeria a transfe rncia do pessoal 
j muito comprometido nessa linha de atuao, em cer tas 
reas, reajustamento de comandos E produzia um siogan 
espirituo so: Linha dura tambm contra violncias e 
excessos.
Nessa mesma poca, lderes civis do novo regime iam numa 
linha diversa, a da pura e simples negativa da autoria, O 
governador da Gua nabara, Carlos Lacerda, um poltico de 
tintas modernas, tradutor de Shakespeare e criador de 
faises, desembarcara em Paris em maio, e quando os 
jornalistas, no aeroporto, lhe perguntaram a respeito das de 
nncias de torturas, respondeu: No, por enquanto ningum 
raspou o cabelo de mulher nenhuma como foi feito na Frana no 
dia da Liberta o Em 1977, mesmo depois de j ter sido 
cassado e preso pelo regime que ajudara a inventar, Lacerda 
continuava na trincheira da negativa em relao  violncia 
de 64: Houve muita priso, logo relaxada, mas tor tura, que 
se saiba, no tinha havido nenhuma.
A campanha aberta em setembro pelo Correio da Manh produziu 
um resultado visvel. O presidente Castelio Branco enviou 
Geisel numa viagem pelo Nordeste, Rio de Janeiro e So Paulo 
para avaliar pessoal- mente a procedncia das denncias. O 
chefe do Gabinete Militar levava consigo um quadro preparado 
pelo SNI, com uma tosca coleo de denn cias. Reunia uma 
dezena de casos e em cinco deles documentava-se com
45 Impresso Geral n 4, do SNI, de 6 de setembro de 1964. 
APGCS/HF.
46 Carlos Lacerda, Depoimento, p. 311.
146        A DITADURA RNVERGONHADA
o noticirio do Correio. Era um grande passo e demonstrava a 
vonta de do governo de enfrentar de alguma forma o problema. 
Parecia ser a linha dura tambm contra violncias e 
excessos
A chamada Misso Geisel ps os torturadores na defensiva. O 
mi nistro Costa e Silva no ficou satisfeito com a 
providncia, mostrando ao Presidente que precisava ter 
confiana nos seus generais e no dar gua rida a notcias 
tendenciosas contou em suas memrias o general Jayme 
Portella de Meilo, chefe-de-gabinete do ministro da Guerra em 
Brasilia. O envio do chefe do Gabinete Militar era um sinal 
de que Castelio que ria jogar srio. A misso chegou ao 
Recife no dia 15 de setembro. Acom panhado por dois oficiais, 
Geisel percorreu quartis e prises. Tomou depoimentos, 
recebeu laudos mdicos (entre os quais, dada pelo coro nel-
mdico que dirigia o hospital geral do Exrcito do Recife, 
uma cole o de radiografias de um preso que tivera trs 
vrtebras fraturadas) e voou at a ilha de Fernando de 
Noronha, onde estavam presos, entre ou tros, os governadores 
depostos de Pernambuco e Sergipe, Miguel Arraes e Seixas 
Dria.
Trs anos depois, tratando do assunto mais detalhadamente, 
reme-
morou os objetivos e as concluses de sua misso aos 
crceres:
Um reduzido nmero de casos em que havia indcios de 
torturas, na rea de Pernambuco, foi comunicado ao general 
comandante da 78 Regio Mi litar, tendo essa autoridade 
informado, detalhadamente, que j estavam sen do objeto das 
necessrias averiguaes em 1PM e em sindicncias oficiais. 
Ob servei, alis, que a prtica dessas torturas, segundo as 
queixas formuladas, teria ocorrido na fase inicial da 
Revoluo (dia 2 de abril de 1964, relativa mente a Gregrio 
Bezerra) e no se teria estendido alm do dia 10 de maio do 
mesmo ano. Do que acabo de expor, verifica-se que a matria 
compor tava, na sua apreciao, duas fases:  uma, a partir 
da ecloso da Revolu o, at 10 de maio, aproximadamente, em 
que possivelmente [ ocorre ram alguns casos de maus-tratos, 
sevcias e torturas  em nmero reduzido,
47 Dirio de Heitor Ferreira, 14 de setembro de 1964. 
APGCS/HF.
48 Jayme Portelia de Melio, A Revoluo e o governo Costa e 
Silva, p. 230.
O MITO DO FRAGOR DA HORA 147
repito e que na poca estavam sendo objeto de apurao pelas 
autori dades responsveis;  outra, posterior, e que 
encontrei na ocasio de mi nha presena no local, quando j 
tinham cessado aquelas anormalidades de carter arbitrrio e 
desumano.
Tecnicamente, Geisel condenava a tortura, negava que ela 
tivesse ocor rido depois de 10 de maio e informava que os 
casos denunciados esta vam sob investigao do Exrcito. No 
que se referia s providncias to madas no mbito da 7 Regio 
Militar em relao a casos antigos, seu comandante, o general 
Antonio Carlos Muricy, determinara a abertura de um 1PM 
apenas para obter um efeito suasrio e recomendara pessoal- 
mente ao encarregado do inqurito que no fizesse muita 
fora para descobrir a identidade dos torturadores. No seu 
comando Muricy fechou crceres miserveis, assistiu famlias 
desesperadas, mas da a botar na ca deia um oficial 
torturador a distncia era muito grande. Preferiu usar o 1PM 
como ameaa e, deixando sua posio clara, reuniu a 
oficialidade para informar que responderia a novas violncias 
levando os responsveis a conselho de guerra.
Tudo estaria muito bem se realmente os derrotados tivessem 
para do de apanhar no dia 10 de maio. Os fatos desmentiam 
esse marco da ra cionalizao cronolgica de Geisel. O 
jornalista Marcio Moreira Alves, em sucessivas reportagens no 
Correio da Manh, listara 39 nomes de tor turados, a maioria 
deles no Nordeste, na jurisdio da 7 Regio Militar, todos 
depois de 10 de maio. Quando Geisel ainda estava no Nordeste,
o Correio publicou em sua primeira pgina uma prova de que 
no era preciso viajar 2 mil quilmetros para procurar 
torturadores. Estampou sete depoimentos manuscritos e 
assinados por presos que diziam ter si do torturados no 
Centro de Informaes da Marinha, o Cenimar, a me nos de meia 
hora do palcio Laranjeiras, no Rio de Janeiro.
49 Duas folhas datilografadas intituladas Algumas Idias para 
o Esclarecimento, redigidas por Gei sei para a sesso do STM 
de 30 de outubro de 1967. APGCS/HF.
50 General Antonio Carlos Muricy, agosto de 1988.
51 Marcio Moreira Alves, Torturas e torturados, p. 64.
52 Correio da Manh, 18 de setembro de 1964.
148        A DITADURA ENVERGONHADA
No dia seguinte  denncia dos sete torturados a Marinha 
desmen tiu a autenticidade dos documentos. A prova da fraude 
seria a existncia de uma caligrafia comum s sete denncias, 
apesar de serem perfeitamen te visveis  e diferentes  as 
sete assinaturas. Menos de uma semana depois veio a resposta 
oficial do ministro da Marinha, almirante Ernes to Melo 
Batista. Ele solicitou ao ministro da Justia providncias 
legais contra o Correio da Manh.
Em sua Impresso Geral n 6, o general Golbery relatava a 
situao a Casteilo, sem mudar sua tica, apesar de ter 
ficado claro que nada se faria de duro contra as violncias 
e excessos: Prossegue a cam panha dirigida acerca de 
torturas e maus-tratos nos inquritos e inves tigaes, 
atenuada em parte pela atuao do governo federal (viagem do 
general Geisel, inquritos mandados abrir, contra-ofensiva do 
Mi nistro da Marinha em relao ao Correio da Manh). Espera-
se que no va etapa vise a despertar a piedade em face do 
desamparo em que se dir encontrarem-se as famlias dos 
presos, passando fome e necessi dades outras.
Golbery insistia em tratar do problema no mundo dos conflitos 
de opinio. Assim, informava que as medidas tomadas pelo 
governo [ encontraram boa receptividade, devendo 
possivelmente esvaziar mais esse balo propagandstico 
Semanas depois, vitorioso, escrevia que a campanha sobre 
supostas torturas a presos passa a segundo plano, des 
gastada.
A construo de uma relao estvel entre o regime, as Foras 
Ar madas, a represso poltica e os direitos humanos exigia 
que, tendo ha vido a tortura, a investigao terminasse com a 
punio dos culpados. Estava-se, porm, a caminho de uma 
construo instvel, segundo a qual a tortura no era um fato 
em si, mas uma questo de opinio, uma cam panha dirigida, 
O que o Correio da Manh e os polticos oposicionistas 
conduziam era precisamente uma campanha, mas no era nela, e 
sim na
53 Impresso Geral n 6, do SNJ, de 21 de setembro de 1964. 
APGCS/HF.
54 Impresso Geral n 5, do SNJ, de 14 de setembro de 1964. 
APGCS/HP.
55 Impresso Geral n 7, do SNI, de 28 de setembro de 1964. 
APGCS/HF.
O MITO DO FRAGOR DA HORA 149
tortura, que estava o fenmeno poltico. Mobilizando suas 
energias po lticas contra a campanha e no contra a 
tortura, o regime de 1964 com prometeu-se com uma 
mistificao e, por vinte anos, comportou-se co mo se o 
combate  tortura no fizesse parte da luta em defesa dos 
direitos do homem. Negar a tortura significava defender o 
regime. Denunci-la ou confirm-la era atac-lo. A prtica da 
tortura nas guarnies milita res deixava de ser um fato em 
si, tornando-se matria de opinio, conta minada por alguma 
forma de incompreenso a respeito da obra dos go vernos que a 
estimulavam e protegiam. Deu-se por convenincia, medo e 
arrogncia a metamorfose descrita pela filsofa alem Hannah 
Arendt em seu magistral estudo Verdade e poltica: O 
apagamento da linha divisria entre verdade fatual e opinio 
 uma das inmeras formas que o mentir pode assumir.
Geisel tambm estabeleceu a relao entre tortura e defesa do 
regi me, vendo a essncia do problema nas denncias da 
imprensa, e no no que se denunciava: Essa imprensa nunca 
teve interesse em dizer a ver dade. Quando muito, apresentava 
de forma para ela conveniente, a meia verdade. Havia o 
deliberado interesse de torcer, deturpar ou exagerar os fatos 
conforme a convenincia.
Num balano da Misso Geisel, Marcio Moreira Alves reconheceu 
em seu livro Torturas e torturados, publicado em 1966, que a 
viagem de inspeo, que no resultou na punio de nenhum dos 
torturadores, te ve ao menos o mrito de paralisar as 
torturas Geisel deu ateno a essa concluso. Num exemplar 
do livro que guardou por anos, esse trecho, na pgina 46, 
est assinalado e ressaltado com uma flecha azul. De fato, a 
misso resultara no compromisso que Castello e Geisel 
perseguiam: es quecia-se o passado, e comeava-se vida nova, 
sem torturas. Semanas de pois, uma comisso de civis, 
integrada por representantes da Arquidio cese de Olinda e 
Recife, da Assemblia Legislativa, da Procuradoria do Estado 
de Pernambuco, da Ordem dos Advogados do Brasil e da impren 
sa, explicitava esse raciocnio perverso e incuo: Nessa 
conjuntura, par-
56 Hannah Arendt, Entre o passado e o futuro, p. 309.
57 Duas folhas datilografadas, de Geisel, intituladas Algumas 
Idias para o Esclarecimento. APGCS/HF.
58 Marcio Moreira Alves, Torturas e torturados, p. 46. 
Exemplar anotado por Geisel. APGCSIHF.
150        A DITADURA ENVERGONHADA
te dos acontecimentos foge ao controle das lideranas e dos 
comandos, resultando, por vezes, em atos e fatos discrepantes 
das linhas e normas desejveis. A cessao imediata ou 
retardada desses excessos, aps a ins taurao de uma nova 
ordem,  que serve para definir os propsitos reais do 
movimento.
Trinta anos depois, colocado diante da questo de setembro de 
1964, Geisel ainda duvidava da possibilidade de se responder 
s denncias com a punio exemplar de um torturador: O 
Castelio no tinha comando sobre a rea militar como deveria 
ter. Foi uma soluo pragmtica explicaria Golbery. Do 
ponto de vista estatstico, esse pragmatismo foi 
comprovadamente eficiente. Durante todo o ano de 1964 as 
denncias de torturas feitas em juzos militares foram 203. 
Em 1965 baixaram para 84 e no ano seguinte caram para 66.62 
Dentro do aparelho burocrtico, porm, passara-se a senha da 
impunidade. E no s da impunidade. Como o tempo haveria de 
mostrar, a represso tornava-se um dos ins trumentos 
burocrticos de ascenso e ampliao do poder.
A Misso Geisel quis ser um compromisso liberal do governo, 
mas resultou num acerto que em vez de desarticular a tortura, 
perdoou-a. A conciliao de setembro de 1964 danificou a 
conscincia da cpula mi litar pela sensao que ofereceu de 
ter salvado simultaneamente a pele de muitos presos e a farda 
dos torturadores. Alimentou a lenda cultiva da pelas Foras 
Armadas segundo a qual, mesmo dirigindo regimes re pressivos, 
mantinham-se distantes dos crimes neles praticados.
Diante do radicalismo policial do regime que presidia, 
Castello che gara a desabafar que no  elegante para um 
coronel [ judiar com um
civil, isso se fazia na 48 Delegacia, no Estado Novo. Sua 
poltica, mo 59 Aurelio de Lyra Tavares, O Brasil de minha 
gera o, vol. 2, p. 121.
60 Ernesto Geisel, dezembro de 1994.
61 Golbery do Couto e Silva, junho de 1987.
62 Projeto Brasil: nunca mais, tomo v, vol. 1: A tortura, 
quadro 114, p. 64. O Projeto BrasiL nunca
mais relacionou apenas as denncias de torturas feitas em 
auditorias militares. Pode-se estimar
que sobretudo em relao ao ano de 1964 essa amostra esteja 
distorcida, pois deram-se centenas
de casos de pessoas presas, espancadas e libertadas sem a 
abertura de nenhum processo. Mesmo
assim, a amostra  aceitvel para os dois anos seguintes do 
governo Casteilo.
63 Dirio de Heitor Ferreira, 10 de maio de 1965. APGCS/HF.
O MITO DO I DA HORA 151
mentaneamente bem-sucedida, comeara a levar as Foras 
Armadas para dentro daquilo que durante o Estado Novo ele, 
como coronel, acredita ra ser o mundo repugnante da 
arbitrariedade da 4 Delegacia
64 Ao referir-se  4 Delegacia centro de represso surgido 
no governo de Artur Bernardes, Cas telio deu trnsito ao mito 
de que no Estado Novo a tortura ficou a cargo da polcia, ou 
da me ganha. A represso de Vargas foi praticada por 
oficiais das Foras Armadas, e a hierarquia poli cial do 
perodo o demonstra:
A polcia do Rio de Janeiro, cujo titular tinha praticamente 
nvel de ministro, era chefiada pelo capito Filinto Mller 
(presidente da Arena no governo Medici). A Delegacia de 
Segurana P blica e Social era dirigida pelo capito Affonso 
Miranda Corra (encarregado da administrao da Escola 
Superior de Guerra no fim dos anos 40), condecorado pelo 
governo alemo em 1938. O inspetor-chefe do DOPS era o 
tenente Riograndino Kruel (chefe da Polcia Federal no 
governo Castello). O tenente Eusbio de Queirs Filho 
comandava a tropa de choque da Polcia Especial, responsvel 
por seqestros e espancamentos, formada por lumpens de 
academias de boxe, clubes de regatas e caftens parrudos.A 
Casa de Correo era dirigida pelo tenente Victorio Caneppa, 
um ex-sargento.
Chefiaram a polcia pernambucana os capites Malvino Reis e 
Frederico Mindello.
Filinto foi substitudo pelo coronel Alcides Etchegoyen, que 
teve como assistente o major Odylio Denys.
Em janeiro de 1937 havia 33 oficiais do Exrcito em funes 
policiais em catorze estados. No Dis trito Federal oito 
oficiais do Exrcito estavam lotados na polcia.
O general Newton de Andrade Cavalcnti, comandante da Vila 
Militar, defendia em 1937 a cria o de campos de 
concentrao para combater a praga tartrica do judeu 
moscovita. Filinto Mller, em memorando a Vargas, tambm 
defendeu os campos de trabalho.
Para o nmero de oficiais na polcia em 1937, Mauro Renault 
Leite e Luiz Gonzaga Novelli Jr. (orgs.), Marechal Eurico 
Gaspar Dutra O dever da verdade, p. 133. Para a citao do 
general Newton Cavalcnti, Ferdinando de Carvalho, Lembrai-
vos de 35!, pp. 169-70. Para o memorando de Filin to, Stanley 
Hilton, Brazil and the Soviet chailenge  1917-1947, p. 75. 
Para a condecorao de Mi randa Corra, idem, p. 119. Para 
Caneppa, idem, p. 152.
Nasce o SNI
A 4 Delegacia viera para ficar. Sua cabea, na ditadura, 
viria a ser o Ser vio Nacional de Informaes ou, para os 
ntimos, o Servio. Fundou-o o general Golbery do Couto e 
Silva. Dez anos antes ele defendera na Es cola Superior de 
Guerra a criao de um Servio de Informaes, cen 
tralizado, bem dotado de meios e recursos, valendo-se de 
agentes e r gos de busca de toda espcie. Dezessete anos 
depois de t-lo criado viria a cham-lo de monstro.
Golbery comeou a montar o SNI nos primeiros dias de abril de 
1964 sem ter ainda funo no governo de que era pea-chave. 
Continuava tra balhando no Instituto de Pesquisas e Estudos 
Sociais, o IPs, onde se en fumara em janeiro de 1962, 
costurando a aliana entre militares e pluto cratas que 
resultou na coligao de interesses levada ao poder com a 
deposio de Goulart. O instituto funcionava no 27 andar do 
edificio Avenida Central, ento o mais moderno do Rio de 
Janeiro, com estrutu ra de ao, elevadores falantes e 
sprinklers contra incndio. Nesse edificio coabitavam o ws e 
a agncia de notcias cubana Prensa Latina, bem co mo duas 
bases de operaes clandestinas, uma do ncleo dirigente do 
PCB e outra de terroristas de direita.
De l,o general administrava a vitria e assessorava o 
presidente Cas tello Branco sem abandonar os hbitos de 
coronel. Morava com a mulher,
Esmeralda, no subrbio de Jacarepagu, numa casa de dois 
andares, com
1 Golbery do Couto e Silva, Planejamento estratgico, p. 195.
154        A DITADURA ENVERGONHADA
as paredes cobertas de livros e o jardim habitado por sapos. 
Nessa poca o termo suburbano, na gria carioca, designava um 
estilo de vida annimo e modesto. No fim de cada dia Golbery 
caminhava at a praa Mau e en trava na fila do nibus at o 
bairro de Cascadura, ao lado de bancrios e burocratas. 
Terminada essa viagem, tomava um lotao, nome dado a au 
daciosos micronibus que transportavam vinte pessoas 
sentadas. Uma hora depois estava na porta de casa. O penoso 
percurso do general at Ja carepagu trazia a marca natural 
de austeridade do governo Castello Bran co, em que ele e seus 
mais diretos assessores militares viviam frugalmen te. No 
Brasil em que Golbery montava o SNI no lotao, s tinha 
mordomia quem pagava pelo seu mordomo. Os banheiros 
privativos eram prerroga tiva dos banqueiros. Os ministros 
voavam em avies de carreira.
O annimo passageiro levava na cabea um servio que deveria 
ser uma CIA voltada para dentro, ou, como diria no 
Congresso o deputado Laerte Vieira (uDN-sC), funcionar como 
o FBI, ou o Intelligence Servi ce no interesse da segurana 
nacional Golbery trabalhou no seu pro jeto de abril a 13 de 
junho, quando a lei 4341 criou o Servio Nacional de 
Informaes. Com o referendo do Senado, foi nomeado para 
dirigi- lo. Tomou posse na manh do dia 25 com terno novo, 
colete e um curto discurso. Nele, chamou o Servio de 
ministrio do silncio e inicialmen te o comparara a uma 
porta aberta, de par em par, aos influxos mais su tis da 
opinio pblica nacional Depois riscou porta (lugar por 
onde qualquer um passa) e escreveu janela (lugar de onde se 
v o que acon tece do lado de fora).
O SNI teve uma dotao oramentria de 200 milhes de 
cruzeiros, equivalentes, ao cmbio da poca, a cerca de 150 
mil dlares. Na fase de
2 Dirio de Heitor Ferreira, 8 de dezembro de 1965, APGCS/HF, 
e Correio da Manh, 19 de maio de
1964.
3 Duas folhas com o manuscrito do rascunho do discurso de 
posse de Golbery no SNI. APGCS/HF.
4 Lei n 4341, de 13 de junho de 1964, artigo 92. O dlar 
valia Cr$ 1355,00 no mercado paralelo.
Em dinheiro de 2002, corrigido pelo IGP-DI, da Fundao 
Getulio Vargas, seriam 1,95 milho de
reais. Segundo Veja de 15 de outubro de 1969, as verbas 
oramentrias do SNI para o ano de 1965
foram de 800 mil cruzeiros novos. Admitindo-se que as verbas 
secretas tenham guardado a mes ma relao de 1964, a caixa do 
Servio ficou com 1,4 milho de cruzeiros novos, equivalentes 
a
pouco mais de 752 mil dlares, ou 5,6 milhes de reais de 
2002.
NASCE O SNJ
155
preparao do decreto de criao do Servio, Golbery esperava 
ter  mo mais 150 milhes de cruzeiros em verbas secretas, o 
que elevaria sua cai xa a 260 mil dlares de 1964. Enquanto 
as verbas no chegaram, recebeu do presidente do Banco Lar 
Brasileiro um automvel e alguns gravado res usados. 
Fisicamente, o SNI ocupou parte do 13 andar do majestoso 
edifcio de estilo neofascista do Ministrio da Fazenda, no 
Rio de Janei ro, reservando-se para Golbery uma sala no 12w. 
Mobiliaram as salas ca tando velharias nos depsitos de 
autarquias federais. Em Braslia, o Ser vio comeou na sala 
17 do quarto andar do palcio do Planalto. Tinha trinta 
metros quadrados, e o chefe do SNI esperou seis meses para 
que lhe instalassem um aparelho de ar refrigerado. Em 
perodos de crise poltica, chegou a dormir nela. S nos 
primeiros meses de 1965 o Servio passou a operar suas 
comunicaes atravs da rede de rdio do Planalto. Ainda no 
completara um ano de vida quando avanou sobre a sala 16. 
Inicia va-se a expanso do SNI pela malha modernosa de 
Braslia, transforman do-o numa instituio sociologicamente 
identificada com a capital, onde se tornou um dos primeiros 
ramos da burocracia nacional a arraigar-se.
Operacionalmente o SNI herdou a estrutura do Servio Federal 
de In formaes e Contra-Informao, o SFICI, uma repartio 
inexpressiva vin culada ao Conselho de Segurana Nacional, e 
o arquivo do ip Do che fe ao faxineiro, juntava cerca de cem 
pessoas. Tinha um arquivo pequeno e primitivo. Suas fichas 
destinavam-se sobretudo a relacionar funcion rios pblicos, 
dirigentes sindicais, redatores da imprensa esquerdista e sig 
natrios de manifestos polticos. Numa base mimeografada, as 
fichas do IPS listavam dados para a identificao da vtima, 
tais como filiao, te lefone e endereo, deixando apenas 
nove linhas para informaes adicio
5 Anotao de Golbery ao texto do projeto de criao do sNi: 
Verba  carter Secreto mnimo
Cr$ 150 milhes Admitindo-se que Golbery tenha conseguido o 
piso de 150 milhes de cruzei ros, o SNI nasceu com uma caixa 
de pelo menos 3,4 milhes de reais, ou 1,42 milho de 
dlares,
em dinheiro de janeiro de 2002. APGCS/HF.
6 Jorge Oscar de Meilo Flres, Na periferia da histria, p. 
195.
7 Dirio de Heitor Ferreira, 25 de novembro de 1964, 23 de 
janeiro, 25 de novembro e 22 de abril
de 1965. APGCS/HF.
8 Estimativa feita com base na Relao dos Militares 
(Exrcito) Colocados  Disposio do Servi o
Nacional de Informaes a partir de 1 Setembro de 1964. Ela 
lista vinte oficiais, de major a co ronel. APGCS/HF.
156        A DITADURA ENVERGONHADA
nais. Esse arquivo no chegou aos 5 mil nomes. Transferido em 
caixas de
papelo, inclusive de sapatos, tornou-se o ncleo da memria 
do SNI.
Quanto  autonomia administrativa e  jurisdio, o Servio 
nasceu invulnervel. Ao contrrio do que ocorria com os 
chefes dos servios de informaes nos Estados Unidos, Unio 
Sovitica, Frana e Inglaterra, o chefe do SNI ganhou status 
de superministro. Enquanto em todo o mun do os servios de 
informaes prestavam contas a algum tipo de institui o, 
quer a uma comisso do Congresso (no caso da CIA) quer  
cpula colegiada do comit central (no caso da KGB), Golbery 
criou um orga nismo que s respondia ao presidente da 
Repblica. Numa exposio secreta feita ao ministrio no dia 
30 de dezembro de 1964, procurou de finir a natureza ideal do 
seu Servio:
O SNI  um rgo nitidamente introvertido, por definio 
sempre voltado para dentro, e ao qual no est afeta qualquer 
atividade de divulgao p blica, de propaganda ou 
contrapropaganda, limitando-se a promover a di fuso de 
informaes e, quando for o caso, avaliaes e estimativas, 
ape nas no mbito governamental e com a adequada salvaguarda 
do sigilo. Com isso, restringe-se o risco de que o Servio, 
rgo sobretudo de auscultao, se deixe impressionar pelo 
eco de suas prprias elaboraes, acrescendo as dificuldades, 
j de si to grandes, de toda observao parti Ou, o que  
pior ainda, passe a enxergar apenas o que confirme os pontos 
de vis ta externados ao grande pblico, num desejo, at mesmo 
inconsciente, de se no deixar desmentir pelos fatos, 
salvando sempre a face. Da porque um Servio como esse nunca 
deve, por outro lado, assumir responsabili dades 
operacionais, sob pena de tornar-se um observador diretamente 
engajado no xito da operao que tomou a si. Fora assim, 
como man dam a tradio e o bom senso, e o Servio norte-
americano, a celebrada CIA, no teria arcado com o lamentvel 
fracasso da Baa de los Cochinos.
9 Golbery do Couto e Silva, 1987.
10 Alfred Stepan, Os militares  Da abertura  Nova 
Repblica, p. 33.
11 Golbery referia-se  fracassada tentativa de invaso de 
Cuba por exilados, patrocinada pela
CIA, em abril de 1961. Exposio ao Ministrio, 30 de 
dezembro de 1964.
1
NASCE O SNI        157
Do outro lado da cerca, o Correio da Manh definia o novo 
rgo:
 um ministrio de polcia poltica, instituio tpica do 
Estado policial e incompatvel com o regime democrtico No 
Congresso, o projeto tra mitou em relativa paz, fizeram-se 
pequenas emendas, mas nem a banca da governista teria coragem 
de derrotar semelhante iniciativa presiden cial, nem o 
monstro tinha os dentes  mostra.
Ns ramos meia dzia de gatos-pingados, lembrava Golbery 
vin te anos depois. A mquina que esses gatos poriam em 
movimento, con tudo, era ambiciosa. Leitr vido e caador 
compulsivo de livros, Gol bery queria um servio com 
analistas qualificados. Para socorrer essa necessidade, 
Castelo criou em fevereiro de 1965 o curso de informaes da 
Escola Superior de Guerra, numa tentativa de adapt-la s 
eventuais necessidades da nova instituio. O chefe do SNI 
sonhava recrutar os qua dros para a subseo do exterior 
entre os melhores alunos das universi dades, capturando-os no 
penltimo ano dos cursos. 14 Planejava at mes mo uma pequena 
editora, capaz de publicar 25 ttulos durante o ano de 1965. 
Para isso, esperava contar com o apoio das diversas grficas 
da ad ministrao civil e militar.
Esse SNI nada deveria ter de parecido com a 44 De1egacia 
Seus qua dros futuros, se possvel, deveriam ser como o 
capito Heitor Aquino Fer reira, assistente-secretrio de 
Golbery aos 27 anos e seu discpulo por to da a vida. Desde 
tenente, em 1959, Heitor correspondia-se afetuosamente com o 
legendrio coronel Golbery, discutindo um novo Exrcito, um 
novo governo e um novo pas. Jogado no mais secreto dos 
centros de po der poltico, o capito Heitor passava suas 
noites no fim de 1964 lendo O declnio da Idade Mdia, obra 
clssica do historiador holands Johan Huizinga sobre o 
alvorecer do Renascimento na Borgonha dos sculos x e xv. No 
palcio do Planalto, nas horas livres, descia ao poro em 
bus-
12 Correio da Manh, 13 de junho de 1964. APGCS/HF.
13 Golbery do Couto e Silva, 1983.
14 Dirio deHeitorFerreira, 16 de junho de 1965, e anotaes 
de Golberypreparando-se para um
encontro com o coronel Joo Baptista Figueiredo, chefe da 
Agncia Central do SNJ. APGCS/HF.
15 Projeto de memorando de Golbery, de dezembro de 1966. 
APGCS/HF.
158        A DITADURA ENVERGONHADA
ca da histria, retirando de sacos de aniagem empoeirados os 
maos de
correspondncia das administraes anteriores.
Os gatos-pingados de 1964 se tornariam, com o tempo, um 
efeti vo estimado, em 82, em mais de 6 mil pessoas, formando 
aquilo que se denominou de Comunidade de Informaes. Nela se 
reuniram, alm do SNI, os servios secretos do Exrcito, 
Marinha e Aeronutica, uma parte da Polcia Federal, as 
divises de informaes montadas em todos os mi nistrios, as 
delegacias estaduais de Ordem Poltica e Social e, finalmen 
te, os servios de informaes das polcias militares. A 
expresso co munidade de informaes aparece pela primeira 
vez na linguagem poltica brasileira em 1967, no livro A 
produo de informaes estraigi cas, do general americano 
Washington Platt. Era um trabalho clssico para os servios 
de informaes americanos. Golbery guardava seu exem plar nas 
estantes de Jacarepagu. Longas negociaes com a Biblioteca 
do Exrcito, editora natural para esse tipo de obra, 
esbarraram no preo que ela cobrava pela edio. Regateando, 
o general foi ao seu caderno de te lefones de conspirador. 
Conseguiu que o livro fosse lanado pela Agir, de propriedade 
do aristocrtico Cndido Guinle de Paula Machado, da li 
nhagem dos concessionrios do porto de Santos e dos 
fundadores do Jo ckey Club e do Banco Boavista.
Golbery concebeu um rgo de elite. De um elitismo parecido 
com
o da CIA nos primeiros anos do aps-guerra. Em 1942, quando o 
advo gado William ( WildBill) Donovan fundou o oss (Office of 
Strategic Ser-
16 Dirio de Heitor Ferreira, 21 de setembro de 1964 e 9 de 
fevereiro de 1965. APGCS/HF.
17 Nessa estimativa, o SNI teve 3 mil funcionrios. Para esse 
clculo, depoimentos dos generais Adyr Fiza de Castro (chefe 
do dE de 1967 a 1969) e Carlos Alberto da Fontoura (chefe do 
SNI de 1969 a 1974), em Maria Celina dAraujo, Glucio Ary 
Dilion Soares e Celso Castro (orgs.), Os Anos de Chumbo, pp. 
42 e 91.0 almirante Mano Cesar Flores, chefe da Secretaria de 
Assuntos Estrat gicos (organismo que sucedeu ao SNI em 
1990), informou em 94 que, ao ser extinto, o Servio ti nha 
3500 funcionrios. Veja, 5 de abril de 1994. No depoimento do 
general Ivan de Souza Men des (chefe do SNI de 1985 a 1990) a 
Maria Celina dAraujo, Glucio Ary DilIon Soares e Celso 
Castro (orgs.), em A volta aos quartis, p. 160, em 85 o SNI 
tinha 2500 funcionrios. Em entrevista a Ma ria Celina 
dAraujo e Glucio Ary Dillon Soares, do CPDOC, o general 
Octavio Medeiros, chefe do SNI de 1978 a 1985, calculou seu 
efetivo em 3 mil pessoas.
18 Washington Platt, A produo de informaes estratgicas, 
p. 20.
19 Dirio de Heitor Ferreira, 15 de outubro de 1965. 
APGCS/HF.
NASCE O SNI        159
vices), do qual sairia uma gerao inteira de chefes da 
Comunidade de Informaes do governo dos Estados Unidos, os 
seus gatos-pingados pareciam ter vindo de um campo de 
golfe. A mobilizao da guerra fez com que nele se 
misturassem sobrenomes de agentes com nomes de ban cos 
(Meilon ou Morgan), famlias de presidentes (Roosevelt ou 
Coolid ge) e locomotivas da alta sociedade (Astor ou 
Auchincloss). O chefe de seu escritrio em Londres, David 
Bruce, era casado com uma filha do ban queiro Paul Melion e 
veio a ser biografado sob o ttulo de o ltimo aris tocrata 
americano Tamanho foi o charme do oss, que o servio se viu 
apelidado em Washington de Oh, So Social.
Os gatos de Golbery vinham de outro armazm. Na conspirao 
para derrubar Goulart o general se relacionara com 
plutocratas como o banqueiro Cndido Guinle de Paula Machado, 
Augusto Traj ano de Aze vedo Antunes, o magnata do mangans, 
Israel Klabin, refinado diretor do imprio dos azulejos e do 
papel de imprensa. Nenhum deu sobreno mes ao Servio. O 
general buscou seus quadros nas Foras Armadas e, quando 
possvel, na mquina do Banco do Brasil ou da administrao 
fazendria. Os militares predominaram sobre os civis desde o 
primeiro instante de funcionamento do Servio. Entre os 
oficiais, os novos qua dros saam essencialmente do Exrcito. 
Nos primeiros anos essas duas ca ractersticas deram 
disciplina e fidelidade ao SNI, porm marcaram o seu cdigo 
gentico determinando, para o futuro, vcios incorrigveis e 
limi taes intransponveis.
Em setembro de 1964 havia no SNI vinte oficiais do Exrcito. 
Jun taram-se numa poca em que quase todos moravam no 
subrbio e usa vam meias curtas. Deles, o mais graduado era o 
coronel Joo Baptista de Oliveira Figueiredo, Figa, um 
cavalariano estourado, velho conhecido de
20 Para David Bruce, Nelson D. Lankford, The lastAmercan 
aristocrat, pp. 126 e segs.
21 Anthony Cave Brown, The last hero  Wild Bill Donovan, p. 
299.
22 Relao dos Militares (Exrcito) Colocados  Disposio do 
SNI a partir de l Setembro de 1964. Dessa lista de vinte 
scios fundadores do SNI Saram um presidente da Repblica 
(Figueiredo), dois chefes do Servio (Figueiredo e Octavio 
Aguiar de Medeiros) e dois chefes da Polcia Federal (New ton 
Leito e Moacyr Coelho). Outros cinco (Newton Cruz, Jos Luiz 
Coelho Netto, Edmundo Adol pho Murgel, Mano Orlando Ribeiro 
Sampaio e Geraldo Araujo Ferreira Braga) chegaram ao ge 
neralato e tornaram-se destacados chefes nos servios de 
informao do regime. APGC5/HF.
i6o
A DITADURA ENVERGONHADA
Golbery, militante do IPS. Desde abril, Figueiredo dirigia o 
SFICI. Tornou- se chefe da Agncia Central, que funcionava no 
Rio de Janeiro. Era o se gundo lugar na hierarquia do SNI. Em 
1974, no governo Geisel, ocupou a chefia do Servio at que, 
em 79, foi feito presidente. Sua ruinosa ad ministrao 
coincidiu com a humilhao nacional do Servio. Nele o co 
ronel moralista de 1964 empregaria uma protegida a quem 
conhecera quan do ela ainda era menor de idade, entre as 
cavalarias do Regimento de Cavalaria de Guarda e as baias da 
granja do Torto.
Figueiredo levou consigo alguns amigos. O mais prximo era o 
tenen te-coronel Octavio Aguiar de Medeiros, seu parente 
afastado. Medeiros teve uma passagem pedestre pela seo de 
sovietologia, a sc-4, e s adquiriu uma fugaz notoriedade 
nacional em 1969, quando desbaratou em questo de semanas 
toda uma organizao esquerdista que assaltava bancos e explo 
dia bombas em Minas Gerais. Tornou-se chefe do SNI em 1978 e, 
depois de encobrir a autoria de atentados, chocou-se com 
Golbery em 81 24 Foi con tra ele que o general, aos setenta 
anos, demitindo-se da chefia do Gabine te Civil, atirou a 
maldio com que, aos gritos, atingiu toda a Comunida de: 
Vocs sero postos daqui para fora com um p na\bunda
Nesse grupo de amigos de Figueiredo e fundadores do Servio 
que influenciaram toda a existncia da Comunidade de 
Informaes, estava tambm o tenente-coronel Newton Araujo de 
Oliveira e Cruz. Ele caiu no Servio sem muito gosto pelo 
trabalho que lhe coube: o fichrio. Por razes polticas e 
tcnicas, Golbery menosprezava os IPM5. Seu negcio era 
fichar. Por isso, quando o SNI tomou emprestado ao 
encarregado do inqurito o material apreendido no prdio da 
Unio Nacional dos Estu dantes, incendiada na noite de 1 de 
abril, no o devolveu, fichou-o. O coronel Newton Cruz estava 
mais para combatente do que para arqui
23 Veja, 20 de julho de 1988, pp. 40-3; O Globo, 17 de julho 
de 1988; Jornal do Brasil, 14 de maio de 1991, p. 7. Ver 
tambm a entrevista do general Octavio Moreira Borba, em Jos 
Amara! Argo- lo e outros, A direita explosiva no Brasil, pp. 
3 13-4.
24 Em 1993 o general Medeiros admitiu numa entrevista a dois 
pesquisadores que o atentado do Riocentro, de 81, em cuja 
cena estavam um capito e um sargento, foi coisa dos dois 
bobalhes. Averso oficia! da poca, que prevalece at hoje, 
 de que eles foram vtimas. Reportagem de Pau lo Moreira 
Leite, Veja, 7 de julho de 1997
25 Dirio de Heitor Ferreira, 2 de junho de 1965. APGCS/HF.
NASCE O SNI        161
vista, mas a partir de junho de 1965 deram-se dois fatos 
simultneos. Ele comeou a gostar do que fazia, e Golbery 
teve a sua ateno despertada para trabalhos de anlise que 
Newton Cruz apresentava. Sabia fazer duas coisas que o 
general apreciava: ter idias e express-las bem em portu 
gus escrito. No governo Figueiredo ele dirigiu a Agncia 
Central do Ser vio. Numa poca em que seu nome se 
transformara em sinnimo de ar bitrariedade, vendo-o a 
cavalo, com um capacete, Figueiredo chegou a cham-lo de o 
nosso Mussolini
No final da ditadura quase todos os oficiais que Golbery 
levara para o Servio j haviam brigado com ele (ou Golbery 
com eles). Num s ca so o rompimento deu-se logo, estrondoso, 
dentro do Servio. Em feve reiro de 1965,0 general 
defenestrou do Servio o tenente-coronel Rubens Resstel, 
chefe da sua seo econmica. Tinham convivido na conspira 
o contra Goulart, na qual ele fora um ativo articulador em 
So Paulo. Metera-se em maquinaes da linha dura nas quais 
alternava contatos bem-educados com a plutocracia paulista e 
operaes espetaculares co mo a captura de bois gordos nos 
pastos para sugerir  populao que os militares seriam 
capazes de levar carne barata aos aougues. Nos vinte anos 
seguintes, Golbery demonstraria em relao a esse oficial uma 
das caractersticas mais reprimidas de seu temperamento, um 
tipo de rancor raro e seletivo, porm implacvel.
Em agosto de 1965 o SNI mal completara um ano ej tinha o seu 
pri meiro grande escndalo, precisamente em negcios de caf, 
uma rea da economia nacional onde poder e dinheiro, ao se 
juntarem, em geral aca bavam em ladroagem. No dia 12, o 
tenente-coronel Luchsinger Bulco, da agncia do Ser\io em 
So Paulo, mostrou a Golbery que, nas suas bar bas, uma venda 
ilegal feita pelos desvos do Instituto Brasileiro do Caf a 
produtores do Paran como se fosse uma investigao nada mais 
era que contrabando mesmo. Era a segunda vez, informara o 
IBC. A primei ra muamba tivera 150 mil sacas. O SNI caa em 
sua prpria armadilha.
26 Golbery do Couti e Silva, junho de 1987.
27 Idem.
28 Dirio de Heitor Ferreira, 12 de agosto de 1965. APGCS/HF. 
General Rubens Resstel, setembro de
1988.
162        A DITADURA ENVERGONHADA
Fazia qualquer coisa porque era capaz de tudo e, como era 
capaz de tu do, terminava metido em qualquer tipo de coisa. 
Contrabando de caf era apenas o incio. Golbery abriu a 
tradicional rigorosa sindicncia para inteiro resguardo do 
bom nome de que deve gozar o SNI. Carimbou-a de 
confidencial e entregou-a ao coronel Figueiredo. No 
desfecho do escndalo sente-se uma das caractersticas que a 
mquina adquiriria: a inimputabilidade, franquia que o 
direito brasileiro s concedia aos me nores, aos ndios e aos 
idiotas. Da sindicncia conduzida por Figueiredo nada veio a 
pblico. Sabe-se que estava cheio de dedos quando relatou 
os resultados a Golbery. Uma coisa  certa: ningum foi 
processado ou cassado pelo que ele descobriu.
Golbery conseguiu tocar a vida do Servio sem envolv-lo 
exclusi vamente no furaco punitivo, procurando firm-lo no 
centro da \ida do pas. Para isso, no perdia de vista os 
anos do IPS. Seu assistente organi zou uma lista de 64 
pessoas com quem devia manter contato no mundo civil, 
obedecendo a uma tabela de freqncia. Nela juntavam-se o em 
preiteiro Haroldo Cecil Poland, escalado para receber um 
telefonema di rio; o dono do Jornal do Brasil, Manoel 
Francisco do Nascimento Brito, com trs ligaes semanais, e 
o presidente do Sindicato dos Bancos do Rio, Jorge Oscar de 
Mello Flres, com duas. Com uma ligao semanal ficaram, 
entre outros, o professor liberal catlico Candido Mendes de 
Al meida, o secretrio do cardeal Cmara e o pelego Ari 
Campista, que con trolava a Confederao Nacional dos 
Trabalhadores na Indstria.
Nessa poca, a caderneta de telefones de Heitor Ferreira, 
caudatria das ligaes de seu chefe, indicava a construo 
de um Servio que de um lado se ligava a uma parte da velha 
ordem e, de outro, listava os perso nagens de uma 
nobiliarquia emergente. Junto a estrelas da poltica, co mo 
Carlos Lacerda, estavam empresrios como Bento Ribeiro 
Dantas, prin 29 Dirio de Heitor Ferreira, 15 de agosto de 
1965. APGCS/HF. Para a ordem de abertura da sindi cncia e 
para a ocorrncia do contrabando anterior, nota manuscrita de 
Golbery, apensa ao Dirio de Heitor Ferreira, na entrada de 
15 de agosto de 1965.
30 Dirio de Heitor Ferreiro, 25 de agosto de 1965. APGCS/HF.
31 Lista que Serviu de Base  Primeira Escala de Telefonemas, 
uma folha manuscrita, anotada por Heitor Ferreira. APGCS/HF.
NASCE O SNI 163
cipal acionista da companhia area Cruzeiro do Sul, donos de 
jornais como Roberto Marinho, dO Globo, polticos ainda 
desconhecidos nacionalmente como Paulo Brossard, ou 
escritores como Adonias Filho e Jos Honrio Rodrigues. Nessa 
mesma lista encontravam-se militares at ento desconhecidos: 
o general Garrastaz Medici, gacho bonacho e estimado que 
comandava a Academia Militar das Agulhas Negras, o coro nel 
Hugo Abreu, chefe do estado-maior da 1 Diviso de Infantaria, 
o tenente-coronel Mrio Andreazza, um simples oficial-de-
gabinete do ministro da Guerra.
O chefe do SNI, que se definiu como o ministro do silncio, 
circulava pelo poder to annimo quanto nos lotaes. Dirigia 
um servio temido, mas conduzia-se com boas maneiras e 
pacincia. Ouviu de tudo, at sobre seu prprio futuro, 
quando o pitoresco deputado Eurico de Oliveira, do PTB, leu-
lhe a mo. Cultivava discretamente a imprensa crian do a 
lenda segundo a qual no conversava com jornalistas quando, 
na realidade, o fazia com freqncia e gosto. Chegara a 
examinar os origi nais de uma reportagem especial louvando a 
deposio de Goulart que a revista americana Selees do 
Readers Digest publicaria meses depois em todo o mundo, com 
o ttulo O pas que salvou a si prprio. Recomendara que 
cortassem a palavra golpeem face das suas conotaes 
pejorativas. Foi atendido.
Alm dos contatos regulares com proprietrios de meios de 
comunicao, trabalhava as redaes. Reuniu-se com os 
editorialistas do Jornal do Brasil para explicar a natureza 
do Servio. Encontrou-se com o jor nalista Hermano Alves, 
que, no Correio da Manh, era um ardente oposicionista do 
regime, e com o panfletrio situacionista David Nasser, da
32 Caderneta de telefones de Heitor Ferreira. APGCS/HF.
33 Dirio de Heitor Ferreira, 12 de setembro de 1964. 
APGCS/HF.
34 Trs folha de bloco manuscritas de Golbery, com o ttulo 
Observaes sobre o Manuscrito, ao qual Heitor Ferreira 
acrescentou: das Selees. Todas as sugestes de Golbery 
foram aceitas, e o artigo, intitulado The country that saved 
itself (O pas que salvou a si prprio, por Clarence W. 
Hall, Selees, novembro de 1964, p. 97). ApGcS/HF. Selees 
tinha estreitas relaes com a Central Intelligence Agency. A 
esse respeito, ver Peter Canning, American dreamers  The 
Wallaces and Readers Digest: an insiders story, p. 244. 
Para um estudo da edio brasileira da revista Selees, ver 
Mary Anne Junqueira, Ao sul do Rio Grande, com referncia ao 
artigo de Hall, pp. 222-30.
164        A DITADURA ENVERGONHADA
revista O Cruzeiro. Freqentemente avistava-se com o 
correspondente da revista Time, Roger Stone. Sua condio 
para falar era que dele no falassem.  Selees, chegou a 
pedir que cortassem a referncia que lhe fizeram na primeira 
verso do texto.
Atravs do seu chefe-de-gabinete, coronel Newton Leito, que 
se tornou a face visvel do Servio na noite carioca e nos 
mais elegantes restaurantes do centro, ligou a tomada do SNI 
ao banqueiro Jos Lus de Magalhes Lins, o bem informado e 
misantrpico diretor executivo do Banco Nacional de Minas 
Gerais. Leito circulava com ternos bem cortados e uma 
pistola Walther PPK na cintura. Funcionava como o ouvido 
ambulante de Golbery. Essa imagem era literal, pois o coronel 
gravava o que se dizia em sua sala ou em seu telefone. Em 
maio de 1965, Heitor Ferreira anotou em seu dirio: Geisel 
leu os telefonemas de Leito com Jos Lus.
O gravador na sala de Leito mostrara-se to eficaz que em 
julho de 1965 Golbery inaugurou o seu. J se haviam perdido 
os primeiros dias de abril de 1964, quando o general Costa e 
Silva, para desmascarar o presidente da Cmara dos Deputados, 
Ranieri Mazzilli, recorrera ao seu filho Alcio, major de 
comunicaes, que colocou um gravador dentro de uma pea de 
porcelana sobre a mesa diante da qual eles sentariam.
Se havia censura de telefones?, indagava Golbery em 1984, 
enfati zando a resposta:
Havia, e inicialmente era feita com o equipamento que 
encontramos, dei xado pela administrao anterior. Ns 
enganchvamos os telefones a par tir de uma base montada no 
prdio do Ministrio do Exrcito, no Rio de Janeiro. Eram 
poucos. No mais que vinte. Esse trabalho  muito difcil. 
Primeiro voc tem que gravar, o que  simples, pois as 
mquinas s rodam
35 Dirio de Heitor Ferreira, 24 de agosto de 1964 e 30 de 
julho de 1965. APGcs/HF.
36 Trs folhas de bloco manuscritas de Golbery, com o ttulo 
Observaes sobre o Manuscrito, ao
qual Heitor Ferreira acrescentou: das Sele es. APGCS/HF.
37 Dirio de Heitor Ferreira, 8 de maio de 1965. APGCS/HF.
38 Idem, 8 de julho de 1965. APGCS/I-IF.
39 Ernesto Geisel, abril de 1995. O detalhe da pea de 
porcelana foi informado pelo comandan te Paulo Castello 
Branco.
NASCE O SNI        165
quando o telefone  retirado do gancho. Depois  preciso 
tirar o que est na fita e coloc-lo no papel.  o que se 
chama degravar Isso d um tra balho danado. Depois, voc 
tem que analisar, o que d ainda mais traba lho. Ns 
trabalhvamos em regime de mutiro. Como o Servio estava no 
incio, o pessoal do Exrcito fazia o trabalho de gravao e, 
em troca, ns passvamos a eles as anlises.
Nos trabalhos com gravaes o SNI incorporou um termo da 
gria da seo de informaes do Estado-Maior do Exrcito, 
denominando dra go o que fora dele se chamava grampo O 
termo derivava de distri buidor geral, ou DG, equipamento 
da companhia telefnica em que se procedia  interceptao. 
Chamava-se drago tambm ao texto da de- gravao no 
qual, de uma maneira geral, a vtima era identificada ape nas 
pelo nome de Alvo, seguido de um nmero. Assim o vice-
presiden te da Repblica podia ser o Alvo 12, e o lder da 
oposio na Cmara, o Alvo 34. Nos documentos formais, para 
contornar o ridculo de mencio nar um drago, usava-se a 
crptica abreviatura DG. Segundo os clculos de Newton Cruz, 
nessa poca os drages podem ter passado de cinqen ta 
escutas simultneas, mas no passaram de cem.
Curtos foram os tempos em que os telefones grampeados podiam 
ser cem e o SNI dividia irmmente com o Exrcito suas 
fitinhas. Era um tempo de diletantes. O prprio presidente 
Castelio Branco descumpria a norma mais elementar do mundo da 
escuta: dava a entender que era capaz de ouvir os telefones 
alheios. Em 1964, o SNI gravava as ligaes do telefone do 
ex-presidente Juscelino Kubitschek. Quando Juscelino rece beu 
do deputado Antonio Carlos Magalhes a informao de que o de 
creto com sua cassao j fora assinado por Casteilo, chamou 
o marechal de filho-da-puta. Antonio Carlos, amigo dos 
dois, repreendeu Kubits chek pe+o insulto. No dia seguinte, 
ao encontrar-se com o presidente, ou viu uma frase 
enigmtica: Muito obrigado, deputado. Sei que o senhor me 
defendeu numa situao difcil
40 Golbery do Couto e Silva, novembro de 1984.
41 Generl Newton Cruz, fevereiro de 1988.
42 Antonio Carlos Magalhes, 1983.
166        A DITADURA ENVERGONHADA
Ampliando seus ouvidos para fora do Brasil, o SNI ligou-se  
rede dos servios ocidentais de informaes. Ainda em 1964 o 
SNI e a CIA comea ram negociaes que resultaram num 
documento de sugestes para um acordo oral intitulado 
Relao de Ligao entre o Servio Nacional de In formaes 
Brasileiro e o Servio de Informaes Americano. A CIA propu 
nha mandar para o Brasil um funcionrio categorizado para 
colabora na montagem e no desenvolvimento do Servio 
brasileiro e comprome tia-se a fornecer pistas operacionais 
especficas que se tornarem dispo nveis a respeito de 
atividades subversivas no Brasi1 Em troca, o SNI dis punha-
se a no passar adiante o material que recebesse e 
alimentaria a CIA com suas prprias informaes a respeito da 
subverso esquerdista. O funcionrio da companhia que manteve 
contatos mais freqentes com o SNI foi Stephen Creane. Ele 
tratava com Golbery desde assuntos relacio nados  subverso 
comunista na Amrica Latina at o projeto da Lei de Segurana 
Nacional brasileira, passando pelo funcionamento da escuta 
telefnica, cuja suspenso chegou a preocup-lo. No dia 4 de 
maro de 1967, um sbado, Creane conseguiu uma das suas 
maiores proezas: Gol bery compareceu a um coquetel de 
despedida que ele organizara para a cpula do Servio, que 
seria rendida em poucos dias.
A CIA j vinha colaborando com o governo brasileiro desde os 
pri meiros dias de abril de 1964, quando, a pedido da sua 
base do Rio, seus agentes em Montevidu vigiavam os 
principais exilados. Dois anos de pois, em fevereiro de 1966, 
Golbery reuniu-se no Rio com o legend rio Ray Cline, 
subdiretor para Assuntos de Informaes da CIA. (Em outubro 
de 1962 Cline fora o autor do memorando que assegurara ao 
presidente John Kennedy a existncia, em Cuba, de pelo menos 
oito ms 43 Suggestions for OralAgreement. Liaison 
Relationship between the Brazilian National Inteiligen ce 
Service and the American Inteiligence Service. Duas folhas 
datilografadas, carimbadas secret sem data nem assinatura. 
APGC5/HF.
44 Dirio de Heitor Ferreira, 18 de janeiro (para a Lei de 
Segurana) e 12 de fevereiro de 1967 (para a escuta 
telefnica). APGCS/HF.
45 Idem, 4 de maro de 1967. APGCS/HF. Em 1974 Creane voltou 
ao Brasil, como chefe da estao da CIA no Rio de Janeiro. 
Ver Philip Agee e Louis Wolf, Dirty work, p. 49.
46 Philip Agee, Inside the Company  CIA diary, p. 365.
47 Dirio de Heitor Ferreira, 3 de fevereiro de 1966. 
APGCS/HF.
NASCE O SNI        167
seis soviticos de mdio alcance capazes de atingir o 
territrio ameri cano.)
Antes do final de 1964 Golbery j tinha estabelecido contato 
com o M15, o servio da Gr-Bretanha para onde, no segundo 
semestre, segui ram oficiais brasileiros, iniciando o que 
seria um intenso, bem-sucedido e bem dissimulado intercmbio 
entre Braslia e Londres. Do embaixa dor em Lisboa, recebeu 
ofertas do ministro do Exrcito de Portugal para visitar a 
Escola de Comando de Luanda, onde eram treinadas tropas para 
aes antiguerrilheiras que combatiam os movimentos pela 
libertao de Angola e Moambique. Em agosto de 1965, depois 
de entendimentos com militares argentinos, dois oficiais do 
SNI foram estagiar em Buenos Aires por algumas semanas. Na 
volta, trouxeram o texto de uma propos ta de acordo para ser 
assinado entre os dois servios. Golbery refugou:
Eu no fao acordos escritos  dessa poca ainda o 
estabelecimento de relaes amistosas com os servios da 
Frana e da Itlia. Nos dois ca sos as negociaes 
disfararam-se dentro do cerimonial das visitas ofi ciais dos 
presidentes Charles de Gaulle e Giuseppe Saragat ao Brasil. 
Em 1966 estava feita a ligao entre o Servio e o organismo 
da espionagem israelense, Mossad, e o segundo homem do SNI, o 
coronel Figueiredo, foi convidado para ir a Tel Aviv. Nos 
anos seguintes o Servio enviou esta girios tambm  
Alemanha.
Aos poucos o SNI que Golbery imaginara no IPS parecia tomar 
for ma.  primeira vista, uma roubalheira aqui, outra ali, 
eram apenas os sos do oficio. Mas as foras internas do 
regime atraam, a ele e a sua obra, para a negao do que se 
propunham. O primeiro e o mais grave dos fa tores de desordem 
intrnsecos ao SNI estava no carter superministerial que a 
personalidade de Golbery lhe garantia e que, mesmo depois de 
sua
4
48 Dirio de Heitor Ferreira, 19 de setembro de 1964, e 19 de 
maro, 7 de junho e 13 de agosto de
1965. APGCS/HF.
49 Carta do embaixador Boulitreau Fragoso a Geisel, de 16 de 
setembro de 1964. APGCS/HF.
50 Dirio de Heitor Ferreira, 25 de agosto e 29 de outubro de 
1965. APGCS/HF.
51 Idem, 18 de abril e 16 de maio de 1966. APGCS/HF.
52 Depoimentos do chefe do SNI (1969-74), general Carlos 
Alberto da Fontoura, do general Enio
Pinheiro, primeiro diretor da E5NI, e Leonidas Pires 
Gonalves, em Maria Celina dAraujo, Glucio
Ary Dilion Soares e Celso Castro (orgs.), Os Anos de Chumbo, 
pp. 95, 135 e 244.
1
168        A DITADURA ENVERGONHADA
sada, foi mantido pela inrcia resultante da mistura da 
ilegalidade com a inimputabilidade. Alm disso, o SNI nunca 
foi um organismo politica mente neutro destinado a informar o 
presidente. Desde o incio funcio nou como uma assessoria 
poltica, partidria quanto  defesa do regime, pessoal 
quanto  defesa das manobras do mandatrio, pretoriana quan 
to ao cdigo de conduta militar que seguia.
Golbery prometera que seu Servio seria um rgo nitidamente 
in trovertido, desligado das tarefas operacionais. Enquanto 
esteve no lu gar, e enquanto o teve sob sua influncia, 
Golbery fez do Servio um ati vo operador poltico. Durante o 
governo Castelio Branco, sempre que houve uma crise poltica, 
l estavam  operando  Golbery e seu SNI. Ele tinha pouco 
mais de um ms na cadeira quando se lanou em arti culaes 
partidrias, como, por exemplo, encontrar-se secretamente com 
o governador mineiro Jos de Magalhes Pinto numa casa de 
praia, em Cabo Frio.
O SNI nasceu fazendo em segredo tudo aquilo que a Presidncia 
pre cisava que fosse bem-feito. Assim, se uma votao no 
Congresso parecia dificil, cabia ao Servio  e no  
liderana parlamentar ou ao Gabine te Civil facilitar as 
negociaes com a bancada. Quando se votou o Es tatuto da 
Terra, o presidente Casteilo Branco recebia notcias e 
recados atravs do general Geisel, operando com uma lista de 
nomes em cdigo fornecida pelo SNI. Nela, o deputado Pedro 
Aleixo, lder na Cmara, era Araci. O senador Daniel Krieger, 
lder no Senado, Gilda. Bilac Pinto, pre sidente da Cmara, 
era Poncio. No dia 5 de junho de 1966, quando Cas telio 
cassou o governador de So Paulo, Adhemar de Barros, o chefe 
do SNI atendeu ao telefone o seu sucessor, Laudo Natel. Ele 
queria saber co mo entrar em contato com seu futuro 
secretrio da Fazenda e com o pr ximo comandante da Fora 
Pblica, ambos fornecidos pelo governo fe deral. No se 
afobe, aconselhou-o Golbery, na hora certa o SNI vai
53 Dirio de Heitor Ferreira, 3 de setembro de 1964. 
APGCS/HF.
54 Bilhete de Heitor Ferreira ao general Ernesto Geisel, 
comunicando os codinomes. APGCS/HF.
NASCE O SNI 169
coloc-lo em contato com os dois. O secretrio da Fazenda 
era um jo vem professor da Universidade de So Paulo, de 36 
anos e tnues liga es com o mundo empresarial mediante 
eventuais assessorias presta das  Confederao Nacional da 
Indstria e ao IPS. Chamava-se Antonio Delfim Netto. Para o 
comando da Fora Pblica seguiu o coronel Joo Baptista 
Figueiredo.
Dez anos depois de sua fundao, o SNI dispunha em Brasilia 
de mais de 200 mil metros de gramado. L funcionava desde 
1971 a Escola Nacio nal de Informaes, a ESNI, equipada com 
um dos melhores laboratrios de lnguas do Brasil, academia 
de tiro subterrnea e uma completa emis sora de televiso. Na 
Agncia Central do Servio montou-se um avan ado sistema de 
computadores em torno de um modelo IBM-360/1 15 tra zido ao 
pas ilegalmente. Nele guardaram-se as fichas Levantamento 
de Dados Biogrficos, ou LDB5, na linguagem burocrtica. Sob 
o guarda- chuva do Servio funcionou tambm uma fbrica de 
componentes ele trnicos, a Prologo. Em 1981 ela contava com 
350 funcionrios. Destina va-se a produzir equipamentos de 
ctiptografia e a desenvolver aparelhos de escuta. As mquinas 
fabricadas pela Prologo poderiam permitir que uma parte dos 
arquivos do SNI fosse programada de forma a manter-se 
intacta, e indecifrvel, mesmo que o governo mudasse de mos.
Pela estrutura logstica, o SNI ficou entre os dez mais bem 
equipa dos servios de informaes do mundo. Seu poder de 
alavancagem po ltica foi superior ao da CIA, do Intelligence 
Service, ou mesmo da KGB. O servio sovitico, em 72 anos de 
existncia, conseguiu fazer um s secre trio-geral do 
Partido Comunista, Yuri Andropov, em 1982. S um ex- chefe da 
CIA (George Bush) chegou  Presidncia dos Estados Unidos. Em 
vinte anos, durante os quais o SNI foi chefiado por cinco 
generais, dois
55 Dirio de Heitor Ferreira, 5 de junho de 1966. APGCS/HF.
56 Para o equipamento de telecomunicaes da EsNI, ver o 
depoimento do general Octavio Cos ta, em A volta aos 
quartis, organizado por Maria Celina dAraujo, Glucio Ary 
Dilion Soares e
Ceiso Castro, p. 118.
57 J. C. Meio, A incrvel poltica nacional de informtica, 
pp. 50-1.
58 Idem, pp. 71-2. Para o funcionamento do servio de 
criptografia da Proiogo, depoimento do
general Octavio Costa em Maria Celina dAraujo, Glucio Ary 
Dilion Soares e Celso Castro (orgs.),
A volta aos quartis, p. 117
/
170        A DITADURA ENVERGONHADA
deles, Emilio Garrastaz Medici e Joo Baptista Figueiredo, 
chegaram 
Presidncia da Repblica.
O SNI foi desastroso para o pas que o cevou. Transformou-se 
em tri bunal de instncia superior para questes polticas, 
e, em 1970, foi de sua estrutura que saiu a avaliao pela 
qual o general Medici escolheria os go vernadores dos 21 
estados brasileiros. O Servio encantou-se com a defe sa que 
o deputado Haroldo Leon Peres fazia da ditadura e apontou-o 
para governar o Paran. Um ano depois, apanhou-o extorquindo 
1 milho de dlares a um empreiteiro e obrigou-o a renunciar. 
A nica coisa que se sabia dele  que era revolucionrio e 
defendia o AI-5. Se fossem catar, iam descobrir que era 
ladro em Maring. Ladro mesmo contaria mais tar de o ento 
chefe do Gabinete Militar, general Joo Baptista Figueiredo.
O Servio meteu-se nas mais disparatadas atividades. 
Envolveu-se na pacificao de conflitos de terras no Nordeste 
e de tribos indgenas na Bahia. Dirigiu e estruturou o 
garimpo nas jazidas aurferas da Amaz nia depois da 
descoberta de Serra Pelada. Com ouro na mo, tentou, em 1983, 
captar divisas internacionais por meio de operaes no mundo 
do contrabando e do mercado negro de dlares. Coletou fundos 
atravs de exportaes marotas de caf e fracassadas de pasta 
de urnio. Foi cond mino de arsenais secretos que chegou a 
pensar em utilizar numa mega lomanaca tentativa de invaso 
de Portugal, em 1975.60 Distribuiu canais de televiso e de 
rdio. Financiou jornais e revistas falidas. Seus quadros 
participaram de panfletagens contra o governo em 1975 e de 
atos terro ristas a partir de 77. Sua cpula acobertou os 
autores de mais de uma cen tena de atentados polticos, os 
quais iam desde a exploso de bombas at o incndio de bancas 
de jornais que vendiam publicaes de esquerda. Em 1981, o 
jornalista Alexandre von Baumgarten, colaborador e prote gido 
do Servio, viu-se ameaado de morte no meio de uma tentativa 
de chantagem contra seus patrocinadores e redigiu um dossi 
acusando o general Newton Cruz de tramar seu assassnio. Um 
ano depois seu cad 59 Dicionrio histrico-biogrfico 
brasileiro ps-1930, coord. de Alzira Alves de Abreu e 
outros, vol.
4, p. 4569.
60 Informao 20/3 0/A C/75, de 13 de agosto de 1975, e 
1272/60/A C/75, da Agncia Central do Servio
Nacional de Informaes. APGCS/HF.
NASCE O SNI        171
ver deu a uma praia do litoral do Rio de Janeiro com duas 
balas na ca bea. Restou a Nini carregar nas costas a 
acusao do morto, desmentin do-a. Levado a jri, foi 
absolvido.
Essa comunidade poderia dar a impresso de organicidade, de 
estar debaixo de uma doutrina, de compor um Sistema Nacional 
de Informa es, o SisNI. Poderia parecer algo tenebrosamente 
eficaz. No foi uma coi sa nem outra. O senador Roberto 
Saturnino, membro do Partido Socia lista at 1965, foi 
fichado como assessor do Partido Comunista. O deputado Thales 
Ramalho, um dos mais moderados dirigentes da oposio par 
lamentar, era considerado, numa anlise do SNJ de 1975, como 
um dos parlamentares mais ligados ao rc Gastou muito 
dinheiro, mas no adquiriu nenhuma sofisticao alm do 
primitivo poder de polcia, da arbitrariedade e da corrupo. 
Comunidade mesmo s existia no papel, no na eficincia, 
confessaria seu scio-atleta e fundador, Joo Baptista 
Figueiredo. Feitas as contas, resultou naquilo que Graciliano 
Ramos j vira no palavrrio chocho e na demagogia 
tenentista dos anos 30: La droagens, uma onda de burrice a 
inundar tudo, confuso, mal-entendi dos, charlatanismo, 
energmenos microcfalos vestidos de verde a es goelar-se em 
discursos imbecis, a semear de1aes
Ainda no poder, Golbery comeou a suspeitar que sua receita 
desan dara. Em dezembro de 1965, queixava-se da mquina que 
tinha nas mos:
No se institucionalizou. Ainda est organizado na base 
pessoal. Se a mi nha faixa de escolha no se ampliar, no sei 
como vai ser. Nem o SNI se institucionalizara como ele 
desejava, nem a nova ordem, trazida pe los oficiais que 
rodeavam Costa e Silva, pretendia institucionaliz-lo.
Por via das dvidas, logo que a candidatura do ministro da 
Guer ra se imps a Casteilo, Golbery cuidou de manter os 
arquivos do Ser vio relativamente limpos Mais tarde, s 
vsperas da posse do novo presidente, determinou a suspenso 
de todos os drages e a destrui o dos papis que 
indicassem vestgios de sua prtica. Chamava a ma 61 Informe 
mostrado ao autor pelo comandante Francisco Srgio Bezerra 
Marinho, em 1976.
62 Entrevista do ex-presidente Joo Figueiredo a Aziz Filho, 
O Globo, 28 de abril de 1991.
63 Graciliano Ramos, Memrias do crcere, vol. 1, p. 51.
64 Dirio de Heitor Ferreira, 15 de dezembro de 1965. 
APGCS/HF.
172        A DITADURA ENVERGONHADA
nobra de os processos do ndio para no deixar rastros: 
andar de cos tas e caminhar limpando os passos. No confiava 
nos seus sucesso res, nem eles confiavam nele. Costa e Silva 
j mandara um recado a Cas telio: Estou sabendo de tudo o 
que o SNI do Golbery est inventando contra minha famlia e 
contra os meus amigos. Mas eu tambm tenho o meu SNI. E 
quando chegar  presidncia, ajustaremos nossas contas, que 
so bem antigas
Golbery chegava a brincar com a idia de que, no novo 
governo, o Servio vigiaria seus passos  desde que eu no 
tenha que pagar a co mida,  at bom, guarda a casa Em 
janeiro de 1967, quando restavam pouco mais de dois meses de 
mandato a Casteilo, o major Alvaro Galvo Pereira, depois de 
visitar os estados-maiores, numa tentativa de organi zar uma 
transio decente na Comunidade, lamentava-se: Fui hoje  Ma 
rinha. Recebido e tratado como um diplomata sovitico. 
Quiseram tu do por escrito e nem me deixaram entrar na Seo 
de Informaes
Tpica malvadeza contra o ministro do silncio: o general 
Emilio
Garrastaz Medici, designado por Costa e Silva para chefiar o 
SNI, anun
ciou menos de um ms antes de tomar posse que ia administrar 
o Ser vio com o gabinete aberto aos jornalistas, pois no 
entendo como se pode exercer uma funo pblica sem prestar 
contas General presti giado pelo dispositivo de Jango, que 
lhe dera o comando da Academia Militar das Agulhas Negras, 
Medici foi caso clssico de revolucionrio de 12 de abril. J 
em julho de 1964, em correspondncia privada, e por tanto sem 
valor propagandstico, ele pedira a Costa e Silva a limpeza 
do pessoal do contra que servia na Misso Militar em 
Washington. Nos anos seguintes o general Garrastaz Medici se 
transformaria no pre sidente Emilio Medici, livrando-se do 
Garrastaz de rima perversa. Mui tos foram os jornalistas que 
entraram pelas portas abertas dos gabine 65 Dirio de Heitor 
Ferreira, 15 de dezembro de 1965, 12 de maio de 1966 e 4 de 
janeiro de 1967.
Nota de Heitor Ferreira, de maro de 1967. APGCS/HF.
66 Armando Falco, Tudo a declarar, p. 305.
67 Dirio de Heitor Ferreira, 26 de junho de 1966 e 20 de 
janeiro de 1967. APGCS/HF.
68 Idem, 19 de fevereiro de 1967. APGCS/HF.
69 Carta de Medici a Geisel, de 24 de julho de 1964. 
APGCS/HF.
NASCE O SNI        173
tes da comunidade durante seu governo. Raros os que deles 
saram com
boas lembranas.
Anos mais tarde, olhando para o SNJ que fundara em 1964, 
Golbery observou: Esse tipo de trabalho deforma as pessoas. 
Muitos oficiais que comearam a trabalhar no Servio comigo 
esto irreconhecveis. Voc olha para o sujeito e no 
acredita que ele  o capito ou major que um dia entrou na 
sua sala para se apresentarY
Em 1982, quando o SNI estava desmoralizado pelos escndalos 
po lticos, criminais e financeiros em que se metera, Golbery 
ironizava as tra palhadas de seus discpulos. Eles haviam se 
metido at mesmo num pia no destinado a fraudar a eleio 
para governador do Rio de Janeiro atravs dos computadores da 
empresa Proconsult, contratada para tota lizar os votos. 
Custico como um professor que repreende alunos inep tos, 
Golbery dizia:
H determinadas cousas que no e devem fazer, mas no quero 
me fazer de santo. Se num determinado momento elas so teis, 
 razovel que se pense em faz-las. Eu no critico toda essa 
bobageira que essa gente fez por que eram cousas condenveis 
em si. O que eu critico  o fato de eles terem se metido a 
fazer cousas condenveis sem saber faz-las. Ento voc acha 
que roubar uma eleio atravs do sistema de computao  
coisa fcil? Eles simplesmente no sabem fazer isso. Ns no 
devemos tentar fazer o que no sabemos.
De fora, Golbery foi um crtico sibilino e impiedoso do SNI. 
Vinte anos depois de t-lo criado e trs depois de t-lo 
chamado de monstro reconhecia: Tentamos criar um servio 
de informaes, mas entramos pelo cano. Dele se pode dizer o 
que Aldous Huxley disse do padre Jos, o personagem de seu 
Eminncia parda: Padre Jos foi capaz de retirar,
70 Golbery do Couto e Silva, 1983.
71 Idem, 1982.
72 Idem, novembro de 1984.
174        A DITADURA ENVERGONHADA
das profundezas de sua prpria experincia, o critrio final 
e objetivo, em relao ao qual sua poltica pde ser julgada. 
Foi um dos forjadores de um dos mais importantes elos da 
cadeia do nosso desastroso destino: e ao mesmo tempo foi um 
daqueles a quem foi dado conhecer como o for jar de tais 
cadeias pode ser evitadoY
73 Aldous Huxley, Eminncia parda, p. 25.
r
Pelas barbas de Fidel
Durante os trs anos de consulado do marechal Castelio Branco 
o pas viveu perodos de suspenso das garantias 
constitucionais nos quais se preservava o mais absoluto clima 
de liberdade para a direita. O governa dor Carlos Lacerda 
conspirava com militares radicais e chamava o pre sidente de 
anjo da Conde de Lage, numa referncia aos santos de bor 
dis da rua onde, por coincidncia, seu ministro do 
Planejamento deixara a virgindade nos anos 40.1 Quando o 
governo encaminhou ao Congres so o Estatuto da Terra, o 
presidente da UDN, deputado Ernani Stiro, fa lando por 
latifundirios do Nordeste, proclamou que estava disposto a 
participar de uma nova revoluo contra as mudanas 
propostas. Quan do a oposio vinha da esquerda, o 
interlocutor era a ditadura. Coxo, o consulado tropeava no 
lado esquerdo do problema nacional.
Em setembro de 1964, numa longa Estimativa, Golbery 
assinalava a Castello que o governo tinha na oposio  
esquerda uma frente anti- ou contra-revolucionria em que 
identificava dois blocos: O grupo janguista-brizolista que 
foi alijado do poder e, pouco realista, deseja sim plesmente 
a restaurao em proveito do seu oportunismo poltico e o 
grupo comunista da linha violenta (maosta-fidelista) que 
teme a con solidao total, em curto prazo, do atual governo 
e, pois, acalenta ainda a esperana de, atravs de atos de 
violncia, criar um clima de intranqi 1 Para o insulto, John 
W. F. Dulies, Carlos Lacerda  A vida de um lutador, vol. 
2:1960-1977, p.
363. Para a virgindade do ministro do Planejamento, Roberto 
Campos, A lanterna na popa  Me mrias, p. 43.
176        A DITADURA ENVERGONHADA
lidade pblica propiciando a ainda almejada tomada do poder 
Admi tia a hiptese de que os brizolistas e os ultra-
esquerdistas se juntassem e deles esperava atos isolados de 
sabotagem podendo ir, no mximo, a aten tados pessoais, 
golpes de mo em centros vitais (comunicaes), energia 
eltrica, quartis etc., fracos surtos de insurreio 
localizada, inclusive guer rilhas e, at mesmo, incurses e 
correrias em faixas fronteirias [ com recursos financeiros e 
armamento contrabandeado
Apesar da propaganda oficial, que ameaava com o perigo da 
volta da corrupo e da subverso, Golbery dava pouca 
importncia em suas Estimativas aos movimentos da esquerda. 
Mesmo quando se desbarata vam planos de insurreies, anotava 
ironicamente que coisas desse g nero faziam a delcia da 
linha dura
Do outro lado, havia os projetos dos derrotados. A esquerda 
viveu a partir de 1964 o mais profundo perodo de 
transformao de sua his tria. O Partido Comunista 
Brasileiro, fora hegemnica desde 1922, foi cortado em 
pedaos e comido por radicalismos de yariadas confisses. 
Para isso contriburam o oportunismo e a inpcia de sua 
direo, encar nada por Luiz Carlos Prestes, heri de 
batalhas perdidas desde os anos 20, quando, ainda como 
capito, lutava contra a Repblica Velha. Duas semanas depois 
da deposio de Jango, numa exata repetio do que su cedera 
em 1936, a polcia,  procura do Cavaleiro da Esperana, 
achou seu esconderijo e nele um tesouro historiogrfico: 
dezenove cadernetas ma nuscritas pelo secretrio-geral do PCB 
com minuciosas descries das reunies de que participara nos 
ltimos trs anos.
Numa das cadernetas Prestes anotara a smula de uma reunio 
que tivera em Moscou com o secretrio-geral do pc sovitico, 
Nikita Kruchev, em novembro de 1961. Trataram de um tema 
central para toda a esquer da latino-americana: a luta 
armada. Concluram, segundo Prestes, que quando falamos em 
luta armada, falamos de luta de grandes massas e
2 Estimativa n 1, do SNI, de 15 de dezembro de 1964. 
APGCS/HF.
3 Impresso Geral n 6, do SNI, para a semana de 15 a 21 de 
setembro de 1964. APGC5/HF.
PELAS BARBAS DE FIDEL        177
no de aes sectrias de alguns comunistas. Porque isto 
seria uma aven tura. Realizar o trabalho de massas  a melhor 
forma de preparar a in surreio
Precisamente o oposto daquilo que boa parte da esquerda 
gostava de ouvir. Fidel Castro subvertera noes tradicionais 
de luta poltica dos partidos comunistas. Em dezembro de 1956 
ele desembarcara na ilha com 81 homens e em janeiro de 59 
entrara triunfalmente em Havana. O mi to cubano projetara-se 
romanticamente sobre o mundo, com as figuras comoventes, 
desprendidas e hericas de Fidel e de Ernesto Che Gue vara, 
o jovem aventuroso mdico argentino que se juntara aos 
revolto sos ainda na fase dos preparativos do desembarque. A 
esquerda latino- americana conseguira seus primeiros heris 
vitoriosos. Pouca importncia se dava ao fato de que jamais a 
regio tivera tantos governantes eleitos. Em 1959 as 
ditaduras estavam confliudas a cinco pequenas naes (Ni 
cargua, Haiti, Repblica Dominicana, El Salvador e Paragua,
O castrismo descera da Sierra Maestra, derrubara o governo, 
dissol vera o Exrcito e fuzilara o chefe de polcia. Se tudo 
isso fosse pouco, mandara a burguesia para Miami e sobrevivia 
ao desafio que lanara con tra os Estados Unidos. Ainda na 
alvorada da vitria, Guevara anunciava que o exemplo de 
nossa Revoluo, bem como as lies que ela impli ca, 
destruiu todas as teorias de botequimY De Paris, o filsofo 
Jean-Paul Sartre vocalizava o vigor do fenmeno:  preciso 
que os.cubanos triun fem, ou perderemos tudo, at mesmo a 
esperana Prestes e o PCB, en to com 30 mil militantes, 
estavam dispostos a fazer tudo pelo triunfo do socialismo e 
da Revoluo Cubana, menos pegar em armas. Quando a
4 Jos Tinoco Barreto, Sentena prolatada no Processo das 
Cadernetas de Lus Carlos Prestes, p. 11.
5 Nos trs anos anteriores  vitria de Castro, quatro 
generais que haviam chegado ao poder com
golpes de Estado tinham sido depostos ou devolvido o poder 
aos civis no Peru (1956), na Colm bia (1957), na Argentina 
(1958) e na Venezuela (1958).
6 Em quatro meses fuzilaram-se cerca de 550 pessoas. Jon Lee 
Anderson, Che Guevara, p. 419.
7 Richard Gott, Rural guerrillas in Latin America, p. 30.
8 Jean-Paul Sartre, Furaco sobre Cuba, p. 185.
9 Para o nmero de militantes do PCB, Survey of Latin 
America, da Central Intelligence Agency,
de 12 de abril de 1964. BLBJ. Em Geraldo Cantarino, 1964 A 
revoluo para ingls ver, p. 101, a
embaixada inglesa no Brasil estima os militantes do PCB entre 
30 mil e 40 mil.
178        A DITADURA ENVERGONHADA
guerrilha cubana se encontrava nas montanhas, o Cavaleiro da 
Esperan a no lhe dava crdito nem apoio, chegando a 
condenar a queima de ca naviais, que, a seu ver, prejudicava 
o povo.
Fidel sonhava com uma revoluo continental que transformasse 
os Andes numa Sierra Maestra. Pensava assim porque esse era 
seu dese jo, mas tambm sua convenincia. Hostilizado pelo 
governo america no, temia ser derrubado por uma invaso da 
ilha e acreditava que os Estados Unidos no podero nos 
atacar se o resto da Amrica Latina es tiver em chamas
Esse aspecto utilitrio levava-o a ter pressa. A guerrilha 
brasileira en trara nos seus planos antes mesmo da derrubada 
de Goulart. Em 1961, manobrando pelo flanco esquerdo do PCB, 
Fidel hospedara em Havana o deputado Francisco Julio. Antes 
desse encontro, com olhar e cabeleira de profeta desarmado, 
Julio propunha uma reforma agrria convencio nal. Na volta 
de Cuba, defendia uma alternativa socialista, carregava o slo 
gan Reforma agrria na lei ou na marra e acreditava que a 
guerrilha era o caminho para se chegar a ela. Julio e 
Prestes estiveram simultaneamen te em Havana em 1963. Foram 
recebidos em separado por Castro. Um j remetera doze 
militantes para um breve curso de capacitao militar e es 
tava pronto para fazer a revoluo. Durante uma viagem a 
Moscou, te ria pedido mil submetralhadoras aos russos. O 
outro acabava de voltar da Unio Sovitica. Segundo um 
telegrama da embaixada do Brasil em Havana, afirmara aos 
lderes cubanos que seria criminoso, repito, cri minoso, 
tentar esse caminho O governo cubano enviou ao Rio de Ja 10 
Relato do jornalista Carlos Alberto Tenrio, depois de um 
encontro com Prestes na casa do
advogado Sinval Palmeira, em Carlos Alberto Tenrio, O senhor 
de todas as armas, p. 204.
1 Aleksandr Fursenko e Timothy Naftali, One heli of a 
gambie  Khrushchev, Castro, and Ken nedy; 1958-1964, pp. 
141 e 171-2. Os autores documentam que essa frase foi 
registrada em anli ses dos servios de inteligncia 
americano e sovitico.
12 Para a ida de doze militantes das Ligas, Denise 
Rollemberg, O apoio de Cuba  luta armada no Brasil, p. 24. 
Ver tambm Luiz Alberto Moniz Bandeira, O governo Joo 
Goulart, pp. 14-5.
13 Narrativa de Oleg Ignatiev, em Geneton Moraes Neto, Dossi 
Brasil, p. 226. Julio, em entre vista a Moraes Neto, negou 
que tivesse feito o pedido.
14 Telegrama 2629, do encarregado de negcios do Brasil em 
Havana, Jos Maria Ruiz de Gamboa, ao Itamaraty, de 6 de 
maro de 1963. APGCS/HF.
PELAS BARBAS DE FIDEL        179
neiro como ministro-conselheiro da sua embaixada um veterano 
comba tente da rede de guerrilha urbana, o jornalista Miguel 
Brugueras.
No incio de 1962, uma nova organizao esquerdista recebera 
a bn o cubana. O Movimento Revolucionrio Tiradentes 
planejava a mon tagem de um dispositivo militar espalhado 
por oito reas de treinamen to compradas em sete estados. 
Tratava-se de uma guerrilha mambembe (juntava menos de 
cinqenta homens), na qual o chefe da operao mi litar era 
acusado de ter gasto uma pequena fortuna para desembaraar a 
bagagem da sogra tcheca no aeroporto do Rio de Janeiro, 
enquanto guer rilheiros passavam fome em Gois, alimentando-
se de farinha e toucinho.
O projeto insurrecional caiu nas mos dos servios de 
segurana ame ricanos em novembro de 1962, quando o avio da 
Varig em que viajava um correio oficial cubano se espatifou 
nas cercanias de Lima. Na mala diplomtica que ele conduzia 
estavam trs documentos remetidos por Gera rdo (possivelmente 
Brugueras) a Petrnio em Havana. Eram uma car ta comovente de 
um guerrilheiro abandonado  prpria sorte, uma an lise 
militar da inutilidade estratgica das fazendas compradas no 
mato e, finalmente, uma exposio feita por dois militantes 
que denunciaram  embaixada a desordem militar do MRT. A 
denncia sustentava que a ope rao no s est pondo em 
perigo a Revoluo no Brasil, como tam bm, alm de estar 
gastando dinheiro cubano a mos-cheias, est-se colocando 
Cuba, diante dos revolucionrios do Brasil, de maneira irres 
ponsvel e mentirosa Quando esse diagnstico foi tornado 
pblico, uma base de treinamento goiana j havia sido 
varejada por tropas de pra-que distas e fuzileiros navais, O 
prprio chefe do esquema guerrilheiro das Ligas Camponesas 
fora preso no Rio de Janeiro.
Enquanto Fidel trabalhava pela borda, o radicalismo chins do 
Grande Timoneiro Mao Zedong ganhara, em 1962, um naco do 
Parti- do, apelido ganho pelo PCB precisamente na poca em 
que comeou a mirrar. Um pedao de sua direo, levando 
consigo antigas brigas inter-
15 Depoimento de Clodomir de Morais a Dnis de Moraes, em A 
esquerda e o golpe de 64, p. 84.
16 O Jornal, 23, 24 e 25 de janeiro de 1963.
17 Dnis de Moraes, A esquerda e o golpe de 64, p. 88.
180        A DITADURA ENVERGONHADA
nas e cerca de novecentos militantes, fundara o Partido 
Comunista do Brasil, o pc do B. Nessa dissidncia, o PCB 
perdeu trs dirigentes que por mais de dez anos haviam 
integrado sua comisso executiva. Um de les, Digenes Arruda, 
fora o virtual chefe da organizao de 1948 a 1958. Mandou 
durante o perodo em que o partido ficou fora da lei e 
Prestes se protegeu na clandestinidade. Sua liderana durou 
at o reaparecimen to do Cavaleiro da Esperana, quando o PCB 
recebeu um estatuto de semilegalidade. No dia 29 de maro de 
1964, dez militantes do pc do B embarcaram com destino a 
Pequim para um curso de capacitao po ltico-militar. 
Decolaram pensando em derrubar Jango e quando che garam  
China tinham pela frente um osso bem mais duro de roer, uma 
ditadura militar.
Fidel, Julio, Mao e os dirigentes do rc do B poderiam 
consumir mui tos anos planejando insurreies no Brasil. Elas 
ficariam no papel ou pro vavelmente terminariam como sete 
outras guerrilhas incentivadas at en to pelo castrismo na 
Amrica Latina. Havia uma diferena. Desde abril de 1964, a 
luta armada transformara-se numa alternativa de sobrevivn 
cia para centenas de profissionais. O governo Casteilo Branco 
expurga ra 738 suboficiais, sargentos e cabos das Foras 
Armadas. Deles, 347 fo ram condenados  priso pelas 
auditorias militares. Na Marinha licenciaram-se 963 marujos e 
fuzileiros. Num s processo, sentenciaram- se 284 alistados a 
penas superiores a cinco anos de recluso. A reorga nizao 
da vida desses punidos era perversamente dificultada. Todos 
per 18 Para o nmero de militantes do pc do B, Survey of 
Latin America, da Central Intelligence Agency,
de 12 de abril de 1964. BLBJ. A embaixada inglesa estimava os 
militantes do c do B em quatro centos, no mximo. Geraldo 
Cantarino, 1964 A revoluo para ingls ver, p. 103.
19 Jacob Gorender, Combate nas trevas, p. 117.
20 Em 1959 o governo cubano colaborou com quatro desembarques 
de guerrilheiros em pases
da Amrica Central. No Panam, na Repblica Dominicana e no 
Haiti. Em 1963, passou a patro cinar guerrilhas na Venezuela, 
no Peru, na Guatemala e na Argentina. Carla Anne Robbins, The
Cuban threat, pp. 9-12, 23-6 e 51-2. Ver tambm o relatrio 
especial da CIA de 16 de fevereiro de
1968, Cuban Subversive Activities in Latin America, no 
endereo eletrnico da CIA:
<http://www.foia.ucia.gov>. O documento tem a seguinte 
classificao: EO- 1995-00640.
21 Avelino Bioen Capitani, A rebelio dos marinheiros, p. 71, 
e Projeto Brasil: nunca mais, tomo III:
Perfil dos atingidos, p. 124. Nesse processo vindicativo a 
Marinha condenou 315, a Aeronutica, dezoito e o Exrcito, 
catorze.
PELAS BARBAS DE FIDEL 181
deram o emprego, muitos perderam tambm a profisso e 
qualquer di reito trabalhista. As punies eram um estigma na 
busca de servio, e as condenaes tornavam-se um estmulo  
vida clandestina. Aquilo que dcadas de organizao 
sistemtica no haviam sido capazes de dar  ce rebral 
esquerda brasileira, os militares ofereceram de mo beijada: 
um brao armado.
Dias depois da derrubada de Goulart, Che Guevara, em Genebra, 
ameaava: A linha geral na Amrica Latina  o caminho 
armado: os im perialistas e suas marionetes o impem. Quanto 
ao sucedido no Brasil,  um golpe de estado de direita. Pode-
se defini-lo com um provrbio es panhol: quem semeia ventos, 
colhe tempestades.
Francisco Julio, a aposta cubana, estava preso num quartel 
do Exr cito em Braslia. Suas Ligas Camponesas haviam-se 
desvanecido, e Fidel se queixava de que seu dinheiro fora 
malbaratado. Aos poucos, saa do baralho uma nova carta: 
Leonel Brizola. Antes mesmo da derrubada de Goulart, o 
embaixador cubano no Ri de Janeiro, Ral Roa Kour, acre 
ditava que era ele quem tinha as maiores chances para iniciar 
uma revo luo  la Castro no Brasil.
O ex-governador gacho chegara a Montevidu barbado, com um 
apocalipse na cabea e uma insurreio na mochila. Denunciou 
a exis tncia no Brasil de 30 mil a 40 mil presos polticos e 
brandiu a fora de um exrcito popular montado com clulas do 
tamanho de um time de futebol: Posso assegurar que h mais 
de sessenta mil grupos dos 11 no territrio brasileiro que 
constituem uma organizao embrionria, mas representam o 
esforo de organizao das foras patriticas Instalou seu 
quartel-general no modesto hotel Lancaster e, em seguida, 
alugou (por
22 Pierre Kalfon, Che, p. 379. Semanas depois da queda de 
Goulart, Guevara ficou abatido pela
destruio de seu sonho de uma guerrilha argentina. O 
Exrcito Guerrilheiro dos Pobres, que en trara nas matas de 
Salta, na vizinhana da Bolvia, dissolvera-se. Seu 
comandante, Jorge Masetti,
desapareceu na floresta. Ver Claudia Furiati, Fidel Castro, 
vol. 2, pp. 139-40.
23 Telegrama da CIA do Rio de Janeiro para Washington, de 28 
de agosto de 1967, em Marcos S
Corra, 1964 visto e comentado pela Casa Branca, p. 67.
24 Survey of Latin America, da Central Inteiligence Agency, 
de 12 de abril de 1964. BLBJ. Ver tam bm Pierre Kalfon, Che, 
pp. 3 77-8.
25 Correio da Manh, 13 de maio de 1964.
182        A DITADURA ENVERGONHADA
seis meses) um apartamento no centro da cidade. Desde a 
primeira ho ra, a estao local da CIA passou a vigi-lo, a 
pedido da embaixada ame ricana no Rio de Janeiro. Nem 
Castelio Branco tinha 30 mil presos, nem Brizola 660 mil 
patriotas.  mo mesmo, dispunha de uma parte dos exi lados 
brasileiros que viviam em Montevidu.
A associao prtica de Brizola com os cubanos deu-se 
provavelmen te depois de julho de 1964 e, com certeza, antes 
do fim do ano, O soci logo Herbert Jos de Souza, o Betinho, 
dirigente da Ao Popular, a AP, organizao da esquerda 
catlica, foi mandado a Havana como represen tante do comando 
revolucionrio baseado em Montevidu. Levou uma carta de 
Brizola a Fidel Castro, entendeu-se com o comandante Manuel 
Pifleiro Losada, o Barba Roja, chefe do servio de 
informaes cubano e chanceler da subverso da Amrica 
Latina. Acertaram as bases para o trei namento militar de 
brasileiros na ilha.
De incio, o plano do ex-governador era diverso da concepo 
fide lista de luta guerrilheira. Formado no poder e educado 
numa regio aguerrida, de histria marcada por levantes, ele 
explicava aos comanda- dos: No se trata de guerrilha. 
Trata-se de uma insurreio da qual par ticiparo civis e 
militares. No ser guerrilha por motivos de natureza es 
tratgica e ttica. Alm disso, Cuba  uma ilha, e o Brasil  
um continente Em 1987 o ex-tenente do Exrcito Jos Wilson 
da Silva, conselheiro mi litar de Brizola no Uruguai, contou 
em seu livro O tenente vermelho que ele recebeu de Havana 
algo em torno de 650 mil dlares e, por falta de estrutura 
logstica capaz de intermediar uma operao de venda de 4 mil 
toneladas de acar cubano, perdeu uma oportunidade que lhe 
renderia cerca de 4 milhes de dlares.
26 Para o prazo do aluguel, Os segredos de Brizo-la, de 
Dione Kuhn, em Zero Hora, 6 de setem bro de 1999.
27 Philip Agee, Inside the Company  CIA diary, p. 371.
28 Entrevista de Herbert Jos de Souza a Geneton Moraes Neto, 
O Globo, 28 de janeiro de 1996. Ver tambm Herbert Jos de 
Souza (Betinho), em seu Nofio da navalha, pp. 62 e segs.
29 ndio Vargas, Guerra  guerra, dizia o torturador, p. 12.
30 Para os 650 mil dlares, Jos Wilson da Silva, O tenente 
vermelho, pp. 202-3. Bayard Boiteux, em entrevista a Esther 
Kuperman, reconheceu que Cuba nos auxiliou muito. Tanto no 
aspecto
financeiro como no aspecto de treinamento de guerrilheiros 
l. Em Kuperman, A guerrilha de
PELAS BARBAS DE FIDEL        183
O comandante da insurreio ia de reunio em reunio com uma 
pasta preta em que carregava uma submetralhadora INA e a 
bandeira do Brasil, como se a qualquer momento tivesse de 
atravessar a fronteira dis parando uma e empunhando a outra. 
Sua idia era a de uma tpica mar cha triunfal. Atravessaria 
a fronteira, tomaria uma rdio em Porto Ale gre, levantaria a 
Brigada Militar e racharia o iii Exrcito. Algo como a 
Revoluo de 1930, em que uma sucesso de levantes urbanos, 
estimu lados pela marcha do condestvel em direo ao Rio de 
Janeiro, levaria o governo ao colapso. A primeira insurreio 
chegou a ter dia marcado:
15 de setembro de 1964. Seu ncleo seria uma brigada de 470 
homens, e seu principal objetivo era a tomada de Porto Alegre 
atravs da ao si multnea de seis comandos. Comearia com a 
ocupao do palcio Pi ratini, sede do governo estadual.
Brizola estava vigiado. Um pedao da rede gacha ruiu 
espetacular- mente com a descoberta de um plano denominado 
Operao Pintas silgo, capturado em poder de um 
universitrio. Prenderam-se vinte ex- sargentos. Ao mesmo 
tempo a CIA descobriu um encontro de Brizola com um general e 
dois coronis. Um ms depois, a estao de espionagem ame 
ricana em Montevidu conseguia nova e boa caa, prevendo para 
fins de outubro ou incio de novembro uma insurreio cuja 
senha seria: Os sinos vo dobrar no dia de Finados. Desde 
agosto, quando fora preso no Rio um garoto de catorze anos, 
filho do ex-coronel Jefferson Cardim de Alencar Osorio, a CIA 
estava de olho nessa conexo. Em novembro, num documento 
intitulado Guerrilhas e Atividades Terroristas na Am rica 
Latina, os servios de informaes americanos tranqilizavam 
o se cretrio de Estado Dean Rusk informando-o de que Brizola 
planejava le Capara (1966-1967)  Um ensaio de resistncia, 
p. 150. Herbert Jos de Souza (Betinho), em
seu No fio da navalha, p. 63, assegura a internao de 200 
mil dlares.
31 ndio Vargas, Guerra  guerra, dizia o torturador, p. 36.
32 Entrevista de Betinho (Herbert Jos de Souza), em seu No 
fio da navalha, p. 61.
33 Os segredos de Brizola, de Dione Kuhn, em Zero Hora, 6 
de setembro de 1999.
34 Jos Wilson da Silva, O tenente vermelho, p. 159.
35 Telegrama da CIA, de 7 de outubro de 1964, em Marcos S 
Corra, 1964 visto e comentado pela
Casa Branca, pp. 65 e 64, e Correio da Manh, 20 de agosto de 
1964.
184        A DITADURA ENVERGONHADA
vantes, mas os militares e a polcia parecem bem informados 
a respeito
de seu compl e de seus seguidores
Ora porque se esperavam novos e frutferos contatos com a 
oposi o que agia dentro do Brasil, ora porque se percebeu 
que as bases his tricas do trabalhismo no Rio Grande do Sul, 
mesmo opondo-se ao re gime, no se mostravam articuladas para 
um levante, a insurreio de novembro tambm foi adiada. Por 
essa poca o ex-governador teria es tado clandestinamente no 
Brasil. Com a caixa feita pela ajuda cubana e inflado por 
prestigiosas conexes internacionais, Brizola tinha uma no va 
data: incio de 1965. Em fevereiro j teria recebido 500 mil 
dlares de Cuba. Essa insurreio diferia da anterior, 
praticamente baseada no levante de Porto Alegre, e 
sustentava-se numa coluna de combatentes, trin ta dos quais, 
ex-sargentos, viviam aquartelados  sua custa numa gran ja. 
Sua zona de operaes iria do Chu, na fronteira uruguaia, ao 
limite do sul de Mato Grosso. Chegara-se at a tratar da 
redao do manifes to que faria o efeito protofnico da 
revolta.
Os dois primeiros projetos de bases guerrilheiras derreteram-
se na infncia. Um, no Rio Grande do Sul, acabou-se quando a 
mulher do ex- sargento encarregado de montar a estrutura de 
apoio lhe deu um tiro na barriga durante uma crise de cimes. 
Outro, em Nova Veneza, no sul de Santa Catarina, extinguiu-se 
quando uma quadrilha de assaltantes de banco se escondeu na 
regio e a polcia foi alertada por camponeses so bre a 
existncia de estranhos na mata.
36 Memorando de Thomas Hughes a Dean Rusk, de 18 de novembro 
de 1964, intitulado A
Guerrilia and TerroristActvty in Latin America A 
BriefReview. BLBJ.
37 ndio Vargas, Guerra  guerra, dizia o torturador, pp. 11 
e 24.
38 Coojornal, dezembro de 1978, pp. 18-27, Guerrilha no Sul: 
23 homens tentam levantar o pas
entrevistas de Jeiferson Cardim e Alberi Vieira dos Santos.
39 Idem.
40 ndio Vargas, Guerra  guerra, dizia o torturador, p. 18.
41 Esther Kuperman, A guerrilha de Capara (1966-1967)  Um 
ensaio de resistncia, pp. 145-
6 e 214, como depoimento de Jelsy Rodrigues Corra.
42 Idem,p.215.
PELAS BARBAS DE FIDEL        185
Durante o ano de 1964 o governo jogou com a insurreio 
brizolis ta uma cerebral partida de informaes. Os xitos 
que obteve resultaram de investigaes e manobras 
diplomticas. O embaixador do Brasil em Montevidu, Pio 
Corra, vestiu punhos de renda e soco-ingls. Diploma ta 
elitista e conservador, considerava John Kennedy um 
bestalho e na velhice se queixaria da decadncia de 
Copacabana, invadida pela horda pululante e chinfrim de 
suburbanos transmigrados. Vetou planos po licialescos, como 
o seqestro, encaixotamento e traslado para o Brasil do ex-
chefe do Gabinete Civil, Darcy Ribeiro. Intimidou Joo 
Goulart pondo-lhe a polcia aduaneira a vigiar os rebanhos da 
grande fazenda Car pinteria, que se estendia pelos dois 
pases, e imobilizando-lhe os quatro pequenos avies que 
facilitavam a vida dos pombos-correios. Afagou-o ajudando o 
desembarao de um automvel alemo que mofava numa ga ragem 
sua e visitando-o no hospital quando sua filha Denise foi 
atro pelada. Com a chancelaria uruguaia, negociou ao mesmo 
tempo a compra de 500 milhes de dlares de trigo e a 
retirada de Brizola de Montevi du. Comprado um, vendeu-se o 
outro, e o insurreto viu-se confinado no balnerio de 
Atlntida, a meio caminho para Punta dei Este.
So poucos os casos de tortura denunciados durante o 
desbarata mento dessa trama. A indisciplina militar no 
chegara ao poderoso iii Exr cito, sob cuja jurisdio ficava 
o Sul do pas.  significativo, por exem plo, que um ex-
sargento preso em Porto Alegre em agosto de 1964 com 
coquetis molotov, plvora e mapas de quartel em casa tenha 
sido ape nas ameaado com as torturas do DOPS gacho, 
enquanto, na Marinha, no Rio, torturavam-se militantes da 
esquerda catlica mais envolvidos na montagem de redes de 
proteo a foragidos que em planos de derruba da do governo. 
Com mais da metade dos oficiais superiores da Mari nha, 
Exrcito e Aeronutica vivendo perto de suas praias e 
trabalhando junto aos corredores dos palcios, o Rio tornava-
se uma fbrica de fan
43 Pio Corra, O mundo em que vivi, pp. 815 e 56.
44 Pio Corra, fevereiro de 1996.
45 Pio Corra, O mundo em que vivi, pp. 858, 863 e 888.
46 Jos Wilson da Silva, O tenente vermelho, p. 217, e Marcio 
Moreira Alves, Torturas e torturados,
p. 149.
i86        A DITADURA ENVERGONHADA
tasias, pois era mais confortvel interrogar um preso no 
Arsenal de Ma rinha, a meia hora de Ipanema, do que perseguir 
pombos-correios no pam pa gacho, a centenas de quilmetros 
de um bom hotel.
Ao lado da real conspirao de Brizola, o regime enfrentava 
amea as derivadas, em muitos casos, mais da sua prpria 
criatividade que da efetiva articulao da esquerda. Com 
freqncia, o monstro predileto era a notcia de um iminente 
atentado ao presidente. No dia 2 de setembro chegou ao 
palcio um alerta do SNI avisando que se planejava o assassi 
nato de Casteilo no Jockey Club, na tarde do Grande Prmio 
Brasil. Des de julho a seo de informaes do r Exrcito 
campanava os respons veis por uma tentativa de suborno de um 
soldado, em Niteri, para conseguir armas automticas. 
Descobriu que pretendiam matar o mare chal durante a parada 
militar de Sete de Setembro, com atiradores dis farados de 
sorveteiros. No episdio, catorze pessoas foram presas, inclu 
sive sorveteiros. Nessa poca, diante de atos de sabotagem 
ocorridos em ramais ferrovirios, o governador Carlos Lacerda 
escreveu a Geisel: A t tica para o Brasil  a dos atentados 
terroristas quer em carter pessoal, quer em relao a bens e 
servios. [ Tenho informes de que alguns ele mentos expulsos 
do Exrcito estaro sendo transportados para Cuba, onde 
recebero treinamento. [ Ouso sugerir que ao primeiro ato 
desenca deado suceda uma severa represso para deixar 
inequvocas as intenes das autoridades.
Lacerda tinha razo quanto  conexo dos militares cassados 
com a central de treinamento cubana, mas o que lhe 
interessava era obter uma severa represso Como Castelio 
no a patrocinava, apesar dos dados de que dispunha a 
respeito das atividades de Brizola, ela era desenca deada 
pela linha tortuosa da indisciplina militar. Contra a opinio 
do Exrcito, dois B-25 da FAB invadiram o espao areo 
uruguaio para ca ar uma bateria antiarea cubana que estaria 
montada numa fazenda de Jango. Do episdio resultou um 
aborrecimento para Casteilo, um pro 47 Dirio de Heitor 
Ferreira, 2 de setembro de 1964. APGCS/HF.
48 Ernani Ayrosa da Silva, Memrias de um soldado, p. 108.
49 Carta de Carlos Lacerda a Geisel, sem data. Provavelmente 
dos ltimos meses de 1964. APGCS/HF.
PELAS BARBAS DE FIDEL 187
testo diplomtico e um adjetivo tardio de Pio Corra para o 
autor da idia:
cretino
Por meses sucederam-se casos esparsos de violncia e 
insubordina o que refluam diante da ao federal. No final 
de 1964, porm, conse guiu-se criar um grande caso. Ele 
emergiu em Gois, contra o governa dor Mauro Borges, que fora 
uma das principais peas na luta pela posse de Joo Goulart 
em 1961. Filho de um velho oligarca, flertara com a es 
querda, mas conseguira, acrobaticamente, ficar na cadeira 
depois do ter remoto das cassaes.
O grande fabricante dessa crise, o tenente-coronel Danilo 
Darcy de S da Cunha e Meilo chefiava os IPMS goianos e 
comandava o 1O Bata lho de Caadores. Ele foi o primeiro 
oficial a associar a tortura  indis ciplina. Difere dele o 
clssico tenente-coronel Ibiapina porque este, quan do chegou 
o momento de atravessar a linha que o levaria a um confronto 
com o governo, disciplinou-se, ainda que por deferncia a 
Castelio, com quem tomava intimidade indevida, mas a quem 
respeitava e estimava. Velho conhecido no meio da 
oficialidade radical, o coronel Danilo dei xara o gabinete do 
ministro Costa e Silva para assumir o comando de Goinia. Em 
julho comeou a montar a rede do 1PM no qual pretendia pescar 
Mauro Borges e prendeu o subchefe de seu Gabinete Civil, o ad 
vogado Joo Batista Zacariotti.
A partir dessa priso, Cunha e Mello exibiu um misterioso e 
com plexo plano de subverso montado em Gois. Ele dispunha 
de fartas provas da articulao de ncleos guerrilheiros 
subvencionados pelos cubanos. Desde a queda do avio da Varig 
em Lima eram do conheci mento pblico no s as bases de 
treinamento no municpio de Dian polis, como tambm os nomes 
dos membros da comisso militar do MRT, um dos quais estava 
na penitenciria agrcola de Goinia. O coronel, porm, 
queria chegar ao palcio das Esmeraldas, de onde pretendia de 
salojar Mauro Borges. Como a linha que ia dar em Havana 
parecia insu 50 Pio Corra, O mundo em que vivi, p. 859.
51 Depoimento de Tarzan de Castro ao Correio da Manh de 24 
de outubro de 1964, citado em
Mauro Borges, O golpe em Gois, pp. 283-4.
188        A DITADURA ENVERGONHADA
ficiente, arranjou outra, que ia at Varsvia, envolvendo 
espies ligados
a assessores do governador.
Nessa operao foram presas mais de uma dezena de pessoas, e 
a prin cipal testemunha era Paulo Gutko, um agente lituano 
que teria feito con tato com os poloneses, recebendo dinheiro 
e armas para uma subleva o, O perigoso Gutko no era 
lituano, mas polons, nem agente, mas desequilibrado mental. 
Numa declarao registrada em cartrio, Hugo Broockes, um dos 
presos e ex-assessor do governador, denunciou que viu Paulo 
Gutko beber gua no vaso sanitrio e passar fezes na cabea [ 
[ no se chamar Paulo Gutko, e sim Jean Fouch, espio polo 
ns Examinado meses depois no Batalho da Guarda 
Presidencial por dois psiquiatras, explicou-lhes que havia 
descoberto a cura da cegueira, miopia e astigmatismo por meio 
de leituras e contatos medinicos com diversos 
oftalmologistas, entre os quais uma condessa de romance. Os 
m dicos classificaram-no como caso de esquizofrenia 
paranide e reco mendaram que fosse remetido a um manicmio.
Pelo menos quatro presos que passaram pelo coronel Danilo 
foram torturados at assinarem confisses. Um deles, o 
professor Simo Kozo budsk, da faculdade de medicina, 
descreveu em carta a Castello as vio lncias por que passara. 
Essa denncia, bem como a publicao dos re latos de torturas 
na imprensa, provocou o afastamento do coronel Danilo da 
direo dos IPM5 goianos. Ele foi substitudo pelo chefe da 
Polcia Fe deral, general Riograndino Kruel (irmo do 
comandante do ii Exrcito). Nem o palcio do Planalto 
sugeriu, nem Riograndino investigou uma s das denncias de 
crimes praticados num quartel do Exrcito. Mais uma vez 
punha-se em andamento o raciocnio da pedra limpa, pelo 
qual o que estava feito ho voltaria a ser feito, mas feito 
estava.
O coronel, afastado dos inquritos, continuou no comando do 
Ba talho de Caadores com o propsito poltico de depor o 
governador. Di vulgou um manifesto afrontando o Supremo 
Tribunal Federal, onde
32 Marcio Moreira Alves, Torturas e torturados, pp. 132-6.
53 Mauro Borges, O golpe em Gois, p. 292.
54 Marcio Moreira Alves, Torturas e torturados, p. 135.
PELAS BARBAS DE FIDEL 189
Mauro Borges buscou proteo. O comandante da 1 1 Regio 
Militar, seu superior hierrquico direto, reuniu a 
oficialidade do Batalho e defen deu a necessidade do 
acatamento  deciso da Corte. O coronel insubor dinou-se, e 
o general, com a anarquia molhando-lhe o culote, deu-lhe voz 
de priso, mas dele no recebeu oitiva de preso. 
Desmoralizado diante da oficialidade, o general tentou uma 
soluo conciliatria e sugeriu que com a priso formalmente 
relaxada  apesar de nunca ter ocorrido  Cunha e Meilo o 
acompanhasse a Braslia. A proposta foi refugada pelo coronel 
rebelde, apoiado pela tropa do 102 BC.
Horas depois o Supremo Tribunal Federal concedeu por unanimi 
dade o habeas corpus a Mauro Borges. Em resposta, Castelio 
decretou a interveno federal em Gois. Mauro Borges foi 
deposto, mas o derrota do foi o marechal. A linha dura 
prevaleceu, reconheceria Geisel mais tar de. Golbery, ao 
analisar esses desastrados acontecimentos, mostrava-se 
otimista, julgando superados incidentes menores.
A indisciplina e a tortura, longe de ser incidentes 
menores, namo ravam firme. A insubordinao chegara ao SNI, 
e seu chefe tivera de afastar do Servio um oficial que, 
tendo sido mandado a Goinia para jogar gua na fogueira, 
jogara gasolina. O regime, incapaz de apurar os crimes contra 
presos, mostrara-se ainda tmido e indeciso na puni o a um 
coronel que se rebelara. Se algum ato subversivo foi 
praticado em todo o estado de Gois durante o ano de 1964, 
nenhum ter sido maior, nas conseqncias e na profundidade, 
que a rebelio do 102 Ba talho de Caadores. O coronel Cunha 
e Mello desapareceu por uns tem pos at que ressurgiu em 1970 
na qualidade de secretrio de Segurana do Estado de So 
Paulo no mais cruel perodo de represso poltica da histria 
do pas.
No dia 30 de dezembro de 1964, Golbery conclua uma longa 
expo sio secreta feita diante do ministrio, reunido para 
ouvi-lo sobre o SNI
55 Jayme Portelia de Meilo, A Revoluo e o governo Costa e 
Silva, p. 246.
56 Ernesto Geisel, dezembro de 1994.
57 Impresso Geral n 13, do SNI, para as semanas de 24 de 
novembro a 14 de dezembro de 1964.
APGCS/HF.
58 Ernesto Geisel, dezembro de 1994.
190        A DITADURA ENVERGONHADA
e a situao poltica. Disse que os perigos no passaram de 
todo e que o governo federal precisa ainda continuar 
preparado e alerta para enfren tar, a qualquer momento, aes 
subversivas de porte mdio, partidas, no tadamente, de grupos 
brizolistas e elementos comunistas da chamada li nha chinesa-
fldelista No seu manuscrito havia acrescentado uma ltima 
frase: Felizmente  permitam os senhores ministros militares 
que o di ga  as foras armadas esto prontas para tal 
eventualidade. Podemos trabalhar confiantes e tranqilos No 
texto que leu, suprimiu-a. Assim, uma rara barretada de 
Golbery aos comandantes militares foi para o t mulo de seu 
arquivo sem passar pelo cerimonial da gentileza.
Golbery tinha razes para acreditar que o perigo no passara. 
Nos primeiros meses de 1965 o governo desbaratou tramas de 
paraguaios li gados  esquerda catlica em So Paulo, 
assustou-se com notcias de atentados contra generais  um 
deles, o prprio chefe do SNI, que obte ve a informao de um 
drago. Uma bomba explodiu no escritrio comercial do 
Brasil em Montevidu, colocada por radicais da esquerda 
uruguaia. Eram estreantes e intitulavam-se Tupamaros, mas 
pouca gen te sabia o que era aquilo. A rede brizolista 
comeava a estender as rami ficaes alm das fronteiras dos 
exilados brasileiros. Pedira, sem suces so, algumas armas aos 
uruguaios. Enviara 26 combatentes, a maioria deles ex-
sargentos, para treinamento militar em Cuba. Formara uma 
sigla,
o Movimento Nacionalista Revolucionrio, MNR, em que 
militavam pe lo menos quinze ex-marujos, seis dos quais ex-
diretores da Associao de Marinheiros, dissolvida em 1964.63 
Internado em Atlntida, tivera a vida dificultada. No pela 
distncia do balnerio, mas pelas facilidades
59 Golbery do Couto e Silva, Apreciao Sumria da Situao 
Nacional, secreto, reunio ministe rial de 30 de dezembro de 
1964. APGCS/HF.
60 Impresso Geral n 14, do SNI, para as semanas de 30 de 
dezembro de 1964 a 12 de janeiro de
1965. Dirio de Heitor Ferreira, 26 de janeiro, 5 e 24 de 
maro de 1965. APGCS/HF.
61 Eleuterio Fernndez Huidobro, Historia de los Tupamaros, 
tomo : Los orgenes, p. 137.
62 O nmero de combatentes enviados por Brizola a Havana est 
em Ao Subversiva no Brasil, documento classificado como 
confidencial, do Ministrio da Marinha, Centro de Informaes 
da Marinha, maio de 1972, p. 105. AA.
63 Avelino Capitani, maro de 1998. Eram os seguintes: Jos 
Anselmo dos Santos, Marco Antnio da Silva Lima, Avelino 
Capitani, Antonio Duarte, Jos Duarte dos Santos e Jos 
Geraldo da Costa.
PELAS BARBAS DE FIDEL        191
que o lugarejo dava para que agentes uruguaios, brasileiros e 
america nos o vigiassem.
No dia 15 de maro de 1965, um avio pousou em Havana levando 
de volta a Cuba o Che Guevara, que nos ltimos dois meses 
vagara de Nova York a Pequim, entrevistando-se com uma dezena 
de governantes do Terceiro Mundo e toda uma gerao de 
revolucionrios africanos. Seu plano era meter-se na guerra 
civil do Congo, em pleno corao da frica. No Cairo, o 
presidente Gamal Abdel Nasser, ao ouvi-lo, observou: Voc 
quer virar um novo Tarzan, um branco no meio dos negros, 
dirigindo- os e protegendo-os... Isso  impossvel. Uma vez 
em Havana, o Che de sapareceu. Comeava o mistrio do grande 
guerrilheiro romntico da se gunda metade do sculo xx. 
Nesses dias ele escreveu a seus pais, que viviam na 
Argentina: Sinto de novo as costelas de Rocinante debaixo 
dos meus calcanhares. Volto ao meu caminho com a adaga em 
punho. [ Creio na luta armada como a nica soluo para os 
povos que lutam pela liberdade. [ Vo me chamar de 
aventureiro, e o sou: s que de um tipo diferente, dos que 
lutam para mostrar suas verdades. {...] Pode ser que esta 
seja a definitiva. No a busco, mas sei que est dentro do 
clculo l gico das probabilidades. Se  assim, aqui vai o 
ltimo abrao.
Um dia antes de Guevara sumir de Havana, o ex-sargento da 
Briga da Militar Alberi Vieira dos Santos, um dos exilados 
mais corajosos, ra dicais e faladores de Montevidu, foi a 
Atlntida ver se conseguia algum dinheiro com Brizola e saiu 
sem tosto, a p. Encontrou-se depois com o ex-coronel 
Jeiferson Cardim, parente remoto de Castelo Branco, que fora 
ligado ao PCB e que a deposio de Goulart colhera em 
Montevidu, onde ocupava o rendoso lugar de representante do 
Lide Brasileiro. Ve 64 Essa observao de Nasser foi 
divulgada pelo jornalista Mohamed H. Heikal, um de seus con 
fidentes. Ver Heikal, Les documents du Caire, p. 224. Piero 
Gleijeses, com seu conhecimento dos arquivos cubanos e da 
histria do perodo, levanta dvida a respeito de sua 
veracidade. Ver Glei jeses, Conflicting missions, p. 92.
65 Jon Lee Anderson, Che Guevara, pp. 63 3-4.
66 Jos Wilson da Silva, O tenente vermelho, p. 189.
192        A DITADURA ENVERGONHADA
terano militante da esquerda militar, despertara dios 
profundos no Exrcito, no s por suas idias, mas por ter 
transgredido o cdigo mo ralista dos oficiais ao tomar por 
companheira a mulher de um colega uru guaio e casar-se com a 
enteada aps a sua morte.
Cardim decidira que, a despeito das grandes insurreies 
planejadas no Uruguai, se ningum fizesse nada antes do dia 
31 de maro de 1965, quan do o regime militar completaria um 
ano, ele iria em frente, com o que ti vesse. Como observou o 
tenente Wilson da Silva, no encontro de Cardim com Alberi 
juntaram-se a fome e a vontade de comer A partir da Ai 
beri disse ao coronel que tinha centenas de homens prontos 
para a luta no planalto norte do Rio Grande, e, com 
inacreditvel rapidez, os dois come aram a mover as 
engrenagens daquela que seria a nica insurreio sa da do 
Uruguai. Em dois dias juntaram mil dlares, trs fuzis 
tchecos semi- automticos e alguns revlveres. Sem nenhum 
apoio de Brizola, o grupo saiu no dia 18 de maro. 
Conseguiram um caminho, e nele subiram 23 combatentes. Numa 
poca em que centenas de revolues foram planeja- das 
durante anos sem jamais terem dado em coisa alguma, a 
guerrilha do coronel Cardim foi recordista em gestao. Entre 
o momento em que ele encontrou o sargento Alberi, no dia 13 
de maro, e a hora em que o cami nho entrou no Brasil, no 
dia 19, passaram-se menos de 144 horas.
Os guerrilheiros subiram para o norte e no dia 25 acercaram-
se da cidade gacha de Trs Passos. Cardim acampou sua tropa 
num galpo da fazenda de um aliado, partiu para um 
reconhecimento num jipe, ves tido de campons, e atacou, com 
sua farda de coronel, por volta das 22 horas. Comeou pelo 
destacamento da Brigada Militar, onde esperava en contrar 
treze homens. Acharam oito, dois dos quais dormindo. Aprisio 
naram os brigadianos, limparam a guarnio de armas e 
uniformes e, sem pre em busca de munio, partiram para o 
segundo objetivo, o presdio. L, Cardim e Alberi passaram a 
se apresentar como uma simples coluna
67 Ernesto Geisel, 1987 e junho de 1994. Para a conexo com o 
PCB, coronel Hlio de Ansio, ju nho de 1997. Em seu 
depoimento ao CPDOC, Geisel levanta a suspeita de ele ter 
assassinado a mu lher. Ernesto Geisel, em Maria Celina 
dAraujo e Celso Castro (orgs.), Ernesto Geisel, p. 124.
68 Jos Wilson da Silva, O tenente vermelho, p. 189.
69 Coojornal, dezembro de 1978.
PELAS BARBAS DE FIDEL        193
de um movimento maior, liderado por Brizola, que j teria 
tomado Por to Alegre. Com mais armas e prisioneiros, a 
guerrilha foi para o terceiro alvo: a agncia do Banco do 
Brasil. Quando o gerente disse ao coronel que no tinha a 
chave do cofre, ele rejeitou a sugesto de arromb-lo e foi 
em frente, para a estao de rdio, onde leu um manifesto 
acusando o governo de ter transformado o Brasil em quartel e 
conclamando a po pulao  luta. Haviam calculado fazer tudo 
isso em uma hora. Gasta ram duas, mas no tiveram 
dificuldade.  meia-noite, deixaram a cida de, abandonando, 
de cuecas, os 35 prisioneiros feitos muito mais  custa da 
farda de coronel de Cardim que das armas que carregavam.
Sempre em direo ao norte, chegaram ao lugarejo de Tenente 
Por- tela, capturaram as armas do peloto da brigada e foram 
para a divisa entre o Rio Grande e Santa Catarina, onde 
limparam mais um destaca mento policial, o que elevou o 
arsenal do caminho a sessenta fuzis, trin ta revlveres e 
uma metralhadora de trip. Em termos operacionais, cor rera 
tudo bem, mas a manh do dia 26 indicou que, apesar de a 
notcia da guerrilha e o contedo do manifesto lido na rdio 
terem sido enfati camente retransmitidos por emissoras que 
falavam numa coluna de at quatrocentos homens, no 
acontecera nada no Rio Grande do Sul. A es sa altura, os 
guerrilheiros tinham o Exrcito no encalo.
Nessa mesma manh, numa viagem rotineira, o presidente Castel 
lo Branco chegara a Foz do Iguau, na fronteira com o 
Paraguai e a Ar gentina, ficando a cem quilmetros da rota 
percorrida por Cardim. Gei sei, que estava na comitiva de 
Casteilo, acompanhou a perseguio aos guerrilheiros por meio 
de telefonemas e de uns poucos radiogramas. Num deles, o 
chefe do Gabinete Militar do governo do Rio Grande do Sul 
informava que o grupo tinha quarenta homens e registrava que, 
no ataque ao presdio de Trs Passos, roubaram as armas, no 
soltaram os presos. Noutro, falava-se do receio de os 
guerrilheiros tentarem con tra a vida do presidente da 
RepblicaY  tarde Geisel, Golbery e Hei-
70 Coojornal, dezembro de 1978.
71 Telegrama do chefe da Casa Militar do governo do Rio 
Grande do Sul a Geisel, que estava em
Foz do Iguau, de 28 de maro de 1965. APGCS/I-IF.
72 Telegrama enviado  comitiva presidencial, em Foz do 
Iguau, de 25 de maro de 1965. APGCS/I-IF.
194        A DITADURA ENVERGONHADA
tor Ferreira foram passear na regio das cataratas. O chefe 
do Gabinete
Militar dormiu cedo, enquanto os outros dois ficaram jogando 
sinuca.
Cardim subia em direo a Mato Grosso e j estava em 
territrio do Paran quando as tropas do Exrcito, depois de 
terem localizado o cami nho durante um reconhecimento areo, 
cercaram-no nas vizinhanas da cidade de Cascavel, duzentos 
quilmetros a oeste de Curitiba. Antes do meio-dia a coluna 
guerrilheira, acuada, tiroteou com a tropa e, em se guida, 
dispersou-se. Nesse choque morreu um sargento legalista. 
Horas depois o coronel Cardim foi preso.
No dia seguinte, Heitor Ferreira registrou em seu dirio: 
Jeiferson j foi preso. Volta para Curitiba. Lendo 
Steinbeck, Once there was a warY Estava terminada a 
guerrilha. Demorara cerca de 144 horas para ser pla nejada e 
36 para ser destruda. Como sempre acontece com os fracassos, 
Cardim foi dado por louco e o-assunto, esquecido. Para a 
esquerda, sua aventura demonstrou algo cruel: por maior que 
fosse o descontentamen to com o regime, ningum sairia  rua 
para tentar derrub-lo apenas por que uma coluna de 
guerrilheiros cruzara a fronteira. A idia de um Bra si! 
pronto para erguer-se  voz de alguns valentes exilados 
estava dissolvida. Como registraria anos depois Herbert 
Daniel: Difici! no  explicar os que tentaram uma ao 
desesperada.  explicar a ineficcia dessa ao. O x da 
questo no  encontrar na vida de alguns as causas de serem 
dife rentes, mas na vida de todos a permanncia assombrosa da 
indiferenaY
Cardim pagou sua conta na moeda dos vencedores. Antes de 
qualquer interrogatrio, um capito jogou-o ao cho e, depois 
de chut-lo, ordenou que a tropa cuspisse na cara desse 
filho-da- puta, comunista, assassino. Foi espancado e 
crucificado nas grades de sua cela. Torturaram-no em trs 
quar tis diferentes. Num deles teve crises de demncia e foi 
submetido a trata mento mdico. O sargento A!beri, vestido de 
mulher, furara o cerco, ten tando chegar  Argentina, mas 
fora capturado dois dias depois de Cardim. Passou pelo mesmo 
tratamento, inclusive pela operao escarro diante
73 Dirio de Heitor Ferreira, 26 de maro de 1965. APGCS/HF.
74 Idem, 28 de maro de 1965. APGCS/HF.
75 Herbert Daniel, Passagem para o prximo sonho, p. 46.
PELAS BARBAS DE FIDEL        195
de uma comitiva de cuspidores  qual se juntaram civis. A 
aventura de Cardim, correria em faixa fronteiria j 
prevista por Golbery, acabou vi rando fato irrelevante na 
histria dos vencedores. Para os demais foi um marco doloroso 
e precoce da tragdia nacional que se construa. Ele come a 
no instante em que a aventura terminou, quando o ex-coronel 
foi pre so e se iniciaram as sesses de tortura. A ferocidade 
da represso do regi me cravou em Cardim uma estaca 
histrica. Como observou o historiador Jacob Gorender: 
Deixava de existir a imunidade dos oficiais  tortura, res 
peitada nas sublevaes anterioresY Sublevaes anteriores 
como aque las de que tinham participado os tenentes Costa e 
Silva e Geisel. No gover no que negava a Cardim o beneficio 
que a lei impunha e o cavalheirismo militar concedia, havia 
dois outros ministros que se tornaram famosos por sediciosos. 
O do Interior, Oswaldo Cordeiro de Farias, estivera na Coluna 
Prestes, que entre 1924 e 1926 percorrera em monumental 
correria quase todo o interior do Brasil. O da Aeronutica, 
Eduardo Gomes, estivera, em 1922, entre os Dezoito do Forte, 
nome dado ao grupo de oficiais rebeldes da guarnio de 
Copacabana que marcharam pela faixa litornea da ave nida 
Atlntica, desafiando as tropas do presidente Epitcio 
Pessoa. Nessa poca os oficiais revoltados eram tratados de 
senhor e ningum pensa va em lhes encostar a mo.
O presidente Castello Branco leu os depoimentos de Cardim e 
Albe ri no dia 13 de abril. A rapidez com que as confisses 
foram tomadas, bem como a quantidade de detalhes que os dois 
presos forneceram, sugeria, sobejamente, o mtodo pelo qual 
as informaes tinham sido obtidas. No houve de parte de 
Casteilo nenhuma providncia no sentido de in vestigar a 
conduta dos interrogadores, nem mesmo quando familiares dos 
presos denunciaram o que eles sofreram. Nem de parte de 
Geisel, que odiava Cardim desde os anos 50, quando o tivera 
por subordinado e aca bara punindo-o por indisciplina. Com o 
depoimento de Jeiferson Cardim, a tortura entrou no palcio 
do Planalto como um acessrio da eficcia nas investigaes, 
arma de defesa do Estado. Mostrou-se funcional.
76 Coojornal, dezembro de 1978.
77 Jacob Gorender, Combate nas trevas, p. 135.
78 Para o dia da leitura, Dirio de Heitor Ferreiro, 13 de 
abril de 1965. ApGcs/HF.
196        A DITADURA ENVERGONHADA
Nos casos de tortura ocorridos no Nordeste e em Gois houvera 
ao lado da brutalidade um ingrediente de anarquia militar. Os 
objetivos dos coronis que espancavam seus presos no eram os 
mesmos de Castelio. Dizia-se que, neutralizando-se oficiais 
como Ibiapina ou Danilo da Cunha e Melio, cessaria a 
anarquia, e assim cessaria a tortura. No quartel do Ba talho 
de Fronteira de Foz do Iguau, sobre o corpo indefeso de um 
ex- oficial superior do Exrcito, a tortura foi praticada 
como recurso de in vestigao policial, sem objetivos 
polticos colaterais, dentro da disciplina e das atividades 
estritamente militares, fazendo parte delas, como instru 
mento de poder.
Apesar de terem jogado sobre as costas de Brizola o preo da 
aven tura e do fracasso de Cardim, ele pouco ou nada teve a 
ver com a corre ria. O ex-governador fora sincero quando 
explicara que no via na guer rilha cubana uma ttica 
adequada para a insurreio brasileira. Mudaria de opinio na 
primeira metade de 1965. Pelas dcadas seguintes guardou 
consigo o segredo dos detalhes da sua real ligao com 
Havana. Sempre que se referiu ao assunto, dissimulou-o. Em 
1980, de volta ao Brasil, con frontado com perguntas a 
respeito da conexo cubana, argumentava que ela fora produto 
de uma poca de desespero poltico, na qual aceitaria aliana 
fugaz at com o tinhoso, com pernas de carneiro Pouco 
depois, quando comearam a abundar  pelos depoimentos de 
seus seguidores
 provas da sua conexo com o castrismo, explicou-a 
atribuindo-lhe um carter de ajuda humanitria Numa 
lembrana contraditria chegou a reconhecer o treinamento de 
companheiros nossos em Cuba e deu a en tender que encerrou 
a ligao em 1966. Em pelo menos uma ocasio, ad mitiu que 
recebera dinheiro cubano para montar uma guerrilha.
79 Geneton Moraes Neto, Dossi Brasil, p. 219.
80 Entrevista de Leonel Brizola a Gilson Rebelio, O Estado de 
S. Paulo, 9 de fevereiro de 1980, p.
10. Para o reconhecimento por parte de Brizola de alguma 
ajuda econmica, modesta, pequena,
entrevista de Leonel Brizola  TV Guaba citada pelo Jornal 
do Brasil de 28 de setembro de 1979,
em Geneton Moraes Neto e Joel Silveira, Nitroglicerina pura, 
p. 123. Ver tambm Flvio Tavares,
Memrias do esquecimento, p. 178.
PELAS BARBAS DE FIDEL        197
Fidel Castro no foi nem Asmodeu nem Cruz Vermelha para Leo 
nel Brizola. Ele funcionou, com sucesso, como uma espcie de 
Rei Artur que o sagrou Cavaleiro da Tvola da Revoluo. De 
1965 ao incio do se gundo semestre de 66, enquanto teve esse 
privilgio, Brizola foi o mais destacado chefe do radicalismo 
de esquerda, assegurando-se uma lide rana que a maioria dos 
exilados ia perdendo por conta do efeito bana lizador do 
desterro. O destaque do ex-governador gacho era reconhe cido 
por Golbery. Assustado com o reaparecimento do ex-presidente 
argentino Juan Domingo Pern, via-o, com Brizola, como parte 
de uma conspirao continental e escrevia a Castello:  
evidente que o brizolis mo, o comunismo internacional e o 
peronismo esto de mos dadas.
Para Fidel, a aliana com o brizolismo significava a base no 
Brasil que lhe fora negada pelo Partido Comunista e que vira 
malbaratada por Francisco Julio. O grande plano da revoluo 
continental dava-lhe uma plataforma de poltica externa que 
garantia a Cuba uma projeo inter nacional jamais conseguida 
por outro pas latino-americano. Assegura va a Fidel um 
relevo que o colocava na primeira fila dos governantes do 
Terceiro Mundo e o afastava do perigo de uma montona 
existncia de prefeito grisalho de uma ditadura caribenha, 
fantasiado de rebelde.
Em janeiro de 1966 Fidel instalou no hotel Habana Libre a 
Confe rncia Tricontinental de Solidariedade dos Povos. Nela, 
uma guerri lheira vietcongue presenteou-o com um anel feito 
da fuselagem de um avio americano derrubado no Vietn. Por 
todos os aspectos cnicos, a reunio parecia uma tentativa de 
organizao do funeral do imperialis mo. Na essncia, porm, 
era a primeira grande quermesse anti-sovitica do esquerdismo 
latino-americano. De 22 partidos comunistas ligados a Moscou 
no continente, s trs chefiavam delegaes na festa. Em seu 
discurso, Fidel proclamou: Se os revolucionrios gastarem 
menos tem po e energia com teorizaes e devotarem mais tempo 
ao trabalho pr tico [ e se ns finalmente compreendermos 
que, mais cedo ou mais tarde, todos os povos, ou quase todos, 
sero obrigados a pegar em armas
81 Impresso Geral n 13, do SNI, para as semanas de 24 de 
novembro a 14 de dezembro de 1964.
APGCS/HF.
82 Cana Anne Robbins, The Cuban threat, p. 35.
198        A DITADURA ENVERGONHADA
para se libertarem, ento a hora da liberdade deste 
continente estar ao
alcance de nossa mo.
O Che Guevara, arqutipo desse voluntarismo, continuava 
sumido. Fidel suspeitava que os americanos soubessem de seu 
paradeiro e fingis sem desconhec-lo. Divertia-se lendo 
artigos da ultra-esquerda que o acu savam de ter encarcerado 
ou at mesmo assassinado o amigo. Fidel sa bia onde estava o 
Che (guardado na embaixada cubana em Dar-Es-Salaam, a caminho 
de um esconderijo na Tchecoslovquia), mas escondia o fra 
casso de Tarzan. O Che voltaria a Havana em julho, humilhado 
pela sua primeira grande derrota.
Durante sete meses, com o nome de Tatu, comandara uma fora 
ex pedicionria de 150 negros cubanos nas matas do Congo. Lia 
Marx e Homero enquanto seus homens ensinavam espanhol e 
aprendiam sua li.85 A selva engolira o romantismo e a 
mitologia pedaggica dos guerri lheiros. Os caciques da 
revoluo congolesa no saam da Tanznia, e quan do um deles 
chegou  zona de operaes (para uma permanncia de cinco 
dias), trouxe na comitiva um plantel de mulatas da Guin. Os 
novos qua dros dirigentes, educados em Moscou, no queriam 
saber de mato. Pior, quando descobriram que Tatu era o Che 
Guevara, assombraram- se, temendo um escndalo internacional.
Os cubanos entraram em combate no dia 29 de junho de 1965, e 
48 horas depois foi quebrado o segredo de sua presena no 
Congo. Morre ram quatro expedicionrios; um levava o dirio 
na mochila, outro usava cuecas com etiqueta de Havana. Os 
congoleses atiravam de olhos fechados
83 Discurso de Fidel Castro no encerramento da Conferncia 
Tricontinental de Havana, 16 de ja neiro de 1966.
84 A regio onde Guevara se instalou hoje faz parte da 
Repblica Democrtica do Congo, ex- Zaire.
85 Para a expedio congolesa de Guevara, ver Piero 
Gleijeses, Conflicting missions, pp. 78-159. Ver tambm Paco 
Ignacio Taibo ii, Froiln Escobar e Flix Guerra, O ano que 
vivemos em lugar ne nhum, pp. 85 e 192.
86 Paco Ignacio Taibo ii, Froiln Escobar e Flix Guerra, O 
ano que vivemos em lugar nenhum, pp.
133, 176 e 246.0 cacique que chegou acompanhado de mulheres 
era Laurent Kabila, que em 1996 liderou a revolta da etnia 
tutsi no Zaire e tomaria o poder em 1997. Foi assassinado em 
2000.
87 Idem,p. 124.
PELAS BARBAS DE FIDEL        199
e no soltavam o gatilho das armas automticas. Recusavam-se 
a carregar qualquer coisa alm de seus prprios objetos: 
Mimi hapana motocar (Eu no sou caminho). Iam para a 
luta certos de que tinham o corpo fecha do pelo dawa, uma 
soluo de sucos e ervas que o bruxo, ou muganga, as pergia 
sobre o corpo dos guerreiros. Depois da primeira debandada 
(no primeiro combate) a tropa atribuiu o fracasso aos ralos 
poderes do feiti o. Guevara tentou abolir a superstio, mas 
sua conscincia materialista tolerou que um dos seus 
colaboradores congoleses se tornasse um muganga. Chegou a 
contratar um bruxo malandro que, temendo ir para a frente de 
combate, benzia a tropa na retaguarda e garantia que seu dawa 
tinha duas semanas de autonomia. O acampamento do Che foi 
atacado, e ele fugiu desnecessariamente, abandonando armas, 
munio e mantimentos.
A expedio congolesa de Guevara foi pulverizada por uma 
conjun o poltico-militar. De um lado, tinha no comando das 
linhas inimigas o legendrio coronel ingls Mike Hoare, 
veterano das guerras da Birm nia e do Catanga. Numa operao 
clandestina financiada e orientada pe lo governo americano, 
comandava mercenrios recrutados na Blgica, na frica do Sul 
e na Rodsia. Um rearranjo da poltica local levou os che fes 
de Estado africanos a desestimular a internacionalizao da 
guerra ci vil do Congo, e o presidente Julius Nyerere, da 
Tanznia, cortou-lhe o apoio e a liberdade de movimento no 
lago Tanganica. Trs meses depois do primeiro tiro, o Che 
reclamava daquelas terras malditas de Deus e es crevia a 
Fidel que haviam comprado um bonde: No podemos liber tar 
sozinhos um pas que no quer lutar. Ao entardecer da 
aventura, com os cubanos dispersos em diversas zonas de 
operaes, Guevara se viu isolado, com apenas catorze 
compatriotas e o vira-lata Simba.
s margens do lago Tanganica, na madrugada de 21 de novembro
de 1965, Che Guevara subiu numa lancha para desembarcar de um 
fra 88 Jon Lee Anderson, Che Guevara, p. 648.
89 Paco Ignacio Taibo ii, Froiln Escobar e Flix Guerra, O 
ano que vivemos em lugar nenhum, pp.
48, 127 e 207.
90 Piero Gleijeses, Conflcting missions, pp. 124-36.
91 Idem, pp. 139-40.
92 Carta de Guevara a Fidel Castro, Paco Ignacio Taibo ii, 
Froiln Escobar e Flix Guerra, O ano
que vivemos em lugar nenhum, p. 205.
200        A DITADURA ENVERGONHADA
casso. Seu estado de esprito ficou numa frase de seu dirio: 
Nunca co mo hoje me encontrei to s com meu caminho 
Protegidos pela noite, os cubanos, seminus, descalos e 
cobertos de piolhos, saram em trs bar cos. Havia centenas 
de congoleses  beira do lago, mas as lanchas lota ram. Nelas 
s couberam sete africanos, alm de Simba. O Che retratou a 
cena: Nossa retirada no passava de uma fuga e, pior, ramos 
cmpli ces do engano graas ao qual as pessoas eram deixadas 
em terra. Por ou tro lado, quem era ei agora?
A profundidade da crise pessoal de Guevara ficou nos arquivos 
cuba- nos por quase trinta anos. Sua passagem pelo Congo foi 
superficialmente revelada anos depois, mas s em 1995, com o 
beneplcito de Fidel Castro, publicaram-se as anotaes de 
campanha, bem como as narrativas dos so breviventes. Em 1966 
o mundo continuava consumindo o mito da invul nerabilidade do 
Guerrilheiro Herico e o mistrio de seu desaparecimen to. 
Sem barba, com o cabelo curto e pintado de ruivo, Guevara 
passou cinco meses trancado no segundo andar da embaixada 
cubana em Dar-Es- Salaam e outros quatro recolhido numa 
chcara nos subrbios de Praga.
A partir da segunda metade de 1965, Brizola aproximara-se do 
so nho cubano da guerrilha invencvel. Tornara-se o Pedrinho, 
Janurio ou Setembrino, fazia exerccios de tiro e gostava de 
ser chamado de Coman dante. Nas prosas revolucionrias da 
sala de sua casa, em Atlntida, che gara a discutir nomes 
para a lista dos fuzilamentos. Tinha ao seu lado nomes 
ilustres da intelectualidade carioca, O romancista Antnio 
Caila do visitara-o em Montevidu, e o escritor Otto Maria 
Carpeaux cumpria tarefas de apoio, valendo-se de sua 
prodigiosa memria para decorar en dereos e mensagens 
secretas. Nenhum grupo armado do perodo vi ria a ter esse 
grau de infiltrao na elite.
Em fevereiro de 1966, Brizola tinha trs guerrilhas no mapa. 
A prin cipal estava em Mato Grosso, na fronteira com a 
Bolvia. Fora concebi da com a ajuda do Partido Comunista 
Boliviano e deveria ser uma esp 93 Paco Ignacio Taibo ii, 
Froiln Escobar e Flix Guerra, O ano que vivemos em lugar 
nenhum, pp.
258-67.
94 Flvio Tavares, Memrias do esquecimento, pp. 177 e 182.
95 Depoimento de Antnio Caliado a Marcelo Ridenti, em Em 
busca do povo brasileiro, pp. 147-8.
PELAS BARBAS DE FIDEL        201
cie de foco dos focos. O historiador Piero Gleijeses, 
apoiando-se em seu conhecimento dos arquivos cubanos e 
americanos e em centenas de depoi mentos recolhidos em todos 
os cantos do mundo, sustenta que a base bo liviana era vista 
pelos cubanos como uma sementeira de guerrilhas. Suas 
prioridades estavam no Peru e na Argentina. Para Guevara, 
tratava-se de buscar a revanche no pas em que nascera, onde 
seus companheiros ha viam sido aniquilados em 1964: Eu no 
posso morrer sem antes pr pe lo menos um p na Argentina
Em agosto, durante o Congresso do Partido Comunista Uruguaio, 
um dirigente boliviano conversara com porta-vozes de Brizola 
interes sados em abrir frentes guerrilheiras e em mandar dois 
ex-oficiais brasi leiros como emissrios a Cuba. Se Fidel 
estivesse de acordo, se propor cionariam as despesas de 
viagem e contatos em Praga O secretrio-geral do rc 
boliviano contou essa gesto a um oficial do exrcito cubano, 
di zendo-lhe que se comprometera com Fidel Castro a 
coordenar com Bri zola o assunto do Brasil O cubano era o 
capito Harry Viliegas, o Pombo. Veterano de Sierra Maestra e 
do Congo, tinha 26 anos, onze dos quais ao lado do Che, com 
cuja secretria se casara. Vindo de Zurique, passara em julho 
por So Paulo, a caminho da mata boliviana.
Os cubanos dispunham de um esforado levantamento geogrfico, 
econmico e militar da regio. Tinham at uma listagem das 
pontes da estrada que seguia para o Acre, com estimativa da 
extenso e das medi das de seus suportes. A rea estudada era 
dez vezes maior que a superfi cie de Cuba. O segundo 
projeto de guerrilha brizolista estava no sul do Maranho, 
para onde j haviam ido quinze homens, alguns deles mi 
litantes da esquerda catlica que viviam nas cercanias de 
Pindar-Mirim.
96 Piero Gleijeses, Conflicting missions, p. 215.
97 Diario de Pombo (Harry Viliegas Tamayo), em Rolando, 
Pombo e Braulio, Diarios de Bolivia,
entrada de 10 de setembro de 1966, p. 67.
98 Idem, entrada de 28 de setembro de 1966, p. 74.
99 Jon Lee Anderson, Che Guevara, p. 74.
100 Jos Anselmo dos Santos Declaraes Prestadas nesta 
Especializada de Ordem Social, do Setor
de Anlise, Operaes e Informaes do DOPS de So Paulo, s. 
d., fi. 6. AA.
101 Manuel da Conceio, Essa terra  nossa, pp. 135-7, e 
Flvio Tavares, Memrias do esqueci mento, p. 191.
202        A DITADURA ENVERGONHADA
Chegaram a movimentar uma coluna que acabou alimentando-se de 
macacos. Perto dali, no norte de Gois, o campons Zez, 
veterano das lutas pela terra na regio, cumpria a tarefa de 
abrir, em seis meses, uma pista de pouso de seiscentos 
metros. Deveria receber um avio carrega do de armas, vindo 
da Guiana. A terceira ficava nas matas do parque nacional 
da serra de Capara, na divisa entre Minas Gerais e o 
Esprito Santo, onde h montanhas de at 2 mil metros de 
altura, cobertas de ne voeiro. Comandava-a um veterano, o ex-
sargento Amadeu Felipe da Luz.
No Brasil, a guerrilha de Brizola tinha o reforo do 
treinamento cubano. Os quadros da insurreio chegavam  ilha 
por meio de um com plexo roteiro. O cartgrafo Hermes Machado 
Neto, de 25 anos, foi do Rio para Montevidu de nibus, 
esperou vinte dias e seguiu para Buenos Ai res, de onde voou 
para Paris. L, tomou um trem para Praga e recebeu de um 
funcionrio da embaixada cubana um bilhete com destino a Ha 
vana, com escalas na Irlanda e no Canad. Uma vez em Cuba, 
os guer rilheiros passavam por dois cursos. O primeiro, mais 
terico, dava-se nu ma base militar na provncia de Pinar del 
Rio. Inclua aulas de ttica, tiro, comunicaes, explosivos 
e topografia, durante cerca de sessenta dias. O segundo 
durava oito meses e era uma espcie de mestrado, com marchas 
na serra do Escambray, raes de carne de porco chinesa e 
leite conden sado sovitico. Dos combatentes mandados para a 
serra de Capara, quatro estiveram nas bases cubanas, mas o 
grosso da sua capacitao mi litar vinha da massa expurgada 
das Foras Armadas. No alto da serra con taram-se 22 
guerrilheiros. Treze haviam sido militares  um ex-capito, 
sete ex-suboficiais e sargentos, alm de cinco ex-
marinheiros. Deles, dois tinham passado por Havana. Os civis 
eram apenas cinco.
102 Flvio Tavares, Memrias do esquecimento, pp. 196 e 190.
103 Gilson Rebelio, A guerrilha de Capara, p. 43.
104 Ao Subversiva no Brasil, Centro de Informaes da 
Marinha, maio de 1972, p. 109. Em 1971
o curso de guerrilha rural duraria sete meses e o de 
guerrilha urbana, dois. Carta de Carlos Eduar-
do Pires Fleury a Takao Amano, de 25 de maro de 1971, em 
Lus Mir, A revoluo impossvel, p.
621. Ver tambm o depoimento de Jos Anselmo dos Santos a 
Percival de Souza, Eu, Cabo Anselmo,
p. 109. Para um estudo detalhado das atividades dos 
brasileiros em Cuba, ver Denise Rollemberg,
O apoio de Cuba  luta armada no Brasil.
105 Boletim de Relaes Pblicas do Exrcito, n 25, de agosto 
de 1967. Comisso Diretora de Re laes Pblicas do Exrcito, 
Imprensa do Exrcito.
PELAS BARBAS DE FIDEL 203
O aparelho policial do governo, que fora eficiente na 
desarticulao dos planos insurrecionais de Brizola, tateara 
a guerrilha, mas no conse guira apanh-la. No caminho, 
praticou o mais escandaloso assassinato do governo Casteilo 
Branco. Em maro a polcia gacha prendeu o ex- sargento 
Manoel Raimundo Soares, um ativo brizolista, subcomandan te 
de um futuro foco guerrilheiro no Rio Grande. Os registros 
indica vam que estivera na Delegacia de Ordem Poltica e 
Social. Fora transferido para o presdio do rio Guaba, e 
repassado a agentes do DOPS no dia 13 de agosto de 1966. Na 
manh do dia 24 seu corpo, com as mos amarra das, foi achado 
boiando no rio Jacu. Um ms antes de ser assassinado, 
escrevera uma carta denunciando as torturas por que passara 
na 6 Com panhia de Polcia do Exrcito e no DOPS: Ouvi dizer 
no DOPS que eu fui o detido mais tratado at hoje, dos que 
por l passaram. Que mais pos so temer? Temor servil, pois, 
no tenho. Ainda no foi necessrio demons trar que no temo 
nem a morte. Talvez, em breve, isto venha a aconte cer. O 
tempo dir.
O Caso das Mos Amarradas, como se tornou conhecido o assass 
nio do ex-sargento, diferia de todos os anteriores. No cabia 
nas verses habituais de suicdio ou reao violenta  
priso. Abriram-se simulta neamente uma investigao policial 
e uma comisso parlamentar de in qurito na Assemblia 
Estadual. Foram arrolados 21 nomes, que incluam desde 
carcereiros at um tenente-coronel. Nos vinte anos seguintes 
con seguiu-se reconstituir parcialmente o que lhe sucedera. 
Retirando-o  noi te do DOPS durante uma sesso de tortura, 
dois policiais levaram-no para o rio, onde lhe deram caldos, 
at que o perderam na gua. Amarrado, Ma noel Raimundo 
afogou-se. Acontecera um dos primeiros casos daquilo que mais 
tarde se denominaria acidente de trabalho, ou seja, a morte 
do torturado por descuido do torturador. Nervosos, os dois 
policiais chegaram a procurar por ele no Instituto Mdico 
Legal quatro dias an tes de as guas devolverem o corpo. 
Apesar de todas as provas de que
106 Flvio Tavares, Memrias do esquecimento, p. 195, e 
entrevista de Indio Vargas ao Jornal do
Brasil de 21 de abril de 1980, p. 2.
107 Marcio Moreira Alves, Torturas e torturados, p. 214.
108 Reportagem de Jos Mitchell, Jornal do Brasil, 26 de 
janeiro de 1987, p. 7.
204        A DITADURA ENVERGONHADA
o ex-sargento estava preso e de todas as indicaes a 
respeito do modo como fora assassinado, imps-se a tese 
segundo a qual ele fora libertado e, provavelmente, morto por 
correligionrios. A verso oficial prevale ceu em todas as 
instncias, at o Superior Tribunal Militar. O aparelho de 
represso dera mais uma volta no parafuso que, a cada giro, 
ampara va uma nova forma de crime sob a regra da impunidade.
Capara marchava. No dia 26 de novembro de 1966, catorze guer 
rilheiros subiram a serra, numa parte da mata onde a folhagem 
de imen sas rvores impedia a entrada da luz do sol.
A pea-chave do dispositivo cubano moveu-se no final de 
outubro. Vindo de Madri, passara por So Paulo um cidado que 
se identificava como o uruguaio Adolfo Mena Gonzales. Calvo 
na parte superior da cabea, aparentando perto de cinqenta 
anos, tinha uma credencial da Organizao dos Estados 
Americanos informando que viajava para efe tuar estudos e 
reunir informaes sobre as relaes econmicas e sociais que 
regem o campo boliviano No era de todo mentira que o Che 
Gue vara estivesse preocupado com o campo boliviano. Livre da 
identidade de Mena, subira a cordilheira boliviana e passara 
parte do dia 1 de ja neiro de 1967 escrevendo um relatrio a 
Fidel Castro. Os guerrilhei ros de Capara reuniram-se num 
ponto da mata de Minas Gerais para festejar o novo ano, ouvir 
piadas polticas, rir de um teatrinho, meditar sobre um 
documento. No final, de p, cantaram a
A charada cubana comeava a juntar peas em outras cabeas. 
Na
de Golbery, por exemplo. Em fevereiro de 1967 ele entregou a 
Castelio
um relatrio em que detectava articulaes guerrilheiras de 
grupos es 109 Gilson Rebelio, A guerrilha de Capara, pp. 59 
e 77.
110 Gary Prado Salmn, The defeat of Che Guevara, p. 46, e 
Jon Lee Anderson, Che Guevara,
p. 701.
11 Hugo Gambini, El Che Guevara, pp. 463-6.
112 Ernesto Che Guevara, Oeuvres, vol. 4: Journal de 
Bolivie, p. 43.
113 Gilson Rebeilo, A guerrilha de Capara, p. 80.
PELAS BARBAS DE FIDEL        205
querdistas, apontava a conexo desses grupos com elementos 
asilados no Uruguai e advertia que as ligaes [ com 
centros de subverso no exterior (China e Cuba em particular) 
so sabidas e vm sendo positiva- das, inclusive pela viagem 
de elementos vrios para adestramento em cur sos de formao 
de ativistas, sabotadores e guerrilheiros O chefe do SNI, 
que desprezara em 1965 as correrias em faixas fronteirias 
tambm da va pouca importncia aos riscos da guerrilha. 
Duvidava da capacidade material de organizao da esquerda 
para grandes lances, com exceo talvez de tentativas 
isoladas, a priori destinadas a fracasso e visando an tes a 
um efeito meramente psicolgico e promocional que a objetivos 
con cretos de qualquer significao aprecivel Em novembro, 
quando os guerrilheiros tinham comeado a subir a serra, a 
seo de informaes do i Exrcito j os farejara na regio, 
valendo-se de indcios recolhidos no Rio de Janeiro.
No dia 23 de maro duas guerrilhas comearam a acabar. Na 
Bol via, Guevara emboscou uma tropa do exrcito. Ganhou 
farta munio, matou sete soldados e fez catorze 
prisioneiros. Exibiu-se prematura mente, perdeu a mobilidade 
estratgica e encurralou-se contra a cordi lheira oriental, 
numa ratoeira topogrfica de que no sairia. Em Minas Gerais, 
no lugarejo de Espera Feliz, no sop da montanha, o Exrcito 
cap turou, numa barbearia, dois ex-sargentos que desciam de 
Capara com destino ao Rio de Janeiro. Tinham perdido o trem 
e estavam matando tempo enquanto no chegava o nibus para o 
Rio.
Capara esboroou-se em uma semana, sem um s tiro, sem ter 
fei to nenhum contato com os habitantes da regio. Uma 
coluna coman dada por um cabo da PM prendeu oito 
guerrilheiros no alto da serra. Um deles, segundo os 
carcereiros, tinha os primeiros sintomas de peste bu bnica. 
Apesar da relativa facilidade da operao militar, a vida no 
par que nacional de Capara foi agitada at meados de abril. 
No restava ne 114 Impresso Geral de 8 de fevereiro de 1967, 
do SNI. APGCS/HF.
15 Hugo Gambini, El Che Guevara, p. 474.
116 Gilson Rebeilo, A guerrilha de Capara, pp. 33-4.
117 Esther Kuperman, A guerrilha de Capara (1966-1967) Um 
ensaio de resistncia p. 167.
18 Avelino Bioen Capitani, A rebelio dos marinheiros, p. 
118.


206        A DITADURA ENVERGONHADA
nhuma base em operao, mas helicpteros, apelidados pelos 
lavradores de cr-c-c com um papa-vento na corcunda, 
varriam a mata. Tropas do Exrcito acampavam no meio da 
montanha com os ps esfolados pela impropriedade do uso de 
coturnos de parada. Antes que lhes fos sem dados tnis, mais 
de sessenta soldados baixaram  enfermaria.
Uma guerrilha que comeara a desabar numa barbearia 
terminaria tambm de forma tpica. No dia 16 de abril, 
soldados do 112 Regimento de Infantaria capturaram numa Kombi 
mais cinco combatentes, entre os quais o comandante Amadeu. 
Iam para as montanhas, caso nico de guer rilha que acaba 
enquanto se move da cidade para o campo.
A maneira como foi montada e a facilidade com que foi 
desmonta da a guerrilha de Capara indicam que ela tenha 
sido, para Brizola, mais uma esperana de propaganda  como 
Golbery supunha  do que efe tivamente um foco insurrecional. 
Numa regio habitada por caboclos, os guerrilheiros mandavam 
s compras um ex-sargento louro de olhos azuis. Recusavam 
fumo de rolo (fumavam cigarros Continental) e no passavam 
sem arroz e feijo, cardpio que com a umidade da serra leva 
va de seis a oito horas para ser cozinhado. No final, a 
aventura serviu muito mais  propaganda do governo, usada 
para assustar a opinio p blica com uma guerrilha de 
verdade. Nela, ao contrrio do que sucede ra com Cardim e seu 
caminho, havia acampamentos e florestas. Propa ganda  
parte, para seus reais perseguidores, a guerrilha de Brizola 
era um gato de papel.
A espionagem americana acreditava na perseverana de Brizola 
e es timava que ele se concentrar na preparao de 
atividades guerrilheiras em Mato Grosso e Gois depois de 
ter perdido Capara e de ter fracas sado em seis tentativas 
de estabelecer uma base guerrilheira no Rio Grande do Sul 
121
119 Gilson Rebelio, A guerrilha de Capara, pp. 19, 140 e 85.
20 Depoimento de Jelsy Rodrigues Corra, em Esther Kuperman, 
A guerrilha de Capara (1966-
1967)  Um ensaio de resistncia pp. 2 19-20.
121 Telegrama da CIA, de 28 de agosto de 1967, sobre acordo 
recente entre Brizola e Castro a res peito de planos para 
atividades de guerrilha no Brasil em Marcos S Corra, 1964 
visto e comen tado pela Casa Branca, p. 68.
4
PELAS BARBAS DE FIDEL        207
Em meados de 1967, Brizola ordenou a desmobilizao de seu 
apa rato guerrilheiro. A base mato-grossense dissolveu-se. 
Os guerrilheiros compraram uma extenso de terras, e alguns 
deles transformaram-se em fazendeiros e comerciantes. 
Segundo os americanos, Fidel mandava aos brasileiros mais 
recursos do que eles precisavam. No so exigidos recibos ou 
prestao de contas, mas Brizola anota todas as despesas cui 
dadosamente e mantm uma escrita contbil, caso esta venha a 
ser ne cessria. Segundo seus militantes, nessa poca j no 
havia recursos pa ra sustentar as operaes militares. 
Brizola insistira na carta cubana para conservar a sua 
condio de comandante da ala esquerda da oposio ao regime 
brasileiro. Pode-se supor que a sua f na guerrilha 
guevarista te nha sido nula. Sua ligao com Cuba, alm da 
ajuda logstica, permitira- lhe manter fechado o caminho a 
outras lideranas na esquerda.
O ano da Tricontinental fora o das catstrofes militares do 
castris mo. Tivera uma guerrilha capturada no Brasil, alm de 
baixas severas no Peru, na Colmbia, Guatemala e Venezuela. 
Mas o Che era o Che e con tinuava na Bolvia. Conseguira-se 
comear uma guerrilha sandinista na Nicargua. Na primeira 
metade de agosto, em Havana, debaixo de um grande painel do 
Guerrilheiro Herico, Fidel lera uma mensagem do Che em que 
anunciava que so necessrios um, dois, muitos Vietns
O estratagema explodiu no dia 8 de outubro de 1967. Do meio 
da vegetao rala e baixa da cordilheira boliviana, numa 
encosta do desfiladeiro de El Churo, o capito Gary Prado 
Salmn, do destacamento de Rangers 2, informou ao general 
Zenteno Anaya, comandante das tropas que lu tavam contra a 
guerrilha: Tenemos a Pap.
Ernesto Che Guevara fora capturado vivo, baleado no 
calcanhar.
Viveria mais uma noite, at que s 13h10 do dia seguinte um 
sargento o
122 Flvio Tavares, Memrias do esquecimento, p. 202.
123 Depoimento de Jelsy Rodrigues Corra, em Esther Kuperman, 
A guerrilha de Capara (1966-
1967)  Um ensaio de resistncia p. 234.
124 Telegrama da CIA, de 28 de agosto de 1967, sobre acordo 
recente entre Brizola e Castro a res peito de planos para 
atividades de guerrilha no Brasil em Marcos S Corra, 1964 
visto e comen tado pela Casa Branca, p. 68.
125 Flvio Tavares, Memrias do esquecimento, p. 203.
126 Gary Prado Salmn, The defeat of Che Guevara, p. 248.
208        A DITADURA ENVERGONHADA
executou com seis tiros no peito. Colocado sobre o tanque de 
um pe queno hospital do povoado de La Higuera, tinha o torso 
nu, e nele se viam os furos das balas que o mataram. A cabea 
estava ligeiramente le vantada, os olhos abertos. Parecia 
sorrir. Parecia-se com o Cristo Mor to do pintor 
renascentista Andrea Mantegna. Seu legado deveria ter sido a 
revoluo continental. Acabou sendo pobre e diverso. Sua 
arma, um fuzil atingido no cano durante o ltimo combate, 
ficou para o ge neral Zenteno Anaya. Outro coronel levou-lhe 
a carteira. O capito Gary Prado pegou seus dois relgios 
Rolex de ao. Um deles, marcado com um x, era lembrana de um 
guerrilheiro agonizante. Tomaram- lhe a caneta com que 
escrevera o dirio da campanha e a faca que tra zia na 
cintura. Ao sargento que o metralhou, coube o cachimbo. O fu 
mo foi para Felix Rodriguez, o coordenador da execuo, um 
cubano exilado com dezessete anos de servio na CIA e no 
brao paramilitar da diplomacia americana.
A execuo de Guevara e a derrota fulminante de Capara abala 
ram o sonho da chama votiva da guerrilha invencvel com a 
qual um destacamento de bravos embrenhado na selva poderia 
iniciar uma ava lanche que, levando consigo a esquerda e os 
camponeses, soterraria os liberais e as cidades. A marota 
liderana de Brizola, montada sobre in surreies impossveis 
e guerrilhas ambguas, esfumou-se. Com ela ter minou tambm a 
liderana esquerdista do ltimo notvel do regime de posto em 
1964.
No arco dos proscritos, Juscelino Kubitschek e Jango 
perderam-se
em manobras tpicas de exilados, costurando alianas 
paternalistas. Mi guel Arraes, com um discurso mais 
aguerrido, estava nas areias do exlio
127 Autpsia de Ernesto Guevara, em Gary Prado Salmn, The 
defeat of Che Guevara, p. 196.
128 Susan Sontag, On photography, p. 107, citando o Crtico 
de arte John Berger, que tambm viu
na fotografia um eco da Lio de anatomia, de Rembrandt.
129 Jon Lee Anderson, Che Guevara, p. 742.
130 Para os dois relgios, Gary Prado Salmn, The defeat of 
Che Guevara, p. 250. O guerrilheiro
tinha consigo dois Rolex, mas na sua memorabilia h trs. 
Felix Rodriguez diz que tinha um re lgio idntico ao do 
guerrilheiro  GMT Master  e que os trocou antes que Gary 
Prado reco lhesse a sua parte do butim. Felix 1. Rodriguez e 
John Weisman, Shadow warrior, p. 169.
131 Felix 1. Rodriguez e John Weisman, Shadow warrior, p. 
169. O sargento chamava-se Mano Tern.
PELAS BARBAS DE FIDEL        209
argelino. Francisco Julio vagava desacreditado pelos 
plenrios do esquer dismo messinico. Os santos menores do 
janguismo enfumaavam-se em reminiscncias nos bares de 
Montevidu ou de Paris. O Partido Comu nista continuava 
tentando recuar em ordem. Uma poca se acabara. Co meavam 
novos tempos. Mudaria a esquerda, mudaria a direita.
A roda de Aquarius
Por uma fatalidade histrica, comeou em 1964 no Brasil um 
perodo de supresso das liberdades pblicas precisamente 
quando o mundo vivia um dos perodos mais ricos e divertidos 
da histria da humanidade. Nes se choque, duas rodas giraram 
em sentido contrrio, moendo uma gera o e vinte anos da 
vida nacional.
Uma das rodas foi a do dirigismo conservador e anticomunista 
dos anos 50. Produto da guerra fria, esse pensamento poltico 
projetou-se so bre a direita brasileira como uma utopia 
planejadora, centralista, acom panhada por uma viso 
catastrofista da desordem administrativa e do ca rter 
errtico do voto popular. Essas caractersticas davam-lhe uma 
essncia ao mesmo tempo racional e autoritria. Ela entendia 
que o povo no sa bia escolher os governantes e estes, uma 
vez no poder, no sabiam gover nar. Gastavam mais do que 
podiam, sobretudo naquilo que no deviam.
Na base dessa utopia, funcionando como mola propulsora para 
efei tos de propaganda e como cimento para unir interesses 
divergentes, es teve sempre o perigo comunista e, com ele, o 
apocalipse utilitrio da sua ameaa iminente. Em 1960, o 
coronel Ernesto Geisel, chefe da seo de informaes do 
gabinete do ministro da Guerra, denunciava o apoio dos 
comunistas (os vermelhos) ao PTB do candidato a vice-
presidente Joo
1 Muitos aspectos do tema deste captulo esto discutidos em 
A cano do homem enquanto seu Lobo no vem, no livro O 
fantasma da revoluo brasileira, de Marcelo Ridenti. Viso 
diversa,  leitura recomendada.
212        A DITADURA FNVERGONHADA
Goulart (demagogos oportunistas), advertindo, num documento 
con fidencial intitulado Expanso do Comunismo no mbito 
Nacional, que no estar muito remota a oportunidade 
almejada pelos comunistas para o desencadeamento da segunda 
etapa de sua estratgia: a da subverso so cial e conquista 
do poder no Brasil, pela fora, se necessrio. Golbery ia 
mais longe. Vira na poltica externa de Goulart, que se 
recusara a rom per relaes com Cuba, a inteno de jogar o 
Brasil, semi-satelitizado, nos tentculos do imperialismo 
sovitico
O anticomunismo da roda do pensamento conservador era uma mis 
tura de medo real com uma espcie de industrializao do 
pavor, a fim de permitir que bandeiras simplesmente 
libertrias ou reformistas fos sem confundidas com o perigo 
vermelho No centro da questo, no Bra sil, estavam as 
incertezas do regime de 1946 e sua crise, provocada pela 
dificil convivncia entre o sufrgio universal e a questo 
social projeta da sobre o funcionamento do Estado.
Golbery, ainda como talentoso coronel no servio ativo do 
Exrci to, defendera a necessidade de se formular, em termos 
precisos e segu ros, um planejamento democrtico que [ abra 
uma nova era para a histria da humanidade, contrapondo-se a 
um Estado mero guarda- civil, ablico ante o espetculo das 
convulses sociais do nosso tempo Num pas onde o presidente 
Juscelino Kubitschek levara a capital para o cerrado goiano 
por conta de um processo decisrio prximo daque le em que se 
escolhe um sabor de sorvete, a palavra planejamento soava 
mgica. O que fosse planejado, por no ser improvisado, seria 
necessa riamente melhor.
A f no planejamento estatal fazia parte da religiosidade 
poltica da
direita militar, mas tambm da esquerda. O que fazia toda a 
diferena,
2 Ernesto Geisel, Expanso do Comunismo no mbito Nacional, 
minuta de documento da chefia
do Estado-Maior do Exrcito, sem data, p. 7. APGCS/HF.
3 Conceltuao da Segurana Nacional, manuscrito de Golbery, 
em dezenove folhas de bloco, sem
data. APGCS/HF.
4 Golbery do Couto e Silva, Planejamento estratgico, pp. 19 
e 21.
5 1K aceitou a sugesto de mudar a capital durante um comcio 
em Jata (Go). Juscelino Kubitschek,
Por que constru Braslia, pp. 7-8.
A RODA DE AQUARIUS        213
naquela poca, era a construo, pelo regime, de uma roda em 
que o pla nejamento do progresso se associava  necessidade 
de desmobilizao da sociedade.  comum que utopias 
conservadoras circulem com vigor na histria dos povos, mas, 
de vez em quando, precisamente naqueles mo mentos em que essa 
mesma histria se torna mais bela, vivem-se pocas nas quais 
o passado fica mais longe e o futuro parece mais prximo. A 
dcada de 60, com as memorveis mobilizaes e desordens de 
1968, foi um desses perodos dourados. Ela foi a outra roda 
com que se moeu um pedao da histria do Brasil: a Era de 
Aquarius.
Vinte e sete anos depois do aparecimento da penicilina 
injetvel e oito anos depois da comercializao da plula 
anticoncepcional, o orgas mo dissociara-se do medo e do 
compromisso. Vivia-se o perodo de maior liberdade sexual da 
histria humana. Centenas de milhes de jo vens nascidos aps 
a guerra comearam a deixar crescer simultaneamen te cabelos 
e idias. Neles afloraram sentimentos libertrios que tinham 
brotado havia dcadas nos bairros intelectuais e nos redutos 
da margi nalidade bomia de todo o mundo. Um novo barulho  o 
rock  e um novo jeito de estar s, o de James Dean com seu 
olhar de altaneira dis tncia, antecipavam o controle da 
juventude sobre a cultura mundial pe lo resto do sculo. 
Dean, morto aos 24 anos, simbolizaria a figura do he ri cuja 
vida dura apenas uma mocidade.
Beat. Essa palavra designava uma nova voz da alma. Nos anos 
40 era usada para definir um trato de drogas trapaceado. 
Herbert Huncke, um prostituto, ladro do norte de Chicago, 
passou-a a um vagabundo que falava em escrever um livro. 
Chamava-se Jack Kerouac. Beat, para Hun cke, significava 
derrotado, com o mundo contra mimY Em 1957 um jornalista 
do San Francisco Chronicle inventou o termo que definiria as 
pes soas que se sentiam como Huncke: beatnik. Capturava o 
sufixo do Sputnik, o primeiro satlite artificial colocado em 
rbita ao redor da Terra pelos
6 Eric Hobsbawm, Era dos extremos, p. 318. Hobsbawm lista os 
cones da cultura do fim do scu lo que tiveram trajetria 
semelhante  de James Dean (morto num desastre de automvel 
em 1955):
Janis Joplin, Jimi Hendrix, Brian Jones, Buddy Holly e Bob 
Marley.
7 Steven Watson, The birth of the beat generation, p. 3.
214        A DITADURA ENVERGONHADA
russos. Um beatnik, como o satlite, gravitava muito longe 
daquilo que
se considerava o mundo real.
A marginlia de San Francisco produzira Allen Ginsberg com 
seu poema Howi, que falava nas melhores cabeas de minha 
gerao morren do numa nudez histrica, e Jack Kerouac, com 
o Dionsio suburbano de On the road, avisava que a estrada  
a vida. A juventude, criada na pros peridade, desenvolveu um 
complexo da ilegitimidade flagelando-se por privilegiada e 
redimindo-se em propostas de combate s injustias sociais. 
Da Universidade de Stanford, o escritor ingls Aldous Huxley 
cantava, nAs portas da percepo, o milagre do desabrochar 
da existn cia que vira num vaso de rosas depois de engolir 
um pedao de mesca lina. Comeando a influenciar toda uma 
gerao, o fflsofo Herbert Mar cuse, alemo radicado nos 
Estados Unidos, publicava Eros e civilizao, e expunha a 
angstia do homem moderno, produto de uma represso 
sociologicamente imposta, exigida por uma civilizao 
mecanicamente competitiva. Na Universidade de Columbia, em 
Nova York, o socilogo Wright Mills, que circulava pelas 
fronteiras do Harlem a bordo de uma motocicleta BMW, 
carregando sua papelada acadmica numa mochila de soldado, 
acabara de escrever A elite do poder. Milis apontava o 
embuste de uma democracia americana assentada cada vez mais 
na hierarquia das corporaes e do complexo militar-
industrial. Num hospital de Argel, o psiquiatra negro 
martiniquense Frantz Fanon iniciava a autpsia do ra 
cionalismo colonialista francs, que perdia sua ltima 
guerra, a da supo sio do Mediterrneo como lago de domnio 
europeu.
Era esse o mundo da segunda metade dos anos 50. Em dezembro
de 1955, Rosa Parks, uma negra de 42 anos, tomou o nibus de 
volta
para casa depois de um dia de trabalho numa loja de 
Montgomery, no
8 O termo foi criado em outubro de 1957, num artigo de Herb 
Caen. Steven Watson, The birth of
the beatgeneration, p. 4.
9 Jack Kerouac, On the road, p. 221. A primeira edio 
americana  de 1957.
10 Paul Berman, A tale oftwo utopias, pp. 32-3.
11 Aldous Huxley, As portas da percepo e Cu e Inferno, p. 
6.
12 Allen J. Matusow, The unravelng ofAmerica, pp. 283, 285, 
288 e 322. James Milier, Democracy
in the streets, p. 81. Judith Clavir Albert e Stewart Edward 
Albert, The Sixties papers, p. 5.
A RODA DE AQUARIUS        215
Alabama. Viajava sentada, at que o motorista mandou que 
desse o lu gar a um branco: Se voc no sair, vou mandar 
prend-la V em fren te, mande me prender, respondeu a 
negra. O nibus em que Rosa Parks viajava perdeu-se nas 
montanhas de sucata dos ferros-velhos americanos, mas as 
conseqncias de sua priso tornaram-se um mar co na histria 
da liberdade. Dias depois, a comunidade negra de Mont gomery 
decidiu boicotar o servio de transportes da cidade. Os 
negros organizaram uma frota autnoma de veculos, andaram a 
p, de bici cleta ou de carona. Em dois meses o comrcio 
perdeu 1 milho de d lares. No 3812 dia de boicote, a Corte 
Suprema dos Estados Unidos con siderou ilegal a segregao 
praticada pelas empresas de transportes de Montgomery, e o 
lder do movimento, um pastor negro chamado Mar tin Luther 
King Jr., de 25 anos, fez sinal para um nibus, entrou, sen 
tou-se num dos bancos da frente, e nunca mais um negro 
americano foi mandado para o banco de trs.
Quando o marechal Castelio Branco entrou no palcio do 
Planalto, levou para o governo um mundo em que Kerouac seria 
um homossexual bbado, Ginsberg um judeu doido, Huxley um 
ingls excntrico, Wright Mills um exibicionista, Marcuse um 
alemo perigoso, King um ingnuo sonhador e Fanon, um negro 
desconhecido. Estavam todos muito longe da lgica do poder, 
do minucioso clculo das foras econmicas e mili tares. Eram 
marginais num mundo arrumado cujos problemas, se os ti nha 
aqui e ali, deveriam ser resolvidos atravs daquele vagaroso 
proces so de evoluo em que manda quem pode e obedece quem 
tem juzo. Tratava-se de um mundo onde a igualdade racial era 
uma aspirao fi losfica, o homossexualismo uma anomalia e a 
condio feminina, um esturio procriador, amoroso e 
domstico. Nele, o colosso americano pa recia mover-se, 
invencvel, na direo de um grande destino traado desde 
1945. No dia 2 de agosto de 1964, depois de um incidente com 
um des
13 Rosa Parks e Jim Haskins, Rosa Parks: my story, pp. 108-
58. Harvard Sitkoff, The struggle for
black equality  1954-1 980, p. 41. Ver tambm Rosa Parks, de 
Douglas Brinkley.
216        A DITADURA ENVERGONHADA
trier no golfo de Tonquim, no Sudeste asitico, o Senado dos 
Estados Unidos deu ao presidente Lyndon Johnson poderes para 
ampliar as aes militares no Vietn. Em sua Estimativa a 
Castello, fiel  sua viso do po der, Golbery especulava: 
Vietnam  Recrudescimento da guerra fria no sudeste 
asitico, por parte dos comunistas chineses, sem maiores 
conse qncias para os EUA e o mundo ocidental
Mas a roda de Aquarius girava. No dia 28 de agosto, enquanto 
Gol bery almoava com o proprietrio do Jornal do Brasil, 
Manoel Francis co do Nascimento Brito, quatro jovens ingleses 
que haviam conquistado os Estados Unidos recebiam numa sute 
do hotel Delmonico, em Nova York, a visita de um cabeludo 
americano. Ele lhes ofereceu cigarros de maconha. Nunca a 
tinham provado. Fecharam as frestas das portas com toalhas e 
fumaram. Foi como se eu estivesse l em cima disse Paul 
McCartney no dia seguinte, apontando para o teto. Os Beatles 
nunca mais seriam os mesmos. Como cantava Bob Dylan, o poeta 
dessa era:
Alguma coisa est acontecendo,
mas voc no sabe o que .
Ou ser que sabe, mr. Jones?
Os mr. Jones nacionais no sabiam. Havia no Brasil uma 
gerao de jovens formados fora da treva do Estado Novo. 
Entre 1950 e 1964 o nmero de universitrios praticamente 
triplicara, de 53 para 142 mil. A cultura brasileira, 
orgulhosa de si, pusera-se de p com xitos e aud cias 
adormecidas fazia quase meio sculo. Era o que Roberto 
Schwarz vi-
14 Impresso Geral n 1, do SNI, para a semana de 10 a 16 de 
agosto de 1964. APGCS/HF.
15 Dirio de Heitor Ferreira, 28 de agosto de 1964, para o 
encontro de Golbery com Nascimento
Brito. APGCS/HF. Para o encontro no Delmonico, Derek Taylor, 
It was twentyyears ago today, p. 83.
16 Chris Salewicz, McCartney, p. 170, e Alien J. Matusow, The 
unravelng of America, p. 277.
17 Luiz Alberto Gmez de Souza, A JUC, p. 75. Esse dado deve 
ser visto no contexto da poca.
Entre 1949 e 1969,o nmero de estudantes universitrios 
triplicou em doze pases europeus: Bl gica, Dinamarca, 
Finlndia, Frana, Grcia, Holanda, Itlia, Noruega, 
Portugal, Espanha, Sucia
e Alemanha. Duplicou na ustria e Gr-Bretanha. Roberto 
Schwarz, Cultura e poltica, 1964- 1969
em Opai de famlia e outros estudos, p. 89.

A RODA DE AQUARIUS        217
ria a chamar de florao tardia A seleo de futebol 
ganhara a Co pa do Mundo na Sucia, e a tenista Maria Esther 
Bueno vencera o tor neio de Wimbledon. Anselmo Duarte 
recebera a Palma de Ouro do Fes tival de Cannes com o filme O 
pagador de promessas. O romance de Jorge Amado impusera o 
palavro  literatura e Gabriela ao patrimnio er tico 
nacional. Uma nova batida do samba, chamada de bossa nova, mu 
dara a noo que os brasileiros tinham de sua msica e a 
capacidade de se expressar atravs dela. Como observou Ruy 
Castro, o repertrio ma cambzio onde se repetia que no 
posso lembrar que te amei (Cami nhemos de Herivelto 
Martins), foi substitudo por outro, a um s tem po enamorado 
e confiante:
Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida
Eu vou te amar.
Essa tumultuada transformao cultural teve seu magnfico 
smbo lo nas interminveis pernas de Norma Bengeli e na 
beleza de Helosa Enei da Menezes Paes Pinto. La Bengeil 
pulara do teatro de revista da praa Tiradentes para os shows 
milionrios da Zona Sul e das chanchadas da Atlntida, como O 
homem do Sputnik (com Oscarito), para as cenas ar dentes de 
Os cafajestes (com Jece Valado). Convidada para cantar num 
show de bossa nova dos estudantes da puc, vira-se vetada pelo 
padre- reitor e s foi ao palco (de tailleur preto e saia 
comprida) porque se trans feriu o espetculo para a 
Universidade do Brasil. Dois meses depois, de saia curta, ela 
cantava na Escola Naval. Em 1962, Helosa tinha quinze anos, 
1,69 m, olhos verdes e cabelos pretos, compridos. Moa do 
corpo dou rado, o seu balanado era mais que um poema. Hel 
levou algum tem po para acreditar que quando passava pelo 
botequim da esquina da Mon tenegro com a avenida Prudente de 
Morais, o mundo inteirinho se enchia
18 Roberto Schwarz, Cultura e poltica, 1964-1969, em Opai 
de famlia e outros estudos, p. 89.
19 Ruy Castro, Chega de saudade, p. 240.
20 Idem, pp. 230 e 317.
218        A DITADURA ENVERGONHADA
de graa. A bossa nova unira trs tipos inesquecveis: 
Antonio Carlos
Jobim, Vinicius de Moraes e a Garota de Ipanema.
O auditrio da Faculdade Nacional de Filosofia lotava com um 
ciclo de palestras sobre a msica popular brasileira, no qual 
reaparecia, com seus velhos violes, a malandragem dos morros 
cariocas. No Carnaval, come ava-se a perceber que havia mais 
beleza no desfile das mulatas da escola de samba do Salgueiro 
ou nas venerveis baianas da Mangueira do que nos grandes 
bailes onde a burguesia se fechara desde que os favelados des 
ceram com seus blocos e marafonas gostosas substituram no 
alto dos car ros alegricos dos desfiles de prstitos as 
gentis senhoritas da sociedade. Contra essa heresia O Estado 
de S. Paulo reclamava, em editorial:
Aquilo que se devia  espontaneidade do sentimento popular 
desapareceu para em seu lugar surgir essa coisa que se chama 
escolas de samba onde o mais sofisticado mau gosto se alia 
ao marginalismo de uma populao que no soubemos at agora 
integrar no organismo nacional. [ No  a participao do que 
o Continente Negro tenha fornecido para a nossa grandeza e 
cultura que est presente neste triste espetculo; o que dele 
se infere  que permanece ainda no seio da Nao aquilo que 
as ondas de afri canos para aqui trazidos tinham de menos 
recomendvel. , numa pala vra, a recrudescncia da 
mentalidade primitiva do tribalismo negro [ 22
Da Unio Nacional dos Estudantes, a UNE, controlada pela 
esquer da catlica e pelo Partido Comunista, saam, 
demaggicos, criativos e te nazes, os Centros Populares de 
Cultura. Tendo proliferado em oito esta dos, percorreram todo 
o pas levando peas como Misria ao alcance de todos e 
vendendo cpias do disco O povo canta e dos livrinhos da cole 
o Cadernos do Povo Brasileiro. Numa poca em que a tiragem 
de um
21 Jos Castelo, Vinicius de Moraes, o poeta da paixo, p. 
246. A rua Montenegro chama-se hoje Vincius de Morais.
22 O Estado de S. Paulo de 5 de janeiro de 1965, citado na 
Revista Civilizao Brasileira, n 1, mar o de 1965, p. 55. 
Menos de dez anos depois Jlio Csar Mesquita, neto de Julio 
de Mesquita Fi lho, diretor responsvel do Estado na poca 
do editorial, desfilaria regularmente na Estao Pri meira de 
Mangueira.
A RODA DE AQUARIUS        219
livro raramente ultrapassava os 5 mil exemplares, dos 
Cadernos rodavam 20 mil cpias. Era a barbrie invadindo os 
sales delicados da cultura nacional escreveu o poeta 
Ferreira Gullar. Em 1962, as universidades haviam parado numa 
fracassada tentativa de impor a participao dos estudantes 
nas congregaes que lhes dirigiam os destinos. Com o apoio 
de Joo Goulart e sob a direo de um condomnio esquerdista, 
o Mi nistrio da Educao criara o Movimento de Educao de 
Base, destina do a executar um vasto programa de 
alfabetizao de adultos valendo- se de um mtodo do pedagogo 
Paulo Freire em que, em vez de ensinar que Ivo viu a uva, 
dizia-se que o povo tem o voto Nos ltimos dias da 
Repblica de 1946, o brasileiro que melhor encarnaria as 
perplexidades e a audcia de sua gerao, o baiano Glauber 
Rocha, de 24 anos, mostrou no Rio de Janeiro seu filme Deus e 
o diabo na terra do sol, magistral pi co da perseguio e 
morte do cangaceiro Corisco. Mais fortes so os po deres do 
povo! gritava, com balas no corpo e os olhos na platia.
Na noite chuvosa de 1 de abril de 1964, a outra roda comeou 
a gi rar. Aos 26 anos, o capito Heitor Aquino Ferreira, fiel 
escudeiro de Gol bery, viveu a vitria quando corria num 
automvel pela rua das Laran jeiras e se viu num foguetrio, 
debaixo de um cu de papis picados. Era o povo que saudava a 
derrubada de Jango. Creio que foi a mais ntida sensao de 
felicidade da minha vida registrou no seu dirio. Nessa mes 
ma hora, na praia do Flamengo, o antigo prdio do clube 
Germania, onde funcionava a UNE desde que os estudantes o 
tomaram em 1942, durante a campanha pela entrada do Brasil na 
guerra, foi atacado e incendiado por um comando paramilitar. 
Seus ltimos ocupantes fugiram pulando o muro dos fundos do 
terreno. Quinze dias depois, funcionrios do ser vio de 
censura do Rio de Janeiro foram ao laboratrio Lder, onde se 
fa ziam as cpias de Deus e o diabo, para apreend-las em 
nome do Conse lho de Segurana Nacional. O filme acabou 
liberado, mas o regime
23 Jalusa Barceilos, CPC da UNE, p. 12.
24 Artur Jos Poerner, O poder jovem, p. 200.
25 Dirio de Heitor Ferreira, 1 de abril de 1964. APGCS/HF.
26 Correio da Manh, 25 de julho de 1964, citado na Revista 
Civilizao Brasileira, n 1, maro de
1965, p. 282.
220        A DITADURA ENVERGONHADA
iniciava sua estranha relao com Glauber, a quem, por no 
conseguir admirar, entender nem controlar, trataria 
esquizofrenicamente, indo da perseguio ao flerte, sem 
nenhum sucesso.
A ditadura foi progressivamente alvejada no campo das idias, 
acu sada de praticar o que o escritor Alceu de Amoroso Lima 
denominou de terrorismo cultural Ele sustentava que o 
Brasil passava por uma crise em que a maior inflao 
nacional  de estupidez. Alegando ter rece bido ordens do 
SNI, a Censura proibiu o filme Sete dias em maio, que con 
tava a histria de uma tentativa de golpe militar nos EUA. A 
pintora Dja nira foi chamada a explicar por que uma paisagem 
de Parati tinha um suposto chins atrs de uma palmeira. Com 
os direitos polticos sus pensos, intelectuais reconhecidos 
internacionalmente, como o professor Celso Furtado, ministro 
do Planejamento de Jango, preferiam deixar o pas. Para os 
vencedores de abril, Furtado era conivente com a subver so, 
a roubalheira e a anarquia do governo Goulart. Como a 
tradio da tolerncia poltica fora rompida no Brasil, mas 
no no mundo, o Times de Londres, para desconforto do 
conservadorismo, classificava de rid cula a sua punio e, 
em editorial, registrava que a caa s bruxas de clinou mas 
no terminou Nem terminaria.
O governo Castelio Branco tentou mover a roda da autoridade 
espe rando que a de Aquarius parasse, e pode-se acreditar que 
se ela no tives se o inesperado vigor do fenmeno histrico 
profundo, o marechal teria sido mais bem-sucedido. Estava 
preso numa armadilha, percebida pelo ge neral Geisel j em 
agosto de 1965, quando, numa conversa de palcio, dis se a 
Heitor Ferreira: Seu Heitor, estou vendo a cada dia nos 
aproximar mos mais da ditadura... os estudantes no se 
conformam e esto fazendo a sua guerrinha, os comunistas 
botaram as mangas de fora [ 1 a questo dos salrios 
permanece, a inflao no foi debelada... Eu acho que vamos
27 Srgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, Febeap, p. 12.
28 Correio da Manh, 2 de setembro de 1964, citado na Revista 
Civilizao Brasileira, n 1, mar o de 1965, p. 276. Sete 
dias em maio foi exibido pouco depois, ainda no governo do 
marechal Cas telio Branco.
29 O Cruzeiro, 6 de julho de 1965, citado na Revista 
Civilizao Brasileira, n 1, maro de 1965, p. 286.
30 The Times, citado no Correio da Manh, 2 de junho de 1964.
A RODA DE AQUARIUS        221
ter que colocar essa nossa democracia numa geladeira, durante 
alguns anos.
E isso  terrvel. A necessidade de corromper. Os levantes 
aqui e ali.. 31
Castelio lutava para desembaraar-se do risco da ditadura por 
meio dos mais diversos recursos. Para espanar a ptina de 
irracionalismo que lhe cobria o governo, mostrava-se homem de 
cultura. Almoava no pa lcio Laranjeiras com o poeta Manuel 
Bandeira, ia s peas de teatro de Tnia Carrero, freqentava 
as chatas sesses de posse na Academia Bra sileira de Letras. 
Era capaz de lances de refinada elegncia, como o de apa 
recer num concerto da Orquestra Sinfnica de Londres, regida 
por sir John Barbirolli, um ex-combatente da Segunda Guerra, 
levando consigo seu comandante na Fora Expedicionria 
Brasileira, marechal Mascarenhas de Moraes, e instalando-se 
numa modesta frisa em vez de ocupar o ca marote presidencial.
Numa das muitas crises estudantis de Braslia, aceitou 
reunir-se com uma comisso de universitrios. Desprezou os 
dossis com que queriam empanturr-lo, provando-lhe que 
estava diante de perigosos subversivos. Paternal e atencioso, 
ouviu os jovens e mostrou-se preocupado, acima de tudo, com a 
hiptese de eles estarem perdendo aulas para virem v-lo no 
Planalto. Segundo a CIA, Castello era capaz de falar com 
igual facilida de sobre porcelanas chinesas da dinastia Ming 
ou sobre a Guerra do Pe loponeso (A erudio de Castelio na 
arte chinesa nunca passou de um momento de entusiasmo do 
analista que lhe traou o perfil.)
A figura moderada e ambgua de Castelio tornou-o uma excentri 
cidade na trajetria do regime que ajudou a fundar. Em seu 
governo um professor pernambucano instituiu uma agenda para 
delatores, infor mando que aceitaria denncias s segundas, 
quartas e sextas, das oito ao meio-dia. Numa feira de livros 
de Niteri apreenderam-se exemplares da encclica Mater et 
magistra, do papa Joo XXIII. Palhaadas como es sas eram a 
delcia da oposio e, sobretudo, do cronista Stanislaw Ponte
31 Dirio de Heitor Ferreira, 15 de agosto de 1965. APGCS/HF.
32 Idem, 31 de agosto de 1965, APGCS/HF, e Luiz Felipe de 
Alencastro, abril de 1988.
33 Perfil do marechal Castelio Branco pela CIA, de 5 de 
agosto de 1964. National Security Files,
Latin America. BLBJ.
34 Revista Civilizao Brasileira, n 1, maro de 1965, p. 
243.
222        A DITADURA ENVERGONHADA
Preta, da ltima Hora, que sistematicamente expunha as chagas 
daqui lo que chamava de Festival de besteira que assola o 
pas ou Febeap Nele havia de tudo. O chefe da Polcia 
Federal, general Riograndino Kruel, recusava-se a entregar a 
Censura a um servio especializado com o argumento de que era 
preciso evitar a propaganda subversiva atravs das artes 
Para tamanha tarefa o general entregara a Censura a um 
cupincha gacho, Romero Lago, que chegou ao ponto de 
telegrafar a todas as se cretarias de Segurana determinando 
que impedissem filmagens de pro dutores estrangeiros no 
Brasil, a fim de evitar que distorcessem a reali dade 
nacional Dois anos depois, para supremo vexame da moralidade 
do regime, descobriu-se que o dr. Lago era um estelionatrio 
foragido da Justia e se chamava Hermenildo Ramires de Godoy. 
Em Minas Gerais o secretrio de Segurana proibia a presena 
de mulheres com as pernas de fora em bailes de Carnaval para 
impedir que apaream fantasias que ofendam as Foras Armadas 
Como se perna de mulher alguma vez na vida tivesse ofendido 
as armas de algum observava Stanislaw.
A maioria das tolices arroladas no Febeap fazem parte de um 
fes tival de besteira que assola o pas independentemente do 
regime nele ins talado, mas havia no esprito de 1964 um tipo 
de besteira especfica da ditadura: a idia segundo a qual a 
violncia poltica podia ser usada co mo um detergente, 
limpando um mundo sujo para, a partir da, erguer algo de 
novo. Havia um nexo unindo os mosaicos do Febeap.
O governo acreditava em bruxas, elas efetivamente existiam, e 
ele se dispunha a ca-las, mas o problema no estava nas 
bruxas, e sim na maneira como as caavam. Para purgar o 
ensino infiltrado por esquer distas, policializou-se a 
universidade. Quatro reitores de universidades estaduais 
foram depostos. Na direo da Universidade de Minas Gerais 
colocou-se um interventor militar. Na de Braslia, um civil. 
Nela, pu seram-se nove professores na rua como se fossem 
vendedores de lote-
35 Stanislaw Ponte Preta (Srgio Porto), Febeap, pp. 9, 23 e 
29.
36 Jos Carlos Oliveira, Dirio dapatetocracia, p. 62. Para a 
histria de Romero Lago, ver tambm
Inim Simes, Roteiro da intolerncia, p. 95. Simes informa 
que Godoy se foragira por ser acu sado de ter mandado matar 
dois homens.
37 Stanislaw Ponte Preta, Febeap, p. 8.
A RODA DE AQUARIUS        223
ria, pois nem sequer o ritual das investigaes sumrias lhes 
foi conce dido. Na Universidade de So Paulo, uma comisso 
secreta formada por iniciativa do reitor Lus Antonio da Gama 
e Silva produziu um do cumento em que propunha a punio de 
44 professores e conclua se rem realmente impressionantes 
as infiltraes de idias marxistas nos vrios setores 
universitrios, cumprindo sejam afastados da os seus dou 
trinadores e os agentes dos processos subversivos O 
socilogo Flores tan Fernandes, arrolado no 1PM da usp, 
escreveu uma carta de protesto ao tenente-coronel que o 
chefiava na qual bradava: No somos um ban do de 
malfeitores Como resposta, foi preso. Um de seus 
assistentes, Fernando Henrique Cardoso, era considerado 
marxista violentssi mo, fugira para o Guaruj e de l para 
Buenos Aires e Santiago. Ou tros dois professores, da 
faculdade de medicina, denunciados por co legas, foram 
encarcerados no navio-presdio Raul Soares, fundeado ao largo 
de Santos. Um deles teve a filha de seis meses proibida de 
entrar na creche do hospital das Clnicas. Expulsaram-se 
alunos no Institu to Tecnolgico da Aeronutica e nas 
faculdades nacionais de Direito e Filosofia.
Em So Paulo, quando o governo comeou a se mostrar incomoda 
do pela epidemia de indicaes do professor Celso Furtado 
para para ninfo de turmas, a venervel congregao de 
catedrticos da Escola Po litcnica  uma das melhores 
faculdades de engenharia do pas, repleta de quatrocentes  
vetou as homenagens ao economista exilado. Na Pa raba, 
diante do mesmo problema, um capito do Exrcito, investido 
de poderes de reitor, mandou destruir os 7 mil convites da 
formatura, pa gos pelos alunos.
38 Roberto A. Salmeron, A universidade interrompida, p. 171.
39 O livro negro da USP, pp. 16 e 25.
40 Veja, 6 de outubro de 1994, pp. 42-5, e anotao de 27 de 
abril de 1964 feita no pronturio de
Cardoso no DOPS paulista, do qual foram publicados trechos em 
O Estado de S. Paulo de 5 de abril
de 1998.
41 O caso da menina expulsa da creche est no artigo de seu 
pai, Thomas Maack, Casa de Ar naldo, circa 1964 Revista 
USP, n 10, junho-agosto de 1991, So Paulo, pp. 121-34.
42 ltima Hora de 11 de dezembro de 1964, citado na Revista 
Civilizao Brasileira, n 1, maro
de 1965, pp. 272-3.
224        A DITADURA ENVERGONHADA
Esses mecanismos repressivos poderiam dar resultados se, na 
sua vul garidade, fossem rpidos como as batidas policiais. 
Como a roda do re gime se movia em sentido contrrio ao dos 
tempos, seu movimento le vou-a a esbarrar na sensibilidade 
internacional. Os bacharis da nova ordem na Universidade de 
So Paulo esforavam-se para expulsar o professor Mano 
Schenberg, fsico que participou da descoberta do fenmeno 
Urca, atravs do qual se comearam a explicar as supernovas e 
a mais conhe cida delas, a Estrela de Belm. Militante do 
Partido Comunista, Schen berg atazanava havia mais de uma 
dcada seus adversrios polticos na usP. Por comunista, nada 
mais fcil que prend-lo. Por fisico, houve que enfrentar o 
descontentamento da comunidade acadmica internacional. O 
Prmio Nobel alemo Werner Heisenberg, diretor do renomado 
Ins tituto Max Planck, liderou uma onda de protestos que 
envolveu mais de vinte centros universitrios europeus e 
americanos contra a priso de Schenberg.
As cassaes e os inquritos produziam sobre o corpo docente 
da universidade brasileira, aos poucos, um efeito depurador 
de sentido oposto ao que o regime pretendera. Os liberais, 
que discretamente apoia ram a derrubada de Goulart, refluam 
para a oposio ou, pelo menos, para um silncio envergonhado 
diante da anarquia de IPMs, delaes e arbitrariedades 
militares. A esse refluxo dos liberais correspondia, qua se 
sempre, um avano dos aproveitadores associados  extrema 
direita, o que haveria de funcionar como um ciclo perverso. 
Mais avanava o oportunismo, mais retraam-se os liberais, 
mais radicalizavam-se os es tudantes, e policializava-se a 
universidade, fazendo avanar o obscuran tismo, e assim por 
diante.
Bom exemplo da opo do regime pelo oportunismo e pela 
delao pode ser encontrado no que sucedeu na Faculdade 
Nacional de Filoso fia. A FNFi, no Rio de Janeiro, fora um 
dos mais agitados ninhos de sub verso universitria. Em 1963 
a sua base do Partido Comunista chega-
43 Revista Civilizao Brasileira, n 1, maro de 1965, pp. 
239-97.
44 Idem, p. 254. Para a natureza fisiolgica das delaes, 
ver o artigo do professor Thomas Maack, preso e expulso da 
Faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo, Casa de 
Arnaldo, cir ca 1964, Revista USP, n 10, junho-agosto de 
1991, So Paulo.
A RODA DE AQUARIUS        225
ra a ter perto de 120 militantes. Radicalizada, a escola 
estivera dividida com os comunistas de um lado e, do outro, o 
seu diretor, Eremildo Luiz Vianna, que a tivera por quase uma 
dcada como mnage administrati vo. Entre Eremildo e o PCB, 
porm, havia o universo. Desde conservado res de passado 
fascista e currculo erudito, como o historiador Hlio Via- 
na, cunhado de Castelio, at pensadores liberais que 
combateram Goulart, como o advogado Sobral Pinto. A nova 
ordem achou em Eremildo o seu querubim. Demitiram-se dois 
catedrticos, quatro professores, expulsa ram-se dezenove 
estudantes, e colocou-se a FNFi debaixo de dois IPM5. Essas 
medidas cirrgicas tinham punhos fortes e pernas curtas. 
Quando o general Acyr da Rocha Nb rega, chefe da comisso de 
investigaes na Universidade do Brasil, concluiu sua 
inquisio, veio uma surpresa. De terminou a abertura de 
processo criminal para punir Eremildo por frau des contbeis 
descobertas nas suas sucessivas gestes. Considerou-o mo 
ralmente incompatvel para o exerccio da funo pblica 
Para um regime que pretendia combater a subverso e a 
corrupo, nada mais l gico. Para o professor Flvio Suplicy 
de Lacerda, ministro da Educao de Castello, nada mais 
absurdo. No podemos fazer isso com um dos mais destacados 
homens da Revoluo, anunciou ao saber da deciso do 
general. Por ordem sua o inqurito foi arquivado.
Suplicy, o mais catastrfico dos ministros da Educao na 
histria da
pedagogia nacional, fora at o incio de 1964 um modesto 
reitor da Uni versidade Federal do Paran. Vira-se 
catapultado ao gabinete pelo general
45 Durante a ditadura, incluindo-se as demisses do AI-5, a 
partir de 1968, foram punidos 22 pro fessores da FNFi. Maria 
de Lourdes de A. Fvero (coord.), Faculdade Nacional de 
Filosofia, vol. 2: O corpo docente, p. 65. Para uma narrativa 
do caso da FNFi, ver o depoimento da historiadora Maria Yedda 
Leite Linhares, em Maria de Lourdes de A. Fvero, idem, vol. 
5: Depoimentos, pp. 393-427. 46 Alzira Aives de Abreu, 
Intelectuais e guerreiros, p. 150. Para a entrega da lista, 
comunicao de Eremildo Vianna  Congregao da FNFi, 
reunies de 23 e 26 de novembro de 1964, em Maria de Lourdes 
de A. Fvero (coord.), Faculdade Nacional de Filosofia, vol. 
5: Depoimentos, p. 61.
47 Correio da Manh, 22 de novembro de 1964. Essa mesma 
avaliao, em Outras palavras, est em Maria de Lourdes de A. 
Fvero (coord.), Faculdade Nacional de Filosofia, vol. 5: 
Depoimentos, p. 64. Suplicy teria chamado Eremildo de heri 
da Revoluo, conforme Contou o general Acyr ao fsico Jayme 
Tiomno.
48 Maria de Lourdes de A. Fvero (coord.), Faculdade Nacional 
de Filosofia, vol. 5: Depoimentos, p. 64.
226
A DITADURA ENVERGONHADA
Emesto Geisel, que o conhecera anos antes, quando servia em 
Curitiba. Cha mava de escorpies e agitadores e pequenos 
ladres transformados em lderes os estudantes que faziam 
passeatas contra o governo. A UNE e mes mo a esquerda estavam 
longe de representar os universitrios, mas um mi nistro da 
Educao capaz de dizer semelhantes vulgaridades levava gua 
para a oposio ao regime. Um estudante poderia ser um 
sincero antico munista, poderia ainda discordar da orientao 
que professores esquerdis tas imprimiam aos currculos e at 
apoiar as linhas mestras da poltica do governo, mas 
dificilmente seria um quadro sincero de um regime que se 
associava  intolerncia. No Colgio de Aplicao do Rio de 
Janeiro, insti tuio modelar criada em 1948, o radicalismo 
oficial conseguiu transfor mar lacerdistas em quadros do 
radicalismo esquerdista.
Em junho de 1964, Castello enviara ao Congresso uma mensagem 
propondo a extino da UNE e das demais organizaes 
estudantis. Com essa providncia o regime, dirigido por uma 
gerao de oficiais que na dcada de 20 freqentara as 
academias militares em estado de semi-rebel dia, pretendia a 
tarefa impossvel de despolitizar as universidades. Seu 
efeito imediato foi uma inibio temporria da esquerda 
acadmica. O efeito profundo foi bem outro. Colocou-se 
gradativamente o movimen to estudantil na clandestinidade, 
juntando-o aos partidos comunistas, ao radicalismo brizolista 
e, sobretudo, s centenas de sargentos e suboficiais que 
haviam sido expulsos das Foras Armadas. Dezesseis alunos do 
Co lgio de Aplicao acabariam integrando-se aos ncleos de 
duas organi zaes armadas. Oito deles foram presos, dois dos 
quais banidos. Outros dois deixariam o pas.
49 Artur Jos Poerner, O poder jovem, p. 265.
50 A UNE foi extinta em 1964, pela lei n 4464. Em 1967, pelo 
decreto-lei n 288, baixado ainda no
governo Castelio, foram extintas tambm as entidades 
estudantis estaduais. Pelo decreto n 477,
de 28 de fevereiro de 1969, estipularam-se sanes 
disciplinares contra a militncia poltica de alu nos e 
professores. Maria de Lourdes de A. Fvero, UNE em tempos de 
autoritarismo, pp. 66-7.
5 Alzira Aives deAbreu, Intelectuais e guerreiros, pp. 112 e 
143. Em seu livro Os carbonrios, pp. 400
e segs., Alfredo Sirkis, ex-aluno do Cap, lista oito colegas 
presos e quatro exilados entre 1969 e 1971.
A RODA DE AQUARIUS        227
A criminalizao da poltica nas escolas foi um mau passo 
dado num pas onde o movimento estudantil, pela sua tradio, 
tinha um p na esquerda e outro na elite, permitindo um 
trfego histrico de idias e sobrenomes. O penltimo 
presidente da UNE, Vinicius Caldeira Brant, descendia do 
marqus de Barbacena, negociador da dvida colonial 
brasileira e do segundo casamento de d. Pedro i. Desde o 
sculo xviii, quan do o estudante Jos Joaquim da Maia 
procurou Thomas Jeiferson, em baixador americano em Paris, 
para pedir-lhe que ajudasse uma conspi rao de intelectuais 
no alto das montanhas aurferas de Minas Gerais, a agitao 
universitria confundiu-se com a causa da liberdade nacional. 
Assim foi na abolio, assim fora durante a mar fascista da 
primeira me tade do sculo. Assim fora, sobretudo, na grande 
baderna que tomou as praas do pas em 1961 e obrigou os 
ministros militares que vetavam a posse de Joo Goulart na 
Presidncia da Repblica a engolirem seu gol pe. O movimento 
estudantil no cabia na clandestinidade simplesmen te porque 
era uma espcie de espoleta histrica do intrincado processo 
de metamorfoses ideolgicas da plutocracia nacional.
Alm disso, a roda de Aquarius, veloz, girava na direo 
oposta. Em junho de 1962, reunidos numa pequena cidade do 
estado de Michigan, sessenta universitrios americanos 
redigiram o Manifesto de Port Huron, no qual anunciavam que 
ns fazemos parte de uma gerao criada pe lo menos em 
condies de modesto conforto, vivendo hoje nas univer 
sidades, olhando desconfortavelmente para o mundo que 
herdamos. Em 1964, numa casinha setecentista no centro de 
Amsterdam, reuniam- se jovens cabeludos que conclamavam o 
mundo a participar da resis tncia contra todas as formas de 
autoritarismo sugerindo que o pal cio real fosse 
transformado em hotel, que todo o trabalho da cidade fosse 
feito por mquinas, para que os habitantes pudessem pensar, e 
que a polcia, em vez de carregar cassetetes, circulasse com 
fsforos, espara drapo e preservativos, para oferec-los a 
quem deles precisasse. O vento libertrio da marginalidade e 
do bom humor comeara a entrar
52 James Milier, Democracy iii the streets p. 329.
53 Judith Clavir Albert e Stewart Edward Albert, The Sxties 
papers, p. 176.
228        A DITADURA ENVERGONHADA
nas universidades de todo o mundo. Seriam necessrios menos 
de trs anos para que se vissem os desastrosos resultados da 
idia de conver ter o Brasil num pas onde os estudantes 
aceitassem um regulamento disciplinar pelo qual nada deveriam 
fazer nas escolas seno estudar, pois quem quisesse fazer 
poltica deveria se dirigir aos partidos legalmente 
constitudos.
Os jovens brasileiros sentiam-se livres e cmplices numa 
socieda de pobre e injusta. Essa ansiedade produziu um 
surpreendente movi mento. Sada da militncia laica da 
Igreja, nasceu em 1962 a Ao Po pular (AP), vertente 
esquerdista da Juventude Universitria Catlica, que at o 
final dos anos 50 servira ao conservadorismo dentro do 
movimen to estudantil. Em seu primeiro documento ela 
proclamava que a Ao Popular  a expresso de uma gerao 
que traduz em ao revolucio nria as opes fundamentais que 
assumiu como resposta ao desafio de nossa rea1idade Dividido 
entre o prestgio da AP e a ao buro crtica do Partido 
Comunista, o movimento estudantil brasileiro foi apa nhado 
pela deposio de Goulart num momento radical porm since 
ramente transformador. Na retrica de sua cpula, era 
socialista. Na base, os jovens podiam at ser anticomunistas, 
mesmo porque isso no ti nha muita importncia. Eles 
acreditavam, acima de tudo, na capaci dade de a mobilizao 
popular  ou, pelo menos, estudantil  mu dar para melhor as 
estruturas de poder da sociedade brasileira atravs do 
exerccio das franquias democrticas. No cabiam no papel que 
o re gime lhes oferecia.
Em plena ofensiva de 1964, enquanto o jornal O Estado de S. 
Paulo se queixava de que inegavelmente o setor estudantil  
um daqueles em que a Revoluo no logrou ainda introduzir o 
seu processo de sanea mento, Golbery surpreendia-se com a 
capacidade de ressurgimento exi bida pela esquerda 
universitria. Em setembro anotava que as mino rias alijadas 
da liderana estudantil j se reorganizaram e passaram a 
atuar decididamente para a reconquista das posies perdidas 
recla 54 Luiz Alberto Gmez de Souza, A JUC, p. 199. Ver 
tambm o depoimento de Herbert Jos de
Souza, o Betinho, em seu No fio da navalha, pp. 31 e segs.
55 Editorial do Estado de S. Paulo de 21 de outubro de 1964, 
p. 3.
A RODA DE AQUARIUS        229
mando da imprensa pela defesa da manuteno, em postos-
chaves do ensino, de elementos subversivos ou corruptos e 
dos estudantes pela escolha generalizada, para oradores e 
paraninfos, de elementos pros critos da vida poltica 
nacional por seu passado subversivo Conclua o chefe do sNI: 
Tudo isso leva  previso de novos fracassos da frente 
democrtica nas futuras eleies para diretrios acadmicos, 
dado o al cance da infiltrao esquerdista existente e a 
pouca profundidade do tra balho de saneamento, recuperao e 
doutrinao que se impe no meio estudantil, escasso, 
ademais, de lderes democrticos bem treinados e dinmicos.
Por mais que Castello e Golbery tentassem administrar uma 
polti ca de compromisso, a dissociao entre o governo, os 
jovens e a intelec tualidade, para infortnio de todos, era 
irremedivel. Castello procura va assegurar a liberdade de 
expresso, respeitando a imprensa estabelecida e as 
manifestaes culturais. Protegido por essa garantia que 
derivava so bretudo da personalidade do marechal, o protesto 
sempre achava um can to para se instalar. Graas a uma 
superposio mgica tpica dos anos 60, esse protesto 
vocalizava simultaneamente a oposio  ditadura e o jei to 
de uma nova poca. Em dezembro de 1964, num shopping center 
ina cabado de Copacabana, estreou o show Opinio. Misturava 
sambo, jazz, baladas nordestinas, comentrios polticos e 
melodias da bossa nova. No meio dessa salada estava a doce 
figura de Nara Leo, uma moa tmida da classe mdia carioca. 
Transformada em musa da bossa nova, vestida com cala jeans e 
uma blusa vermelha, cantava Carcar, histria de um pssaro 
malvado que pega, mata e come, ruim como o regime. O show 
rodou o Brasil, foi visto por 100 mil pessoas e por alguns 
anos foi paradigma da militncia cultural oposicionista. A 
msica Carcar [ quando cantada, em qualquer hora e lugar, 
tornava-se uma senha de reconhecimento da tribo ideolgica, 
escreveu o crtico Edelcio Mosta o, antecipando o que 
chamaria de esttica da agitao. O grupo fe chava o 
espetculo cantando:
56 Impressi Geral n 5, do SNI, para a semana de 7 a 14 de 
setembro de 1964. APGCS/HF.
57 Edelcio Mostao, Teatro e poltica, pp. 79 e 81.
230 A DITADURA ENVERGONHADA
Podem me bater,
Podem me prender,
Podem at deixar-me sem comer
Que eu no mudo de opinio.
O governo sofria o peso do fardo do terrorismo cultural. 
Durante o ano de 1964 Golbery tratou dele quatro vezes em 
suas Estimativas. Em duas ocasies classificou-o de slogan, 
numa de fantasia e, finalmen te, chamou-o de imaginrio 
Ainda que no se possa definir com pre ciso o que seja 
terrorismo cultural e se verifique a existncia de um clima 
 e de um esforo  de preservao da liberdade artstica no 
go verno Castello, imaginrio eleS no era. Como na questo 
da tortura, o chefe do SNI confundia nos seus documentos 
oficiais a causa (a arbitra riedade do regime) com o efeito 
(a utilizao que dela faziam os oposi cionistas), 
enfrentando publicamente o efeito na esperana de que a cau 
sa se exaurisse. O resultado, porm, acabava sendo o oposto: 
caavam-se no s as bruxas, mas tambm aqueles que 
denunciavam a caada. O so cilogo Gilberto Freyre, inebriado 
por meia dzia de homenagens do re gime e por um convite para 
que ocupasse o Ministrio da Educao, de nunciava a 
propaganda comunista antibrasileira baseada no mito de aqui 
dominar um militarismo da pior espcie atravs de hediondo 
terroris mo cultural Tudo, segundo o Mestre de Apipucos, 
culpa de Alceu de Amoroso Lima, a quem chamava de 
ultraliberal de ltima hora dado a fices demaggicas
Para Castello, porm, as coisas eram mais complicadas do que 
para Freyre. Em maio de 1965, durante um dos perodos de 
anarquia fabrica dos pelos coronis que dirigiam IPMS, o 
editor esquerdista nio Silveira, proprietrio da Editora 
Civilizao Brasileira, viu-se encarcerado por ter
58 Impresso Geral 6 ei], para os perodos de 15 a 21 de 
setembro e 3 a 9 de novembro de 1964, para slogan Impresso 
Geral n 9, para o perodo de 6 a 19 de outubro de 1964, para 
fantasia Apreciao Sumria da Situao Nacional, exposio 
ao ministrio, 30 de dezembro de 1964, para imaginrio 
APGCS/HF.
59 Gilberto Freyre, Foras Armadas e Outras foras em A 
Revoluo de 3] de maro  2 ani versrio  Colaborao do 
Exrcito, p. 175.
A RODA DE AQUARIUS 231
oferecido uma feijoada ao ex-governador pernambucano Miguel 
Arraes. No que viria a se tornar conhecido como o 1PM da 
Feijoada, um coro nel deteve, alm do anfitrio, suas duas 
empregadas e o porteiro do edi ficio. nio era uma bte noiTe 
da direita desde antes de 1964 por lanar, atravs de uma 
poltica editorial agressiva, os Cadernos do Povo Brasi 
leiro. Sua priso provocou um manifesto assinado por cerca de 
mil pes soas ligadas  produo cultural, entre as quais se 
juntaram desde figu rinhas fceis da militncia esquerdista e 
adeses surpreendentes, como a do compositor Pixinguinha, at 
intelectuais conservadores, como o his toriador Amrico 
Jacobina Lacombe.
Castello, com sua letra elegante, mandou ao general Ernesto 
Geisel quatro folhas de bloco manuscritas tratando do 
assunto. Com lpis ver melho, escreveu a palavra reservado no 
alto de cada uma delas. Dizia o presidente ao seu chefe do 
Gabinete Militar: Por que a priso do nio? S para depor? A 
repercusso  contrria a ns, em grande escala. O resultado 
est sendo absolutamente negativo. [ H como que uma 
preocupao de mostrar que se pode prender Isso nos rebaixa. 
[ Apreenso de livros. Nunca se fez isso no Brasil. S de 
alguns (alguns!) livros imorais. Os resultados so os piores 
possveis contra ns.  mes mo um terror cultural
Tinha razo. Era terror cultural mesmo. Para coibir os 
processos de contaminao da opinio pblica a Polcia 
Federal apreendera em tor no de 17 mil volumes de 35 obras 
acusadas de difundir doutrina vee mentemente repelida pelo 
povo brasileiro
Diante do avano da linha dura, Golbery tentara uma discreta 
apro ximao com a esquerda. Desde setembro de 1964 defendia 
a necessidade de se permitir s esquerdas no marxistas 
expresso cada vez mais livre no quadro da atuao 
oposicionista legal Falava em grupos recupe rveis da 
chamada esquerda positiva e sonhava com a possibilidade
60 Heleno Cludio Fragoso, Advocacia da liberdade, p. 17.
61 Revista Civilizao Brasileira, n 3, julho de 1965, pp. 
356-63.
62 Quatro folhas manuscritas de Castello a Geisel, de maio de 
1965. APGCS/HF.
63 Heleno Cludio Fragoso, Advocacia da liberdade, p. 26.
64 Estimativa n 1, do SNJ, de 15 de setembro de 1964. 
APGCS/HF.
230        A DITADURA ENVERGONHADA
Podem me bater,
Podem me prender, Podem at deixar-me sem comer Que eu no 
mudo de opinio.
O governo sofria o peso do fardo do terrorismo cultural. 
Durante o ano de 1964 Golbery tratou dele quatro vezes em 
suas Estimativas. Em duas ocasies classificou-o de siogan, 
numa de fantasia e, finalmen te, chamou-o de imaginrio 
Ainda que no se possa definir com pre ciso o que seja 
terrorismo cultural e se verifique a existncia de um clima 
e de um esforo  de preservao da liberdade artstica no go 
verno Castelio, imaginrio ele. no era. Como na questo da 
tortura, o chefe do SNI confundia nos seus documentos 
oficiais a causa (a arbitra riedade do regime) com o efeito 
(a utilizao que dela faziam os oposi cionistas), 
enfrentando publicamente o efeito na esperana de que a cau 
sa se exaurisse. O resultado, porm, acabava sendo o oposto: 
caavam-se no s as bruxas, mas tambm aqueles que 
denunciavam a caada. O so cilogo Gilberto Freyre, inebriado 
por meia dzia de homenagens do re gime e por um convite para 
que ocupasse o Ministrio da Educao, de nunciava a 
propaganda comunista antibrasileira baseada no mito de aqui 
dominar um militarismo da pior espcie atravs de hediondo 
terroris mo cultural Tudo, segundo o Mestre de Apipucos, 
culpa de Alceu de Amoroso Lima, a quem chamava de 
ultraliberal de ltima hora dado a fices demaggicas
Para Castelio, porm, as coisas eram mais complicadas do que 
para Freyre. Em maio de 1965, durante um dos perodos de 
anarquia fabrica dos pelos coronis que dirigiam IPM5, o 
editor esquerdista nio Silveira, proprietrio da Editora 
Civilizao Brasileira, viu-se encarcerado por ter
58 Impresso Geral n 6 e 11, para os perodos de 15 a 21 de 
setembro e 3 a 9 de novembro de 1964, para siogan. 
Impresso Geral n 9, para o perodo de 6 a 19 de outubro de 
1964, para fantasia Apreciao Sumrio da Situao 
Nacional, exposio ao ministrio, 30 de dezembro de 1964, 
para imaginrio APGCS/HF.
59 Gilberto Freyre, Foras Armadas e outras foras em A 
Revoluo de 31 de maro  2- ani vers rio Colaborao do 
Exrcito, p. 175.
A RODA DE AQUARIUS        231
oferecido uma feijoada ao ex-governador pernambucano Miguel 
Arraes. No que viria a se tornar conhecido como o 1PM da 
Feijoada, um coro nel deteve, alm do anfitrio, suas duas 
empregadas e o porteiro do edi ficio. nio era uma bte noire 
da direita desde antes de 1964 por lanar, atravs de uma 
poltica editorial agressiva, os Cadernos do Povo Brasi 
leiro. Sua priso provocou um manifesto assinado por cerca de 
mil pes soas ligadas  produo cultural, entre as quais se 
juntaram desde figu rinhas fceis da militncia esquerdista e 
adeses surpreendentes, como a do compositor Pixinguinha, at 
intelectuais conservadores, como o his toriador Amrico 
Jacobina Lacombe.
Castello, com sua letra elegante, mandou ao general Ernesto 
Geisel quatro folhas de bloco manuscritas tratando do 
assunto. Com lpis ver melho, escreveu a palavra reservado no 
alto de cada uma delas. Dizia o presidente ao seu chefe do 
Gabinete Militar: Por que a priso do nio? S para depor? A 
repercusso  contrria a ns, em grande escala. O resultado 
est sendo absolutamente negativo. [ H como que uma 
preocupao de mostrar que se pode prender Isso nos rebaixa. 
[ Apreenso de livros. Nunca se fez isso no Brasil. S de 
alguns (alguns!) livros imorais. Os resultados so os piores 
possveis contra ns.  mes mo um terror cultural
Tinha razo. Era terror cultural mesmo. Para coibir os 
processos de contaminao da opinio pblica a Polcia 
Federal apreendera em tor no de 17 mil volumes de 35 obras 
acusadas de difundir doutrina vee mentemente repelida pelo 
povo brasileiro
Diante do avano da linha dura, Golbery tentara uma discreta 
apro ximao com a esquerda. Desde setembro de 1964 defendia 
a necessidade de se permitir s esquerdas no marxistas 
expresso cada vez mais livre no quadro da atuao 
oposicionista legal Falava em grupos recupe rveis da 
chamada esquerda positiva e sonhava com a possibilidade
60 Heleno Cludio Fragoso, Advocacia da liberdade, p. 17.
61 Revista Civilizao Brasileira, n 3, julho de 1965, pp. 
356-63.
62 Quatro folhas manuscritas de Castelio a Geisel, de maio de 
1965. APGCS/HF.
63 Heleno Cludio Fragoso, Advocacia da liberdade, p. 26.
64 Estimativa n 1, do SNJ, de is de setembro de 1964. 
APGCS/HF.
232        A DITADURA ENVERGONHADA
de absorv-los. Semanas antes da priso de nio Silveira, o 
chefe do SNI denunciara os oficiais da linha dura num 
documento secreto entregue  reunio do Alto-Comando das 
Foras Armadas, associando-os a opor tunistas satisfeitos, 
oportunistas insatisfeitos e reacionrios, todos 
responsveis pelo fracionamento da frente revolucionria 
adversrios da poltica reformista do governo.
O editor esquerdista mal tinha sado da cadeia quando recebeu 
um convite para uma conversa com o chefe do SNI. Encontraram-
se na sala do edificio Avenida Central, onde Golbery 
conspirara at 1964 e que, uma vez no poder, no desativara. 
Viram-se mais duas vezes. Pouco depois do terceiro encontro 
nio foi novamente preso e levado para o quartel da Polcia 
do Exrcito, na rua Baro de Mesquita, onde ficou 29 dias in 
comunicvel. Nunca mais conversaram. (Anos mais tarde Golbery 
foi ar rolado como testemunha de defesa num dos quatro 
processos a que sub meteram nio por editar livros 
considerados subversivos.)
Quando o consulado de Casteilo Branco comeava a apagar suas 
lu zes, a panela do movimento estudantil explodiu, e o 
governo teve de sair s ruas de cassetete na mo. Em Belo 
Horizonte mobilizaram-se quase 5 mil homens do Exrcito, 
Aeronutica e Polcia Militar para impedir a realizao de um 
congresso clandestino da UNE que acabou reunindo-se num 
convento franciscano. Em So Paulo a PM invadiu o encontro em 
que se elegia a nova diretoria da Unio Estadual de 
Estudantes, prendeu 178 jovens e disparou uma epidemia de 
manifestaes que ganharam o ape lido de Setembrada Durante 
todo o ms estudantes e policiais dispu taram as ruas das 
grandes cidades brasileiras.
Na noite de 23 de setembro de 1966, seiscentos estudantes 
encurra lados no campus da Universidade do Brasil, no Rio de 
Janeiro, viram-se atacados portropas da Polcia Militar e do 
Exrcito. Foram espancados e levados, como prisioneiros de 
guerra, para um campo de futebol pr ximo, onde tiveram de se 
deitar no gramado at serem submetidos a uma
65 Impresso Geral n 6, do SNI, para o perodo de 15 a 21 de 
setembro de 1964. APGCS/HF.
66 Apreciao das Tendncias Contra-Revolucionrias, 
documento apresentado  reunio do Alto Comando das Foras 
Armadas de 27 de abril de 1965. APGCS/HF.
67 nio Silveira, 1990.
A RODA DE AQUARIIJS        233
triagem. Esse episdio mostrou  classe mdia carioca os 
dentes de um novo regime. Nessa mesma noite, a poucos 
quilmetros de distncia, o marechal Costa e Silva, ungido 
sucessor de Castelo, cumpria o ritual da sagrao e jantava 
na casa do embaixador americano John Tuthill, expli cando-lhe 
que a plataforma de seu governo haveria de se basear na 
sade, agricultura e... educao. O embaixador, visivelmente 
entediado pela narrativa que ouviu, registrou que o marechal 
evidentemente decorou bem sua fala [ pois repetiu-a duas 
vezes durante a noite
A classe mdia, assustada pelas pancadarias, no entendia 
mais o governo que ajudara a entronizar. O regime, que 
prometia fazer da educao uma de suas jias, no entendia 
que alguma coisa estava mudando. Havia nessas duas 
incompreenses a problemtica habitual do choque entre uma 
classe mdia que acha graa em filhos rebeldes e um governo 
que prefere bater em estudantes atrevidos. A agrav-la, e a 
transform la numa problemtica inteiramente diversa da 
habitual, estavam as duas rodas, a dos chaves de uma 
ditadura que no conseguia emocionar o embaixador americano e 
a de Aquarius, que emocionava o mundo.
A ditadura brasileira, com suas violncias e mesquinharias, 
cara com sua pretenso desmobilizadora no meio daquela 
delirante agitao sem entend-la, mas pensando em reprimi-
la. Nos Estados Unidos, os movi mentos pacficos dos negros 
americanos comeavam a se transformar em monumentais quebra-
quebras estimulados pelo grito de guerra criado por 
Magnificent Montague, um inexpressivo disc-jquei de Chicago:
Burn, baby, burn Em 1966 quebraram-se 43 cidades e s nos 
primei ros nove meses de 67, mais 164. O mais violento desses 
quebra-quebras, em Detroit, deixou um saldo de 43 mortos, 7 
mil presos, 1300 prdios des trudos e 277 lojas saqueadas.
68 Jos Dirceu e Viadimir Palmeira, Abaixo a ditadura, pp. 
117-8.
69 Telegrama do embaixador John Tuthill ao Departamento de 
Estado, de 23 de setembro de 1966.
BLBJ.
70 Allen J. Matusow, The unraveling of America, pp. 279, 360 
e 362-3.
234        A DITADURA ENVERGONHADA
Em San Francisco, na primeira grande manifestao de jovens 
em que se misturavam protestos polticos, amores fortuitos, 
msica e drogas, o poeta Gary Snider anunciava: Ns somos os 
primatas de uma cultura des conhecidaY Denominavam-na 
contracultura e denominavam-se hip pies Os Beatles tinham 
acabado de gravar Strawberry fields forever sob o efeito de 
comprimidos de LSD. O rolling stone Mick Jagger foi preso em 
Londres por carregar alguns cigarros de maconha, e o The 
Times, voz do conservadorismo britnico, tomou sua defesa, 
num editorial intitulado Quem arrebenta uma borboleta numa 
roda de tortura?
Parecera a Golbery que o recrudescimento da Guerra do Vietn 
era algo sem maiores conseqncias para os EUA e o mundo 
ocidental Nada mais errado. Desde o incio de 1967 pipocaram 
nos Estados Unidos ma nifestaes pacifistas que chegaram a 
juntar meio milho de pessoas no Central Park, em Nova York. 
Em outubro, em Washington, 50 mil pes soas marcharam sobre o 
Departamento de Defesa. Vestidos como vaga bundos, risonhos 
como palhaos, carregavam flores, sugeriam que se fi zesse o 
amor e no a guerra. Nessa manifestao, que o professor 
americano Alien Matusow chama de um dos mais significativos 
acontecimentos da histria dos Estados Unidos, um grupo de 
hippies tentou fazer levitar o prdio do Pentgono. A imensa 
construo, que abriga os maiores cor redores do mundo, no 
levitou, mas hoje se sabe que por conta daque les hippies ela 
sem dvida saiu do lugar.
A inexorabilidade da existncia burguesa, a oniscincia do 
poder e a invencibilidade do mais forte, certezas da dcada 
de 50, tornaram-se d vidas no fim dos anos 60. 
Surpreendentemente, essas dvidas no saam de alfarrbios e 
de racionalizaes produzidas pelo modo de pensar vi gente, 
mas de um novo modo, em que at mesmo o fato de pensar de uma 
determinada maneira era motivo suficiente para duvidar. A 
ordem tinha diante de si o mais perigoso dos seus inimigos, a 
anarquia.
No Brasil, as tentativas pacificadoras do regime mancavam das 
duas
pernas. De um lado ele pretendia impor um governo ditatorial 
como le 71 Alien J. Matusow, The unraveling ofAmerica, p. 
275.
72 Derek Taylor, It was twentyyears ago today, p. 249.
73 Alien J. Matusow, The unraveling of America, p. 329.
A RODA DE AQUARIUS        235
gtimo produto de uma revoluo democrtica. De outro, via na 
tempes tade de idias e de costumes uma simples desordem, 
fruto de um prov vel declnio do mundo ocidental e de suas 
formas de liberalismo demo crtico. Nascia um salvacionismo 
de quitanda atravs do qual se via na exploso anrquica o 
fim do mundo ocidental e se acreditava que o regi me 
brasileiro tinha a clarividncia de se antecipar ao Juzo 
Final, perfilan do-se  mo direita de Deus Padre como 
emissrio de um novo tempo.
Havia tanta certeza de que a fora do regime tinha a 
capacidade de impor aos seus adversrios qualquer humilhao, 
que o governador Car los Lacerda, depois de mandar proibir a 
pea O bero do heri, de Dias Gomes, desafiara na porta do 
seu edificio na praia do Flamengo uma co misso de artistas 
que pedia a liberao do espetculo: Se querem fazer 
revoluo, peguem em armas!.
74 Revista Civilizao Brasileira, n 4, setembro de 1965, p. 
263.
PARTE A construo
A esquerda se arma
Na sua prepotncia, o desafio de Lacerda aos artistas era 
extravagncia do forte contra o fraco. Postura que no metia 
medo queles que efeti vamente queriam fazer uma revoluo e, 
para isso, estavam dispostos a pegar em armas.
Castello obtivera do Congresso a prorrogao de seu mandato 
por um ano, estendendo-o at maro de 1967. Com isso, o 
regime espanou de seu caminho a eleio presidencial, por 
voto direto, marcada para 3 de outubro de 1965. Mesmo assim, 
submeteu-se ao seu primeiro teste elei toral. Realizaram-se 
eleies parlamentares e, em doze dos 21 estados, para 
governador. Os candidatos identificados com a nova ordem 
foram der rotados nos dois principais pleitos, o da Guanabara 
e o de Minas Gerais. Os vencedores vinham da pura cepa do 
conservadorismo nacional. Ne gro de Lima, eleito governador 
da Guanabara, e Israel Pinheiro, de Mi nas, no podiam ser 
chamados de oposicionistas, porque oposio jamais tinham 
feito. Salvo no curto governo de Jnio Quadros, estiveram no 
po der tanto durante a ditadura de Vargas como na democracia 
posterior a 1946. Eram raposas que mais se assemelhavam aos 
conservadores do Im prio do que ao elenco de radicalizaes 
da segunda metade do sculo xx. Ambos mineiros, um fora 
prefeito do Rio, o outro, coordenador da construo de 
Braslia. Suas vitrias significavam uma s coisa: em eleio 
direta, o regime no elegeria seu candidato  Presidncia da 
Repblica. E havia uma eleio marcada para o ano seguinte. O 
resultado de outu bro prenunciava a derrota de Carlos 
Lacerda. Como no existia frmu
240        A DITADURA ENVERGONHADA
la capaz de assegurar-lhe o xito, nem de retirar-lhe a 
candidatura, a preservao do regime aconselhava a mudana de 
regras do jogo. Isso pre nunciava a vitria do general Arthur 
da Costa e Silva.
O ministro da Guerra cavalgara o inconformismo dos civis 
derro tados e a inquietao dos militares ressentidos, 
reciclara uma desordem ocorrida na Vila Militar e emparedara 
o governo. Trs semanas depois da eleio, Castello baixou o 
Ato Institucional n 2, transferindo ao Con gresso o poder de 
eleger o presidente e reabrindo o ciclo punitivo extin to em 
1964.0 AI-2 mostrou a essncia antidemocrtica da moderao 
cas telista. Derrotada nas urnas em 1946, 50 e 54, a direita 
militar vira-se diante de um dilema: a democracia com derrota 
ou a vitria sem ela. Durante os dias da crise militar que 
antecederam a recada ditatorial, Casteilo na da fez para 
defender a ordem constitucional que presidia. Numa s ca 
netada, abandonou a legalidade formal e cassou aos 
brasileiros o direito de eleger o presidente da Repblica. 
Sabia que fazendo isso rolava o ta pete para que seu ministro 
da Guerra viesse a ser seu sucessor.
Costa e Silva impusera-se como candidato contra a vontade de 
Gei sel e de Golbery. Absorvera o radicalismo da anarquia e, 
ajudado pela fora do cargo que exercia, encarnara a 
continuidade do poder dos ge nerais. Apesar disso, tendo 
deixado o Ministrio da Guerra, percorria al guns estados do 
pas num arremedo de campanha, prometendo huma nizar o 
regime.
Na manh de 25 de julho de 1966 algumas dezenas de pessoas 
espe ravam-no no aeroporto dos Guararapes, no Recife.
Havia gente querendo a revoluo, disposta a matar para faz-
la. Um cidado entrou na banca de jornais do saguo com uma 
maleta e saiu sem ela. Pouco depois o servio de alto-
falantes anunciou que o candidato, que estava em Joo Pessoa, 
tivera uma pane no avio e chegaria de auto mvel a outro 
ponto da cidade. O jornaleiro notou a maleta deixada no cho 
e pediu a um guarda-civil que a levasse para a sala de 
achados e per didos. O guarda apanhou-a e tinha dado uns 
poucos passos quando ela explodiu. Costa e Silva deveria ter 
chegado s 8h30. A maleta detonou s
A ESQUERDA SE ARMA        241
8h50. Guardava uma bomba feita com um pedao de cano e que 
fora acionada pelo mecanismo de um relgio. Morreram no 
aeroporto um almirante da reserva e um jornalista. O guarda 
teve a perna amputada, e o secretrio de Segurana de 
Pernambuco perdeu quatro dedos da mo esquerda. Treze pessoas 
ficaram feridas, inclusive uma criana de seis anos.
No mesmo dia explodiram duas outras bombas, uma no servio de 
divulgao do consulado dos Estados Unidos e outra na Unio 
Estadual de Estudantes, ferindo um funcionrio. As trs 
exploses de julho no foram as primeiras a acontecer no 
Recife. Em maro haviam sido detonadas duas outras bombas, 
uma das quais diante da casa do comandante do iv Exr cito. 
Como de hbito, logo depois do atentado de Guararapes se 
prendeu um suspeito  um peruano desconexo  e se achou um 
mandante: Fi del Castro. O ministro da Guerra, marechal 
Ademar de Queiroz, disse que a ordem para ativar a bomba 
viera de Havana. O embaixador em Washing ton, Vasco Leito da 
Cunha, informou ao secretrio de Estado Dean Rusk que h 
indcios definidos de que Cuba est por trs dos atentados 
Cos ta e Silva, por sua vez, disse que o ato nada mais era do 
que a execuo das decises da Conferncia Tricontinental de 
Havana
Surgira o terrorismo de esquerda. No vinha das dissidncias 
radi cais do Partido Comunista, onde funcionavam as velhas 
mquinas revo 1 O Estado de S. Paulo, 26, 28 e 30 de julho de 
1966. Para o secretrio de Segurana, Silvio Ferrei ra da 
Silva, depoimento do general Antonio Carlos Muricy ao CPDOC, 
vol. 3, fita 44, p. 4. Para os dedos do secretrio e a idade 
da criana, O atentado de Guararapes, colocado em outubro 
de 2000 no stio Terrorismo nunca mais, Ternuma: 
<http://www.ternuma.com.br/guara.htm>. Ver tam bm Agnaldo 
dei Nero Augusto, A grande mentira, pp. 182-3.
2 Correio da Manh, 29 de julho de 1966.
3 O marechal Ademar de Queiroz foi ministro da Guerra de 
julho de 1966 a fevereiro de 1967, quando uma reforma 
administrativa trocou o nome do ministrio e seus titulares 
tornaram-se ministros do Exrcito.
4 O Estado de S. Paulo, 28 de julho de 1966.
5 Os termos terrorismo, terrorista e terror so utilizados 
aqui para designar atividades praticadas por organizaes 
clandestinas que, sob quaisquer justificativas polticas, 
tenham cometido crimes contra pessoas ou patrimnios 
estranhos ao conflito. Como hoje, na poca essas palavras 
tinham uma carga pejorativa, freqentemente manipulada com 
finalidades satanizadoras e propagands ticas. Essa 
circunstncia no altera a essncia dos atos. Em dois casos 
os militantes de organiza es armadas chamaram o terrorismo 
pelo nome. Em abril de 1968, o Comando de Libertao
Nacional, Colina, afirmava num documento intitulado Concepo 
da Luta Revolucionria que o
242        A DITADURA ENVERGONHADA
lucionrias, nem do brizolismo, com seus pelotes de 
sargentos cassados. A bomba saiu da Ao Popular, a AP. Entre 
1950 e 1967, num processo sur preendente, a militncia 
catlica das universidades movera-se da direita para o 
centro, do centro para a esquerda, da esquerda para o 
marxismo e dele para a luta armada. Desde 1960 a esquerda 
catlica, coligada com o PCB, fornecia o presidente da Unio 
Nacional dos Estudantes. Com uma mensagem crist e 
socialista, era a organizao com maior nmero de mi litantes 
no movimento estudantil e, portanto, a que mais sofria com a 
re presso que o clandestinizara. No seu processo de 
radicalizao tinha cir cuitos ligados com o brizolismo, com 
Havana e com Pequim.
Enquanto a bomba era deixada no cho do aeroporto dos Guarara 
pes, o grosso da cpula da AP estava concentrado na 
realizao do xxviii Congresso da UNE, celebrado 
clandestinamente por trezentos jovens no convento dos padres 
franciscanos de Belo Horizonte. Funcionavam duas AP5, uma 
assemelhada a um partido de esquerda, que combatia a ditadu 
ra com palavras de ordem radicais, porm tolerveis para a 
hierarquia ca terrorismo, como execuo (nas cidades e nos 
campos) de esbirros da reao, dever obedecer a
um rgido critrio poltico (ver Daniel Aaro Reis Filho e 
Jair Ferreira de S (orgs.), Imagens da revoluo, p. 158). 
Carlos Marighella tratou do tema em trs ocasies. No Manual 
do guerrilheiro urbano e Outros textos (p. 54): Hoje, ser 
terrorista  uma condio que enobrece qualquer homem de 
honra porque isto significa exatamente a atitude digna do 
revolucionrio que luta, com as ar mas na mo, contra a 
vergonhosa ditadura militar e suas monstruosidades No 
documento O Papel da Ao Revolucionria na Organizao: 
Sendo o nosso caminho o da violncia, do radicalismo e do 
terrorismo (as nicas armas que podem ser antepostas com 
eficincia  violncia inomin vel da ditadura) os que afluem 
 nossa organizao, no viro engai e sim, atrados pela vio 
lncia que nos caracteriza (Daniel Aaro Reis Filho e Jair 
Ferreira de S (orgs.), Imagens da revo luo, p. 212). Na 
terceira criou a figura do terrorista revolucionrio: 
Quando ns recorremos aos atos terroristas, sabemos que eles 
no nos levam diretamente ao poder. [ Todo ato terro rista 
revolucionrio  uma operao ttica tendo por objetivo a 
desmoralizao das autoridades, o cerco das foras 
repressivas, a interrupo de suas comunicaes, o dano s 
propriedades do Es tado, dos grandes capitalistas e 
latifundirios. ...] Ao terrorismo que a ditadura emprega 
contra o povo, ns contrapomos o terrorismo revolucionrio 
(La lutte arme au Brsil artigo de Car los Marighella na 
revista Les Temps Modernes, n 280, novembro de 1969, Paris, 
citado em Jacob Gorender, Combate nas trevas, p. 106). 
Ressalve-se que o terrorismo brasileiro, tanto de esquerda 
(salvo no caso da bomba colocada no aeroporto dos Guararapes, 
em 1966) como de direita, ja mais praticou atos que visassem 
atingir indiscriminadamente a populao. Essa circunstncia 
im pede qualquer comparao com as formas mais virulentas de 
terror praticadas em outros pases. Walter Laqueur, veterano 
estudioso da violncia poltica, sem nenhuma simpatia por 
ela, assina lou que os brasileiros [ estavam diante de uma 
ditadura militar e seu terrorismo, de certa ma neira, era 
defensivo (Laqueur, The age of terrorism, p. 181).
A ESQUERDA SE ARMA        243
tlica; outra, carbonria, trabalhava em segredo. Jair 
Ferreira de S, um de seus lderes, estivera na China em 
1965, onde fora recebido por Mao Zedong. Desde 1965 a 
organizao formara uma comisso militar, trei nando pelo 
menos dois de seus militantes em Havana.
A bomba do aeroporto dos Guararapes foi montada e colocada na 
banca de jornais por Raimundo Gonalves Figueiredo, o 
Raimundinho, um mineiro franzino e calado de 27 anos que 
militara no setor estudan til da AP do Rio de Janeiro. Foram 
dele tambm duas das outras bombas explodidas no Recife 
naquelas semanas.  certo que Raimundinho no agiu s. 
Estima-se que tivesse cinco cmplices, todos estudantes. 
Assus tada, a direo da AP condenou o ato, dissolveu seus 
comandos paralelos e reviu seu relacionamento com os cubanos, 
pois Havana mostrava-se apressada em abrir focos 
guerrilheiros no Brasil.
O peruano esquizofrnico preso no Recife era inocente, mas o 
go verno tinha razo quando dizia, sem nenhuma prova, que 
havia o dedo cubano na maleta do Recife. No se pode dizer 
que tenha partido de Ha vana uma ordem para detonar Costa e 
Silva, mas  indiscutvel que exis tia uma conexo entre o 
brao armado da AP e o castrismo. O ex-padre portugus Alpio 
de Freitas, veterano agitador do radicalismo esquerdis ta, 
ps-graduado em Cuba, militava clandestinamente na AP e 
montara um ncleo de treinamento em explosivos na Bahia. Ele 
teria recrutado os jovens do Recife. Passados quase trinta 
anos, nove dos quais ele viveu na cadeia, discutiu o assunto 
numa entrevista. Recusou-se a confirmar ou desmentir sua 
participao no episdio. Quanto  essncia do aten 6 Marco 
Aurlio Garcia, agosto de 1988.
7 Jacob Gorender, Combate nas trevas, p. 122.
8 Raimundo Gonalves Figueiredo foi assassinado pela polcia 
em abril de 1971, no Recife. Nes sa ocasio foi acusado de 
ser o responsvel pelo atentado de Guararapes. Ver Nilmrio 
Miranda
e Carlos Tibrcio, Dos filhos deste solo, p. 444, citando o 
Jornal do Brasil de 1 de julho de 1971.
9 Atentado a bomba no Guararapes tem nova verso 29 anos 
depois, Jornal do Com mercio do
Recife, 23 de julho de 1995, primeira pgina.
10 Jacob Gorender, Combate nas trevas, p. 123.
11 Atentado a bomba no Guararapes tem nova verso 29 anos 
depois, Jornal do Commercio do
Recife, 23 de julho de 1995, primeira pgina. Em 1970 Paulo 
Wright contou a participao do ex-
padre Alpio de Freitas a Jos Serra, em Santiago. Jos 
Serra, 1988.
244        A DITADURA ENVERGONHADA
tado, foi claro: Morreu gente, ns lamentamos. Mas era uma 
guerra, ti nha que haver vtimas.
A conexo da central de treinamento cubana, por onde Alpio 
pas sara, e o ncleo que montara na Bahia indicavam que Fidel 
Castro tinha mais cartas na mo que o valete de paus de 
Leonel Brizola. Enquanto ele fora o delegado da revoluo 
continental no Brasil, a luta armada que Cuba propugnava 
resultara numa sucesso de guerrilhas arquivadas ou des 
trudas sem grande esforo. A ligao com a AP indicava que, 
para furar a couraa do Partido Comunista, Havana associara-
se tambm ao radi calismo catlico e estudantil.
Brizola tinha o apoio de sargentos e marinheiros, a AP o de 
suas ba ses no movimento estudantil, mas s o Partido tinha 
a mquina de qua dros capazes de manter e fazer funcionar uma 
organizao clandestina. No cotidiano da ilegalidade, 
militantes com trinta anos de experincia va liam mais que a 
disposio dos militares expurgados ou o entusiasmo de 
jovens. At 19640 chofer do embaixador cubano no Rio, por 
exemplo, ha via sido fornecido pelo PCB. S a mquina do 
Partido agia com seguran a atravs da malha onde se 
misturavam, em graus variveis de confiabi lidade, 
simpatizantes, quadros retrados e aliados de f. Esse tecido 
cheio de matizes dava ao partido uma teia que ia muito alm 
do seu efetivo, exi gindo pouco ou quase nada da massa de 
apoios conservada na periferia.
A couraa seria furada por Carlos Marighella, uma das cabeas 
co roadas do PCB. Em 1966 tinha 54 anos de vida e 37 de 
partido, com qua tro passagens pela cadeia, a primeira das 
quais como estudante. Filho de um imigrante italiano com uma 
negra hauss, fora criado na Baixa do Sapateiro, em 
Salvador. Durante a ditadura de Getulio Vargas passara seis 
anos no presdio de Fernando de Noronha. Sara da cadeia do 
Esta do Novo com o prestgio daqueles dirigentes comunistas 
que passaram em silncio pela brutalidade das torturas. 
Marighella fora preso em maio de 1936, no Rio, onde militara 
sob o codinome de Nerval. Era secret rio tcnico da 
organizao do Partido Cuidava das impresses clandes 12 
Bomba dos Guararapes foi ato de guerra entrevista de Alpio 
de Freitas a Duda Guenes, Jornal
do Commercio, 26 de julho de 1995.
13 Para a vida de Marighella, Emiliano Jos, Carlos 
Marighella.
A ESQUERDA SE ARMA        245
tinas e da produo de documentos frios. Em sua casa 
encontraram ma terial tipogrfico e granadas. Seu perfil 
mitolgico foi produzido qua se vinte anos depois pelo 
romancista Jorge Amado na trilogia stalinista Os subterrneos 
da liberdade. Nela Nerval transmutara-se em Carlos, um mulato 
destemido que desafiou trotskistas e torturadores.
Corpulento, com a cabea quase raspada, no fazia o gnero do 
ca pa-preta da direo do PCB. Metia-se com futebol, 
arriscava maus poe mas, at mesmo em provas de qumica na 
faculdade de engenharia:
De leveza no peso so capazes
Diversos elementos, vrios gases.
Eleito deputado  Assemblia Constituinte de 1945, deixara 
nos anais 195 discursos, alguns deles temerrios. Dirigira os 
comits esta duais de So Paulo e do Rio de Janeiro, o que 
lhe dera privilegiado co nhecimento da malha dos militantes 
nesses estados. Em maro de 1964 era o responsvel pelo 
trabalho de coordenao nacional da agitao e propaganda do 
PCB. Num partido onde s havia espao para a persona lidade 
abarcadora de Luiz Carlos Prestes, esse mulato baiano 
consegui ra pelo menos tipificar-se pela valentia.
Em maio de 1964, Marighella estava numa galeria da Tijuca. 
Espera va pela zeladora do edificio onde morava, no Catete. 
Seu apartamento fo ra ocupado pela polcia dias antes, e a 
mulher lhe trazia um pacote com roupas limpas. Ele percebeu 
que a seguiam. Recolheu o pacote e entrou no cinema Eskye, 
onde se exibia Rififi no safri. Quando sentou, as luzes se 
acen deram. Estava cinematograficamente cercado por agentes 
da Delegacia de
4 Processo do Partido Comunista, Polcia Civil do Distrito 
Federal, Termo de Declaraes que Pres ta Carlos Marighella 
ao delegado Linneu Chagas dAlmeida Cotta, de 12 de maio de 
1936, fis. 299- 300. Auto de Reconhecimento, de 12 de maio de 
1936, fi. 303. Auto de Qualificao de Carlos Ma righella, p. 
175.
15 Os subterrneos da liberdade, vol. 3: A luz no tnel, pp. 
8-18.
16 Carlos Marighella, Poemas Rond da liberdade, p. 8.
17 Frei Betto, Batismo de sangue, pp. 22 e segs. Outros 
dados, no Dicionrio histrico-biogrfico brasileiro ps-
1930, coord. de Alzira Alves de Abreu e outros, vol. 3, pp. 
3571-5.
246        A DITADURA ENVERGONHADA
Ordem Poltica e Social. Saiu no tapa com os policiais, numa 
sesso de pan cadaria que s terminou na rua, quando o 
jogaram num camburo como a um animal. Tomara um tiro na 
barriga, mas fizera uma verdadeira pe rorao contra o 
regime. Foi solto trs meses depois, com dezesseis qui los a 
menos. No ano seguinte publicou o livreto Por que resisti  
priso. No contedo, como no ttulo, encarnava uma disposio 
de combate incmo da para um PCB que descartava a luta 
armada. Os brasileiros esto diante de uma alternativa. Ou 
resistem  situao criada com o golpe de 1 de abril, ou se 
conformam com ela dizia Marighella. Escrito com um olho na 
di reo do partido, dosando a retrica em nome da 
disciplina, e o outro na juventude, o livro conclua quase 
cripticamente: Liderana  dinamismo,  ao. E nesse 
sentido  que se torna necessrio perseverar
No final de 1965 o Partido Comunista estava longe de 
recuperar a liderana perdida. No dia 23 de dezembro o 
coronel Newton Leito, che fe-de-gabinete de Golbery no SNI, 
telefonou a Heitor Ferreira e pediu-lhe que fosse encontr-lo 
no escritrio do Servio, no centro. Heitor regis trou em seu 
dirio: Assunto: parece que Prestes foi localizado. Linhas 
de ao: prender ou realizar operao Ficou-se com a segunda 
alternati va, aprofundando as infiltraes de que j 
dispunham o governo e os ser vios de informaes americanos. 
A CIA fora capaz de remeter  Casa Bran ca, em setembro de 
1965, a minuta de uma reunio ocorrida no Rio de Janeiro no 
ms anterior, entre um funcionrio da embaixada sovitica e 
representantes do PCB. Seis meses depois, Vincius, o 
veterano militan te que montara o esconderijo de Prestes numa 
pequena casa de Jacare pagu, foi parado na rua Barata 
Ribeiro por um desconhecido que sabia seu nome (Severino 
Teodoro de Meilo). Sabia tambm de seus passos. Disse-lhe que 
servia ao SNI e gostaria de trocar algumas informaes. Ca 
minharam educadamente por alguns quarteires e despediram-se 
sem
18 Emiliano Jos, Carlos Marighella, pp. 203-6.
19 Carlos Marighella, Escritos de Carlos Marighella, pp. 9 e 
46.
20 Dirio de Heitor Ferreiro, 23 de dezembro de 1965. 
APGCS/HF.
21 Telegrama da estao da CTA em So Paulo, de 14 de 
setembro de 1965, e memorando de Wil liam G. Bowdler a 
McGeorge Bundy, assessor do presidente Lyndon Johnson para 
Assuntos de Se gurana Nacional. Nessa reunio o diplomata 
advertia os brasileiros da possibilidade de grandes
mudanas na poltica sovitica BLBJ.
A ESQUERDA SE ARMA        247
trato. Vincius era o nico dirigente do PCB que via Prestes 
pelo menos duas vezes por semana. Essa seria apenas a 
primeira de uma srie de misteriosas abordagens de calada 
vividas por dirigentes do PCB que es tavam em regime de 
clandestinidade.
Marighella era um dos sete membros da comisso executiva do 
PCB, o colegiado que dirigia a organizao. A estrutura do 
Partido comeava a estalar em todos os grandes centros. A 
cpula estava rachada, mas Prestes controlava a situao. Aos 
poucos, as divergncias mostraram que as bases se encontravam 
perigosamente divididas. Em maro. de 1965 a direo do 
partido no Rio Grande do Sul aprovou uma resoluo poltica 
em que dis simulava, sob o linguajar papalino do PCB, um 
namoro com a luta armada. Um ano depois, o comit estadual de 
So Paulo escolheu Marighella para comandar o partido no 
estado. A direo conseguiu remov-lo da comis so executiva 
nacional, mas uma tentativa de ape-lo da direo paulista 
resultou em humilhante fracasso. Para dar-lhe combate, 
Prestes foi a uma reunio em Campinas, mas viu suas teses 
derrotadas por 33 votos em 3723
Durante o governo Castelio Branco todas as brigas internas da 
es querda acabavam transformando-se num prolongamento 
exacerbado da discusso da inexorabilidade da luta armada 
contra as virtudes do ca minho pacfico, pelo qual o partido 
faria sua poltica metendo-se pelas brechas sindicais, 
polticas e eleitorais que o regime deixasse abertas. Sempre 
que necessrio, os dois blocos fingiam estar de acordo, seja 
quan do os conciliadores proclamavam que a luta armada 
substitui o caminho pacfico no momento em que surgem as 
condies insurrecionais (apud Rssia-1917), seja quando os 
radicais reconheciam que a mitolgica re voluo sada da 
vontade de um punhado de bravos era uma ingenuida de (apud 
Venezuela-1963 e Argentina-1964). Na realidade, a direo do 
PCB no queria a luta armada, e os dissidentes queriam pegar 
em armas.
Essa divergncia foi cozinhada por dois anos, de 1964 a 1966, 
por dois
fatores. O primeiro foi o clima de legalidade constrangida 
existente no go-
22 Severino Teodoro de Meilo, dezembro de 2000.
23 Jacob Gorender, Combate nas trevas, pp. 96 e 98-9. Para as 
divergncias dentro do PCB e para
essa reunio, ver Informao n 0732, do Centro de Informaes 
da Marinha, de 31 de outubro de
1967. AA.
248        A DITADURA ENVERGONHADA
verno de Casteilo. Era uma poca em que a represso poltica 
prendia dois integrantes da comisso executiva, para solt-
los, por deciso judicial, menos de um ano depois, na fase de 
instruo processual. O segundo derivava da prpria 
burocracia das organizaes revolucionrias. O Par tido 
tinha o patrocnio sovitico, o pc do B ficara com a China 
(para onde j remetera trs turmas de militantes que fariam 
cursos poltico-milita res), e Brizola estava com a carta 
cubana. Um dirigente experimentado co mo Marighella sabia 
que,  falta de um clima insurrecional no pas, era 
necessrio dispor de alguma base externa. A dotao 
oramentria sovi tica ao PCB, conhecida como O Ouro de 
Moscou girou, at a segunda metade dos anos 80, entre 200 
mil e 300 mil dlares anuais. Mesmo que esses recursos fossem 
poucos, a eles se juntavam facilidades logsticas, co mo 
centros de educao ideolgica e oficinas de documentos 
falsos. A base externa funcionava tambm como santurio, para 
onde militantes con siderados promissores ou dirigentes 
desprotegidos poderiam ser manda dos a fim de viver em 
segurana. O PCB tinha uma sede alternativa em Mos cou e duas 
verdadeiras embaixadas no exterior, uma em Buenos Aires e 
outra em Paris. Brizola operava sua chancelaria em 
Montevidu. Mari ghella s rompeu com o PCB quando conseguiu 
a base de Havana.
Em julho de 1967, trs meses depois do colapso de Capara, 
quan do o Che Guevara completava 39 anos no alto das 
montanhas bolivia nas, Carlos Marighella foi a Cuba. Fechou-
se um acordo pelo qual nos meses seguintes remeteria 
dezesseis militantes  base do Punto Gero, nas cercanias de 
Havana.
Em agosto realizou-se no hotel Habana Libre a Conferncia da 
Or ganizao Latino-Americana de Solidariedade, que se 
deveria transfor 24 Marighella ficou preso de maio a agosto 
de 1964. Mrio Alves, preso em julho de 1964 e tor turado, 
foi solto menos de um ano depois.
25 Segundo os registros de Vadim Zagladim, funcionrio do 
Departamento Internacional do rcus, entre 1973 e 1987 o PCB 
recebia do i 300 mil dlares por ano. Veja de 8 de janeiro de 
1992. Hr cules Corra, dirigente do i estimou que a ajuda 
sovitica cobria 80% das despesas do PCB. Folha de S.Paulo de 
26 de maio de 1991, pp. 1-14, reportagem de Neri Vitor Eich.
26 Para a ida de Marighella e do primeiro grupo de militantes 
a Cuba, Jacob Gorender, Comba te nas trevas, p. 104. Para o 
total desse grupo, que viria a ser conhecido como 1 
Exrcito Denise Rollemberg, O apoio de Cuba  luta armada no 
Brasil, p. 40.
A ESQUERDA SE ARMA        249
mar num centro irradiador de guerrilhas. Nesse conclave 
Marighella cre denciou-se junto  internacional de insurretos 
concebida por Fidel. A sua retrica vinha esquentando desde 
1966, quando defendeu a guerrilha co mo uma forma de luta 
complementar Nessa poca a concepo ma righelista era 
clara: A luta de guerrilhas no  inerente s cidades, no  
uma forma de luta apropriada s reas urbanas. Em Havana, 
ele escre veu uma carta a Fidel Castro condenando o banho-
maria em que a di reo do PCB cozinhava o debate da ttica 
revolucionria enquanto tran ava as alianas rotineiras no 
espao que o regime lhe deixava: A alternativa  outra, a 
luta armada Simultaneamente, deu uma entrevista ao jornal 
cubano Juventud Rebelde, indo direto ao ponto: A direo do 
PCB no quer saber de Revo1uo Um ms depois, era expulso 
do Partido. Tar dia, a sano tornara-se irrelevante, quase 
conveniente.
Para golpear o marighelismo, a direo do PCB foi obrigada a 
sa crificar mais de uma dezena de dirigentes histricos e a 
intervir nos co mits estaduais de So Paulo, Rio de Janeiro 
e Braslia. Entre militan tes, simpatizantes e apoios, 
Marighella pode ter ficado com a militncia e o apoio de 
cerca de mil comunistas que at ento tinham gravitado em 
torno do PCB. Dispunha de ncleos ativos em sete estados. 
Segun do Jacob Gorender, que no se fixa em nenhum nmero, 
Marighella teve ao seu lado sete em cada dez militantes da 
rea estudantil do Partido em So Paulo.
Primeiro o marighelismo tomou o nome de Agrupamento Comu 
nista de So Paulo. Posteriormente, denominou-se Ao 
Libertadora Na cional, ALN. Passaram da teoria para a prtica 
em pouco tempo. Mari ghella ainda estava em Cuba quando um 
veterano militante comunista baseado na zona rural de 
Presidente Epitcio, no oeste de So Paulo, co mandou o 
assassinato do fazendeiro Jos da Conceio Gonalves, co 
nhecido como Z Dico. Para quem se propunha lanar a 
guerrilha no cam po com o intuito de preparar a insurreio 
nas cidades, tratava-se de uma
27 Carlos Marighella, A crise brasi1eira em Escritos de 
Carlos Marighella, p. 85.
28 Marco Aurlio Garcia, Contribuio  histria da esquerda 
brasi1eira Em Tempo, novembro
de 1979, So Paulo.
29 Jacob Gorender, Combate nas trevas, p. 107.
250        A DITADURA ENVERGONHADA
execuo de manual, com militantes revolucionrios matando um 
gri leiro. Foi a primeira e ltima ao rural da ALN.
Para um comandante revolucionrio que pretendia levantar o 
cam po e com ele cair sobre as cidades, Marighella ia a uma 
armadilha. Dei xou o pacifismo do Partido para ir buscar a 
vitria atravs da luta ar mada, mas raramente conseguiu sair 
do circuito urbano de assaltos e aes terroristas. 
Demonstrando sua prpria combatividade, comandou duas dessas 
aes. Eram os primeiros assaltos do terrorismo de esquerda. 
Ou expropriaes no vernculo dos combatentes.
O aparelho de segurana do governo no percebeu a motivao 
ideo lgica dos assaltos. Isso se devia a uma astcia dos 
militantes, que agiam
sem palavras de ordem, procurando assemelhar-se aos 
marginais.
A esquerda brasileira estava irremediavelmente dividida e, 
pela pri meira vez em sua histria, mudada. Desde 1922, 
quando foi fundado o Par tido Comunista, ela vivera debaixo 
de uma lgica pela qual seus extremos podiam perfeitamente 
conviver em grandes blocos revolucionrios, diver gindo em 
relao ao que quer que fosse, mas mantendo-se debaixo de um 
grande acordo tcito. Sua galanterie europia permitia que as 
nuances do radicalismo ideolgico fossem apreciadas quase 
como nuances de tem peramento. Se um esquerdista queria a 
revoluo para j e outro via o pro cesso com mais moderao, 
nenhum dos dois via no outro um obstcu lo  construo da 
causa comunista. Insultavam-se, mas iam basicamente s mesmas 
manifestaes.Agora, insultavam-se e no iam aos mesmos as 
saltos. Como dizia um documento do marighelismo de outubro de 
1967, amparando-se num verso de Jamelo e Tio Motorista:
Quem samba fica,
quem no samba
vai embora.
30 Segundo Jacob Gorender, Combate nas trevas, pp. 108-9, o 
primeiro assalto da ALN, contra um
carro-forte, deu-se sob o comando de Marighella em dezembro 
de 1967. Emiliano Jos, em Car los Marighella, p. 227, 
menciona a participao de Marighella no assalto ao banco 
Leme Ferreira.
31 Daniel Aaro Reis Filho e Jair Ferreira de S (orgs.), 
Imagens da revoluo, p. 206.
A direita se arma
O terrorismo poltico entrou na poltica brasileira na dcada 
de 60 pelas mos da direita. Antes mesmo da deposio de Joo 
Goulart, e sem nenhu ma relao direta com as conspiraes 
para derrub-lo, militantes da ex trema direita e oficiais do 
Exrcito atacaram a tiros o Congresso da UNE que se realizava 
em julho de 1962 no Quitandinha, em Petrpolis. Dois 
automveis dispararam contra estudantes que estavam nos 
jardins, ferin do dois deles. A operao foi creditada ao 
Movimento Anti-Comunista, o MAC, e dela participou um major 
do Exrcito. Desde 1963 existia em So Paulo um Comando de 
Caa aos Comunistas, o CCC, formado por jovens ligados a 
polticos conservadores e a militares que a essa altura 
tangencia vam conspiraes. Davam-se muito mais a tumultos, 
estorvando ou im pedindo conferncias de polticos 
governistas, do que a atentados. O MAC, apesar da notoriedade 
adquirida pelo ataque de Quitandinha, era mais co nhecido 
pelas suas pichaes garrafais nos muros de edifcios da Zona 
Sul do Rio de Janeiro do que por reais enfrentamentos.
Na radicalizao anterior a abril de 1964 as coisas mudaram. 
Como dissera o industrial Jorge Bhering de Mattos, diretor da 
Associao Co mercial do Rio de Janeiro: Armai-vos uns aos 
outros porque ns j estamos armados S no Rio de Janeiro 
acharam-se cinco depsitos de armas.
1 Hlio Silva, A vez e a voz dos vencidos, p. 113. Essa 
construo foi usada tambm pelo padre Vi-
diga!, deputado pela UDN mineira, durante os debates 
parlamentares de 1963. Ver Paulo de Tarso
Santos, 64 e outros anos, p. 44.
2 Luiz Alberto Moniz Bandeira, Ogoverno Joo Goulart, pp. 
127-8 e 134.
252        A DITADURA ENVERGONHADA
O adido do exrcito da embaixada americana, coronel Vernon 
Walters, passou um susto enquanto visitava a casa de um 
oficial amigo ao saber que estava na sede de um arsenal 
clandestino, na iminncia de ser vare jado pela polcia. Um 
lote de dez submetralhadoras Thompson amea lhado por oficiais 
antijanguistas foi descoberto em 1963 numa fazendo- la de 
Jacarepagu a pouca distncia do stio do Capim Melado, 
propriedade rural de Joo Goulart no Rio de Janeiro. Um dos 
responsveis pelo con trabando de um desses lotes de armas, o 
capito-de-mar-e-guerra Heitor Lopes de Souza, foi 
tranqilizado por um recado do general encarregado do 1PM 
aberto para apurar a origem e o propsito do arsenal 
avisando-o que a investigao no ia dar em nada. Se desse, 
descobriria que as ar mas se destinavam a equipar um plano de 
seqestro do presidente.
At maro de 1964 conceberam-se pelo menos trs atentados 
contra Joo Goulart. O primeiro veio  cabea do tenente-
coronel Roberto Hip lito da Costa, comandante da base area 
de Fortaleza, em 1963. Tratava-se de abater o Viscount 
presidencial quando ele fosse ao Nordeste. Outro foi 
descoberto e desativado pelo general Antonio Carlos Muricy no 
dia 11 de maro. Um major havia reunido gasolina e oficiais 
para incendiar o palan que do comcio da Central, no dia 13, 
com o presidente da Repblica e a cpula do governo em cima. 
Muricy, o conspirador que duas semanas de pois comandaria as 
tropas mineiras rebeladas, dissuadiu o major. O ter ceiro 
ocorreria durante o comcio de Jango em Belo Horizonte, 
marcado para o dia 16 de abril. Nesse dia o alvo j estava em 
Montevidu.
A vitria de 1 de abril canalizou para outra direo os 
planos e fan tasias do radicalismo da direita militar. Alguns 
oficiais foram para coman dos prestigiosos, outros meteram-se 
no labirinto dos IPM5, e quase todos
3 Vernon A. Walters, Silent missions, p. 383.
4 Dirio de Notcias, 11 e 12 de outubro de 1963, citado por 
Luiz Alberto Moniz Bandeira, O go verno Joo Goulart, p. 133. 
Raul Ryff, O fazendeiro longo no governo, p. 30.
3 Almirante Heitor Lopes de Souza, julho de 1969.
6 O seqestro seria comandado por Charles Borer, irmo do 
delegado Cecil Borer, chefe do DOPS
de Lacerda. John W. F. Dulles, Carlos Lacerda A vida de um 
lutador, vol. 2: 1960-1977, p. 182.
7 Armando Falco, Tudo a declarar, p. 250.
8 General Antonio Carlos Muricy, agosto de 1988.
9 Luiz Alberto Moniz Bandeira, O governo Joo Goulart, p. 
172.
A DIREITA SE ARMA        253
passaram a sentir-se parte daquele ente vago que se 
denominava linha dura Quem queria caar esquerdistas podia 
agora faz-lo dentro da m quina do Estado.
Essa trgua durou pouco mais de um ano. No dia 24 de abril de 
1965, quando o show Opinio saiu de cartaz, foi substitudo 
pela pea Liber dade, liberdade, uma colagem de textos 
antiditatoriais. Pelo talento de Pau lo Autran, seu ator 
principal, e pela metfora que era o espetculo em si, 
funcionava como uma lavagem de alma para a classe mdia. 
Habilmen te, misturavam-se cantos e textos das vtimas de 
todas as opresses, com mo forte para os dissidentes 
soviticos. Logo nos primeiros dias de en cenao apareceram 
provocadores na platia, gritando piadas que Autran toureava 
com classe. Depois vieram ameaas telefnicas: o teatro seria 
ex plodido. Elas chegaram ao conhecimento de Castello, que 
escreveu a Costa e Silva: As ameaas de que oficiais vo 
acabar com o espetculo so de aterrorizar a liberdade de 
opinio
Havia inmeros IPM5 investigando banalidades, mas nenhum foi 
aberto para identificar os oficiais que intimidavam teatros e 
assustavam o presidente da Repblica. Comeava a funcionar em 
relao  violncia de direita o mesmo princpio que vigorara 
para a tortura: o que est fei to, feito est, desde que no 
se faa mais. Com a impunidade resultante dessa abdicao, 
cristalizou-se no Rio de Janeiro um ncleo paramilitar. 
Composto por militares radicais, operava  sombra da seo de 
informa es do estado-maior do i Exrcito. Em suas 
atividades, guardava algu mas caractersticas de cautela. 
Suas aes evitavam ostensivamente da nos fsicos. 
Destinavam-se a injetar tenso no meio poltico. Atacando 
teatros, circunscreveram-se ao combate  esquerda 
intelectual. Teriam pou ca importncia pelo que fizeram, mas 
adquiriram significado pelo que contra eles no se fez. Pode-
se estimar que esses oficiais dificilmente te nham 
ultrapassado duas dezenas. Inibiam-nos a poltica de Castello 
e a vigilncia de Golbery sobre os quadros do SNI.
10 Carta de Castelio Branco a Costa e Silva, de 2 de junho de 
1965.
254        A DITADURA ENVERGONHADA
A dinmica do regime, com suas crises militares, chocava-se 
com a conduta do presidente. Nesses choques, todas as 
vitrias de Casteilo foram parciais, enquanto as derrotas 
foram totais. A maior de suas vi trias foi a realizao de 
eleies diretas para os governos de doze es tados, em 3 de 
outubro de 1965. A maior derrota de seu projeto de res 
taurao da ordem foi a edio do Ato Institucional n 2, trs 
semanas depois.
Foi uma derrota qualificada. Casteilo e Golbery gostariam de 
ter go vernado sem esse surto ditatorial. Geisel se 
incomodava com a idia de colocar essa nossa democracia numa 
ge1adeira mas simpatizava com a radicalizao institucional. 
Num paradoxo que acompanharia a ditadu ra, essa radicalizao 
vinha das bases indisciplinadas e, formalmente, ex pandia os 
poderes do presidente. Na realidade, dava-lhe instrumentos de 
fora, que o tornavam poderoso como delegado de uma desordem 
mili tar. Nesse paradoxo estava implcito o enfraquecimento 
da sua condio de mandatrio republicano.
Com esse Ato  e outros dois que vieram em sua esteira  
iniciou- se um processo de corroso da cidadania que impediu 
os brasileiros de eleger governadores por dezessete anos e o 
presidente por quase um quarto de sculo.
Um dispositivo do AI-2, relacionado com o cotidiano da 
coero poltica, investia contra o prprio exerccio 
individual da vontade po ltica. Extintos os 180 dias de vida 
do Ato Institucional de abril de 1964, preservara-se o foro 
da Justia comum para os crimes de subverso. Por cerca de um 
ano a estivera um permanente ponto de atrito entre a anar 
quia militar e os poderes estabelecidos. Os choques deram-se 
quase sem pre em torno de casos em que os encarregados dos 
IPMs mantinham ci dados presos, sem culpa formada, por 
prazos largamente superiores aos que a lei estabelecia. A 
cada habeas corpus concedido, sucedia-se uma grita na qual os 
oficiais indisciplinados diziam que os tribunais es tavam 
julgando  e condenando  a prpria Revoluo. Tratava se 
simplesmente de exercitar a capacidade humana de ler (as 
leis) e de contar (os prazos nelas fixados). Os oficiais que 
desafiavam Castel lo sabiam ler e contar. Se falsificavam 
argumentos para sustentar suas arbitrariedades, faziam-no 
porque se sentiam amparados na tibieza do
A DIREITA SE ARMA        255
governo, sempre pronto para denunciar  sociedade a ao de 
meia d zia de estudantes, mas incapaz de enfrentar 
abertamente meia dzia de coronis.
Com o AI-2, Castelio transferiu os processos polticos para a 
Justi a Militar. Deu assim o primeiro grande passo no 
processo de militari zao da ordem poltica nacional. Como 
observou o jurista Heleno Fra goso, que j nessa poca se 
tornara um sereno e constante defensor de presos polticos: 
Sempre foi muito mais fcil aos tiranos perseguir os 
inimigos polticos, no mudando a lei, mas sim os juzes que 
deveriam julg-los O produto dessa mudana era previsvel. 
Havia mais de cin qenta anos o presidente francs Georges 
Clemenceau ensinara que a Justia Militar est para a 
Justia assim como a msica militar est para a musica.
Pela Carta de 1946 a Justia Militar tinha competncia para 
julgar civis acusados de ter cometido crimes contra a 
segurana externa do pas Golbery redigiu a emenda 
constitucional que expandiu o conceito. Fez uma inciso no 
texto e dele retirou a palavra externa. Na justificativa que 
acompanhou a mudana, argumentou:
A expresso segurana externa constante do texto atual  
por demais res tritiva, alm de no corresponder ao conceito 
moderno e integrado de se gurana nacional de que as 
agresses de origem externa no mais deixa ram de estimular, 
coordenadamente, aes subversivas no interior do territrio 
agredido o emprego generalizado da quinta coluna  e, so 
bretudo, na fase atual da luta ideolgica entre o Ocidente 
democrata e o Oriente comunista quando a forma normal de 
agresso , sabidamente, a subversiva ou insurrecional, 
apoiada intelectual e quase sempre at mate rialmente, desde 
o exterior, no tem mais sentido distinguir atentado  se 
gurana interna e atentado  segurana externa de um pas. A 
segurana , necessariamente, integral.
11 Heleno Cludio Fragoso, Advocacia da liberdade, p. 12.
12 Uma folha manuscrita de Golbery, com o texto de emenda 
constitucional e sua justificativa.
APGCS/HF.
256        A DITADURA ENVERGONHADA
Na redao dessa justificativa, foi alm:  atentados se 
inserem num todo nico e coerente, buscando sempre os 
segundos, de origem externa, revestir formas sub-reptcias 
que os faam confundir com os primeiros, surgidos no interior 
do prprio pas Esse raciocnio inter nacionalizava a 
segurana integral, atribuindo s fontes externas qua se tudo 
o que fosse produzido pelos adversrios internos. Golbery des 
cartou-o, e ele sobreviveu apenas como um pentimento, riscado 
em seu manuscrito.
Est-se a diante de um caso tpico de racionalizao ex post 
facto da violncia poltica. Desde os anos 50 Golbery era um 
defensor de um conceito amplo de segurana nacional. No 
entanto, jamais defendera a transferncia do foro dos crimes 
polticos para a Justia Militar. Essa mudana fazia parte da 
plataforma da linha dura. Em julho de 1964 o te nente-coronel 
Ibiapina criara um caso nacional desacatando um habeas corpus 
em beneficio do economista Sergio Rezende, filho do 
inquisidor- geral Estevo Taurino de Rezende. Semanas depois, 
o ex-governador de Sergipe, Seixas Dria, foi submetido ao 
mesmo constrangimento. Em So Paulo, a Marinha prendeu treze 
cidados que acabavam de ser libertados de um navio-presdio 
por ordem judicial.
Em agosto de 1964, analisando esses choques na Impresso 
Geral n
3 do SNI, Golbery atribura a idia de ampliao da 
competncia da Jus tia Militar aos propsitos repressivos 
da linha dura E coara o coldre:
As perspectivas de sucessivas frices com o poder Judicirio 
esto a exi gir o estabelecimento no mais curto prazo de 
normas severas e medidas de conteno disciplinar, para que o 
ambiente no se agrave alm dos li mites tolerveis. Somente 
o reenquadramento das foras armadas em suas atividades 
profissionais, com o recolhimento s fileiras dos numerosos 
ele mentos destacados em tarefas de natureza policial, 
permitir trazer moti vaes de outra natureza s energias 
que hoje se estiolam em atitudes ne gativistas.
13 Correio da Manh, 26 e 30 de julho, 11, 24 e 27 de agosto 
de 1964.
14 Impresso Geral n2 3, de 31 de agosto de 1964. APGCS/HF.
Zzz

Nota do scaneador
As pginas a seguir so fotos. Aqui apenas as legendas.
Fim da nota
Rio de Janeiro, escadaria do teatro Municipal, junho de 1968.
O ministrio de Costa e Silva posa para a histria, em torno 
de dona Yolanda, mulher do presidente. (Ele no est na 
foto.)
Washington, 1967. Costa e Silva com o presidente americano 
Lyndon Johnson, seu admirador: Aquele cara do Brasil. Quando 
ele te olha no olho e diz que est contigo, voc sente que 
ele est falando srio.
29 de maro de 1968. O Rio de Janeiro acordou com um cadver 
sendo velado na Assemblia
Legislativa. A PM havia matado o calaboal Edson Lima 
Souto, de dezessete anos. Estava aceso
o pavio de uma revolta estudantil que antecedeu a de Paris.
Vladimir Palmeira
Aladino Flix Carlos Marighella
1 de maio de 1968, praa da S, So Paulo. Militantes de 
organizaes de esquerda dissolveram
a pau e pedra o comcio que o governador Abreu Sodr e o 
Partido Comunista haviam organizado.
A esquerda s voltaria a se encontrar, unida, nessa mesma 
praa, dezesseis anos depois.
Entre maro e o final de junho de 1968, o centro do Rio 
tornou-se cenrio rotineiro de choques da polcia com 
estudantes. Num s dia, chegaram aos hospitais 56 feridos. 
Trinta eram policiais. Um pedao da esquerda estava disposto 
a brigar.
26 de junho de 1968, Rio de Janeiro. A mais festejada das 
alas da Passeata
dos Cem Mil. No cordo, da esquerda
para a direita, Edu Lobo (1),
Chico Buarque (32), Renato Borghi (52), Jos Celso Martinez 
Corra (6), Caetano Veloso (82), Nana Caymmi, Gilberto Gil e 
Paulo Autran.
12 de outubro de 1968. No meio da madrugada, explode uma 
bomba na porta da Editora Civilizao Brasileira. O atentado 
terrorista foi obra de pelo menos um oficial e sargentos 
ligados ao Centro de Informaes do Exrcito.
12 de outubro de 1968, So Paulo.
O mesmo grupo terrorista que em junho
atacou o QG do ii Exrcito, metralhou
o capito Charles Rodney Chandier
na porta de sua casa. Tinha trinta anos
e deveria voltar para Washington dali
a poucas semanas.
Polcia Central, Rio de Janeiro. Somando-se todos os presos 
em passeatas, reunies clandestinas e quebra-quebras,  
possvel que em 1968 tenham sido detidos 3 mil estudantes. 
Durante as manifestaes, morreram doze pessoas.
26 de junho de 1968, So Paulo. Oito terroristas de esquerda 
lanam uma camionete com cinqenta quilos de dinamite contra 
o porto do quartel-general do ii Exrcito. Morre o soldado 
Mrio Kozel Filho, de dezoito anos.
Cap. Srgio (Macaco)
Miranda de Carvalho
Cal. Albuquerque Lima Gal. Jayme Porteila
Daniel Krieger        Brig. Joo Paulo Burnier
11 de outubro de 1968. No maior arrasto
da histria brasileira, capturaram-se
920 estudantes num stio em Ibina.
Era o congresso clandestino da UNE.
O movimento estudantil se acabara.
Nos seis anos seguintes, militando em
grupos armados ou na guerrilha rural, morreriam 156 jovens 
com menos de trinta anos. Deles, pelo menos dezenove 
estiveram em Ibina.
Janeiro de 1968: estria a pea Roda-Viva. Seu diretor, Jos 
Celso Martinez Corra, dizia:
 preciso provocar o espectador, cham-lo de burro, 
recalcado, reacionrio.
A atriz Leila Diniz,
a primeira Rainha da
Banda de Ipanema.
Tom Jobim, Chico Buarque e duas        Rio, dezembro de 1964. 
Nara Leo
das moas do Quarteto em Cy        durante o show Opinio;
durante a apresentao de Sabi.        surge a esttica da 
agitao.
Foram 23 minutos de vaia.
Caetano Veloso ( proibido proibir) no programa de 
auditrio de Chacrinha
(Quem no se comunica se trumbica).
Glauber Rocha (no centro) dirigindo Deus e o diabo na terra 
do sol.
A atriz Helena Ignez e o dramaturgo Oduvaldo Vianna Filho, um 
dos criadores dos c (Centros Populares de Cultura).
Jarbas Passarinho
Pedro Aleixo
Orlando Geisel
s dezessete horas da sexta-feira 13 de dezembro do ano 
bissexto de 1968, o marechal Costa e Silva, com a presso a 
22 por 13, parou de brincar com palavras cruzadas e desceu a 
escadaria de mrmore do Laranjeiras para presidir o Conselho 
de Segurana Nacional, reunido  mesa de jantar do palcio.
__ JORNAL DO BRASIL
Govrno baixa Ato Institucional e coloca
Congresso em recesso por tempo ilimitado
Bonifcio declara que Ato
resulta de vrias crises
Nota do scaneador
fim das fotos
fim da nota

A DIREITA SE ARMA        257
Nas Estimativas ou Apreciaes posteriores no h indcios de 
simpa tia de Golbery pela militarizao dos processos 
polticos. Em dezembro ele endossara a idia de se aumentar o 
nmero de juzes nos tribunais superiores, diluindo-se assim 
os votos liberais, mas nunca foi alm disso.
A entrega do julgamento dos crimes polticos s cortes 
militares foi primeiro um produto da presso exercida pela 
anarquia militar sobre o governo do marechal Castello Branco. 
S depois  que essa presso, sub metida a um processo de 
racionalizao em que se misturaram a cum plicidade e o 
disfarce, adquiriu pretenses ideolgicas.
Coexistiam duas insubordinaes. Uma crnica, institucional, 
ba seada na idia segundo a qual havia uma revoluo em 
andamento e as Foras Armadas eram seu instrumento de 
representao e poder. Outra crtica, episdica, sempre 
dependente de um oficial disposto a desafiar o governo. A 
questo da transferncia do foro dos processos polticos 
surgira em abril de 1965, quando o Supremo Tribunal Federal, 
por unani midade, concedeu um habeas corpus ao ex-governador 
Miguel Arraes, preso na ilha de Fernando de Noronha desde sua 
deposio. Diante da sentena acumpliciaram-se o comandante 
do i Exrcito e o coronel Fer dinando de Carvalho, 
encarregado do 1PM que apurava as atividades do PCB. Em vez 
de libertar Arraes, Ferdinando levou-o para a fortaleza de 
Santa Cruz. O chefe do estado-maior do i Exrcito, general 
Edson de Fi gueiredo, considerou o habeas corpus um abuso e 
recusou-se a entre gar o preso. Em resposta, o presidente do 
Supremo, Alvaro Ribeiro da Cos ta, ameaou prender o general. 
A crise durou trs dias e s foi resolvida aps uma sofrida 
interveno de Castello. Arraes foi solto e asilou-se na 
embaixada da Arglia. Meses depois, o general foi mandado 
para um pos to no exterior. No meio dessa baguna, Casteilo 
queixava-se ao governa dor Paulo Guerra, de Pernambuco: 
Criar uma ditadura  fcil, mas  di ficil acabar com ela 
Tentando conter a anarquia, chegou a proclamar, com algum 
otimismo: A supresso de garantias no ser o nosso 
caminho. Esfriada a crise, promoveu um encontro de Costa e 
Silva com o
15 Impresso Geral n 13, de 14 de dezembro de 1964. APGCS/HF.
16 John W. E Dulies, Casteilo Branco, o presidente 
refortnador, p. 103.
17 Heleno Cludio Fragoso, Advocacia da liberdade, p. 16.
 1
258        A DITADURA ENVERGONHADA
presidente do Supremo durante uma sesso de cinema no pequeno 
au ditrio do palcio da Alvorada.
O Alto-Comando das Foras Armadas reuniu-se pouco depois do 
des fecho do choque com o Supremo Tribunal, e, segundo as 
anotaes feitas pelo general Geisel durante a sesso, apesar 
de o assunto ter sido discutido, nenhum ministro militar 
defendeu a militarizao do foro dos crimes po lticos. A 
mais clara proposta de mudana processualstica dos crimes 
polticos paitiu do ento governador de Minas Gerais, 
Magalhes Pinto, que em carta a Castelio defendeu a reforma 
da Justia e criao de um tribunal especial para julgamento 
dos crimes de subverso e corrupo bem como a definio 
dos crimes de guerra revolucionria
A idia de recauchutar alguns dispositivos do Ato 
Institucional de 1964 e enfi-los na Constituio s comeou 
a transitar no Laranjeiras na segunda metade de setembro. A 
disposio da linha dura exacerbou- se no dia 4 de outubro, 
quando as urnas mal tinham comeado a falar e os quartis da 
Zona Norte do Rio entraram em assemblia permanente. Nesse 
dia, o coronel e deputado Jos Costa Cavalcanti, expoente do 
ra dicalismo e da indisciplina, subiu ao palcio Laranjeiras 
preocupado com a hiptese de um bando de malucos tomarem o 
palcio. Os ma lucos no foram ao Laranjeiras. Costa e Silva 
foi  Vila e, com a promes sa de um ato institucional, 
acalmou aquilo que teria sido uma rebelio. No palcio, ao 
receber um telefonema informando-o de que o problema fora 
adiado pois a tropa fora dormir, Castello respondeu: Adiado 
o pro blema, no; adiada a soluo deles.
Deles quem? Nunca houve rebelio da Vila. Deu-se apenas uma 
in subordinao de uma parte da oficialidade, verbalizada 
pelos comandan 18 Dirio de Heitor Ferreira, 30 de maio de 
1965. APGCS/HF.
19 Notas manuscritas de Geisel, datadas de 27 de abril de 
1965. APGCS/HF.
20 Carta de Magalhes Pinto a Castelio, de 24 de agosto de 
1965. APGCS/HF.
21 Dirio de Heitor Ferreira, 4 de outubro de 1965. APGCS/HF.
22 Anotao de Heitor Ferreira feita  margem de um trecho do 
livro O governo Castelio Branco,
de Luiz Viana Filho, publicado pelo Caderno Especial do 
Jornal do Brasil de 30 de maro de 1975.
Heitor corrigiu a verso do ex-chefe do Gabinete Civil de 
Castello, que registrara o ltimo comen trio do marechal 
como a soluo dele ficando a impresso de que estava 
adiada a soluo do
problema quando o que estava adiado, para Castello, era a 
soluo deles APGCS/HF.
A DIREITA SE ARMA 259
tes de algumas unidades e aplacada por Costa e Silva. A crise 
e a soluo deles resumiam-se  imposio de uma recada 
ditatorial, resultante da corroso da autoridade do 
presidente. De acordo com as normas da anar quia, pouparam-se 
os insubordinados, e puniram-se as instituies demo 
crticas. Como Castello no pagou para ver a extenso e a 
valentia do des contentamento, no se soube se os oficiais 
descontentes podiam dep-lo. Alm disso, se Costa e Silva 
assumiu a condio de pacificador da rebel dia, diz-la 
irrelevante seria ofend-lo. Geisel, por exemplo, viveu 
conven cido de que a chamada rebelio foi um blefe Ao mesmo 
tempo que des prezou o risco embutido na indisciplina, 
aplaudiu o desfecho, pois desejava a recada ditatorial. Ao 
contrrio de Castello, ele queria acabar com as elei es 
diretas. Achava-as um estorvo num pas povoado por 
analfabetos
Quando Castello aceitou a recada ditatorial do AI-2, nada do 
que nele se colocou respondia a qrcanas concepes de governo 
ou a racio nalizaes polticas. Produziu-se uma mixrdia 
ditatorial destinada ex clusivamente a mutilar o alcance do 
voto popular e a saciar o radicalis mo insubordinado de 
oficiais que prendiam sem provas e no queriam libertar 
cidados amparados pela Justia.
Isso foi feito com grandiloqncia, mas, mesmo nela, quase 
nada apa recia como produto de uma concepo articulada do 
Estado. Numa das noites de sua gestao, Golbery e o jurista 
Nehemias Gueiros, encarrega do de colocar as idias em 
linguagem legal, estavam trancados com o ge neral Geisel em 
sua sala do palcio do Planalto, quando por fim conclu ram a 
redao do prembulo e o entregaram ao coronel Moraes Rego 
para que fosse corretamente datilografado. Com as folhas de 
papel na mo, o tenente-coronel passou por uma sala onde 
estavam alguns oficiais e se ps a ler-lhes a obra:
 A Revoluo foi um movimento...  comeou Moraes Rego.
 A Revoluo  um movimento  corrigiu o capito Heitor Fer 
reira, sublinhando o .
23
Ernesto Geisel, dezembro de 1994.
260        A DITADURA RNVERGONHADA
Moraes Rego parou, olhou para o capito e foi  sala de 
Geisel. Pou co depois, voltou. Rindo, disse a Heitor: 
Garoto, tu no pareces de ca valaria.
O prembulo do Ato Institucional n 2, que a partir de ento 
passaria a ser citado pela jurisprudncia do regime como 
encarnao da natureza per manente da predominncia da 
Revoluo sobre a ordem constitucional, fi cou com a seguinte 
redao: A Revoluo  um movimento que veio da ins pirao 
do povo brasileiro para atender s suas aspiraes mais 
legtimas.
A militarizao do processo judicial conduziria  inevitvel 
milita rizao da represso poltica ou, mais precisamente,  
policializao da
instituio militar.
No dia 15 de maro de 1967 Castelio entregou a Presidncia da 
Re pblica a Costa e Silva e foi morar num apartamento de 
trs quartos, nu ma rua interna de Ipanema. Ele prprio 
dirigia seu Aero-Willys. Em sua sala o poder reverberava 
pelas lembranas nas fotografias de chefes de Es tado e num 
magnfico tapete de seda bege, presente do x Reza Pahlavi. 
Afastou-se da cena indo passear na Europa. Ao embarcar, 
recusou uma verba de 4 mil dlares do Itamaraty para o 
custeio da viagem. Pouco de pois de seu regresso, estava em 
casa com Geisel e Golbery quando chegou uma nova visita, 
Daniel Krieger. O senador descascara boa parte dos aba caxis 
parlamentares durante o governo do marechal. A conversa foi 
rpi da, mas no dia seguinte Castelio chamou-o para um 
encontro a ss. Na sala do apartamento de Ipanema, tomando 
gua enquanto servia usque a Krieger, foi direto ao assunto: 
Senador, o governo prepara-se para rom per a legalidade. Eu 
no estou de acordo com esse desnecessrio retro cesso. O 
senhor vai percorrer todo o Pas mobilizando a Arena. Eu me 
en carregarei do setor militar. Vamos, em conjunto, frustrar 
esses desgnios.
24 Dirio de Heitor Ferreira, 13 de fevereiro de 1967. 
APGCS/HF.
25 Adriano Campanhole e Hilton Lobo Campanhole, Todas as 
Constituies do Brasil, p. 321.
26 Ernesto Geisel, dezembro de 1994.
27 Daniel Krieger, Desde as Misses, p. 275.
A DIREITA SE ARMA 261
Era domingo, 2 de julho de 1967. Livre da impopularidade do 
coti diano do poder e respeitado pela decncia pessoal com 
que se conduziu no governo e fora dele, Casteilo Branco, o 
general que fora colocado na Presidncia por um golpe 
militar, poderia vir a se tornar o principal obs tculo a 
qualquer surto ditatorial. Dezesseis dias depois da conversa 
com Krieger, Castello voava pelo interior do Cear, aps uma 
viagem de re miniscncias. O bimotor em que viajava entrou 
irregularmente no ca minho de uma esquadrilha de jatos da FAB 
em vo de treinamento. Eu senti que a asa bateu em alguma 
coisa. Achei que fosse algum pssaro lembrou o aspirante 
Alfredo Malan. Filho de um amigo de Castello, o general 
Alfredo Souto Malan, ele s soube o que sucedeu quando pou 
sou, no fim do exerccio. O Piper Aztec em que viajava o ex-
presidente perdera o estabilizador vertical e o leme, cara 
voando em crculos e ter minara numa capoeira. Com o pulmo 
dilacerado e duas pernas fratu radas, o marechal estava 
morto. Se o governo se preparava para romper a legalidade, 
acabara-se num acidente estpido o nico homem capaz de, 
sozinho, encarregar-se do setor militar.
Geisel, feito general de quatro estrelas e ameaado por uma 
humi lhante permanncia no canil, fora mandado por Castello 
para o Supe rior Tribunal Militar, instituio para a qual 
nunca se havia remetido (nem se haveria de voltar a remeter) 
um general-de-exrcito recm-promovi do. Tornara-se sndico 
do edificio Parente, prdio soturno numa esqui na do Leblon, 
em que vivia desde os anos 50. Dava longas caminhadas 
matinais pela praia. Evitava procurar colegas de farda, e por 
convenin cia os colegas tambm procuravam evit-lo. 
Suspeitava que seu telefo ne estivesse grampeado e advertia 
os interlocutores: Cuidado que tem uns filhos-da-puta a que 
andam empoleirados nos cargos pblicos, que querem ouvir 
minha conversa. De maneira que vo  merda.
G passara ao conforto do Tribunal de Contas da Unio. Livra 
ra-se do lotao, substitudo por um carro oficial com 
motorista, e con tinuava em Jacarepagu, com trs macacos, um 
papagaio e uma arara no
28 Alfredo Malan, 1973, e John W. F. Dulies, Castelio Branco, 
o presidente reformador, p. 370. Para
uma descrio detalhada do acidente, Hernani dAguiar, Ato 5, 
pp. 81
29 Ernesto Geisel, 1994.
262        A DITADURA ENVERGONHADA
quintal. Chegou a dar uma entrevista a O Jornal dizendo que 
a Doutri na de Segurana Nacional no  absolutamente um 
instrumento de mi litares para afundar o Brasil na ditadura 
mas pouca ateno mereceu. Ambos tornaram-se fsforos 
riscados.
No dia 2 de maio de 1967 o presidente Costa e Silva assinou 
um de creto com trsartigos e 56 palavras criando o Centro de 
Informaes do Exrcito, o GTE. O ltimo adversrio da medida 
fora o chefe do Estado- Maior, Orlando Geisel, irmo mais 
velho de Ernesto, mas suas observa es ficaram nos arquivos 
militares. O GTE nasceu diretamente subordina do ao ministro 
do Exrcito, ligado ao seu gabinete. Pouco depois, a 2 Seo 
do Estado-Maior, que funcionava no quinto andar do prdio do 
Mi nistrio, com as janelas voltadas para o sol das tardes 
cariocas e por isso denominada de Buraco Quente, tornou-se 
uma geladeira. Restou-lhe a ta refa de ruminar anlises de 
jornais velhos e narrativas de conversas de pa rada dos 
adidos militares espalhados pelo mundo. Ocupando toda uma ala 
do oitavo andar do ministrio, cabia ao GTE orientar, 
coordenar e super visionar todas as atividades de Segurana 
Interna e Contra-Informaes
Terminara da pior maneira possvel a briga pelo controle das 
infor maes dentro do Exrcito. Ela durava mais de dez anos, 
desde o final da dcada de 50, quando se anexara ao gabinete 
do ministro uma diviso de informaes rica em verbas 
secretas porm burocraticamente desestrutu rada, 
contrapondo-se  2 Seo do Estado-Maior, burocraticamente es 
truturada e pobre de verbas. Estivera em jogo uma questo de 
fundo para a organizao do Exrcito: o conflito entre o 
gabinete do ministro, projeo de seu poder pessoal, e o do 
Estado-Maior, no qual se projeta a instituio.
Cada unidade militar dispunha de um estado-maior dividido em 
qua tro sees: pessoal, informaes, operaes e logstica. 
Da mesma forma,
30 O Jornal, 6 de agosto de T967. Entrevista de Golbery a 
Maurcio Gaminha de Lacerda.
31 Decreto n 60664 de 2 de maio de T967. Dirio Oficial de 3 
de maio de T967.
32 Para a descrio do nascimento e das operaes do dE, ver 
o depoimento do general Adyr
Fiza de Gastro, em Os Anos de Ghumbo, organizado por Maria 
Gelina dAraujo, Glucio Ary Dii lon Soares e Gelso Gastro, 
pp. 35 e segs.
A DIREITA SE ARMA 263
no alto da pirmide, o Exrcito era dirigido por um ministro 
em quem o presidente da Repblica depositava sua confiana 
poltica. Logo abai xo dele vinha o Estado-Maior, tambm 
dividido em sees. O ministro ocupava um cargo de natureza 
civil. Pela lei, no precisava pertencer ao servio ativo ou 
sequer vestir farda. J a chefia do Estado-Maior do Exr cito 
era uma funo militar, exercida necessariamente por um 
quatro-es trelas da ativa. Nesse organograma, cada seo de 
informaes, ou 2 Se o, processaria no mbito do Estado-
Maior os dados necessrios para a ao da tropa, e numa 
proporo maior esse esquema se repetiria na cpula, atravs 
do EME. Em tese, o organograma funcionaria deixando ao 
ministro as grandes decises e ao chefe do Estado-Maior as 
tarefas de administrao da mquina militar.
No passaria pela cabea de um ministro deixar para o chefe 
do Es tado-Maior o provisionamento de oficiais para comandos 
importantes, quan do a essncia do poder militar est em 
nomear, transferir e promover. As conseqncias dessa 
obviedade sempre foram a raquitizao do Estado- Maior e a 
hipertrofia do gabinete do ministro. Num Exrcito afastado da 
poltica, das quatro sees de um Estado-Maior, a 2 ou E-2, 
encarregada das informaes, seria a menos significativa. Num 
Exrcito metido na po ltica, no s o controle das 
informaes se tornava relevante, como tam bm o fato de o 
Estado-Maior ficar com o controle de um aparelho capaz de 
agir tanto dentro como fora dos quartis se tornava um 
incmodo.
O ministro, atravs do seu gabinete, podia facilmente mandar 
para a Amaznia um oficial que o chefe do Estado-Maior 
preferia provisio nar no Rio, mas no era capaz de controlar 
o fluxo de informaes que o E-2 recebia. Tinha a fora das 
verbas do gabinete, mas no se livrava das reclamaes do 
Estado-Maior. Castello se queixara em 1963 da falta de 
recursos da 2 Seo, da ausncia de um servio organizado e, 
sobre tudo, do fato de o controle de cpula das informaes 
estar fugindo das mos do EME. Seu sucessor foi mais claro: 
O Estado-Maior do Exrcito, at certo ponto, vive  margem 
do servio Essa disputa adquiria maior importncia  medida 
que, arrogando-se o controle da seguran
33 Relatrio Anual do EME, 1963 e 1964, em Documentos 
histricos do Estado-Maior do Exrcito,
p. 382 e p. 401.
264        A DITADURA ENVERGONHADA
a interna, as Foras Armadas tornavam-se ostensivo 
instrumento de re presso poltica.
Durante o governo Castelio no se conseguiu corrigir a 
deficincia que ele mesmo condenara, mas, pelo menos, 
conseguiu-se evitar que pre valecesse o poder pessoal do 
ministro. Costa e Silva propusera a criao de um centro de 
informaes anexo ao gabinete, mas Castelio engaveta ra a 
idia. Tinha dois aliados. Golbery, que servira em 1951 como 
ad junto da seo de informaes do EME, e Geisel, que 
chefiara tanto a se o do Estado-Maior como a do gabinete do 
ministro.
Empossado, Costa e Silva foi  forra em 47 dias. O primeiro 
chefe do GTE foi o coronel Adyr Fiza de Castro. Tinha 46 
anos e era filho de um general que, em 1955, tornara-se o 
ministro da Guerra de mais cur ta administrao da histria 
do Exrcito, com menos de 24 horas de per manncia no cargo. 
O coronel fizera uma carreira modesta. Como ma jor, servira 
na 2 Seo do EME no tempo de Geisel, chefiando a rea de 
segurana interna. Freqentava com alguma desenvoltura 
pequenos cr culos intelectuais. Acima dele, como chefe-de-
gabinete do ministro, es tava o general Sylvio Frota. Acima 
dos dois, s o general Aurelio de Lyra Tavares, ministro do 
Exrcito.
Advogado, engenheiro e poeta sob o pseudnimo de Adelita, 
Lyra veio a ser um ministro desastroso e desprestigiado. 
Tbio e vaidoso, en trou para a Academia Brasileira de Letras 
sem jamais ter feito a paz com a gramtica. Na carta que 
escreveu a Casteilo no dia 21 de maro de 1964, procurando 
tirar o quepe de qualquer conspirao, usou vocbulos co mo 
acessoramento, naturesa e encorage. Proclamava-se autor de 42 
obras 1iterrias entre as quais inclua de Ora es cvicas 
e militares a uma co letnea de Canes militares oficiais 
compostas pelos outros. Como mi-
34 Depoimento do general Gustavo Moraes Rego, em Maria Celina 
dAraujo, Glucio Ary Dii ion Soares e Celso Castro (orgs.), 
Os Anos de Chumbo, p. 153.
35 O general Alvaro Fiza de Castro foi escolhido ministro da 
Guerra pelo presidente Carlos Luz
na noite de 10 de novembro de 1955. Na madrugada seguinte o 
general Henrique Lott, que deve ria passar-lhe o cargo, 
derrubou o governo.
36 Carta do general Aurelio de Lyra Tavares a Castello 
Branco, de 21 de maro de 1964. APGCS/HF.
37 Aurelio de Lyra Tavares, O Brasil de minha gerao, vol. 
1, p. xii.
A DIREITA SE ARMA        265
nistro, publicou uma seleta de discursos e artigos que 
continha uma en trevista concedida  televiso francesa, 
transcrita em francs.
Seu comportamento nas horas ambguas de maro de 1964 estive 
ra perfeitamente retratado na carta esquiva a Castello. Uma 
vela a Deus e outra ao Diabo, como  do agrado de certo tipo 
de homens diria seu antecessor no ministrio. Era motivo de 
chacota porque em momen tos de crise perdia a voz. Comandava 
o iv Exrcito, com jurisdio so bre o Nordeste, quando se 
deu uma crise no Cear e Casteilo resolveu consult-lo. 
Dotado de humor cruel, o presidente alertou Geisel, a quem 
pedira que o localizasse por telefone: Fale com o Lyra 
porque ele de ve estar afnico: Feita a chamada, o ajudante-
de-ordens informou que o general estava sem voz. Golbery, 
com seu amor pelos paradoxos, acusava-o: Gosta de ficar bem 
com a minoria: Geisel chamava-o de em bromador
Fiza e Frota vinham de comandos na Vila Militar e nela 
recruta ram boa parte dos oficiais que formaram o primeiro 
ncleo do dE. Di nheiro no nos fa1tava lembrou Fiza mais 
tarde. Eram oitenta pessoas, pouco mais de trinta oficiais. 
Entre eles estavam diversos capites e ma jores envolvidos em 
arbitrariedades e at mesmo em insubordinaes nos ltimos 
anos. No havia, contudo, predominncia de militares 
diretamen te metidos nas manifestaes da linha dura. Pelo 
contrrio, a mquina original do CIE e sobretudo seus 
cinqenta canais de censura telefnica foram utilizados desde 
o primeiro momento para rastrear as atividades daqueles 
oficiais que tinham atazanado Castello. Costa e Silva, que se 
aproveitara dos mpetos da linha dura, passara a pod-la 
atravs de uma astuciosa poltica de transferncias.
38 Questonnaire pour monsieur le ministre, gneral Lyra 
Tavares em Aurelio de Lyra Tavares,
Textos escritos por dever do ofcio, p. 177.
39 Bilhete do marechal Ademar de Queiroz a Golbery, de 16 de 
julho de 1974, remetendo-lhe c pia da carta de 21 de maro 
de 1964 de Lyra a Castello. APGCS/HF.
40 Ernesto Geisel, setembro de 1985. Luiz Viana Filho, O 
governo Casteilo Branco, p. 179, e Jayme
Portella de Mello, A Revoluo e o governo Costa e Silva, p. 
243.
41 Dirio de Heitor Ferreira, 15 e 23 de fevereiro de 1967. 
APGCS/HF.
42 Depoimento do general Adyr Fiza de Castro a Maria Celina 
dAraujo, Glucio Ary Dillon Soa res e Celso Castro (orgs.), 
Os Anos de Chumbo, pp. 42-3.
266        A DITADURA ENVERGONHADA
As agitaes estudantis de 1967 inquietaram o coronel Fiza 
de Cas tro e levaram-no a abrir uma nova rea de atividade: 
Ns vamos orga nizar um martelo-pilo para matar uma mosca, 
mas o diabo  que os es panadores do DOPS no vo mais 
adiantar
Quando o ano terminou, a esquerda e a direita tinham-se posto 
de acordo numa coisa: a necessidade da criao de uma 
estrutura militari zada para o encaminhamento da divergncia 
poltica. Marighella forma va o seu Agrupamento Comunista. Os 
sargentos do MNR, afastados de Leonel Brizola, comeavam a 
gravitar em torno de bases radicais paulis tas e gachas. 
Entre maio de 1966 e dezembro de 1967, quatro organiza es 
esquerdistas publicaram longas anlises e projetos 
estratgicos para o que duas delas chamavam de guerra 
popular uma de guerra revolucio nria e a ltima de 
guerra insurrecional O coronel Fiza organizava o GTE, e 
com ele se desenvolvia a idia da militarizao das aes 
policiais.
De um lado e de outro havia uma certeza: dentro de muito 
pouco
tempo comeariam a guerra.
43 Idem, p. 75, e Zuenir Ventura, 1968 O ano que no 
terminou, p. 187.
44 Daniel Aaro Reis Filho e Jair Ferreira de S (orgs.), 
Imagens da revoluo. Em maio de 19660 Partido Comunista 
Revolucionrio, PCR, falava em guerra popular (p. 50). Em 
junho o Partido Comunista do Brasil, pc do B, falava em 
guerra popular (p. 73). Em setembro de 1967 a Polop 
referia-se a uma guerra revolucionria (p. 115). Em 
dezembro a Ala Vermelha do ic do B falava em guerra 
insurrecional (p. 126).
Costa e Silva: chega o bartono
O presidente Arthur da Costa e Silva completara havia pouco o 
seu pri meiro ano de governo quando recebeu no palcio do 
Planalto os inte grantes das mesas diretoras da Cmara e do 
Senado. Era uma visita pro tocolar, conseqncia da 
reabertura dos trabalhos legislativos. O marechal voltara das 
frias no palcio de veraneio de Petrpolis, nas montanhas 
fluminenses, e respondeu aos cumprimentos com um curto 
improviso:
Isto se chama regime democrtico e, quer queiram ou no 
aqueles que no olham com os olhos de ver e no ouvem com os 
ouvidos de ouvir, existe neste pas uma democracia. [ O ano 
de 1967, quando passamos de uma poca de regime de exceo 
para um regime normal, democrtico, foi um ano bom. E espero 
que em 1968, concretizadas as realizaes nos campos 
administrativo, poltico, social e militar, possamos 
continuar a cumprir o nosso dever com dedicao, com amor e 
com coragem.
No memorvel ano de 1968 o mundo foi varrido pela ltima tem 
pestade da Era de Aquarius. No houve governante que por ela 
no fos se afetado, como no houve pas onde no fosse 
sentida. Quando o pre sidente fez o seu prognstico, o 
vietcongue j havia desencadeado a ofensiva do Tet e 
destrudo a credibilidade da guerra dentro dos Estados
1 Jayme Portelia de Meio, A Revoluo e o governo Costa e 
Silva, p. 521.
268        A DITADURA ENVERGONHADA
Unidos. Na Tchecoslovquia o dirigente comunista Antonn 
Novotn) per dera o poder para Alexander Dubcek, iniciando-se 
uma poca de libera lizao denominada Primavera de Praga. Na 
Frana, Japo, Polnia, In glaterra e Itlia, jovens estavam 
nas ruas pedindo paz, amor e liberdade. Um conselho circulava 
pelo mundo: No confie em ningum com mais de trinta anos E 
nessa hora o Brasil estava na mo do marechal Arthur da Costa 
e Silva, o Portugus, o Seu Arthur.
Filho de um comerciante da pequena cidade de Taquari, no Rio 
Grande do Sul, Costa e Silva tinha aos 66 anos uma aparncia 
envelhe cida e flcida que, somada a um par de culos escuros 
dos quais no se desfazia, tornava-o um tpico general 
latino-americano de caricaturas. Che gara  Presidncia 
perseguido por uma coleo de piadas onde entrava no papel de 
paspalho. Numa das mais cruis, mobilizara o Exrcito para 
descobrir quem lhe roubara a biblioteca, pois ainda no tinha 
acabado de colorir o segundo livro. Incomodava-se com essa 
imagem, mas havia pouco a fazer. Um dos principais assessores 
do presidente americano Lyndon Johnson, depois de conversar 
longamente com o marechal du rante sua visita a Washington, 
escreveu numa nota preparatria  audin cia que teria na 
Casa Branca: Ele est ansioso para que se entenda que  um 
homem de qualificaes intelectuais. [ Em resumo, sugiro que 
o senhor o trate menos como um soldado e mais como um homem 
de Estado civil, seu colega.  primeira vista isso no ser 
fcil, sobretudo se estiver usando culos escuros.
No era o bobo que seu folclore sugeria. Meses depois, quando 
al guns assessores perguntaram a Johnson qual presidente 
latino-america no gostaria de ter ao seu lado numa crise em 
que precisasse de apoio, ele respondeu: Costa e Silva, 
aquele cara do Brasil. Quando ele te olha no olho e diz que 
est contigo, voc sente que ele est falando srio.
Na juventude, mostrara valor e coragem. Fora o primeiro aluno 
de
sua turma na Escola Militar e na de Aperfeioamento de 
Oficiais. Auda cioso, metera-se na sublevao de 1922 e 
passara seis meses abordo de um
2 Memorando de Walt W. Rostow ao presidente Lyndon Johnson, 
de 25 de janeiro de 1967. BLBJ.
3 Sol M. Linowitz, The tnaking of a public man A rnemoir, p. 
27.
COSTA E SILVA: CHEGA O BARTONO        269
navio-presdio. Desforra suprema, marchara com a bandeira  
frente da tropa do 32 Regimento de Infantaria que, no dia 24 
de outubro de 1930, cercara o palcio Guanabara, depondo o 
presidente Washington Lus e a chamada Repblica Velha. 
Casteilo, que fora seu colega de turma no Co lgio Militar de 
Porto Alegre e na Escola de Realengo, era estudioso, mas 
ficara atrs; simpatizara com as revoltas de 1922, mas 
acatara a legalida de em 30. Resultara dessa predominncia 
juvenil uma postura respeitosa do cearense introvertido para 
com o aluno-comandante do Colgio Mi litar de Porto Alegre, 
a qual, se os anos diluram, jamais apagaram.
O capito brilhante e audacioso mergulhou na banalidade da 
buro cracia militar. Deu-se s cartas e a depresses chamadas 
mais tarde por Geisel de problemas psquicos ou familiares 
Como major, comanda va na pequena cidade mineira de So Joo 
del Rei quando foi depenado por um colega numa roda de pquer 
e resolveu apostar a geladeira de sua casa. Perdeu, pagou, 
mas vingou-se do oficial mandando abrir contra ele um 
inqurito por conta do sumio de um peixe no frigorfico do 
quar tel. A cidade alvoroou-se com o Inqurito do Peixe. S 
a interferncia do jovem advogado Tancredo Neves levou Costa 
e Silva a recuar, deixando em paz o major Carlos Luiz Guedes, 
que o tosara. Como aluno da Es cola de Estado-Maior 
atravessou uma crise domstica. Abatido, quis des ligar-se do 
Exrcito. Dissuadiu-o Juarez Tvora, seu colega de penso nos 
anos 20.8 J general, abatido pela falta de sorte nas cartas 
e nos cavalos, voltou a pensar em largar a farda. Dessa vez, 
acalmou-o o coronel Emi lio Garrastaz Medici, seu chefe de 
estado-maior na 68 Regio Militar, em Porto Alegre.
4 Nelson Dimas Filho, Costa e Silva, pp. 21-33.
5 Ernesto Geisel, outubro de 1994. Esse aspecto da relao de 
Castelio com Costa e Silva tambm
 mencionado por Cordeiro de Farias em Aspsia Camargo e 
Walder de Ges, Meio sculo de com bate  Dilogo com 
Cordeiro de Farias, p. 584.
6 Maria Celina dAraujo e Celso Castro (orgs.), Ernesto 
Geisel, p. 170.
7 Drault Ernanny, Meninos, eu vi... e agora posso contar, pp. 
41-2.
8 Ernesto Geisel, julho de 1985.
9 Heitor Ferreira, julho de 1984. Para os hbitos de Costa e 
Silva como apostador em corridas de
cavalos em Porto Alegre, Breno Caldas, Meio sculo de Correio 
do Povo, depoimento a Jose Anto nio Pinheiro Machado, p. 79.
270        A DITADURA ENVERGONHADA
No dia 1 de abril de 1964, na farda sempre amarrotada do 
velho general, acordou o jovem capito Costa e Silva. 
Negaceara com a insur reio, mas, uma vez na cadeira de 
ministro da Guerra, fechou o tem po. Intitulou-se comandante 
do Exrcito, desacatou governadores, humilhou o presidente 
Ranieri Mazzilli dizendo que no lhe devia su bordinao. 
Foi o primeiro chefe a buscar uma legitimidade histrica para 
o golpe engatando-o na composio ideolgica dos movimentos 
militares dos anos 20. Percebeu desde o primeiro momento as 
caracte rsticas do processo de anarquia militar e, como 
ningum, utilizou-se da energia que ele continha. Enquanto 
Castello procurava manter uma or dem constitucional e se 
chocava com o radicalismo, Costa e Silva valia- se dele. 
Casteilo se considerava um presidente eleito pelo Congresso, 
Cos ta e Silva se dizia comandante revolucionrio. Castello 
recuava, Costa e Silva avanava. Chegava a ser descorts com 
o colega. Chamava-o pelas costas de o pequenino Em maio de 
1964, durante uma recepo ofe recida pelo presidente alemo 
Heinrich Lbke no Copacabana Palace, aproximou-se do 
visitante e, apontando para a casaca de Castello, dis se: 
Quem devia estar com essa casaca era eu, mas no quis O 
presi dente ouviu calado.
Costa e Silva roera com astcia e audcia a autoridade de 
Castello. Se os radicais abriam uma crise exigindo a cassao 
do ex-presidente Jus celino Kubitschek, o ministro da Guerra 
tornara-se porta-voz da exign cia. Quando surgia um 
movimento contra a realizao das eleies, o mi nistro 
amparava-o. Se Casteilo procurava pacificar as relaes dos 
intelectuais com o governo, seu ministro solidarizava-se com 
a caa s bruxas na Universidade de So Paulo. Quando o 
governo acertava, Cos ta e Silva era seu ministro da Guerra. 
Quando o presidente desagradava os quartis, Costa e Silva 
transformava-se em comandante revolucion rio, capaz de 
negociar a indisciplina. Jogara nessas duas posies com maes 
tO Armando Falco, Tudo a declarar, p. 258. Para uma 
narrativa das reunies de Costa e Silva nes ses dias, ver 
John W. E Dulles, Carlos Lacerda A vida de uni lutador, vol. 
2:1960-1977, pp. 236-45.
Ii Drault Ernanny, Meninos, eu vi... e agora posso contar, p. 
11. 12 General Gustavo Moraes Rego, dezembro de 1984.
13 Correio da Manh, 8 de outubro de 1964.
COSTA E SILVA: CHEGA O BARTONO 271
tria. Colocara-se como esturio das frustraes de todos 
aqueles que achavam necessrio aprofundar o processo 
arbitrrio e punitivo. No que fosse um radical: era apenas 
um manipulador da anarquia.
Em outubro de 1965, quando as vivandeiras derrotadas nas elei 
es insuflavam os granadeiros pedindo a edio do AI-2, 
Costa e Silva cavalgou destemidamente a crise. Associou-se  
desordem e tornou-se fiador da paz. Ttica velha nos jogos de 
poder dos militares, essa ma nha  respeitada enquanto 
preserva a aparncia pblica da disciplina. O ministro da 
Guerra nem sequer esse limite respeitou. Na tarde de 22 de 
outubro, durante um churrasco realizado em Itapeva, no 
interior de So Paulo, Castelio e Costa e Silva 
confraternizavam com a oficialida de que acabara de concluir 
manobras militares na regio. O ministro, violando a 
programao, resolveu discursar para a tropa. Respondeu a um 
pronunciamento do presidente do Supremo Tribunal Federal, 
lvaro Ribeiro da Costa, que condenara as insubordinaes da 
linha dura di zendo que j  tempo de que os militares se 
compenetrem de que num regime democrtico no lhes cabe papel 
de mentores da Nao. Cos ta e Silva desafiou-o diante de 
uma platia que, como a do Automvel Clube em maro de 1964, 
gritava Manda brasa. Mandou-a. O Exr cito tem chefe. No 
precisa de lies do Supremo. [ Dizem que o Pre sidente  
politicamente fraco, mas isso no interessa, pois ele  
militar mente forte atacou Costa e Silva, pedindo desculpas 
ao presidente pela nfase.
Casteilo, constrangido e preso na armadilha do ministro, 
respondeu que no fui desrespeitado [ porque [ guardo a 
dignidade do meu
posto e o respeito aos outros dois poderes.
No vo de volta ao Rio, Geisel entrou na cabine do presidente 
e dis se a Casteilo que deveria demitir Costa e Silva 
imediatamente. O presi
14 Olympio Mouro Filho, Memrias, p. 429.
15 Depoimento do general Moraes Rego, em Vises do golpe, 
organizado por Maria Celina dArau jo, Glucio Ary Dilion 
Soares e Celso Castro, pp. 66-7.
16 Para a primeira sentena, Carlos Chagas, A guerra das 
estrelas, p. 88. Para a segunda, John W.
F. Dulles, Casteilo Branco, o presidente reformador, p. 140.
17 John W. F. DuIles, Castelio Branco, o presidente 
reformador, p. 140.
272        A JITADURA ENVERGONHADA
dente no respondeu. J no Laranjeiras, o chefe do Gabinete 
Militar deu
seu veredicto: O outro arrastou as fichas.
Estava decidida a sucesso presidencial.
Aquilo que aconteceu em Itapeva foi horrvel. Foi uma coisa 
hor rvel relembraria Geisel, anos mais tarde, marcado pelo 
episdio.
O capito audacioso carregava o general em triunfo. A sorte 
volta ra. Em suas rodas de pquer estavam agora polticos e 
grandes empres rios. Carteando numa mesa que se reunia 
mensalmente a convite do em preiteiro Jadir Gomes de Souza, 
scio da construtora carioca Sisal, o empresrio Antonio 
Gallotti terminara uma noite com um cheque do ge neral. Em 
ocasies anteriores ocorrera o contrrio: Gallotti fizera seu 
che que, e o ministro da Guerra o descontara. Daquela vez o 
presidente da Light saiu com um problema no bolso. Guardou-o 
por algum tempo e acabou procurando Jadir. Perguntou-lhe se 
no era melhor devolver o che que, mas o empreiteiro ponderou 
que Costa e Silva poderia ficar ofen dido. Jadir ento disse 
que eu o esquecesse, mas contrapropus que mo comprasse e, 
ento, o esquecesse. Foi o que ele fez contou Gallotti, en 
cerrando a narrativa com a sonora gargalhada italiana com que 
cativou seis repblicas.
Amparado pelo dispositivo militar, favorecido pela 
impopularidade de Castello e apoiado pela elite poltica 
ligada ao governo, Costa e Silva era chamado pelo Jornal do 
Brasil de encruzilhada de todas as aspira es. Eleito 
indiretamente pelo Congresso em outubro de 1966, junta ra 
aspiraes demais na sua encruzilhada. Aos polticos, 
oferecia abertu ra. Aos militares, a continuao do regime. 
Sua mulher comparecia a missas de estudantes que, tendo 
conseguido notas acima de 5 nas provas de ves tibular, 
ficaram sem vagas nas universidades. Denominavam-se exceden 
18 Ernesto Geisel, julho de 1985 e dezembro de 1994, e 
general Gustavo Moraes Rego, dezembro
de 1984.
19 Dirio de Heitor Ferreira, 22 de outubro de 1965. 
APGCS/HF.
20 Ernesto Geisel, julho de 1985.
21 Para a roda de pquer do empreiteiro, Antonio Gallotti, t 
de janeiro de 1986.
22 Diczonrzo histrico-biogrfico brasileiro ps- 1930, 
coord. de Alzira Alves de Abreu e outros, vol.
1, p. 1224.
r
COSTA E SILVA: CHEGA O BARTONO        273
tes. Ele prprio se negara a endossar um plano de 
compromissos com o Fundo Monetrio Internacional e acenava 
com uma poltica econmica mais suave que a de Castelio. 
Lacerda considerava-o assustadoramente despreparado para 
ocupar a vaga e temia pelo futuro: Que ser do Bra sil se o 
sr. Costa e Silva s puder organizar um governo medocre? De 
pois da queda, coice?.
Dois meses antes da posse do novo governo, o encarregado de 
ne gcios dos Estados Unidos no Rio de Janeiro, Philip Raine, 
enviara a Washington um prognstico sombrio: Se na sua 
tentativa de humani zar o programa de governo ele se mostrar 
tolerante com civis recalci trantes e surdo aos reclamos da 
linha dura militar e de outros revolu cionrios ativos, 
poder muito bem ser deposto pelos militares dentro de um ou 
dois anos ou encontrar-se diante de um conjunto de circuns 
tncias inteiramente novo, no qual perder a liberdade de 
ao, embo ra continue no cargo.
No palcio, seus velhos camaradas pressentiam um desastre. An 
tes da eleio, o general Cordeiro de Farias fora a Castello 
e lhe pedira para ir embora do Ministrio do Interior: Voc 
sabe que ele vai afun dar o pas, pois  incapaz, e eu no 
quero ter parte fljsto.25 Castello acre ditava que com a 
fria legiferante dos ltimos meses .de seu governo, quando 
se votaram uma Constituio e dezenas de novas leis, seu su 
cessor assumiria enquadrado, mas Geisel desafiara seu 
otimismo: Ora, presidente, tenha pacincia. Na primeira 
dificuldade que o Costa e Sil va tiver ele bota tudo isso 
fora. Se apia no Exrcito ou nos amigos dele e vira ditador
Golbery estava certo de que o marechal desmoronaria: Eu 
prefiro
o showdown, e que o Costa e Silva d o golpe e assuma o poder 
agora a
que haja uma eleio que cooneste tudo e difira por um ou 
dois anos o
golpe e a ditadura
23 Carta de Carlos Lacerda ao Jornal do Brasil, publicada em 
28 de agosto de 1966, p. 4.
24 Telegrama de Philip Raine ao Departamento de Estado, de 24 
de janeiro de 1967. BLBJ.
25 Luiz Viana Filho, O governo Casteilo Branco, p. 395.
26 Ernesto Geisel, dezembro de 1994.
27 Dirio de Heitor Ferreiro, 14 de fevereiro de 1966. 
APGCS/HF.
274        A DITADURA ENVERGONHADA
Sabiam que ele no abria um livro havia mais de vinte anos. 
Chega va a orgulhar-se disso e uma vez, ao ver que Cordeiro 
de Farias carrega va um volume sobre a Guerra do Vietn, 
ensinou-lhe: Voc  um idio ta, perdendo tempo com essas 
coisas. Eu hoje s fao palavras cruzadas. Intelectualmente 
elitista, o grupo de Casteilo podia considerar ineptos todos 
os oficiais que, como Costa e Silva, no passaram por suas 
rodas de estudos. Ademais, no gostavam dele, e a recproca 
era verdadeira. No entanto, alm de todos os fatores 
subjetivos, julgavam-no incapaz por que conheciam coisas que 
o pas ignorava.
No final de 1966, como presidente eleito, Costa e Silva 
convidara o pediatra Rinaldo De Lamare, seu amigo pessoal, 
para acompanh-lo nu ma viagem  Bahia. Movido por uma 
curiosidade profissional, De Lama re telefonou ao mdico do 
marechal, Edidio Guertzenstein, procurando saber como andava 
sua sade. O presidente no est bem. J teve um enfarte e 
acho que no viver mais que dois anos respondeu Guertzen 
stein. Obteve um eletrocardiograma do marechal e mostrou-o a 
um no tvel cardiologista carioca. O homem ter no mximo 
dois anos de vi da diagnosticou o professor. Ele estava 
mais entupido que pardieiro lembrou o coronel-mdico Americo 
Mouro, que como chefe do servi o de sade da Presidncia no 
tempo de Castello examinara uma bate ria de exames de Costa e 
Silva. Os resultados teriam sido levados ao ge neral Jayme 
Porteila de Melio, articulador das grandes manobras polticas 
de Costa e Silva, bem como ao coronel Mrio Andreazza, seu 
assistente. No, agora no  possvel mais, ele tem de ir de 
qualquer maneira te ria respondido Andreazza.
28 Aspsia Camargo e Waider de Ges, Meio sculo de combate  
Dilogo com Cordeiro de Farias,
p. 584.
29 Entrevista do mdico Rinaldo De Lamare a Flvio Pinheiro, 
Veja, 5 de dezembro de 1979, p.
72. Em Luiz Viana Filho, O governo Castelio Branco, p. 390, 
pode-se encontrar uma referncia de
Casteilo  sade de seu ministro.
30 Roberto Campos, A lanterna na popa  Memrias, p. 879.
31 Coronel-mdico Americo Mouro, 1981.
32 General Gustavo Moraes Rego, dezembro de 1993. Ernesto 
Geisel, abril e dezembro de 1994.
Ver tambm Maria Celina dAraujo e Celso Castro (orgs.), 
Ernesto Geisel, p. 198.
COSTA E SILVA: CHEGA O BARTONO        275
Em 1960 os bacharis da UDN, vestais da moralidade 
republicana, ha viam conduzido um desequilibrado (Jnio 
Quadros)  Presidncia. Sete anos mais tarde, a cpula 
militar que interditara o eleitorado brasileiro retirando-lhe 
a prerrogativa de eleger o presidente, colocaria um inca paz 
no Planalto. Castello divertia-se nos ltimos meses de 
governo ao ler as crticas que se lhe faziam, respondendo com 
uma piada de pera em que um tenor apupado ri da platia, 
despede-se da cena e avisa: Espe rem o bartono
33 Testemunharam essa brincadeira e narraram-na ao autor os 
generais Ernesto Geisel e Golbery
do Couto e Silva, alm do filho do presidente, comandante 
Paulo Viana Castello Branco.
Y ei cielo se encuentra nublado
Ao anoitecer do dia 28 de maro de 1968, no Rio de Janeiro, 
uma tropa da Polcia Militar atacou um grupo de estudantes 
que pediam melhores instalaes para o restaurante do 
Calabouo. Nele, havia mais de dez anos jovens de todo o 
Brasil comiam por dois cruzeiros a bandeja. Smbolo da 
poltica assistencialista do regime de 1946, o Calaba, como 
era conhe cido, reunia basicamente secundaristas e estudantes 
que se preparavam para o vestibular. Funcionava perto do 
aeroporto do centro da cidade e fora desalojado de suas 
instalaes originais pelas obras do trevo que or denou o 
trnsito do Aterro para a avenida Perimetral. Sua comida era 
nu tritiva, porm inspida, ruim mesmo. Sopa, arroz, feijo, 
carne guisada ou salsichas, legumes, umas folhas de alface, 
algumas rodelas de tomate, goiabada e um copo de leite ralo. 
Acusavam-no de ser um covil de agi tadores e estudantes 
profissionais quando, na realidade, era apenas um refgio de 
pessoas que no tinham onde comer. Eram muitos os sacrif 
cios que um jovem seria capaz de fazer pela derrubada do 
governo, mas pedir-lhe que comesse duas vezes por dia no 
Calabouo tendo outra mesa  disposio seria suplcio 
excessivo.
1 Existiram dois Calabouos. Um, inaugurado nos anos 50, era 
um galpo com aparncia de han gar, situado onde hoje est 
uma das folhas do trevo que liga o Aterro  avenida 
Perimetral. Des trudo em 1967 para permitir a passagem da 
pista, ele foi transferido para uma construo pre cria a 
trezentos metros do terreno original.
2 De 1960 a 1962, comi no Calabouo. S nele.
278        A DITADURA ENVERGONHADA
Os estudantes jogavam pedras contra os PMS, e um aspirante 
atirou. Acertou o peito de Edson Luis de Lima Souto, de 
dezessete anos, prot tipo do calaboal Migrante nortista, 
pobre e secundarista, no tinha mi litncia poltica. 
Defendia o restaurante onde comia e fazia biscates. Os 
colegas levaram-no para a Santa Casa de Misericrdia, a trs 
quarteires de distncia, mas ele j chegou morto. Pela 
primeira vez desde 1964 sur gia um cadver na luta entre o 
regime e os estudantes. Os jovens  al guns deles ligados a 
organizaes clandestinas  impuseram  polcia uma derrota 
inicial e decisiva. Conquistaram o cadver. A PM tentou lev-
lo para o Instituto Mdico Legal, mas os estudantes foram 
para a As semblia Legislativa, usando-o como arete. Sem 
camisa, Edson Luis foi colocado sobre uma mesa. No dia 
seguinte o Rio de Janeiro acordou com aquele garoto morto nas 
primeiras pginas dos jornais. Assassinato gritava o 
Correio da Manh. Ele haveria de se tornar a encruzilhada de 
todas as raivas.
Havia quatro anos a poltica brasileira estava torta, 
deformada pela ditadura e pelas conseqentes presses que 
eram exercidas  direita e  esquerda pelas dissidncias do 
regime e da oposio. A partir da morte de Edson Luis, a 
contrariedade foi para a rua. Isso ocorreria de qualquer 
maneira, naquele ou noutro dia, com cadver ou sem ele. O 
pas sangra va em virtude das punies de 1964 e das 
mutilaes eleitorais de 65. As cassaes desmoralizaram a 
representao poltica, e a supresso das elei es diretas 
cortara o caminho para o exerccio da cidadania.
A Constituio de 1967 gerara uma ordem autoritria demais 
para quem ficou de fora e de menos para quem estava dentro. 
Os generais que pretendiam conter a oficialidade radical eram 
enfraquecidos por acusa es de conivncia com os vestgios 
do velho regime. Como sempre ha 3 Washington Novaes, agosto 
de 1988. Novaes, redator da revista Viso, cuja sede ficava a 
duzen tos metros do Calabouo, estava numa das janelas e viu 
a cena. Zuenir Ventura, 1968 O ano que no terminou, p. 104, 
identifica o assassino: Aloisio Raposo.
4 Correio da Manh, 29 de maro de 1968.
Y EL CIELO SE ENCUENTRA NUBLADO 279
via uma roubalheira impune ou um comunista solto, o 
radicalismo de direita se fortificava. Os polticos que 
propunham a conciliao eram des prezados como adesistas. 
Como sempre havia um coronel larpio ou um torturador  
solta, o radicalismo de esquerda tinha mais respostas que a 
conciliao. As mos com que Costa e Silva manipulara a 
anarquia du rante o governo de Castello atrapalharam-se 
quando chegou a sua vez de segurar o baralho. Para subir, 
ajudara a degradar a figura constitucional da Presidncia. 
Quando a assumiu, recebeu-a degradada.
Numa sucesso de encontros entre Lisboa e Montevidu 
costurara- se no segundo semestre de 1967 a mais improvvel 
das alianas polticas brasileiras. Os ex-presidentes Joo 
Goulart e Juscelino Kubitschek ti nham-se unido a Carlos 
Lacerda. O algoz de seus recentes aliados torna ra-se 
oposicionista desde que Castello e Golbery moeram seu sonho 
pre sidencial. Se aquilo que Costa e Silva chefiava fosse de 
fato um regime democrtico, a unio dos velhos inimigos em 
torno de um movimento chamado Frente Ampla seria tolervel. 
Como persistia a noo segundo a qual os militares eram os 
rbitros finais da questo poltica, a guinada de Lacerda foi 
vista como mais uma prova da inconstncia dos polticos 
civis.  esquerda, por meio de um raciocnio idntico, com 
sinal contr rio, a guinada de Jango e JK foi vista como 
prova da inconstncia dos po lticos burgueses. Ampla a 
Frente era. Por rasa, seria irrelevante.
Enquanto Edson Luis era sepultado, tramitava na Presidncia a 
Exposio de Motivos 15-2R/68, pela qual, por sugesto do 
general Portel la, chefe do Gabinete Militar, colocava-se na 
ilegalidade a Frente de La cerda, JK e Jango. Caso raro de 
proscrio de uma coligao de pessoas. Portella, um 
paraibano mido e discreto, posto para fora do Conselho de 
Segurana por Geisel em 1964, fora o crebro da estratgia 
que levara Cos ta e Silva  conspirao e dela  Presidncia. 
Era um ativista renitente des de os anos 50. Participara da 
trama para impedir a posse de Juscelino Kubitschek. Quando 
ela naufragou, pagou dez dias de cadeia e viu-se re metido ao 
comando da circunscrio de recrutamento de Nioaque, em Ma to 
Grosso. Em 1963 estava no Departamento-Geral do Pessoal, o 
canil
5 Jayme Portelia de Melio, A Revoluo e o governo Costa e 
Silva, p. 538.
280        A DITADURA ENVERGONHADA
de Costa e Silva. O dispositivo tentara remov-lo para a 
Bahia, mas con cordara em dar-lhe seis meses de frias, que 
ele transformaria em licena reinunerada para conspirar. 
Estava na primeira lista de telefonemas de Mouro Filho. O 
general esperou-o no dia 31 de maro em Juiz de Fora, mas 
encontrou-o no dia 2 de abril, no gabinete do ministro. 
Fixara-se na equipe de Costa e Silva como uma caixa de 
correspondncia para qual quer mensagem de oposio ao grupo 
de oficiais que gravitava em torno de Casteilo. Carlos 
Lacerda dizia: O general Portella  quem governa o Brasil, o 
general Costa e Silva  uma figura de proa, s. Mandava cada 
dia mais e, com a ajuda do dE, espionava civis e militares.
Uma semana antes da morte de Edson Luis, o terrorismo de 
esquer da chegara a So Paulo. Uma bomba jogada contra a 
biblioteca do con sulado americano por militantes do 
marighelismo feriu trs pessoas, uma das quais teve a perna 
amputada. De dezembro de 1967 ao final de maro de 68, quando 
comeou a movimentao dos estudantes cariocas, duas 
organizaes armadas j haviam assaltado pelo menos dois 
carros- fortes e um banco. Sinal dos tempos: de uma dessas 
operaes partici para o ex-sargento da PM paulista Pedro 
Lobo de Oliveira. Enviado a Cuba pelo brizolismo, 
transferira-se do palavrrio em que cara o MNR para O
6 Dicionrio histrico-biogrfico brasileiro ps- 1930, 
coord. de Alzira Alves de Abreu e outros, voi.
4, p. 4744.
7 Olympio Mouro Filho, Memrias, p. 372.
8 Carlos Lacerda, Depoimento, p. 362.
9 Agnaldo dei Nero Augusto, A grande mentira, p. 252. Desde 
1966, esse foi o quarto atentado de vulto contra locais 
associados ao governo americano. No dia 13 de junho de 1966, 
em Belo Hori zonte, foi provocado um incndio no prdio do 
Instituto Brasil-Estados Unidos; em 25 de julho, no Recife, 
explodiu uma bomba no servio de informaes do governo dos 
Estados Unidos. No dia 12 de agosto de 1967, outra bomba, no 
escritrio dos Voluntrios da Paz, deixou trs feridos, um 
dos quais teve a mo amputada. Menos de dois meses depois, 
explodiu mais um artefato, no jardim da casa do adido militar 
americano, no Leblon. Cinco anos de terror reportagem de 
Luiz Carlos Sarmento, Correio da Manh de 6 de abril de 1969.
10 Em dezembro de 1967, em So Paulo, a ALN assaltou um 
carro-forte (Jacob Gorender, Combate nas trevas, p. 108). Em 
janeiro de 1968, o grupo que viria a se denominar Vanguarda 
Popular Re volucionria, VPR, assaltou uma agncia do 
Bradesco em So Paulo (depoimento de Pedro Lobo de Oliveira, 
em Antonio Caso, A esquerda armada no Brasil  1967/71, p. 
118). Em fevereiro, o Grupo Especial Nacionalista 
Revolucionrio da Ala Vermelha assaltou um carro-forte do 
Banco da Lavoura de Minas Gerais, em Mau (Terrorismo nunca 
mais, Ternuma: <http://www.ternu ma.com.br/metralha.htm>).
Y EL CIELO SE ENCUENTRA NUBLADO        281
voluntarismo de uma dissidncia trotskista. Por sua parte, 
Marighella pla nejava a montagem de uma base guerrilheira no 
sul do Par e se reuni ra com o provincial dos dominicanos no 
Brasil para discutir a transfor mao do convento de 
Conceio do Araguaia em santurio para seus quadros. Nove 
frades do convento das Perdizes, em So Paulo, militavam na 
sua dissidncia. Sem nenhuma conexo com esses planos, o 
Partido Comunista do Brasil comeara a montar uma base na 
mesma regio. Ti nha oito quadros vivendo na margem esquerda 
do rio Araguaia, ao sul da sua confluncia com o Tocantins. 
Dois eram veteranos comunistas, constituintes de 1946. Aos 56 
anos, Joo Amazonas, secretrio-geral do partido, tornara-se 
o Velho Cid. Viajava com regularidade para a mata. Maurcio 
Grabois virara Mrio. Vivia no mato. Os outros misturaram- se 
na paisagem. Dois tinham curso de capacitao militar na 
China, e um formara-se engenheiro na Tchecoslovquia. A 
velha A1, tambm influen ciada pelo maosmo e por dirigentes 
reciclados em Pequim, estocava mi litantes trabalhando em 
fbricas de So Paulo, morando em casas sem gua encanada, 
eletrodomsticos ou smbolos de degenerao burgue sa. 
Herbert Jos de Souza, que ajudara a fund-la e por alguns 
anos a dirigira, foi transformado em Francisco, empacotador e 
carregador de cai xas de loua numa fbrica de Mau.
Primeiro foi para a rua a esquerda. Logo que a notcia do 
tiro do Ca labouo percorreu a cidade, os teatros suspenderam 
os espetculos, os ba res da moda agitaram-se, e fez-se uma 
romaria ao velrio. Ao lado das figuras fceis estavam agora 
Tnia Carrero, sempre contida em suas ma nifestaes 
polticas, e o pintor Di Cavalcanti, tocado na sua proverbial
11 Denncia do Processo n 207/69, da 2 Auditoria do Exrcito, 
da 2 Circunscrio Judiciria Militar. Em Mano Simas, Gritos 
de justia  Brasil 1963-1979, pp. 87 e segs.
12 Eram Amazonas, Grabois, Elza Monnerat, ngelo Arroyo, 
Paulo Mendes Rodrigues, Joo Car los Haas Sobrinho, Libero 
Giancarlo Castiglia e Osvaldo Orlando da Costa. Romualdo 
Pessoa Cam pos Filho, Guerrilha do Araguaia, pp. 8 1-2.
13 Depoimento de Altino Dantas Jr., em Contribuio  
histria da esquerda brasileira, de Mar co Aurlio Garcia, 
Em Tempo, n 83, 27 de setembro a 3 de outubro de 1979, So 
Paulo, p. 13.
14 Entrevista de Herbert Jos de Souza (Betinho), em seu 
Nofio da navalha, p. 85.
282        A DITADURA ENVERGONHADA
preguia. O caixo de Edson Luis foi carregado da Cinelndia 
ao cemi trio So Joo Batista, acompanhado por um cortejo 
estimado em 50 mil pessoas. Uma faixa dizia: Os velhos no 
poder, os jovens no caixo, e outra perguntava: Bala mata 
fome?. O crime chocara o pas. Era co mo se ele fosse 
esperado havia anos, uma senha de que chegara a hora de fazer 
alguma coisa.
Edson Luis morrera na quinta-feira e fora sepultado na sexta, 
29 de maro. Passariam o sbado e o domingo, mas os 
estudantes e a tro pa tinham um encontro marcado em todo o 
pas para a segunda-feira, 12 de abril, aniversrio da 
Revoluo Redentora de 31 de Maro. Ao anoitecer, o centro 
do Rio viu uma pancadaria sem paralelo desde agos to de 1961, 
quando polcia e defensores da legalidade constitucional se 
enfrentaram por quase uma semana. Morreram mais um estudante 
e um martimo. O balano de dois hospitais mostrava que uma 
lideran a ento desconhecida organizava pelotes de jovens 
dispostos a bri gar: dos 56 feridos listados, trinta eram 
policiais. Poucas vezes a pol cia apanhou tanto, registrou 
Zuenir Ventura, elegante e minucioso cronista de 1968  O ano 
que no terminou. O governo s retomou o controle da 
situao quando 1200 soldados do 22 Batalho de Infan taria 
Blindada desceram pela avenida Presidente Vargas e ocuparam a 
Cinelndia.
As manifestaes do Rio de Janeiro tomaram um curso ambguo. 
Na
oposio, sob a influncia do Partido Comunista e de uma 
liderana de
intelectuais esquerdistas procurava-se manter a legalidade da 
mobiliza 15 Todos os clculos do tamanho das multides que 
foram para as ruas em 1968 parecem ter si do influenciados 
pela imprensa simptica s manifestaes.  possvel que no 
houvesse 50 mil pessoas no cortejo, mas aquela era a maior 
manifestao j ocorrida na cidade desde abril de 1964, 
quando a classe mdia saudou a deposio de Jango.
16 Zuenir Ventura, 1968 O ano que no terminou, p. 102.
17 Cinco anos depois, por falta de interessados em transferir 
os restos mortais de Edson Luis para uma gaveta, eles foram 
levados para o ossrio.
18 Morreram no Rio Jorge Aprgio de Paula e o martimo David 
de Souza Meira. Na represso a uma passeata em Goinia, um 
sargento da Polcia Militar matou o lavador de carros 
Ornalino Cn dido da Silva, de dezenove anos. Nilmrio 
Miranda e Carlos Tibrcio, Dos filhos deste solo, pp. 555 e 
552-3.
19 Zuenir Ventura, 1968 O ano que no terminou, pp. 110 e 
segs.
Y EL CIELO SE ENCUENTRA NUBLADO 283
o. Buscava-se ampliar a coligao que apoiava os estudantes 
e chegou- se a conseguir a adeso de Carlos Lacerda, em cujo 
governo a PM batia at em arquibancada de desfile de escola 
de samba. No corao da es querda, velhas dissidncias e 
novas lideranas mostravam-se dispostas a brigar com a 
polcia. No governo, proibiam-se passeatas, mas tolerava- se 
a realizao de missas de stimo dia. S na jurisdio do i 
Exrcito anun ciaram-se 119.21 Assim como havia uma ttica 
geral para a esquerda e ou tra especfica para as 
dissidncias radicais, havia uma diretriz no governo e outra 
no Centro de Informaes do Exrcito, em alguns comandos da 
Vila Militar e no Ministrio da Aeronutica.
Na quinta-feira oficiou-se na Candelria a maior de todas as 
missas por Edson. Celebraram-na o bispo auxiliar da cidade e 
quinze padres. A igreja, famosa por seus casamentos de gr-
finos ou missas de defuntos milionrios, foi completamente 
tomada. A liturgia transcorreu em paz. Estava-se no final, 
passada a comunho, quando se ouviu a movimenta o da tropa. 
Um esquadro de cavalaria da PM bloqueou os portes da 
igreja. Confundindo a multido que saa com uma passeata que 
come ava, espremeu-a num pequeno trio, mal dando espao 
para que ela pas sasse enfileirada, protegida por uma 
corrente de padres paramentados, de mos dadas. Mesmo 
dispersando-se em paz, a multido foi persegui da. Grupos de 
estudantes foram espancados e alguns, presos. Aqueles que se 
haviam ofendido com o assassinato e se fizeram respeitar no 
enterro foram humilhados na sada da missa.
 noite, faltavam duas pessoas nas rodas bomias de Ipanema: 
os ir mos Ronaldo e Rogrio Duarte. Ronaldo era cineasta e 
Rogrio, um dos mais talentosos intelectuais daquilo que o 
situacionismo chamava de esquerda festiva Baiano, apelidado 
Caos, era capaz de transformar um desfile da escola de samba 
da Portela numa oportunidade para uma di gresso sobre a rara 
riqueza cromtica do azul. Dependendo do que pu nha na 
cabea, intitulava-se piloto de provas da Walita, por gir-
la com a velocidade de um liquidificador. Estavam a um 
quarteiro da Cande
20 Episdio presenciado pelo autor durante o Carnaval de 
1963.
21 Ralph della Cava (org.), A Igreja em flagrante  
Catolicismo e sociedade na imprensa brasilei ra, 1964-1980, 
p. 63, citando a edio de 4 de abril de 1968 do Correio da 
Manh.
284        A DITADURA ENVERGONHADA
lria quando foram agarrados por desconhecidos e enfiados num 
auto mvel. Vendados com toalhas, cruzaram a cidade. Quando 
chegaram ao destino, comearam a ser surrados, at que de 
repente foi trazido um aparelho com uma manivela que dava 
choques eltricos Eles contariam:
Recebemos choques nas costas, a princpio. Depois se 
estenderam s axi las, pescoo, atravs das orelhas e no 
rosto. O aparelho era um magneto. No momento em que eles se 
irritavam mais, a pessoa que acionava o mag neto girava com 
mais intensidade, provocando um choque mais violen to, e 
deixava o fio encostado no corpo mais tempo.
Ficaram catorze dias presos, mas Ronaldo viu que estava num 
quar tel, com jardins e praa de esportes. Foram libertados 
na Barra da Tiju ca. Quando a oposio denunciou na Cmara a 
marca militar do seqes tro, o deputado ltimo de Carvalho, 
defendendo o governo, informou:
Para mim, o principal deste governo e da Revoluo  o 
combate ao co munismo. Isto  o principal. O resto  
acessrio. O comandante do i Exrcito negou que os dois 
irmos tivessem sido encarcerados num de seus quartis, e o 
delegado Marcos Botelho, da 38 Delegacia, onde trami tava o 
inqurito policial do seqestro, comunicou, com a malandragem 
da meganha carioca: A polcia est fora do negcio [ s 
vai apurar at um certo ponto e depois deixar o resto para 
quem tiver peito para se guir em frente
Os irmos Duarte haviam sido seqestrados por militares e 
muito provavelmente ficaram no quartel do 1 Batalho de 
Comunicaes, co mandado pelo coronel Jos Goulart Camara. 
Ele chefiara o 1PM dos cor reios em 1964 e fazia parte da 
roda de oficiais da 28 Seo do i Exrcito, de onde saram os 
scios fundadores do dE. O comando da guarnio
22 Narrativa de Ronaldo e Rogrio Duarte, lida pelo deputado 
Dom Vieira na sesso da Cmara
dos Deputados de 15 de abril de 1968.
23 Aparte do deputado ltimo de Carvalho ao discurso do 
deputado Dom Vieira na sesso de 15
de abril de 1968. Notas taqugrficas consultadas em 1987 no 
Departamento de Documentao
da Editora Abril.
24 Dirio de Notcias, 26 de abril de 1968.
25 A Folha de S.Paulo de 25 de abril de 1968, p. 3, e O 
Jornal de 26 de abril de 1968 publicaram
a denncia contra o coronel. Ele a desmentiu na edio da 
Folha de S.Paulo de 26 de abril de
1968, p. 5.
Y EL CIELO SE ENCUENTRA NUBLADO        285
do Rio abriu uma sindicncia que ouviu as vtimas e fechou-a 
sem ne nhuma concluso. Mais tarde o coronel foi 
burocraticamente retirado do comando, mas prevaleceu a verso 
oficial, segundo a qual o seqestro foi um acontecimento 
misterioso, crime insolvel.
O caso dos irmos Duarte indicava uma mudana de qualidade no 
rumo da anarquia militar. At ento ela se manifestara em 
atos de vio lncia poltica ou fisica, mas os delitos eram 
praticados burocraticamen te dentro da mquina de represso 
poltica. Havia ainda a preocupao de preservar a disciplina 
administrativa do processo policial. As torturas de 1964 
foram praticadas em quartis sabidos, por determinao de ofi 
ciais conhecidos. Os comandantes negavam que os presos 
tivessem sido torturados, mas admitiam que eles estavam 
presos e que tinham sido in terrogados. O seqestro dos dois 
irmos rompera essa barreira. A anar quia deslizara para a 
clandestinidade.
O sucesso do seqestro produziu dois tipos de resultado. O 
primei ro foi o envio de um sinal  sociedade. Dois cidados 
foram seqestra dos e torturados num quartel, e no 
acontecera absolutamente nada. Portanto, outros poderiam 
passar pelo mesmo constrangimento, e nada haveria de suceder. 
Esse sinal torna-se mais claro quando se leva em con ta que 
os irmos Duarte, ainda que populares no seu crculo de amiza 
des, no tinham notoriedade poltica. O seqestro sacava 
impunidade con tra o futuro, pondo no ar uma nova forma de 
conduta. Essa, sem dvida, foi a principal vitria dos 
seqestradores.
A segunda conseqncia, que melhor seria chamar de seqela, 
pro jetou-se dentro da mquina do Estado e, mais 
precisamente, nas For as Armadas. O seqestro fora uma ao 
praticada fora da linha de co mando, com um oficial usando a 
tropa e as instalaes a ele confiadas para fazer o que lhe 
viera  telha. Colocados diante desse novo tipo de anarquia, 
e tendo dois paisanos como vtimas de um delito, os coman 
dantes militares preferiram acobert-lo debaixo de uma 
sindicncia farsesca. Ela parecera destinar-se a garantir a 
impunidade dos seqes tradores, mas iniciava um processo de 
desmoralizao da hierarquia.
286        A DITADURA ENVERGONHADA
Emitira-se tambm um sinal para dentro da burocracia militar. 
Como dizia o marighelismo na sua polmica com o Partido 
Comunista: A ao faz a vanguarda
Uma vanguarda de empresrios cariocas assustados com as mani 
festaes entendeu-se com oficiais do GTE e da Agncia Rio do 
SNI. Deles receberam conselhos e armas para organizar foras 
de autodefesa Da vam-se cursos de tiro, e testavam-se 
explosivos nas matas de Niteri. Mon taram-se aparelhos em 
condomnio com o GTE em catorze ou quinze pontos da avenida 
Rio Branco, por onde desfilavam passeatas e panca darias. 
Chegou-se a planejar uma ao paramilitar de tal envergadura 
que, segundo o marechal Cordeiro de Farias, o Rio s no 
pegou fogo porque uma parte do grupo recuou  ltima hora.
Na tarde da missa da Candelria, por ordem do chefe-de-
gabinete do ministro da Aeronutica, brigadeiro Joo Paulo 
Burnier, trs oficiais e oito graduados da 1 Esquadrilha de 
Salvamento e Resgate da FAB, o Para Sar, foram colocados sob 
o comando de um general, municiados com ar mas cuja numerao 
havia sido raspada, equipados com documentos fal sos e 
enviados em trajes civis para patrulhas de rua. A 
esquadrilha, composta por militares duramente adestrados para 
misses de salva mento, subordinava-se  Diretoria de Rotas 
Areas, e no ao gabinete do ministro. Ela foi posta sob as 
ordens de um oficial que se encontrou com a equipe do Para-
Sar  sorrelfa, numa escola do Campo de Santana, in 
titulando-se General Ramalho. Na realidade, era o general 
Ramiro Tava res Gonalves, comandante da Diviso Blindada. 
Depois de conversar com Ramalho, o comandante da esquadrilha, 
major Gil Lessa de Carva lho, informou aos subordinados: 
Tomem conta principalmente das ja nelas para ver quem atira 
coisas contra a polcia. Caso descubram algu 26 Jacob 
Gorender, Combate nas trevas, p. 109.
27 Entrevista do coronel Luiz Helvecio da Silveira Leite ao 
jornalista Ayrton Baffa, O Estado de S.
Paulo, 24 de fevereiro de 1988. AA.
28 Aspsia Camargo e Walder de Ges, Meio sculo de combate  
Dilogo com Cordeiro de Farias,
p. 268.
29 Para a identificao do general Ramiro/Ramalho, depoimento 
do brigadeiro Joo Paulo Bur nier, em Maria Celina dAraujo, 
Glucio Ary Dillon Soares e Celso Castro (orgs.), Os Anos de 
Chum bo, p. 215.
Y EL CIELO SE ENCUENTRA NUBLADO        287
ma coisa, invadam o local e liquidem com quem estiver l. A 
fuga de vo cs estar coberta.
A operao terminou numa patacoada, pois nem havia franco-ape 
drejadores nos edifcios, nem o Para-Sar viu nada de anormal, 
salvo um saco de plstico atirado de um edificio da 
Cinelndia. Os militares agi ram rpido e, com a ajuda da 
polcia, interditaram o 18 andar do pr dio. Uma verdadeira 
falta de sorte. Acabavam de sitiar os escritrios do Conselho 
Nacional de Petrleo, onde trabalhavam diversos coronis e um 
general. Expulsos, os patrulheiros desceram dois andares, 
acharam um negro e levaram-no para um quartel-general 
clandestino montado no es critrio do Estado-Maior das Foras 
Armadas, a trezentos metros de dis tncia.
O brigadeiro Burnier, que vinha de patrocinar a criao de um
tro de Informaes e Segurana da Aeronutica, o CISA, nos 
moldes do dE, era um veterano encrenqueiro. Em 1959 liderara 
uma revolta contra o governo Kubitschek na qual seus 
partidrios capturaram trs avies mi litares, furtaram um 
Beechcraft, seqestraram um Consteliation da Pa nair e 
tomaram um senador como refm. Desceram na base area de Ara- 
garas, na Amaznia. Planejavam bombardear palcios e 
derrubar o governo, mas fugiram no meio de uma madrugada, 
cinco horas depois de ter cado sobre a regio o boato de que 
o governo estava enviando pra quedistas para acabar com o 
levante. Pioneiro nesse tipo de ao ter rorista, Burnier 
fugira para a Bolvia no Beechcraft e voltara  FAB em 1961, 
nas asas de uma anistia. Trs anos depois, na noite de 31 de 
maro de 1964, era um dos comandantes da defesa do palcio 
Guanabara.
Depois da missa de Edson Luis, no dia 4 de abril, pensou-se 
que o Rio de Janeiro entraria numa trgua. Quando a classe 
mdia parecia acal mar-se, explodiu uma greve de metalrgicos 
no municpio mineiro de Con tagem, nas cercanias de Belo 
Horizonte. Primeiro pararam 1200 trabalha-
30 Jornal do Brasil, 27 de outubro de 1968: Caso do Para-Sar 
chega  Justia p. 18.
31 Idem.
32 Para uma narrativa da participao de Burnier em 
Aragaras, ver Jos Amaral Argolo e outros,
A direita explosiva no Brasil, pp. 98 e segs. Nas pginas 116 
a 121 est a reportagem do fotgrafo
Campaneila Neto, testemunha acidental do episdio, publicada 
pela revista Mundo Ilustrado.
288        A DITADURA ENVERGONHADA
dores da siderrgica Belgo-Mineira. Em trs dias o movimento 
alastrou- se para quatro outras indstrias, e o nmero de 
operrios parados subiu a 16 mil. Depois de duas semanas de 
negociaes, os trabalhadores leva ram um abono de 10% e o 
gosto de terem ferido a poltica salarial do go verno. Por 
trs do movimento estavam a AP e uma nova sigla, o Colina 
(Comando de Libertao Nacional). Formado essencialmente por 
trots kistas do meio estudantil de Minas Gerais, foi a 
primeira organizao a defender o recurso ao terrorismo 
chamando-o pelo nome.
Uma data mgica  1 de maio  uniu dois oportunismos e sepa 
rou fisicamente a esquerda brasileira. A direo paulista do 
PCB teve a idia de realizar um comcio na praa da S. Por 
cautela, mandou emissrios ao governador Roberto de Abreu 
Sodr, pedindo-lhe autorizao. Sodr, as pirante a candidato 
 Presidncia da Repblica nas eleies indiretas pre vistas 
para 1970, no s autorizou a manifestao, como informou que 
a ela compareceria. Trinta anos antes, nas comemoraes do 
Primeiro de Maio da ditadura de Vargas, ele panfletara o 
estdio do Pacaembu, ao preo de quinze dias no poro do 
DOPS. A manifestao foi publicamente boico tada pelas siglas 
clandestinas e at pelo partido de oposio legal, o MDB.
Mesmo assim, havia alguns milhares de pessoas na praa. O 
Parti- do levara seus militantes, os pelegos compareceram 
com alguma platia, e o evento parecia um verdadeiro sucesso. 
At bases sindicais ligadas  esquerda radical do ABC tinham 
aparecido em nibus fretados. O presi dente do Sindicato dos 
Metalrgicos de Osasco, Jos Ibrahim, estava no palanque. Na 
multido havia velhos quadros do PCB afastados da orga 
nizao por discordarem de seu pacifismo. Era o caso do 
veterano Ant nio Raymundo Lucena, que levara seu filho 
Ariston, de dezessete anos. Havia tambm novos nomes da 
liderana operria, como Jos Campos
33 Celso Frederico (org.), A esquerda e o movimento operrio 
 1964-1 984, vol. 1: A resistncia 
ditadura, p. 168.
34 Daniel Aaro Reis Filho e Jair Ferreira de S (orgs.), 
Imagens da revoluo, p. 158.
35 Roberto de Abreu Sodr, No espelho do tempo, p. 34.
36 Fernando Perrone, 68  Relato de guerras: Praga, So 
Paulo, Paris, p. 82.
Y EL CIELO SE ENCUENTRA NUBLADO        289
Barreto, o Zequinha, um jovem ex-seminarista, filho de 
lavradores do ser to baiano, que operava em Osasco. Algumas 
das moas da usi usavam a chamada fardinha Che Guevara: 
saia curta, de lonita bege ou esver deada, bluso cqui, 
sapatos baixos.
Quando o primeiro orador tentou falar, foi abafado pelas 
vaias. Veio outro, e nada. Sodr, com a autoridade de 
governador do estado, pegou o microfone e comeou: 
Trabalhadores de So Paulo: ns os trabalha dores.. . 
Primeiro sumiu o som. Depois choveram paus, ovos e pedras. 
Uma batata cravejada acertou a cabea do governador, 
deixando-a com um talho. O palanque foi invadido e 
incendiado. Comunistas e autori dades, corridos. Um deputado 
foi atacado a pauladas. De megafone na mo, os invasores 
hastearam um retrato do Che, discursaram e incendia ram o 
palanque. O comcio transformou-se numa passeata em direo 
ao centro da cidade, e a baderna terminou com a destruio 
das vidra as de uma agncia do Citibank.
Sodr e os comunistas haviam sido atrados para uma iluso de 
ti ca. Uma parte daquela multido que parecia estar na praa 
para ouvi-los fora enxot-los. Num dos nibus fretados viera 
uma tropa de choque or ganizada no ABC por ex-sargentos e 
militantes das dissidncias esquer distas. O prprio 
Marighella participara do estratagema. Antnio Ray mundo 
Lucena e seu filho nada mais tinham a ver com o PCB. 
Zequinha, muito menos. Eram quadros da esquerda armada, assim 
como a maio ria das pessoas que estavam na primeira fila do 
comcio. Foram  praa da S para apedrejar Sodr.
Desde o incio da crise, So Paulo movia-se num compasso 
diferen te daquele que marcava o ritmo e os objetivos da 
agitao do Rio de Ja neiro. L, faltavam  esquerda as 
multides cariocas, capazes de uni-la. Disso resultava um 
distanciamento abrasivo entre as vrias organizaes. 
Composies como a Frente Ampla e as comisses unitrias de 
organi 37 Depoimento de Jos Ibrahim, em Antonio Caso, A 
esquerda armada no Brasil  1967-71,
p. 64.
38 Para a batata e o incndio, Roberto de Abreu Sodr, No 
espelho do tempo, p. 158.
39 Jos Ibrahim, em Antonio Caso, A esquerda armada no Brasil 
 1967-71, p. 65.
40 Ariston Lucena, agosto de 1988.
290        A DITADURA ENVERGONHADA
zao de passeatas, com todas as suas negociaes e 
compromissos in ternos, no passavam pelo cotidiano da 
esquerda paulista.  diferena do Rio, no havia em So Paulo 
uma nobiliarquia de intelectuais e polticos esquerdistas com 
um p nas assemblias e outro nos sales ou no poder local, 
mediando o conflito entre a rua e a elite. Enquanto na antiga 
capi tal prevalecia o modelo das alianas tradicionais, em 
So Paulo brotavam organizaes armadas. Na praa da S, 
naquele Primeiro de Maio, um pe dao da esquerda foi para um 
lado, enquanto o Partido Comunista, sur rado, foi para o 
outro. S voltariam a encontrar-se dezesseis anos depois, na 
mesma praa, quando nela foi lanada a campanha pelas 
eleies di retas para a Presidncia da Repblica.
Em maio a roda de Aquarius comeava sua ltima grande volta. 
Ferica e incontrolvel, ela se fazia ouvir desde o incio do 
ano. Da Itlia  Etipia, de Nova York ao Japo, estudantes 
haviam tomado universi dades e avenidas, mas agora a revolta 
explodira em Paris. A Sorbonne fo ra ocupada, o Quartier 
Latin tornara-se um campo de batalha onde a po lcia apanhava 
e velhos polticos eram postos para correr por uma juventude 
que tinha uma pedra na mo e idias esquisitas na cabea:  
proibido proibir; Seja realista, exija o impossvel; Meus 
desejos so reais porque eu acredito na realidade dos meus 
desejos
Charles de Gaulle, o monarca da Quinta Repblica, viu-se a um 
passo da deposio pela choidra que defenestrara Lus xvi e 
Carlos x. Dois meses antes o presidente Lyndon Johnson 
anunciara que, diante da di viso dos lares americanos no 
disputaria a reeleio em novembro.
No Brasil havia a sensao de que o Maio Francs comeara em 
maro. O governo e o movimento estudantil vinham se 
cozinhando em fogo brando. Costa e Silva ameaava com o 
estado de stio, e as lideran as estudantis chegavam a 
desej-lo. Faziam greves no Paran e na Bahia, passeatas em 
Botucatu e Osasco. Pela mais efetiva das regras do metabo 
lismo das agitaes juvenis, elas se multiplicam quando o 
governo lhes d o fator da represso. Isso estimula uma 
astuciosa atitude provocado ra das lideranas estudantis. Ela 
passa a procurar confrontos para alavan car novas 
manifestaes. No dia 19 de junho, 1500 jovens invadiram o 
velho hospcio onde funcionava a reitoria da Universidade 
Federal do Rio de Janeiro. Tangeram o Colendo Colgio de 
professores, bem como seu
Y EL CIELO SE ENCUENTRA NUBLADO        291
Magnfico Reitor, para uma assemblia ao ar livre onde os 
vaiaram e in sultaram. A liderana estudantil jogava na carta 
da radicalizao, mas essa no era a nica provocao em 
curso, muito menos a maior.
Cinco dias antes, o brigadeiro Burnier chamara ao seu 
gabinete os in tegrantes da esquadrilha do Para-Sar. Estava 
aborrecido com as restries que um dos seus oficiais, o 
capito Srgio Miranda de Carvalho, lhe apre sentara por 
conta da utilizao da tropa na tarde da missa da Candelria. 
Diante de trs oficiais e onze graduados, Burnier atacou: 
Vocs sabem que para saber salvar  preciso saber matar. [ 
Matar no  fcil, matar  uma coisa difcil. Para saber 
matar bem  preciso que a mo no trema, a mo no pode 
tremer. Para cumprir misses de morte na guerra  preciso sa 
ber matar na paz. Deve-se sentir o gosto de sangue na boca 
Enquanto discursava, dirigia-se a cada um dos ouvintes: 
Entendeu, japons?, Con corda, major? Burnier 
especificara at mesmo uma vtima: Figuras po lticas como 
Carlos Lacerda  esse canalha que muita gente pensa ser meu 
amigo  deveriam j estar mortas. O capito Srgio disse-lhe 
que no concordava com os assassinatos. Burnier interrompeu-
o: Pois ser afas tado do Para-Sar. E vai sentir todo o peso 
dos meus gales!
Srgio Macaco, como o capito era conhecido na FAB, ou 
Namingu Caraba (Homem Branco Amigo), como contava que era 
conhecido pelos ndios da Amaznia, aos 37 anos, com 6 mil 
horas de vo, novecentos sal tos e quatro medalhas de sangue, 
era um dos oficiais mais qualificados da Fora Area. A tropa 
do Para-Sar, com seu rigoroso adestramento, era forma da por 
militares profissionais que se comparavam s melhores 
companhias da Brigada Pra-Quedista do Exrcito e do Corpo de 
Fuzileiros da Mari
41 Zuenir Ventura, 1968 O ano que no terminou, pp. 139-42.
42 Os catorze participantes da reunio responderam 
posteriormente a um questionrio em que lhes era idagado se 
tinham ouvido Burnier falar em saber matar sentir o gosto 
de sangue na boca e na execuo de figuras polticas como 
Carlos Lacerda O major Gil Lessa de Carvalho e o capito 
Loris Areas Cordovil desmentiram que Burnier houvesse dito 
essas frases. Um capito, Roberto Camara Lima Ypiranga dos 
Guaranys, confirmou-as genericamente. Alm do capito Sr 
gio, dez graduados confirmaram-nas. Destes, trs sargentos 
acrescentaram que o brigadeiro tam bm falou em atirar as 
vtimas de avies em vo. Ver as Interpelaes encaminhadas 
pelo briga deiro Itamar Rocha, diretor-geral de Rotas Areas, 
respondidas pelos participantes da reunio, documento cedido 
ao autor pelo capito Srgio. s
43 Para o apelido dado pelos ndios, Srgio Miranda de 
Carvalho, fevereiro de 1987.
292        A DITADURA ENVERGONHADA
nha. Utilizar uma tropa desse tipo em aes de contra-
insurreio poderia ser uma tentativa de formar no Brasil 
algo semelhante ao legendrio esqua dro do Special Air 
Service britnico, que azucrinara as linhas alems no deserto 
da Cirenaica e fizera fama mundial destruindo a guerrilha 
malaia.
O negcio de Burnier, no entanto, no era manter a ordem, mas 
ma nipular a desordem. No s pela referncia que fez  
necessidade de ex termnio de figuras polticas como pelo 
detalhamento que teria dado a essa idia dois dias antes, 
numa conversa a ss com Srgio Macaco. Mui to mais grave na 
essncia, esse encontro no teve testemunhas. Era a pa lavra 
de um contra a do outro.
A palavra do capito: O plano do Burnier era explodir a 
Sears, a em baixada americana e o Citibank. No mesmo dia das 
outras exploses ns deveramos dinamitar o gasmetro da 
avenida Brasil. Isso permitiria uma matana de comunistas. Na 
lista das pessoas a serem exterminadas estavam o Lacerda, 
Jnio, o general Mouro Filho Na palavra de Bur nier essa 
proposta nunca foi feita. Alm disso, a conversa teria 
ocorrido em junho, e o capito s a denunciou em outubro.
Srgio Macaco denunciou Burnier ao brigadeiro Dlio Jardim de 
Mattos. Ao contrrio do que acontecera no Exrcito com o 
seqestro dos irmos Duarte, um pedao da Aeronutica foi  
luta contra a dissidncia radical. Como Burnier, Dlio era um 
oficial de fama.  diferena dele, man tivera-se dentro dos 
regulamentos disciplinares. Em 1954 prendera pes soalmente no 
meio do mato o pistoleiro Climrio Euribes de Almeida, guar 
da-costas de Getulio Vargas que participara do assassnio de 
um major da FAB num atentado fracassado contra Carlos 
Lacerda. Em 1964 Geisel co lo cara-o na subchefia da 
Aeronutica do Gabinete Militar da Presidncia. Como sucedera 
a todos os oficiais que trabalharam diretamente com Gei sel, 
naqueles dias Dlio comandava uma mesa. Cuidava de papis na 
Di retoria de Documentao Histrica da Aeronutica. No 
poderia enfren tar os gales de Burnier, mas seu prestgio na 
FAB vinha da estreita ligao
44 Srgio Miranda de Carvalho, fevereiro de 1987.
45 Depoimento do brigadeiro Joso Paulo Burnier, em Maria 
Celina dAraujo, Glucio Ary Dii lon Soares e Celso Castro 
(orgs.), Os Anos de Chumbo, p221.
46 Dlio Jardim de Mattos, 1973.
Y EL CIELO SE ENCUENTRA NUBLADO        293
pessoal que mantinha com o brigadeiro Eduardo Gomes, uma 
espcie de
santo padroeiro da Aeronutica, que o considerava como um 
filho.
Revoltoso de 1922, adversrio da ditadura de Vargas e de seu 
filona zismo dos primeiros anos da guerra, o Brigadeiro, como 
era chamado, tornara-se smbolo do liberalismo militar 
brasileiro. Duas vezes candi dato a presidente, duas vezes 
batido, vivia com uma irm, comungava qua se todos os dias, 
falava pouco e ouvia muito, sobretudo a Dlio. Nas eter nas 
brigas da FAB tivera muitos adversrios, mas jamais um 
desafiante. Com a denncia de Srgio Macaco, a essa altura 
ainda coberta pelo sigi lo, abria-se a mais sria das crises 
do governo Costa e Silva: a sua eroso militar. Essa era a 
crise invisvel.
Na crise visvel  a da rua  a ocupao da reitoria da 
Universida de Federal do Rio de Janeiro reabriu o ciclo de 
provocaes que parecia amainado desde que se celebrara a 
missa da Candelria. No incio da noi te de quinta-feira, dia 
20 de junho, quando os estudantes, amparados na palavra do 
reitor, se retiraram da assemblia, a Polcia Militar os 
atacou. Uns apanharam dos PM5 enfileirados pelas caladas. 
Muitos fugiram, mas algumas centenas de jovens foram 
encurralados no campo de futebol do estdio do Botafogo, a 
menos de duzentos metros de distncia. Captu rados na 
armadilha, viram-se rendidos, espancados e humilhados. Dei 
taram-nos no gramado, obrigaram-nos a andar de quatro. Alguns 
PM5 uri naram sobre presos.
Assim como ocorrera em maro com a morte de Edson Luis, o Rio 
de Janeiro acordaria em sobressalto, com as primeiras pginas 
dos jor nais exibindo lgubres fotografias de garotos 
deitados no escuro, debai xo das botas da polcia. Com uma 
diferena: dessa vez os jovens no eram secundaristas 
annimos ou biscateiros calaboais Eram os dourados fi lhos 
da elite. Sucedeu-se a Sexta-Feira Sangrenta O centro do 
Rio foi tomad6 por um sururu que se iniciou por volta das 
nove da manh e aca bou no final da tarde com uma carga de 
cavalaria da Polcia Militar. No fim da jornada havia mais 
mortos: um PM com a cabea esmagada por
47 Para OS PMS urinando, depoimento de Viadimir Palmeira, de 
novembro de 1995, em Dirio da
patetocracia, coletnea de crnicas de Jos Carlos Oliveira, 
p. 271.
294        A DITADURA ENVERGONHADA
um tijolo jogado do alto de um edifcio e trs estudantes, 
entre os quais uma jovem, Maria ngela Ribeiro, alvejada na 
fronte por um policial. Ia comear tudo de novo.
A nobiliarquia intelectual carioca reuniu-se naquela mesma 
noite. Sua ttica vinha do receiturio do regime de 1946. A 
resposta  provoca o seria uma nova manifestao, pacfica, 
unitria. No s a ttica estava vencida  esquerda e  
direita, como o prprio cenrio da principal reunio da noite 
simbolizava o crepsculo de uma poca. Os intelectuais, sem 
lide rana sobre os estudantes, encontraram-se no apartamento 
do ex-depu tado comunista Sinval Palmeira, um latifndio de 
oitocentos metros qua drados na avenida Atlntica. No mesmo 
prdio moravam o deputado Tancredo Neves (apartamento 801) e 
o ministro das Relaes Exteriores, Magalhes Pinto (401 ).49 
Chamado Golden State, esse edifcio tambm era 
maledicentemente conhecido por S Dimas, numa referncia ao 
padroei ro dos ladres, pois fora construdo com dinheiro da 
Caixa Econmica Fe deral no governo Kubitschek e vendido aos 
seus primeiros compradores, como era praxe na poca, sem 
nenhuma correo monetria. Comearam ali as articulaes 
para uma grande passeata na semana seguinte.
Faltavam dois dias para a manifestao do Rio de Janeiro, 
quando uma camionete Chevrolet C-14 chegou no meio da noite 
ao hospital mi litar do Cambuci, em So Paulo. Dela baixou um 
comando, chefiado pe lo ex-sargento Pedro Lobo de Oliveira. 
Quatro homens disfarados com fardas do Exrcito amordaaram 
duas sentinelas e limparam o corpo da guarda, onde dormiam 
mais alguns soldados. Levaram nove fuzis FAL, no vos em 
folha. Ao acordar, o comandante do ii Exrcito, general Ma 
noel Carvalho Lisboa, revidou com uma bravata: Atacaram um 
hospi tal, que venham atacar meu quartel!. Seu quartel 
ficava no parque do Ibirapuera, numa caixa de concreto 
ajardinada.
48 Morreram tambm o PM Nelson de Barros, Manoel Rodrigues 
Ferreira e Fernando da Silva
Lembo,
49 Zuenir Ventura, 1968 O ano que no terminou, p. 144.
50 Carlos Alberto Brilhante Ustra, Rompendo o silncio, p. 
49. Antonio Caso, A esquerda armada
no Brasil l 125.
51 Antonio Caso, A esquerda armada no Brasil 1967/71, p. 
134.
Y EL CIELO SE ENCUENTRA NUBLADO        295
Menos de 48 horas depois, na madrugada de 26 de junho, uma 
colu na de carros marchava em direo ao quartel do general 
Lisboa levando a resposta.  frente ia uma camionete C- 14. 
Atrs, trs Volkswagens. Eram oito pessoas, algumas delas, 
como a camionete, veteranas da operao do Cambuci. Perto do 
quartel-general os fuscas pararam, e um dos passagei ros da 
camionete saltou. Logo em seguida saltou o motorista. Uma 
senti nela atirou seis vezes. A C- 14 prosseguiu sozinha, com 
o acelerador preso por um dispositivo mecnico. Deveria 
chocar-se contra o porto do quar tel e haveria de derrub-
lo. Desgovernou-se, bateu num poste e parou jun to a um muro. 
O soldado Mrio Kozel Filho, o Kuka, dezoito anos, saiu de 
sua guarita para inspecionar o carro quando uma carga de 
cinqenta qui los de dinamite o explodiu. Seis outros 
militares saram feridos. Soma do ao PM morto no Rio, Kozel 
era o segundo cadver fardado do ano.
Os dois atentados de So Paulo significaram o incio da fase 
de com bates ostensivos entre as organizaes dispostas a 
praticar atos terroris tas e o regime. Desde o ano anterior 
vinham sendo organizadas clulas, assaltados bancos e 
planejados novos ataques nas cidades ou bases de guer rilha 
rural. Essas iniciativas ainda amparavam-se essencialmente no 
es querdismo militar expurgado em 1964 e fermentado em Cuba. 
Dos doze participantes do planejamento e dos ataques ao 
hospital do Cambuci e ao QG do Ibirapuera, sete eram ex-
militares, seis dos quais tinham pas sado pelos campos de 
treinamento de Havana. S quatro, dois dos quais eram 
mulheres, no tinham sido adestrados pelas Foras Armadas bra 
sileiras ou cubanas.
O efetivo da esquerda radical deixara de ser um prolongamento 
da gerao que fora ao comcio da Central em 1964. Abastecia-
se agora tam bm na populao que fizera as marchas 
religiosas contra Joo Goulart. No Rio de Janeiro, um dos 
comandantes da ocupao da UFRJ fora o es tudante de qumica 
Jean Marc van der Weid, que no dia 31 de maro esta va no 
palcio Guanabara, disposto a morrer pela liberdade na 
defesa da
52 Depoimento de Jos Ronaldo Tavares de Lira e Silva, em 
Antonio Caso, A esquerda armada no
Brasil  1967/71, pp. 135 e segs. Carlos Alberto Brilhante 
Ustra, Rompendo o silncio, pp. 51 e segs.
Ver tambm Judith Lieblich Patarra, lara, p. 226, e O 
atentado ao quartel-general do ii Exrcito
no stio Terrorismo nunca mais, Ternuma: 
<http://www.ternunia.com.br/qg-2exer.htm>.
296        A DITADURA ENVERGONHADA
democracia e de Carlos Lacerda. Depois de passar uma tarde 
correndo da polcia pelas ruas do centro, Alfredo Sirkis, de 
dezoito anos, teve um mo mento de felicidade ao ver que seus 
companheiros tinham quebrado os vidros da embaixada 
americana. Meses antes, trocara por uma fotografia de Che 
Guevara o retrato de John Kennedy que tinha em seu quarto. Em 
1964, fora defender a democracia nos jardins do palcio 
Guanabara. A exploso do Ibirapuera foi abafada pela passeata 
do Rio de Janeiro, ini ciada horas depois. Ela entrou para a 
histria da luta pelas liberdades p blicas com o nome de 
Passeata dos Cem Mil. Como o professor Deocle cio Redig de 
Campos, diretor dos Museus Vaticanos, dizia quando mostrava o 
Juzo Final de Michelangelo, no paredo da Capela Sistina, 
foi o ma gistral pano de boca que caiu sobre uma poca, 
encerrando-a
Olhada, a passeata era uma festa. Manifestao de gente 
alegre, mu lheres bonitas com pernas de fora, juventude e 
poesia. Caminhava em cor des. Havia nela a ala dos artistas, 
o bloco dos padres (150), a linha dos deputados. Ia abenoada 
pelo cardeal do Rio de Janeiro, o arquiconser vador d. Jaime 
Cmara, que em abril de 1964 benzera a Marcha daVit ria. 
Muitas pessoas andavam de mos dadas. Todo o Rio de Janeiro 
pa recia estar na avenida. A serena figura da escritora 
Clarice Lispector e Norma Bengell, a desesperada de Terra em 
transe; Nara Leo, Vinicius de Moraes e Chico Buarque de 
Hollanda, que com a poesia de Carolina, e seus olhos 
verdes, encantava toda uma gerao. Personagens sados da 
crni ca social misturavam-se com estudantes sados do DOPS. 
Do alto das ja nelas a cidade jogava papel picado. Catedral 
frentista, a Passeata dos Cem Mil saiu da Cinelndia, jovem, 
bela e poderosa. Parecia o funeral do con sulado militar.
Ouvida, era maravilhoso veculo de um anacronismo poltico. O 
slo gan mais repetido da manifestao anunciava o fim do 
regime. Um pe dao gritava: O povo organizado derruba a 
ditadura Outro pedao corrigia: O povo armado derruba a 
ditadura No se contrapunham, com plementavam-se. Quem os 
ouvisse de longe poderia escolher o adjetivo
53 Daniel Aaro Reis Filho e Pedro de Moraes, 1968 A paixo 
de uma utopia, p. 118.
54 Alfredo Sirkis, Os carbonrios, pp. 109 e 57.
Y EL CIELO SE ENCUENTRA NUBLADO        297
de sua preferncia e acreditar que todos estivessem dizendo a 
mesma coi sa. Bicfala, a passeata estava na rua porque 
desde maro a liderana ra dical forava choques com o 
governo, mas fora a frente poltica costura da pela caciquia 
moderada que abrira a avenida para o povo.
Essa grande manifestao teve ponto de partida, a Cinelndia, 
mas tendo deixado a avenida num momento de sonho, tudo se 
acabou nas trans versais. Depois de parar gloriosamente na 
Presidente Vargas, vagou ema grecida at os ps da esttua de 
Tiradentes, em frente ao prdio da Cma ra dos Deputados. L 
Vladimir Palmeira, o mais popular dos dirigentes estudantis, 
ameaou: A partir de hoje, para cada estudante preso, as en 
tidades estudantis promovero o encarceramento de um 
policial
A passeata fora a maior vitria conseguida pela oposio 
desde as eleies de 1965, mas seu capital poltico era 
inconversvel. Nela no ha via uma s alma que admitisse a 
hiptese da continuao do regime. A extrema esquerda queria 
que o povo armado derrubasse a ditadura e co measse a 
revoluo socialista. O Partido queria que o povo organiza 
do derrubasse a ditadura, revogasse as leis do castelismo e 
formasse um governo de coalizo. Os liberais da oposio 
admitiam que Costa e Silva permanecesse no poder, desde que 
ainda no seu mandato reformasse a Constituio, promulgasse 
uma anistia e abrisse o caminho para a con vocao de 
eleies diretas para a sua sucesso.
Desde abril o governo oscilava entre a ameaa do estado de 
stio e uma tolerncia marota, mas em nenhum momento circulou 
nele a idia de atender sequer  mais secundria das 
reivindicaes oposicionistas. Enquanto isso, 1968 mudava de 
cara. Os dias esplendorosos dos primei ros meses ofuscaram a 
complexidade daquele ano memorvel. Ele come ara com a 
ofensiva do Tet e a desistncia de Lyndon Johnson, com as 
barricadas de Paris e o pnico de De Gaulle, com as agitaes 
em Vars via e a*Primavera de Praga. Estampido e no estopim, 
1968 entrou no se gundo semestre com Martin Luther King Jr. 
assassinado numa varanda de Memphis e Robert Kennedy, 
candidato democrata  Presidncia dos
55 Para uma descrio minuciosa da passeata, ver Zuenir 
Ventura, 1968O ano que no termi nou, pp. 155 e segs., e 
Jos Dirceu e Viadimir Palmeira, Abaixo a ditadura, pp. 139-
43.
298        A DITADURA ENVERGONHADA
Estados Unidos, morto num corredor de hotel na Califrnia. Em 
novem bro, o republicano Richard Nixon ganhou a eleio. De 
Gaulle, batido em maio, convocou uma eleio e, em junho, 
consolidou sua maioria parla mentar, tomando  esquerda cem 
cadeiras na Assemblia Nacional. A Tche coslovquia foi 
ocupada pelas tropas russas em agosto. Aquilo ue pare cera o 
incio de um novo tempo era o seu desfecho.
Terminada a passeata, Costa e Silva concordou em receber uma 
co misso de representantes da manifestao para um encontro 
no Planal to e com ela se reuniu num episdio pattico. 
Comeou com uma dispu ta sobre a indumentria de dois 
estudantes sem palet. Acabou num bate-boca. Tratava-se de 
uma conversa de mudos com surdos. A comis so, que 
representava uma passeata, no tinha mandato nem influncia 
sobre a esquerda radical, faltando-lhe ainda coragem e 
vontade para de nunci-la. Costa e Silva, por sua vez, no 
tinha comando sobre a anar quia militar, faltando-lhe 
autoridade e vontade para enquadr-la.
O terrorismo militar, iniciado com o seqestro dos irmos 
Duar te, mudou de ttica. Conta um dos oficiais que 
patrocinaram essa ofen siva: Ns fizemos uma reunio no CIE 
e resolvemos agir contra a es querda. Definimos qual era o 
campo mais fraco e decidimos que era o setor de teatro. Em 
seguida, comeamos a aporrinhar a vida dos comu nistas nos 
teatros. A gente invadia, queimava, batia, mas nunca mata va 
ningum.
Atribuam as operaes a altos escales, mas eram operaes 
clan destinas de escales inferiores. [ Os grupos dessas 
aes eram forma dos por majores, capites, tenentes, 
sargentos e civis, uma frente de re sistncia anticomunista, 
contando com o apoio de civis, seja para apare1hos seja para 
a execuo de certas operaes.
56 Zuenir Ventura, 1968  O ano que no terminou, pp. 167 e 
segs.
57 Coronel Luiz Helvecio da Silveira Leite, maio de 1985.
58 Entrevista do coronel Luiz Helvecio da Silveira Leite ao 
jornalista Ayrton Baifa, O Estado de S.
Paulo, 24 de fevereiro de 1988. AA.
Y EL CIELO SE ENCUENTRA NUBLADO 299
Em julho e agosto, no Rio, puseram-se bombas em dois teatros. 
De pois varejou-se em So Paulo o teatro Ruth Escobar. 
Encenava Roda-Viva, espetculo de Chico Buarque de Holianda, 
dirigido por Jos Celso Mar tinez Corra. Um ano antes ele 
dirigira uma primorosa verso dO rei da vela, de Oswald de 
Andrade. Apaixonado delirante, Z Celso concebera uma 
provocao cultural:  preciso provocar o espectador, cham-
lo de burro, recalcado, reacionrio O texto contava a 
histria da construo mistificadora de um dolo musical. A 
montagem pretendia lanar o tea tro da porrada e inclua 
cenas de bolina entre um anjo e a Virgem, j en volvida numa 
cena ertica com seu Filho. Terminava com a morte do he ri, 
cujo figado era estraalhado em cena. Z Celso resolveu 
despedaar um fgado de verdade (de boi), sujando parte da 
platia.
Roda-Viva foi atacada pelo brao ostensivo do terrorismo 
parami litar em So Paulo, o Comando de Caa aos Comunistas, 
o CCC. Tinha o ministro da Justia, Gama e Silva, como 
orientador. Segundo um de seus fundadores, delegado do DOPS, 
nove entre dez militantes de sua tropa de choque eram 
oficiais do Exrcito. Seus quadros civis treinavam num s tio 
em Cotia, e seus instrutores eram militares. Na noite de 17 
de julho, quando o espetculo acabou, os camarins foram 
invadidos. Dezenas de galalaus entraram batendo, com pedaos 
de pau e socos-ingleses. Orga nizaram um corredor polons e 
obrigaram os atores a ir para a rua co mo estivessem. A atriz 
Marlia Pra e seu colega Rodrigo Santiago foram nus. 
Continuaram apanhando em frente ao prdio do teatro, diante 
de uma platia atnita e de duas guarnies da radiopatrulha, 
imveis. Pra foi socorrida por uma camareira que a cobriu 
com um bluso.
59 Jos Amaral Argolo e outros, A direita explosiva no 
Brasil, p. 278.
60 Zuenfr Ventura, 1968 O ano que no terminou, pp. 88-93.
61 Entrevista de Joo Marcos Monteiro Flaquer a Luiz Antonio 
Giron, Folha de S.Paulo, 17 de ju lho de 1993, Ilustrada, pp. 
4-1 e 4-4.
62 Depoimento do delegado Raul Nogueira de Lima (Raul 
Careca), em Percival de Souza, Autp sia do medo, pp. 3 79-
80.
63 Entrevista de Joo Marcos Monteiro Flaquer a Luiz Antonio 
Giron, Folha de S.Paulo, 17 de ju lho de 1993, Ilustrada, pp. 
4-1 e 4-4.
64 Entrevistas de Joo Carlos Monteiro Flaquer (mencionado 
como Joo Marcos Monteiro Fla quer e Joo Marcos Flaquer em 
outras reportagens) e do ator Rodrigo Santiago a O Estado de


xxx
300
A DITADURA ENVERGONHADA
No Rio, os dispositivos montados no teatro Opinio para 
prevenir atentados inibiram as tentativas de deixar uma carga 
de retardo debai xo das arquibancadas de madeira da arena. 
Optou-se ento pela des truio total. Numa madrugada de 
chuva, com algumas cargas ocas e co quetis molotov, acabamos 
com o teatro, conta um dos oficiais do CIE que planejou a 
operao. Acabara-se o Opinio, um teatro sujo, per dido no 
esqueleto de um shopping center inacabado. L a cultura bra 
sileira escreveu uma das suas belas pginas. Trs anos antes, 
Nara Leo cantara:
Y ei cielo se encuentra nublado
No se ve relucir una estrelia
Los motivos dei trueno y dei rayo
Vaticinan segura tormenta.
Com a impunidade e a rotina, os atentados tornaram-se mais 
vio lentos e seus autores, menos cuidadosos. Em outubro, 
quando a Censu ra proibiu Roda- Viva, foram seqestrados em 
Porto Alegre a atriz Eh zabeth Gasper e o guitarrista Zelo. 
Levaram-nos para uma clareira e ordenaram-lhes que repetissem 
a cena de erotismo da Virgem com seu Filho, mas desistiram e 
libertaram-nos. Poucos dias depois do seqes tro de Porto 
Alegre o coronel Fiza de Castro, chefe do CIE, mandou que 
fosse seqestrada em So Paulo a atriz Norma Bengell. 
Capturaram-na na porta de um hotel e levaram-na para a 
central de interrogatrios do centro, que funcionava no 
Peloto de Investigao Criminal (pic) da
64 S. Paulo de 29 de abril de 1988, em caderno dedicado ao 
ano de 1968. Zuenir Ventura, 1968 O ano que no terminou, p. 
236. Para Marlia Pra, seu depoimento em O Estado de S. 
Paulo de 11 de dezembro de 1988, p. 7.
65 Entrevista do coronel Luiz Helvecio da Silveira Leite ao 
jornalista Ayrton Baffa, O Estado de S. Paulo, 24 de 
fevereiro de 1988. AA.
66 Uma cano da Guerra Civil espanhola, em Liberdade, 
liberdade, de Flvio Rangel e Millr Fer nandes, p. 81.
67 Veja de 16 de outubro de 1968, p. 22, e Zuenir Ventura, 
1968  O ano que no terminou, pp. 229 e segs.
Y EL CIELO SE ENCUENTRA NUBLADO        301
Polcia do Exrcito da Vila Militar. Interrogaram-na, 
desculparam-se e
libertaram-na.
Durante o ano de 1968, no Rio de Janeiro, o terrorismo de 
direita praticou vinte atentados com explosivos e dois duplos 
seqestros. Au todenominado terrorismo branco evitava 
situaes em que pudesse fa zer vtimas e, de fato, no matou 
ningum. Nenhum dos ataques foi in vestigado. Num caso, como 
o GTE no soubesse a quem atribuir um atentado ao depsito do 
Jornal do Brasil, em cuja vizinhana se deixara uma pichao 
informando que a UNE cumpre, bastou um telefonema a um 
notrio militante do grupo para esclarecer que a esquerda 
nada ti vera com aquela bomba. Se no caso dos irmos Duarte 
houve uma sin dicncia de fancaria, nos seguintes, nem isso.
Dois oficiais  o tenente-coronel Luiz Helvecio da Silveira 
Leite (da ativa, no GTE) e o coronel Alberto Fortunato (da 
reserva, na Diviso de Segurana e Informaes do Ministrio 
do Interior)  participaram da cena de dez atentados a bomba. 
Sob as vistas de um agente do GTE, For tunato lanou dez 
bananas de dinamite gelatinosa contra a representa o 
comercial da URSS na rua Alice. Dois tenentes-coronis 
bombarde aram a embaixada da Polnia. Desse grupo, anexo ao 
GTE, partiram dezoito das vinte bombas que explodiram na 
cidade. Os conhecimentos
68 Goronel Lujz Helvecio da Silveira Leite, maio de 1985, e 
Zuenir Ventura, 1968  O ano que no terminou, p. 237.
69 Alm dos irmos Duarte, foram presos na rua e levados para 
o Arsenal de Marinha o diretor de teatro Flvio Rangel e o 
arquiteto Bernardo Figueiredo, Zuenir Ventura, 1968O ano que 
no terminou, p. 150. Para as exploses, Jos Amaral Argolo e 
outros, A direita explosiva no Brasil, pp. 278-9. H ainda 
uma lista organizada por Flavio Deckes em Radiografia do 
terrorismo no Brasil  66/80. Ghega-se aos vinte atentados 
juntando-se, aos dezoito de Argolo e outros, dois que esto 
listados por Deckes: na ABI e no teatro de Arena.
70 Jos Afnaral Argolo e outros, A direita explosiva no 
Brasil, p. 252.
71 Os alvos dos atentados a bomba: Teatro Glaucio Gil, 
Legao Gomercial Sovitica, Embaixada da Polnia, Editora 
Tempo Brasileiro, Teatro Joo Gaetano, Gentro Acadmico 
Gndido de Oli veira, Escola Nacional de Belas-Artes, Editora 
Givilizao Brasileira, Livraria Forense, depsito de papel 
do Jornal do Brasil, Gentro Acadmico Sir Alexander Fleming e 
uma agncia do Gorreio da Manh.
72 Jos Amaral Argolo e outros, A direita explosiva no 
Brasil, p. 237.
73 Esse atentado foi praticado por Luiz Helvecio da Silveira 
Leite e Murilo Alexander. Jos Ama ral Argolo e outros, A 
direita explosiva no Brasil, p. 238.
302        A DITADURA ENVERGONHADA
qumicos vinham de um ex-militar francs, veterano das 
guerras da In dochina e da Arglia. A munio e alguns 
explosivos eram tirados do De psito Central de Munio do 
Exrcito, em Paracambi. Dois dos coro nis encrenqueiros dos 
IPMS do governo Castello conheciam boa parte dos oficiais 
detonadores. Tinha razo o Correio da Manh quando dizia: 
Mais do que indiferena, h, no comportamento do governo, 
estmulo  vio lncia. H conivnciaY
O dispositivo terrorista impusera ao governo sua autonomia. 
No a conseguiu porque fosse forte, mas porque faltava ao 
marechal Costa e Sil va a vontade de reprimi-lo. O objetivo 
proclamado das bombas dos co ronis era intimidar a esquerda, 
mas seu propsito era favorecer a radi calizao. Sua 
conseqncia foi a consolidao dentro das Foras Armadas de 
um bolso indisciplinado, delinqente e inimputvel. Em 
vrias oca sies esse terrorismo sado da anarquia militar 
foi comparado ao da es querda, resultando mais suave e at 
mesmo preocupado em no amea ar vidas humanas. O paralelo 
no  razovel. Os terroristas da direita e da esquerda no 
se envolveram numa competio. Foram apenas con temporneos, 
cada um deles girando ao redor de causas e objetivos di 
versos, produzindo resultados diferentes. O pas e as Foras 
Armadas le variam treze anos para perceber o verdadeiro 
tamanho da conta que se ps em marcha, terminando por 
consolid-la numa poltica de terroris mo de Estado. Naqueles 
meses, a linha demarcatria do poder do dispo sitivo 
paramilitar sobre a disciplina e a hierarquia seria decidida 
em tor no do caso Para-Sar.
De junho a setembro, atravs dos canais reservados da 
burocracia militar, Srgio Macaco enfrentou Burnier. O 
brigadeiro valeu-se do peso de seus gales. O capito fora 
transferido para o Recife e seu maior de fensor na 
esquadrilha, o mdico Rubens Marques do Santos, o Doc, para 
Campo Grande. Ainda assim, tinha como principal aliado o 
brigadeiro Itamar Rocha, diretor de Rotas Areas, a quem o 
Para-Sar estava subor 74 Jos Amara! Argolo e outros, A 
direita explosiva no Brasil, pp. 236 e segs. Um deles era o 
coro nel Ferdinando de Carvalho, encarregado do 1PM do PCB. O 
outro, mencionado sem a mesma n fase, era o coronel Osnelli 
Martinelli, do 1PM dos Grupos dos Onze.
75 Correio da Manh, 8 de dezembro de 1968, editorial 
publicado na primeira pgina.
Y EL CIELO SE ENCUENTRA NUBLADO        303
dinado. J na criao do CISA, Itamar procurara mostrar ao 
ministro da Aeronutica, brigadeiro Mrcio de Souza e Mello, 
os riscos da existncia de um servio de informaes anexo ao 
seu gabinete, afogando a 2 Se o do Estado-Maior.
Por meio de um oficio secreto, o brigadeiro Itamar 
encaminhara a denncia do capito e solicitara que fossem 
anuladas as duas transfern cias. Baseado numa sindicncia 
que Burnier mandara fazer, Souza e Mello saiu em sua defesa. 
Ex-integralista, o ministro era um duro. As sumiu a 
responsabilidade pela utilizao do Para- Sar em misses de 
guer ra interna, guerra revolucionria negou que Burnier 
tivesse discutido as sassinatos durante sua reunio com a 
esquadrilha, defendeu-lhe o carter reto chamou-o de 
brilhante oficial e manteve as transferncias. Foi adiante, 
informando a Itamar que mandara punir Srgio Macaco com 25 
dias de priso, e assegurou: Esteja V. Excia. descansado; em 
nenhum mo mento, nenhum de ns da FAB,V. Excia., eu, o 
brigadeiro Burnier, ou qual quer outra pessoa  nenhum de ns 
pensou, nem de leve  em elimi nar vidas de quaisquer 
pessoas por motivos polticos?
A sindicncia em que se baseara o ministro amparava-se em 
depoi mentos fraudulentos dos participantes da reunio de 14 
de junho. O co ronel que a dirigiu rasgou os testemunhos dos 
sargentos que confirma ram a verso de Srgio Macaco e 
pressionou alguns deles em seu gabinete, obtendo novas 
verses. Diante da resposta de Souza e Melio, o briga deiro 
Itamar Rocha agiu de acordo com o manual. Respondeu  hipte 
se de ter sido enganado pelo capito, abrindo uma nova 
sindicncia.
76 O Oficio Secreto de 23 de julho de 1968 est referido no 
Aviso S-002/CH GAB de 11 de setem bro de 1968, endereado 
pelo ministro Mrcio de Souza e Mello ao brigadeiro Itamar 
Rocha. AA. 77 Para a ligao de Mrcio de Souza e Melio com o 
integralismo, ver o depoimento do brigadei ro Declcio Lima 
de Siqueira, em Vises do golpe, organizado por Maria Celina 
dAraujo, Glu cio Ary Dilion Soares e Celso Castro, p. 235. 
Ver tambm Hlgio Trindade, O radicalismo mili tar em 64 e a 
nova tentao fascista em Glucio Ary Dillon Soares e Maria 
Celina dAraujo (orgs.), 21 anos de regime militar, p. 134. O 
general Olympio Mouro Filho reconheceu-o como subordi nado 
do tempo da Milcia Integralista.
78 Aviso S-002/CH GAB de 11 de setembro de 1968, do ministro 
Mrcio de Souza e MeIlo ao bri gadeiro Itamar Rocha, diretor-
geral de Rotas Areas. Cpia cedida ao autor pelo capito 
Srgio Miranda de Carvalho. AA.
79 Entrevista do sargento Pedro Klein a Isabel Cristina 
Mauad, 1984. AA.
304        A DITADURA ENVERGONHADA
Itamar e seus aliados tinham nas mos um caso exemplar, pois 
no cabia nele a justificativa de que a violncia seria usada 
defensivamente ou sequer contra cidados politicamente 
proscritos. Tambm no se tra tava de uma divergncia 
doutrinria, mas de um choque de verses so bre uma situao 
factual: ou Burnier sugerira atentados e agora mentia, ou as 
testemunhas ouvidas eram mentirosas. A soluo lgica seria a 
aber tura de um inqurito, mas o ministro evitava-a. Era uma 
posio delica da tanto pela natureza do tema como pelo fato 
de o brigadeiro Eduardo Gomes, de quem Itamar fora chefe-de-
gabinete, ter-se envolvido no pro blema. Tornava-se ainda 
mais embaraosa porque o diretor de Rotas A reas e Srgio 
Macaco recusaram os emplastros conciliatrios que desde 1964 
haviam servido para contornar episdios em que se documentara 
a delinqncia de oficiais metidos em atividades de polcia 
poltica.
Em nenhum momento Burnier e o ministro aceitaram o combate, 
juntando a defesa de suas honras ao peso de suas dragonas. 
Quando o capito sustentou sua verso do encontro de 14 de 
junho, colocando Burnier na posio de mentiroso, o ministro 
reagiu tortuosamente, trans ferindo-o para o Recife. Pelas 
normas da disciplina e da hierarquia mi litares, deveria t-
lo enquadrado disciplinarmente. Na resposta ao ofcio secreto 
do brigadeiro Itamar, Souza e Mello cortejou-o dizendo que, 
sem favor, reconheo em sua pessoa marcantes virtudes, que 
s pode riam orientar o seu pronunciamento no sentido de 
colimar elevado ob jetivo. Na ordem de priso de Srgio 
Macaco o ministro acusou-o de ter deturpado palavras de 
Burnier e haver feito, por escrito, insinua o 
desrespeitosa a seu respeito. Na realidade, nada havia sido 
detur pado nem insinuado, O capito e a maioria dos 
integrantes do Para-Sar diziam com todas as letras que 
Burnier os chamara a participar de assas sinatos polticos. 
Se o capito mentira, a sindicncia fora instrumento ina 
dequado de investigao e os 25 dias de cadeia, pena inepta e 
leniente. O ministro procurava encerrar a crise a preo de 
liquidao, enquanto ela ainda estava protegida pelo segredo.
80 Aviso S-002/CH GAB de 11 de setembro de 1968. AA.
81 Boletim Reservado n 38 da DPAer, de 17 de setembro de 
1968. AA.
Y EL CIELO SE ENCUENTRA NUBLADO        305
Desde o fim de junho haviam-se acabado as passeatas 
frentistas. Por um breve perodo sucederam-se pancadarias no 
Rio e em So Paulo, mas depois, nem isso. Enquanto o CIE 
fazia a sua ofensiva contra os teatros, o terrorismo de 
esquerda avanava na sua articulao. Os militantes de um 
grupo formado por sargentos cassados e estudantes j tinham 
roubado a dinamite estocada numa pedreira paulista. 
Marighella, montando a so nhadaguerrilha amaznica, 
encomendara aos frades dominicanos um levantamento da estrada 
BelmBraslia, tarefa em que se ocupariam cinco religiosos e 
um seminarista.
Na noite de 1 de julho, numa rua quieta da Gvea, no Rio de 
Janei ro, trs terroristas cortaram o caminho de um militar 
estrangeiro que cur sava a Escola de Comando e Estado-Maior 
do Exrcito. Mataram-no com dez tiros e fugiram levando-lhe a 
pasta. Dois deles eram ex-sargen tos. Estavam certos de ter 
liquidado o capito boliviano Gary Prado, que efetivamente 
cursava a E5CEME. Seria a vingana do Che Guevara, pois Pra 
do comandara os rangers que aprisionaram o Guerrilheiro 
Herico nas matas de Vailegrande. Quando abriram a pasta, 
souberam que a vtima fora o major alemo Edward von 
Westernhagen. Teria sido a ao terro rista mais espetacular 
do ano, mas como Westernhagen nada tinha a ver com Guevara, a 
Bolvia ou o Brasil, seus assassinos calaram-se. Era o 
terceiro cadver fardado.
A essa altura havia pelo menos dez organizaes clandestinas 
de es querda defendendo a luta armada contra o regime como 
etapa indispen svel para a vitria de uma revoluo popular 
e/ou socialista. Trs de las  o grupo de ex-sargentos e 
jovens de So Paulo, que viria a se denominar Vanguarda 
Popular Revolucionria, a dissidncia marighelis 82 Mano 
Simas, Gritos de justa  Brasil 1963-1979, p. 90.
83 Jacob Goren Combate nas trevas, p. 141. Os ex-sargentos 
so Joo Lucas Alves, da FAB, e Severino Viana Colon, da PM 
do Rio.
84 A saber: Partido Comunista do Brasil (pc do B), Ala 
Vermelha do pc do B, Partido Comunista Brasileiro 
Revolucionrio (PCBR), Agrupamento Comunista (futura ALN), 
Organizao Revolucio nria Marxista Poltica Operria 
(Polop), Comando de Libertao Nacional (Colina), Dissidn 
cia Comunista da Guanabara (D1-GB, futuro MR-8), Partido 
Comunista Revolucionrio (PcR), Partido Operrio Comunista 
(POC) e Ao Popular (AP). Ver Daniel Aaro Reis Filho e Jair 
Fer reira de S (orgs.), Imagens da revoluilo.
306        A DITADURA ENVERGONHADA
ta e o Colina  j tinham passado pelo batismo de fogo. Numa 
estima tiva grosseira pode-se acreditar que no incio do 
segundo semestre de 1968, apesar de se contarem aos milhares 
as pessoas capazes de sustentar que s o povo armado 
derrubaria a ditadura, no chegaram a cem aquelas que, de 
fato, tiveram uma arma na mo. A clandestinidade no se torna 
ra uma exigncia para a esquerda estudantil, e os ex-
sargentos e mari nheiros ainda eram suficientes para suprir 
os ncleos de fogo.
No h estatstica confivel que permita quantificar o nmero 
de aes armadas praticadas pelas organizaes de esquerda 
entre 1966 e o final de 68. Pode-se estimar que, entre 
atentados pessoais, exploses de bombas, assaltos a bancos, 
casas de armas e depsitos de explosivos, elas tenham sido 
pelo menos cinqenta. O governo farejava o problema, mas no 
o alcanava. Os rgos de segurana tinham diante de si todos 
os sinais de um estalo de violncia poltica, mas ainda no 
associavam  esquerda clandestina os assaltos a bancos e os 
roubos de explosivos. A dissidncia marighelista teve cerca 
de dez militantes capturados a par tir de junho, mas a 
polcia no foi alm deles. Alertado desde o incio de 1967 
para a possibilidade de ecloso de um surto terrorista, o 
regime que tanto venerava a segurana nacional exibia 
primorosa ineficincia ao combat-lo.
85 Em 1968 deram-se dezessete assaltos em So Paulo (Jacob 
Gorender, Combate nas trevas, p.
108, mencionando noticirio do Estado de S. Paulo de 15 de 
maio e de Veja de 13 de agosto de
1969). A eles se somam nove assaltos em outros estados, cinco 
aes de roubo de armas e catorze exploses de bombas. Nesse 
ano sete pessoas foram assassinadas em aes resultantes da 
inicia tiva de grupos de esquerda. A elas se somam o 
fazendeiro Z Dico e os dois mortos do atentado de 
Guararapes. Algumas exploses e uns poucos assaltos podem no 
ter partido da esquerda (le vantamento do autor).
86 Mao de catorze folhas encontrado pelos agentes do DOI de 
So Paulo num aparelho. Trata-se de uma tentativa de 
reconstituio da sucesso de prises de militantes das 
organizaes arma das. Esse documento foi concludo no 
segundo semestre de 1973, pelos presos que estavam no pre 
sdio Tiradentes. Sua autenticidade foi reconhecida por 
diversos militantes da ALN e da VPR. Isso no significa que 
seu contedo esteja livre de equvocos. Tornou-se conhecido 
como Quedograma, nome pelo qual ser referido. ss
87 Sistema de Segurana In terna, Sissegin. Apostila 
classificada como secreta, elaborada no dE, c.
1973, p. 5. AA. Nela consta um trecho de documento da Ao 
Libertadora Nacional, ALN, atribu do a luri Xavier Pereira: 
tOs rgos de Segurana] acostumados a uma represso 
dirigida aos
movimentos de massa pacficos, ou s organizaes de esquerda 
tradicionais de pouca periculo-
Y EL CIELO SE ENCUENTRA NUBLADO        307
Segundo revelou o general Fiza de Castro a Zuenir Ventura em 
1988, o GTE estava infiltrado no aparelho paralelo de 
segurana dos uni versitrios. Os vinte anos que separaram a 
revelao dos acontecimen tos impediram que se avaliasse 
devidamente essa infiltrao. De qualquer forma, nos meses 
seguintes, quando ela poderia ter sido til para desba ratar 
as clulas nascentes do terrorismo, nenhuma organizao 
metida com a luta armada fora abalada por infiltraes. Pelo 
manual de combate a qual quer insurreio,  precisamente na 
fase embrionria das organizaes se diciosas que o trabalho 
de preveno do governo pode dar melhores re sultados, desde 
que ele disponha de informaes adequadas. Boa parte dos 
oficiais do GTE e do CISA, no entanto, estavam mais 
concentrados no seu prprio terrorismo. Os dois centros de 
informaes no se articularam sequer com as delegacias 
policiais que investigavam isoladamente os as saltos e roubos 
de explosivos. Nos dias seguintes  exploso da bomba no 
porto do QG do Ibirapuera, os policiais que faziam planto 
na delegacia que comeava a centralizar a represso poltica, 
atemorizados, passaram a dormir fora do prdio, at dentro de 
seus automveis.
Como observa Brian Crozier, especialista ingls no combate  
sub verso e discreto visitante do SNT em 1964: Os bons 
governos previnem o conflito, os maus o estimulam; os 
governos fortes o desencorajam, e os governos fracos o tornam 
inevitvel O governo do marechal Costa e Silva era mau e 
fraco.
sidade, ao ver-Se enfrentando formas de atuao novas no 
cenrio revolucionrio brasileiro, mos traram-se de uma 
primorosa ineficincia Prossegue o documento: Realmente, 
Turi tinha toda a razo, pois era exatamente o que ento 
ocorria
88 Zuenir Ventura, 1968O ano que no terminou, p. 184.
89 Depoimento do delegado David dos Santos Aratijo, o Capito 
Jos Lisboa do noi, em Percival
de Souza, Autpsia do medo, p. 64.
90 Brian Crozier, A theory of conflict, p. 137. Para o seu 
contato com o SNI, Dirio de Heitor
Ferreira, 18 de setembro de 1964. APGCS/F-IF.
A provocao da anarquia
Para quem olhava a crise de dentro do governo, a questo 
estudantil e mes mo o terrorismo eram apenas uma parte do 
problema. As manifestaes de rua indicavam que o regime 
perdera o apoio da classe mdia e at de uma parcela da 
elite. Para uma Revoluo que se considerara abenoada pelas 
Marchas de 1964, a Passeata dos Cem Mil fora uma excomunho. 
A base parlamentar de Costa e Silva, sustentada pelos 
sucessivos expurgos da bancada oposicionista, caminhava para 
a segunda metade do mandato com a anteviso de uma inevitvel 
derrota nos grandes centros urbanos.
No corao do regime, o ministro do Interior, general Affonso 
Au gusto de Albuquerque Lima, baronete da linha dura e 
candidato  Presi dncia, investia simultaneamente contra a 
agitao de esquerda e a con duta de colegas de governo. 
Chamava Costa e Silva de molengo Numa conversa com o 
prefeito de Salvador queixara-se de seus colegas da Fa zenda 
e dos Transportes: O Delfim e o Andreazza devem ser 
enforcados e pendurados de cabea para baixo, como ladres 
Delfim sabia que Ai buquerque Lima o odiava, mas embrulhava o 
general com a cumplici dade do presidente, a quem narrava 
suas manobras.
No meio militar, Costa e Silva sofria o reflexo da debilidade 
do mi nistro do Exrcito. Lyra Tavares era um general fraco 
jogado num Alto-
1 Roberto Campos, A lanterna na popa  Memrias, p. 887.
2 Antonio Carlos Magalhes, junho de 1987.
3 Antonio Delfim Netto, maio de 1988.
310        A DITADURA ENVERGONHADA
Comando de prima-donas que, ao contrrio dele, haviam 
arriscado o fim de suas carreiras em 1964. Chocara-se com o 
chefe do Estado-Maior do Exrcito, Orlando Geisel, e depois 
de penosas negociaes conseguiu empalh-lo no EMFA. Sofria 
as costumeiras presses do radicalismo dos coronis da linha 
dura, dos tenentes-coronis da E5CEME e dos capites da E5AO, 
Escola de Aperfeioamento de Oficiais. A elas se somava o des 
contentamento com os soldos. Eram todas pseudnimos da 
anarquia. Diante dela, perdia a voz.
O melhor exemplo dessa afonia poltica est no comportamento 
de Lyra Tavares nas duas reunies do Conselho de Segurana 
Nacional que Costa e Silva presidiu em julho, para discutir a 
crise poltica. Na primeira, no dia 2, o ministro do Exrcito 
foi prudente:  evidente que ao chefe militar escapa 
competncia para sugerir as providncias legais reclamadas 
pela situao, mas como se configura, na presente conjuntura, 
um grave problema de segurana nacional,  de presumir- se 
que ela comporte medidas a serem tomadas no campo jurdico, 
na forma que o governo julgue dever faz-lo, sem comprometer 
os pos tulados da democracia, mas, ao contrrio, precisamente 
para defen d-la.
Era uma parablica defesa do estado de stio, mas duas 
semanas de pois, na segunda reunio, aparece um novo Lyra 
Tavares:
No parece haver mais dvida de que esto sendo cumpridas no 
Brasil, como em toda a Amrica Latina, as recomendaes de 
Havana. [ Dir se- que as realizaes do governo, a 
liberalidade do seu comportamento democrtico, a no-
represso das manifestaes hostis, em linguagem subversiva, 
e o esprito de disciplina das Foras Armadas terminaro por 
superar a crise quando a Nao se der conta da verdade e da 
importn cia do que o governo est fazendo por ela. A 
evoluo rpida dos aconte 4 Jayme Portelia de Melio, A 
Revoluo e o governo Costa e Silva, pp. 530-3, e Dirio de 
Heitor Ferreiro,
23 de fevereiro de 1967. APGCS/HP.
5 Sntese da Situao, exposio feita pelo ministro Lyra 
Tavares na reunio do Conselho de Segurana
Nacional de 2 de julho de 1968. Em O Exrcito e o Ato 
Institucional n 5, livreto marcado reserva do Ministrio do 
Exrcito, 1969. APGCS/HF.
A PROVOCAO DA ANARQUIA        311
cimentos no parece, infelizmente, autorizar esse prognstico 
otimista. [ O quadro que se configura  o de um processo j 
bem adiantado de guerra revolucionria.
Entre os dias 2 e 16 de julho no aconteceu nada de relevante 
na rua. A evoluo rpida dos acontecimentos a que se 
referiu o general ocor rera no governo. Costa e Silva 
resolvera admitir a hiptese da decretao do estado de 
stio. No momento em que Lyra fazia sua sntese apocalp 
tica, o general Jayme Porteila tinha na pasta o decreto de 
suspenso das garantias constitucionais e a relao dos nomes 
dos futuros executores do interldio de exceo. Ao seu lado 
estava o chefe do Servio Nacional de Informaes, general 
Emilio Garrastaz Medici, acreditando que o que estava na 
rua era a contra-RevoluoY Segundo Portella, as duas reu 
nies e a iminncia do stio funcionaram como ameaa. 
Orgulhoso, re gistrou em suas memrias que o ambiente se 
modificou, surgindo um ou outro caso de pouca importncia
O que houve depois das duas reunies do Conselho de Segurana 
no foi um arrefecimento, mas uma opo do governo pela 
represso. No dia 16 de julho, quando os ministros estavam 
reunidos, estourara uma greve em Osasco, no cinturo 
industrial de So Paulo. O movimen to comeou s 8h30 da 
manh, quando tocou o apito da fbrica de va ges Cobrasma. 
Era o sinal combinado. No fim da tarde havia quatro 
indstrias paradas, duas delas ocupadas. Um dia depois, 
pararam mais quatro, e os grevistas chegaram a 10 mil. A 
polcia atacou no terceiro dia, quatrocentos operrios foram 
presos, cinqenta ficaram detidos, desocuparam-se as 
oficinas, e ocupou-se a cidade. A greve capitulou em 72 
horas, antes mesmo que comandos ultra-esquerdistas 
conseguissem
6 Sntese da Situao, exposio feita pelo ministro Lyra 
Tavares na reunio do Conselho de Segurana
Nacional de 2 de julho de 1968. Em O Exrcito e o Ato 
Institucional n 5, livreto marcado reserva do Ministrio do 
Exrcito, 1969. APGCS/HF. Jayme Porteila de Melio, A 
Revoluo e o governo Costa
e Silva, p. 566, diz que essa reunio foi no dia 11 de julho.
7 Voto de Medici na reunio do Conselho de Segurana Nacional 
de 13 de dezembro de 1968.
APGCS/HF.
8 Jayme Portelia de Melio, A Revoluo e o governo Costa e 
Silva, p. 566.
312        A DITADURA ENVERGONHADA
interromper o fornecimento de energia s fbricas. A idia 
segundo a qual se podia radicalizar nas fbricas para colher 
benefcios semelhan tes aos recebidos no incio do ano pelos 
operrios de Contagem mos trara-se errada.
Um dos lderes da ocupao da Cobrasma fora o baiano Jos Cam 
pos Barreto, o Zequinha, nascido em Buriti Cristalino, nas 
serras de Bro tas de Macabas. Estivera no Primeiro de Maio 
da praa da S, mas na Cobrasma tornara-se uma espcie de 
capeta. Arengou aos soldados da For a Pblica que se 
preparavam para derrubar as barricadas da fbrica, co mandou 
a fuga dos ltimos grevistas e reteve a polci com uma tocha 
na mo, ameaando explodir o depsito de gasolina. Quando a 
fbrica foi retomada, o ministro do Trabalho, Jarbas 
Passarinho, anunciou: A Co brasma est sob controle. Jos 
Campos Barreto foi preso Zequinha foi levado para a sede da 
Polcia Federal; deram-lhe choques eltricos, pas saram-lhe 
sabo em p nos olhos e espancaram-no para que se confes 
sasse ligado a Marighella.
A tortura de presos polticos estava de volta. A Folha da 
Tarde denun ciara dez modalidades de suplcio. O economista 
Luciano Coutinho, pre so semanas depois pelo DOPS, levou 
choques para que confessasse a auto ria de um documento. Jos 
Genoino, presidente do Diretrio Central de Estudantes da 
Universidade Federal do Cear, capturado na rodoviria de So 
Paulo, resumiu sua experincia: Me espancaram como a um 
animal Viadimir Palmeira, detido na PE do i Exrcito, viu 
presos ensangentados sendo levados para suas celas. 
Praticada pela meganha nas delegacias de polcia, eterno 
foco de violaes de direitos humanos de cidados hu 9 Celso 
Frederico (org.), A esquerda e o movimento operrio  1964-
1984, vol. 1: A resistncia 
ditadura, p. 178. Para a ao dos comandos, depoimento de 
Antonio Roberto Espinosa, em Marcelo
Ridenti, O fantasma da revoluo brasileira, p. 48.
10 Emiliano Jos e Oldack Miranda, Lamarca, pp. 132 e segs.
ii A Gazeta, de 9 de agosto de 1968, citada em Projeto 
Brasil: nunca mais, tomo v, vol. 2: As tor turas, p. 486. Ver 
tambm Judith Lieblich Patarra, lara, p. 239.
12 Folha da Tarde, de 19 de setembro de 1968, citada por 
Judith Lieblich Patarra, lara, p. 264.
13 Judith Lieblich Patarra, lara, pp. 264, 230 e 239, citando 
a Folha da Tarde de 19 de setembro de
1968 para as torturas e de 5 de agosto de 1968 para o caso de 
Jos Genoino.
14 Jos Dirceu e Vladimir Palmeira, Abaixo a ditadura, p. 
161.
A PROVOCAO DA ANARQUIA        313
mildes, ela reaparecia a servio do regime, mas distanciada 
dos quartis. Vi nha na sua forma habitual, primitiva, 
produto de um sistema policial inepto que at hoje se vale do 
espancamento dos presos como modo de imposio da autoridade 
e dos tormentos como instrumento essencial de investigao.
No final de agosto So Paulo j fora sobressaltada por 29 
bombas. Marighella organizara o ataque a um carro-forte nos 
subrbios da cida de e um audacioso assalto ao trem pagador 
da estrada de ferro Santos Jundia, do qual tirou o 
equivalente a us$ 21600.16
Depois do ataque ao QG do II Exrcito, o atentado mais 
espetacular fora a exploso de um estacionamento situado em 
frente ao DOPS. O l der do grupo terrorista foi capturado em 
pouco tempo. Chamava-se Ala dino Flix, fazia-se passar por 
Sbato Dinotos, mistura de mago e margi nal. Ameaava com o 
Apocalipse e apresentava-se como o Salvador dos Afortunados, 
amparado por discos voadores de uma civilizao superior 
existente em Jpiter. Levado para o Departamento Estadual de 
Inves tigaes Criminais, o DEIC, confessou catorze exploses 
e um assalto a ban co. Revelou os nomes de seus cmplices, e 
a polcia prendeu toda a rede, formada por soldados e cabos 
da Fora Pblica. Sem sigla, programa re volucionrio ou 
filiao marxista, Aladino Flix no fazia sentido. Mais 
tarde, denunciou que foi torturado por vinte horas. Um de 
seus cole gas, o soldado Juraci Gonalves Tinoco, viu-o no 
cho de uma sala, de sacordado, com a boca ensangentada.
Na fase de instruo criminal, Aladino disse que agira por 
ordem do general Jayme Porteila, chefe do Gabinete Militar da 
Presidncia. O sol dado Juraci informou que um delegado o 
mandou confessar que era o pre sidente Costa e Silva quem 
orientava e financiava a ao terrorista Do-
15 Telegrama do consulado americano em So Paulo ao 
Departamento de Estado, de 20 de se tembro de 1968.
16 Para o papel de Marighella como organizador dos dois 
assaltos, entrevista de Aloysio Nunes Ferreira a Luiz Maklouf 
Carvalho, Jornal do Brasil, 4 de julho de 1999, p. 4 do 
Caderno Brasil. Para o butim, feita a reduo para cruzeiros 
novos, Emiliano Jos, Carlos Marighella, p. 228.
17 Percival de Souza, Autpsia do medo, p. 458.
18 Projeto Brasil: nunca mais, tomo v, vol. 1: A tortura, p. 
189.
19 Idem, p. 190.
20 Idem.
314        A DITADURA ENVERGONHADA
cumentadamente, o doido tinha no seu crculo de relaes um 
general da reserva. Com sua ajuda, denunciara ao governo uma 
conspirao contra- revolucionria e estivera por duas vezes 
com o diretor da Polcia Federal. Encontrara-se com o chefe 
da seo de informaes do II Exrcito, a quem revelara ter  
mo uma fora de blindados capaz de tomar a cidade de Sq 
Paulo. O delegado do DOPS que cuidou do inqurito de Aladino 
concluiu que seu grupo era formado por idealistas que 
tiveram de lanar mo de marginais para executar seus planos 
Em suma: No eram terroristas den tro do esquema de 
subverso ligado ao Partido Comunista
No dia 16 de dezembro, anunciou-se que Dinotos escapara da 
pri so, mas policiais do DOPS informaram reservadamente que 
haviam re cebido ordens para libert-lo. Capturaram-no em 
setembro de 1969 nu ma favela, onde se dizia empenhado em 
traduzir a Bblia do hebreu para o portugus. Nunca se 
identificou a mo que iluminava suas bombas.  implausvel 
que ele tenha tratado diretamente com Portella, mas  pro 
vvel que fosse a mo da direita quem lhe dava o fogo. Essa, 
pelo menos, era a suspeita do cnsul americano em So Paulo.
Apesar dos sinais de agravamento da crise que incrustavam 
bolses de ilegalidade na mquina do governo, Costa e Silva 
persistia numa pos tura malandra. Deixava-se boiar na 
corrente, cavalgando um discurso desconexo. Levado numa 
direo, dizia que estava indo noutra, como se as palavras e 
os movimentos tivessem perdido a articulao. Repetia com 
freqncia que o poder  como um salame, toda vez que voc o 
usa bem, corta s uma fatia, quando o usa mal, corta duas, 
mas se no o usa, cortam-se trs e, em qualquer caso, ele 
fica sempre menor. As fatias iam sendo cortadas de trs em 
trs. Reiterava seu compromisso
21 Relatrio do delegado Benedito Sidney de Alcntara, do 
DOPS paulista, em Percival de Souza,
Autpsia do medo, pp. 46 1-2.
22 Telegramas do consulado americano em So Paulo ao 
Departamento de Estado, de 3 de janeiro
de 1969 (Possibilidade de que Muitas Exploses de Bombas em 
So Paulo Tenham Sido Trabalho de
Grupos de Direita) e de 29 de setembro de 1969. DEEUA.
23 Antonio Delfim Netto, outubro de 1990.
A PROVOCAO DA ANARQUIA 315
democrtico, mas a cada profisso de f legalista 
correspondia uma r plica de f militarista.
Era capaz de anunciar que creio na liberdade em si mesma, 
como o maior de todos os bens concedidos ao homem na Terra 
com a mes ma naturalidade com que informava que o Exrcito 
no pode, em ab soluto [ sair do quartel para acabar com a 
anarquia e entregar, depois, o pas  anarquia Exercitava um 
fatalismo egocntrico em que se via como baluarte e se 
confundia com a Repblica: Enquanto aqui estiver, essa 
Constituio {...] h de ser cumprida a rigor; Enquanto eu 
estiver aqui, no permitirei que o Rio se transforme em uma 
nova Paris; O po der legislativo s desaparecer quando me 
eliminarem
Capturado pelo processo de anarquia militar desde o alvorecer 
de sua candidatura, Costa e Silva, como Castello, governava 
sob a presso dos generais que o garantiam.  diferena de 
seu antecessor, no fez ne nhum esforo real para fortalecer 
as instituies republicanas. De mar o a setembro de 1968 
aplicou  crise o remdio da procrastinao. Nem reprimiu as 
manifestaes de rua quando elas pareciam uma tempesta de 
mundial, nem enquadrou o radicalismo do regime quando ele se 
cri minalizou. Pode-se entender que, por razes ideolgicas, 
e at mesmo por convico, Costa e Silva no tivesse solues 
a oferecer  esquerda, mas sua desastrosa contribuio 
decorreu do fato de ele no ter oferecido so lues nem 
sequer  direita.
No dia 2 de setembro, durante aquele horrio sonolento da 
manh que na Cmara se denomina pinga-fogo no qual os 
parlamentares ocupam a tribuna para tratar de assuntos 
irrelevantes, o deputado Mar- cio Moreira Alves tomou a 
palavra para condenar uma invaso policial que acontecera 
dias antes na Universidade de Braslia. A certa altura per
24 A primeira citao refere-se ao discurso feito na 
Associao Brasileira de Imprensa em 7 de
abril de 1968. Arthur da Costa e Silva, Pronunciamentos do 
presidente, p. 382. A segunda, ao pro nunciamento feito em 15 
de maro de 1968. Jayme Portella de Melio, A Revoluo e o 
governo Costa
e Silva, p. 533.
25 A primeira citao vem da entrevista que concedeu em 
maro. Jayme Portelia de Melio, A Revoluo
e o governo Costa e Silva, p. 533. A segunda vem de 
declarao feita no dia 12 de maio. ZuenirVen tura, 1968 O 
ano que no terminou, p. 133. A terceira, de uma conversa de 
Costa e Silva com o
presidente da Cmara, deputado Jos Bonifcio, em outubro. 
Veja de 9 de outubro de 1969.
316        A DITADURA ENVERGONHADA
guntou: Quando o Exrcito no ser um valhacouto de 
torturadores?. Fazia essa acusao amparado nas violncias 
recentes e na autoridade que conquistara denunciando e 
provando dezenas de casos de tortura ocor ridos no governo 
Castelio Branco, todos acobertados pelos comandan tes 
militares. Salvo uma pequena nota publicada na Folha de 
S.Paulo, nin gum ouviu falar no discurso. Impressionado com 
a greve de mulheres proposta pela ateniense Lisstrata na 
pea de Aristfanes, que assistira ha via pouco em So Paulo, 
Moreira Alves voltou  tribuna e sugeriu que, durante as 
comemoraes da Semana da Ptria, houvesse um boicote s 
paradas. Esse boicote acrescentou, pode passar tambm [ s 
mo as, s namoradas, quelas que danam com os cadetes e 
freqentam os jovens oficiais.
Dois dias depois o ministro Lyra Tavares criou o caso. Criou-
o  sua maneira. Num ofcio de quatro itens endereado a 
Costa e Silva, narrou o contedo dos discursos, reconheceu 
que o deputado estava no uso da liberdade que lhe  
assegurada pelo regime e admitiu a dignidade in tangvel 
da Cmara. Pediu apenas a proibio de tais violncias e 
agres ses verbais injustificveis sempre declarando-se 
obediente ao Poder Civil e confiante nas providncias que 
Vossa Excelncia julga devam ser adotadas. O ofcio O 1/68 
de Lyra a Costa e Silva parece-se na ambigi dade com a sua 
carta a Casteilo de 23 de maro de 1964. H nele toda a 
indignao de uma tropa ofendida e toda a compostura de um 
ministro disciplinado. Com o tempo, convencionou-se dizer que 
Lyra Tavares en viou a Costa e Silva uma representao 
pedindo que o deputado fosse pro cessado. Trata-se de uma 
falsidade. No h no ofcio essa solicitao.
Mesmo assim, era o que bastava ao general Jayme Porteila. 
Desde o primeiro despacho de Lyra com o presidente, o chefe 
do Gabinete Mili tar articulou a grande provocao. Dedicou-
se  construo da crise com tamanho desembarao que, 
capturado pela prpria fantasia, chegou a di-
26 Aurelio de Lyra Tavares, O Brasil de minha gerao, vol. 
2, pp. 182-3. A confuso sobre o texto desse discurso  to 
grande que, passados 32 anos, o ex-ministro Jarbas Passarinho 
acusava Mo reira Alves de ter chamado o Exrcito de 
valhacouto de gangsters Depoimento de Passarinho, em 
Histrias do poder, de Alberto Dines, Florestan Fernandes Jr. 
e Nelma Salomo (orgs.), vol. 1:
Militares, Igreja e sociedade civil, p. 337.
27 Aurelio de Lyra Tavares, O Brasil de minha gerao, vol. 
2, p. 183.
A PROVOCAO DA ANARQUIA        317
zer em suas memrias, onze anos depois, que o discurso de 
Moreira Ai ves havia sido publicado em toda a imprensa, 
servindo de manchetes, o que mais irritou as Foras Armadas, 
pelo destaque dado. Alm do re gistro da Folha de S.Paulo, 
nenhum jornal publicou uma s palavra. As manchetes, os 
destaques e a irritao, ele os providenciaria.
Os ministros da Marinha e da Aeronutica solidarizaram-se com 
Lyra. Costa e Silva determinou ao ministro da Justia que 
estudasse uma fr mula jurdica para punir o deputado. A 
sugesto veio rpida e drstica:
o governo deveria solicitar  Cmara dos Deputados uma 
licena para processar Marcio Moreira Alves. Essa proposio 
era uma monstruosi dade jurdica, visto que a essncia da 
imunidade parlamentar est na in violabilidade das palavras, 
opinies e votos dos deputados e senadores. O presidente do 
partido governista, senador Daniel Krieger, encarregou- se de 
esclarecer isso em carta ao presidente, acrescentando uma 
bvia re flexo daquilo que viria a ser o desfecho da 
embrulhada: O processo de pende de licena da Cmara. A 
tradio, o esprito de classe e a natureza secreta do voto 
nos levam  convico da negao da licena. Criada es sa 
situao, dela decorreria uma crise institucional, pondo em 
antago nismo a Cmara e as Foras Armadas do pas.
O que se buscava era o antagonismo. O governador Abreu Sodr 
en saiou a denncia da manobra, dizendo que o radicalismo 
brasileiro es t infiltrado at em mnimas reas da periferia 
do governo, nos subr bios do poder Estava no palcio do 
Planalto. Portelia, o mais destacado, era de longe o 
colaborador mais influente de Costa e Silva. O general ti nha 
como com eta o ministro da Justia, professor Lus Antonio da 
Gama e Silva, o Gaminha, ex-reitor da Universidade de So 
Paulo, a quem co nhecera quando comandara a 28 Regio 
Militar. Portella no falava, Gama e Silva no conseguia 
ficar calado. Um vivia na sombra, o outro era an tes de tudo 
um exibicionista.
28 Jayme Portelia de Meilo, A Revoluo e o governo Costa e 
Silva, p. 586.
29 Daniel Krieger, Desde as Misses, p. 331.
30 Jornal da Tarde, 14 de setembro de 1968, p. 3. No dia 19, 
numa entrevista  televiso, Sodr fa lou em rearticulao 
das extremas para, num cochilo nosso, tomar o poder Folha de 
S.Paulo,
20 de setembro de 1968, p. 5.
318        A DITADURA ENVERGONHADA
Durante todo o ms de setembro o caso do discurso foi 
cozinhado no palcio. Assim como procedera em relao s 
passeatas, Costa e Silva manteve-se numa estratgia de 
imobilismo e ameaa. Comeara amea ando com o estado de 
stio contra agitaes estudantis. Agora, como Krie ger lhe 
mostrava, levava a crise para outra avenida, colocando em 
curso de coliso os tanques e a Cmara. Eram muitas as razes 
que condu ziam o governo para esse caminho. A mais forte era 
a incapacidade de Costa e Silva de enfrentar uma a uma as 
tenses tpicas do governo.
De todas, a maior era o caso Para-Sar. Encruado, arrastara-se 
seis me ses em silncio, mas entrara no ltimo ato. De um 
lado da manobra, o brigadeiro Itamar, com os documentos de 
sua sindicncia, contestava a verso de Burnier. Do outro 
lado, o brigadeiro Eduardo Gomes procu rara o senador Krieger 
e pedira-lhe que expusesse o caso a Costa e Silva, 
informando-o de que interferira no sentido de que a 
ocorrncia no fos se divulgada [ pois julgava a sua difuso 
prejudicial  disciplina e s tradies da Fora Area. O 
Brigadeiro agia de acordo com o manual da nobiliarquia. Se 
ganhasse, comprovaria mais uma vez que roupa suja se lava em 
casa. Se perdesse, passaria pelo dissabor de perceber que a 
su jeira no estava na roupa, mas na casa. Perdeu.
No dia 26 de setembro o brigadeiro Itamar mandou entregar pes 
soalmente ao ministro da Aeronutica o resultado da 
sindicncia. Ouvi ra 36 oficiais e sargentos, e conclura que 
a maioria esmagadora confir mara a narrativa do capito 
Srgio, sendo que nenhum elemento categoricamente a houvesse 
negado. Diria mais: Concluo [ ser n tida e insofismvel a 
inteno do brigadeiro Burnier de usar o Para-Sar como 
executor de atentados a figuras polticas. [ Volto a insistir 
quan to  necessidade de interveno de V. Excia., numa 
avaliao mais pro funda dos fatos, porquanto os mesmos tm 
sido apurados de maneira su perficial, em desacordo com a sua 
extrema gravidade.
31 Daniel Krieger, Desde as Misses, p. 325.
32 Comunica o de Ocorrncia do brigadeiro Itamar Rocha, de 
2 de outubro de 1968, marcada
confidencial Cpia cedida ao autor pelo capito Srgio 
Miranda de Carvalho. AA.
33 Cpia de expediente remetido pelo brigadeiro Itamar Rocha 
ao ministro Souza e Mello, sem
assinatura nem data. AA.
A PROVOCAO DA ANARQUIA        319
No dia seguinte foi demitido da Diretoria de Rotas Areas e 
preso por dois dias. Esse desfecho foi estimulado pelo 
general Portella e refe rendado por Costa e Silva. O ministro 
da Aeronutica levara ao presiden te o decreto de demisso do 
brigadeiro Itamar antes mesmo que ele re metesse a 
sindicncia, mas o marechal confiava na possibilidade de um 
acordo. Entregue o cartapcio com os depoimentos que provaram 
o de lito e desmentiram Burnier, a demisso foi assinada em 
24 horas. J no se estava em abril, quando um capito podia 
se recusar a aceitar ordens ilegais de um brigadeiro. Nem se 
estava em junho, quando outro bri gadeiro podia fazer saber 
ao ministro que duvidava da palavra de seu chefe-de-gabinete.
A vitria de Burnier informava que, num choque entre a 
ilegalida de e a disciplina e as tradies da FAB, vencera 
a anarquia. Era um avi so a toda a corporao militar. 
Eduardo Gomes, o venerado Brigadeiro das revoltas da 
Repblica Velha e das campanhas contra a ditadura de Var gas, 
foi incapaz de ir buscar junto  opinio pblica o desagravo 
 hon ra da FAB. Mesmo em outubro, quando o caso Para-Sar 
finalmente foi de nunciado da tribuna da Cmara, manteve-se 
em olmpico silncio.  certo que havia em 1968, dentro da 
hierarquia militar, um grupo de ofi ciais que poderiam ser 
chamados de liberais, respeitadores de algumas noes de 
direito como, por exemplo, a condenao do homicdio. O ca so 
Para-Sar e o silncio do Brigadeiro indicaram que essa 
brigada liberal preferia o silncio a tomar riscos diante da 
criminalizao das atividades policiais das Foras Armadas.
Itamar reagiu semanas depois de sua degola, remetendo aos 
demais brigadeiros um documento em que dizia: Por trs de 
nossas patentes, observando nossas atitudes e reaes, existe 
toda uma fora armada. Com o brio com que reagirmos, com a 
altitude de nossos gestos de re pdio e cm o exemplo do 
nosso procedimento, estaremos crescendo aos olhos dos 
subordinados que acreditam em seus chefes. O texto tinha 
seis pginas e a marca de confidencial O caso Para-Sar 
acabara. Bur 34 Comunicao de Ocorrncia do brigadeiro 
Itamar Rocha, de 2 de outubro de 1968, marcada
confidencia1 .
1
320        A DITADURA ENVISRGONHADA
nier vencera em pblico, e os brigadeiros que o combateram 
reclamavam
em segredo.
O nico protesto fardado partiu do general Mouro Filho, 
provisio nado no Superior Tribunal Militar, cujo nome 
apareceu numa das ver ses da lista de polticos que sumiriam 
por conta da ofensiva de Burnier. Com seu gosto pelo teatro, 
foi para a televiso e ameaou: Vocs devem estar me 
ouvindo, fiquem sabendo que no tenho medo de morrer, nem 
entro em automvel para ser seqestrado. Uso um Colt 45 e 
atiro mui to bem. Ficou nisso.
A justificativa mais freqente para essas capitulaes sempre 
foi as sociada a um hipottico desejo de preservao da 
unidade militar. Mes mo reconhecendo-se que o tradicional 
esprito de corpo da oficialida de pode ser um ingrediente na 
fabricao de uma cumplicidade de ltima instncia, ele no  
o nico. Velho conhecedor da mquina mi litar, o marechal 
Cordeiro de Farias ensinaria que h o interesse pes soal, 
pois o pensamento dominante  preservar posies, garantir a 
permanncia em posies de vantagem O comportamento do bri 
gadeiro Eduardo Gomes em anos posteriores, defendendo 
publicamen te Srgio Macaco com uma bravura proporcional ao 
declnio do regi me, indica que sua capitulao conteve uma 
opo preferencial pela ditadura. Ao calar-se, no procurou 
preservar a FAB, mas o regime em que era hierarca. Se para 
ele o silncio era uma convenincia, para ofi ciais 
biograficamente menos afortunados seria uma necessidade, quan 
do no fosse convico.
O caso Para-Sar, tornado pblico no dia 12 de outubro, 
surpreen dia pela simplicidade de sua trama e pelo absurdo do 
seu desfecho. O ministro Souza e Meilo pudera demitir o 
brigadeiro Itamar, mas no con seguia apresentar uma verso 
que se sustentasse. Acusado de proteger o que o Correio da 
Manh denunciava como a Operao Mata-Estudan te, o 
ministro, atravs de seu gabinete, respondeu com a trapaa 
pela qual se confundia uma acusao feita contra um oficial 
com um ataque
35 Olympio Mouro Filho, Memrias, p. 443.
36 Aspsia Camargo e Waider de Ges, Meio sculo de combate  
Dilogo com Cordeiro de Farias,
p. 610.
A PROVOCAO DA ANARQUIA        321
 corporao. Vislumbrava uma manobra divisionria em 
ofensiva di rigida contra as prprias instituies militares, 
fazendo parte dos pro cessos de tentativa de isolamento das 
Foras Armadas na comunidade brasileira
Apesar do refluxo das agitaes estudantis, algo de raro 
estava acon tecendo com os sentimentos da sociedade 
brasileira em relao aos mi litares. Confundidos com a 
natureza ditatorial do regime e com o des gaste do governo, 
os oficiais sentiam-se inibidos de vestir a farda fora dos 
quartis. Cara o nmero de estudantes do Colgio Militar que 
deci diam fazer o concurso de ingresso na Academia das 
Agulhas Negras. No final de setembro encerrou-se no 
Maracanzinho mais um dos glorio sos festivais da Cano da 
poca. Num pas onde as manifestaes cul turais de massa se 
limitavam a novelas de televiso e partidas de futebol, esses 
festivais reuniam a mais talentosa gerao de compositores 
que o Brasil j tivera. Tornaram-se a um s tempo festa e 
instante de refinamen to intelectual. Duas canes disputavam 
a final. Uma era Sabi, de An tonio Carlos Jobim e Chico 
Buarque de Hoilanda. Soava bonita, mas es tava fora do lugar. 
A outra era Caminhando de Geraldo Vandr. Musicalmente 
banal, quase uma guarnia, impressionava pela letra emo 
cional, verdadeiro hino poltico, potico na sua raiva. 
Falava de solda dos armados, amados ou no, prontos a 
morrer pela ptria ou viver sem razo Sua fora estava no 
refro:
37 Pery Cotta, A Operao Mata-Estudante, Correio da Manh 
de 4 de outubro de 1968.
38 A esse reipeito, ver o manifesto dos alunos da Escola de 
Aperfeioamento de Oficiais: O Exr cito [ se torna alvo de 
uma insidiosa agresso, que vai desde a priso de 
companheiros em uni versidades, at a inibio de usar a 
farda, em O Estado de S. Paulo, 1 de novembro de 1968. Tam 
bm Lyra Tavares, em O Exrcito e o Ato Institucional n 5, 
livreto marcado reservado, Ministrio
do Exrcito, 1969. APGCS/HF. Na reunio do Conselho de 
Segurana Nacional de 16 de julho de
1968, disse o general: Sucedem-se os casos de provocao 
contra militares fardados, sobretudo
no iii Exrcito, como expe, em relatrio, o respectivo 
comandante
39 Alfred Stepan, The military in politics, p. 258. De 117 em 
1963, esse nmero baixara para 47cm 66.
40 O ttulo oficial da cano  Pra no dizer que no falei 
de fiores
322        A DITADURA ENVERGONHADA
Vem, vamos embora, que esperar no  saber.
Quem sabe faz a hora, no espera acontecer.
As 20 mil pessoas que estavam no Maracanzinho transformaram- 
se em coral dessa variante meldica do conceito marighelista 
de que a vanguarda faz a ao Sabi derrotou 
Caminhando, mas Tom Jobim mal conseguiu toc-la. A 
arquibancada vaiou-o por 23 minutos. Talvez tenha sido a mais 
longa das vaias ouvidas nos auditrios do pas. No era a Tom 
que se apupava, muito menos ao jri, que deixara Caminhando 
em segundo lugar. A vaia era contra a ditadura, e aquela 
seria a ltima manifestao vocalista das multides 
brasileiras. Passariam uma dcada em silncio, gritando pouco 
mais que gol Poucas semanas depois, o go verno proibiu a 
execuo de Caminhando nas rdios e em locais p blicos. 
Temia que se tornasse o ponto de partida para a acelerao e 
am pliao de um processo de dominao das massas.
A vanguarda que se supunha capaz de fazer a hora vinha 
fazendo acontecer. Praticava uma ao relevante a cada duas 
semanas. Uma pe quena dissidncia estudantil de Niteri 
intitulou-se Movimento Revo lucionrio 8 de Outubro, MR-8, em 
memria do dia da captura do Che Guevara. Assaltava bancos e 
comprava terras no Paran, onde preten dia montar bases de 
treinamento para um foco guerrilheiro na regio da foz do 
Iguau.
Cada grupo fazia sua hora. Algumas das melhores faculdades e 
es colas secundrias do Rio de Janeiro e So Paulo tornaram-
se focos de recrutamento para a guerrilha. O calendrio do 
movimento estudan til anunciava um grande acontecimento. No 
final do ano devia se rea lizar o xxx Congresso da UNE. Os 
trs ltimos haviam sido abrigados clandestinamente em 
conventos. Dessa vez planejava-se algo maior, com perto de 
mil participantes. O governador Abreu Sodr fez saber aos 
estudantes paulistas que estava disposto a tolerar a reunio 
caso ela
41 Zuenir Ventura, 1968O ano que no terminou, p. 206.
42 Ofcio n 427/68-SCDP, de 23 de outubro de 1968. Do chefe 
do Servio de Censura de Diver ses Pblicas ao diretor da 
Diviso de Operaes da Polcia Federal.
A PROVOCAO DA ANARQUIA        323
tivesse lugar no Conjunto Residencial da Universidade de So 
Paulo, o CRUSP. Era legalidade demais para tantos anseios 
revolucionrios. Na liderana estudantil chegara-se a 
discutir uma proposta para que o congresso fosse realizado 
depois de uma fulminante ocupao de um edificio na avenida 
Rio Branco, no centro do Rio de Janeiro. Desde julho 
militantes do marighelismo vinham estudando a convenincia de 
utilizar o stio de um veterano militante comunista na 
localidade de Ibina, a setenta quilmetros de So Paulo. A 
propriedade foi inspecio nada pelo general cassado Euryale de 
Jesus Zerbini e pelo coronel Pl nio Rolim de Moura, um 
oficial da reserva que se considerava deposi trio de poderes 
paranormais, atravs dos quais recebera vibraes 
premonitrias do assassinato do presidente John Kennedy e da 
depo sio de Joo Goulart. Ambos consideraram a topografia 
do local ade quada para a reunio.
A idia segundo a qual mil estudantes poderiam ser convocados 
para um congresso clandestino, chegar a Ibina, eleger uma 
nova dire toria para a UNE e voltar s suas casas sem que o 
governo percebesse, era uma fantasia. At que ponto ela 
resultou da inocncia, no se sabe. Ne nhum dos organizadores 
da reunio admitiu que houvesse, subjacente ao projeto, o 
desejo secreto de um confronto armado entre a segurana do 
congresso e a polcia, ou de uma priso em massa. Oito anos 
depois,
o CIE estava convencido de que o Congresso da UNE foi levado 
para Ibi na propositalmente, numa grande traio destinada 
a facilitar o recru tamento de jovens para as organizaes 
terroristas. Rinaldo Claudino de Barros, militante do Partido 
Comunista Revolucionrio, PCR, e presi dente do diretrio 
acadmico da Faculdade de Sociologia da Fundao Jos 
Augusto, de Natal, revelou mais tarde que o Congresso de 
Ibina foi feito para todos serem presos Pensava-se que, 
de repente, quando o cara fosse preso uma vez, ele saa de 
casa, abandonava a famlia e a faculdade,
43 Joo Guilherme Vargas Netto, outubro de 1988, e Zuenir 
Ventura, 1968 O ano que no ter minou, pp. 239 e segs.
44 Zuenir Ventura, 1968O ano que no terminou, p. 246. Os 
poderes do coronel esto em car ta de 2 de fevereiro de 1975 
de Plnio Rolim de Moura ao general Sylvio Frota. APGCS/HF.
45 A Subverso Comunista em So Paulo, Relatrio 1/76 do DOl-
CODI do ii Exrcito, marcado re servado, de abril de 1976, 
fi. 3. AA.
324        A DITADURA ENVERGONHADA
e entrava num partido de uma vez por todas. Zuenir Ventura, 
que en trevistou os principais lderes estudantis da poca, 
concluiu que Ibina funcionou um pouco como laboratrio para 
a guerrilha, como prova velmente desejava Carlos Marighel1a
Quando os estudantes comearam a afluir para o Congresso da 
UNE, o terrorismo de direita j lhes ensinara que o ltimo 
trimestre de 1968 era diferente do primeiro. Na pequena rua 
Maria Antonia, no bairro paulista de Higienpolis, conviviam 
a Faculdade de Filosofia, Cincias e Letras da usp e a 
Universidade Mackenzie. Uma, conhecida popularmen te pelo 
nome da rua, era faculdade de produo brilhante, jia da 
esquer da, fornecedora de quadros para o radicalismo da 
esquerda paulistana. Na outra, militava o CCC. Durante todo o 
ano os dois lados da calada hostilizaram-se, at que no dia 
2 de outubro alunos da escola de filoso fia fecharam a Maria 
Antonia, cobrando pedgio em beneficio da orga nizao do 
Congresso da UNE. Um estudante do Mackenzie jogou um ovo no 
grupo que bloqueava a rua, e deu-se uma breve pancadaria, 
esfriada com o aparecimento da polcia.  noite o laboratrio 
do Mackenzie foi aberto para a fabricao de bombas.
Na manh seguinte o CCC desceu os tanques. Sua tropa atacou 
com tiros e centenas de coquetis molotov. Mataram um 
secundarista de vin te anos, Jos Guimares, invadiram a 
Maria Antonia e incendiaram-na. Do ataque participaram, alm 
de estudantes do Mackenzie, pelo menos dois policiais, o 
delegado Raul Careca e o comissrio Octvio Gonalves Moreira 
Junior. Ambos eram scios fundadores do CCC. O segundo mili 
tava tambm na organizao catlica ultramontana Tradio, 
Famlia e Propriedade. O terrorismo de direita, que acabara 
com o teatro Opinio no Rio de Janeiro, incendiara a Maria 
Antonia. Esta fora refugio de pro 46 Entrevista de Rinaldo 
Claudino de Barros a Luiz Gonzaga Cortez, publicada no jornal 
Dois
Pontos, do Rio Grande do Norte, maio-agosto de 1988, e 
reproduzida em Cadernos de Jornalismo,
1, dezembro de 1990, Braslia, Fenaj, p. 199.
47 Zuenir Ventura, 1968 O ano que no terminou, p. 255.
48 Maria Ceclia Loschiavo dos Santos (org.), Maria Antonia: 
uma rua na contramo, p. 226. Para
um estudo do episdio, ver Irene Cardoso, Maria Antonia  O 
edifcio de n 294, em 1968 faz
30 anos, organizado por Joo Roberto Martins Filho, pp. 27-
48.
A PROVOCAO DA ANARQUIA        325
fessores europeus fugitivos do nazismo, era o bero da 
moderna sociolo gia brasileira. Nas suas runas, estudantes 
cantaram Saudosa maloca
Ibina terminou como era de se supor. A polcia sabia local, 
dia e hora da reunio. Cercou-a com tropas da Polcia Militar 
na madrugada fria de 12 de outubro. Prenderam toda a UNE, sua 
liderana passada, pre sente e futura. No maior arrasto da 
histria brasileira, capturaram-se 920 pessoas, levadas para 
So Paulo em cinco caminhes do Exrcito e dez nibus. O 
movimento estudantil se acabara. Dele restou um gran de 
inqurito policial, que se transformou em mola para jogar na 
clan destinidade dezenas de quadros das organizaes 
esquerdistas. Nos seis anos seguintes, militando em 
agrupamentos armados ou na guerrilha ru ral, morreriam 156 
jovens com menos de trinta anos. Deles, pelo menos dezenove 
estiveram em Ibina.
Na mesma hora em que os estudantes eram colocados nos nibus 
que os levariam  priso em So Paulo, a dissidncia 
comandada pelo ex- sargento Onofre Pinto, egresso do MNR 
brizolista, assassinou com seis tiros e uma rajada de 
submetralhadora o capito americano Charles Rodney Chandier. 
Emboscaram-no quando saa de sua casa, no bairro paulista no 
do Sumar. Veterano do Vietn, tinha trinta anos e estudava 
sociolo gia na Fundao Armando Alvares Penteado. Dera 
entrevistas e fizera pe 49 Consuelo de Castro, em Maria 
Antonia: uma rua na contramo, organizado por Maria Cec lia 
Loschiavo dos Santos, p. 94.
50 Veja, 16 de outubro de 1968, p. 12. Coronel Luiz Helvecio 
da Silveira Leite, maio de 1985. Para os nibus e caminhes, 
Samarone Lima, Z  Jos Carlos Novais da Mata Machado, uma 
repor tagem, p. 68. Segundo um delegado do DOPS, em Samarone 
Lima, Z, p. 68, o local da reunio era conhecido desde o dia 
7.
51 Levantamento com base em Nilmrio Miranda e Carlos 
Tibrcio, Dos filhos deste solo, lista quinze nomes de jovens 
mortos que estiveram em Ibina: Antnio de Pdua Costa, 
Antnio dos Trs Reis Oliveira, Aylton Adalberto Mortati, 
Eduardo Colher, Helenira Rezende de Souza Naza reth, Ivan 
Mota Dias, Jaime Petit da Silva, Jos Carlos Novais da Mata 
Machado, Jos Maurlio Patrcio, Lauriberto Jos Reyes, 
Mrcio Beck Machado, Maria Augusta Thomaz, Ransia Alves Ro 
drigues, Ruy Carlos Vieira Berbert e Tito de Alencar Lima (os 
dois ltimos, acusados de ter par ticipado da organizao do 
congresso). Jacob Gorender, Combate nas trevas, p. 162, 
mencionaAn tnio Guilherme Ribas. Somam-se a eles Chael 
Charles Schreier e Fernando Borges de Paula Ferreira, presos 
quando atuavam no esquema de segurana do encontro (Judith 
Lieblich Patarra, lara, p. 251), e Jos Roberto Arantes de 
Almeida (mencionado em <http://www.desaparecidospoliti 
cos.org.br/detalhes 1 .asp?id= 136>). Tambm esteve em 
Ibina, como jornalista, Luiz Merlino, mi litante do Poc, 
morto em 1971.
326        A DITADURA ENVERGONHADA
lo menos uma palestra sobre a guerra para uma audincia de 
militares. Deveria voltar para Washington dali a poucas 
semanas. Chamara a ateno dos terroristas e, sem que 
soubesse, fora sentenciado por um gru po de pessoas que 
arrogava a condio de tribunal revolucionrio.
No caso da execuo do major alemo Von Westernhagen supusera 
se o assassinato do oficial que capturara o Che Guevara. Pela 
lgica de uma organizao terrorista, a sentena faria nexo. 
O erro dos assassinos de Von Westernhagen no se situou na 
definio do objetivo, mas na sua iden tificao equivocada. 
Com Chandler a delinqncia esteve precisamente na escolha do 
objetivo. Por mais de trinta anos, mesmo depois da anistia, 
seu assassinato foi defendido com base em duas acusaes: era 
um agen te da Central Intelligence Agency e torturara 
vietcongues. Nenhuma das duas jamais foi provada. 
Consideravam-no agente da CIA apoiando-se num raciocnio 
segundo o qual qualquer americano era, em princpio, um 
perigoso espio. Fora para a Guerra do Vietn como oficial do 
exrcito, assim como vinte anos antes outros capites 
americanos desembarcaram na Normandia lutando contra o 
nazismo, mas isso no vinha ao caso.
O tribunal no decidiu mat-lo porque tivesse feito algo de 
errado, mas porque era americano e era militar. Alm disso, 
estavam a fim de ma tar algum que desse publicidade ao 
terrorismo. Iam longe os dias de ou tubro de 1967, quando o 
ex-sargento Pedro Lobo de Oiveira, dirigindo o txi com que 
ganhava a vida, vagara pela noite paulista com um peda o de 
cano cheio de clorato de potssio, alumnio em p e acar. 
Que-
52 Entrevista de Charles Chandier, Folha de S.Paulo, 3 de 
maro de 1968, 1 caderno, p. 10.
53 Depoimento do diretor da CIA, Richard Helms,  Subcomisso 
de Assuntos Hemisfricos do Senado americano, 5 de maio de 
1971, parcialmente liberado em 1987. DEEUA.
54 Exemplo da distoro propagandstica com que se confundiam 
funcionrios do governo ame ricano com agentes da CIA pode 
ser encontrado na nota da VPR de abril de 1970, referente ao 
seqes tro do cnsul americano em Porto Alegre, Curtis 
Cutter: Este indivduo, ao ser interrogado, con fessou suas 
ligaes com a CIA (Agncia Central de Inteligncia, rgo da 
espionagem internacional dos EUA) e revelou vrios dados 
sobre a atuao da CIA no territrio nacional e sobre as 
relaes des ta agncia com os rgos de represso da 
ditadura militar. Ficamos sabendo, entre outras coisas, que a 
CIA trabalha em estreita ligao com o Cenimar, fornecendo 
inclusive orientao a este ltimo r go sobre os mtodos 
de tortura mais eficazes a serem aplicados nos prisioneiros 
O seqestro de Cutter falhou, e ele jamais foi interrogado 
pela VPR. A nota fora redigida durante o planejamento da 
operao e deixara-se em branco o espao onde deveria entrar 
a data, O documento est em Isto de 19 de agosto de 1987, p. 
21, na reportagem intitulada Os segredos do terror
A PROVOCAO DA ANARQUIA
327
ria jog-lo na manso de um empresrio americano, mas acabou 
atiran do-o em frente  casa da filha do governador Abreu 
Sodr. No dia se guinte, para seu desencanto, nenhum jornal 
falara do atentado. Dessa vez Pedro Lobo dirigiu o automvel 
que transportou o peloto de fuzi lamento e, quando voltou ao 
volante de seu txi, tinha garantidas as pri meiras pginas 
das edies dos jornais do dia seguinte. Meses depois, Ma 
righella relacionava a execuo do espio da CIA como uma 
das provas de que estamos em plena guerra revo1ucionria
Somado a dois PM5 assassinados semanas antes em So Paulo, 
Chan dler fora o quinto cadver fardado de 1968. O terrorismo 
de esquerda to mara a ofensiva tanto na quantidade como na 
qualidade. As aes de sig nificado poltico, que rendiam 
publicidade, prevaleceram sobre aquelas com objetivo 
logstico, que buscavam dinheiro e armas. Ofensiva virulen 
ta, incluiu dois assassinatos vindicativos (do major alemo e 
do capito americano) e dois ataques a instalaes militares 
(o hospital do Cambu ci e o QG do II Exrcito). Desbaratou o 
comcio de Abreu Sodr, ferin do-o. Explodiu pelo menos dez 
bombas. Foi eficaz tambm na busca de meios. A polcia 
atribua aos seus assaltos uma arrecadao de 1,2 milho de 
cruzeiros, equivalentes a 330 mil dlares ao cmbio da poca. 
Alm disso, roubou-se perto de 1,5 tonelada de explosivos.  
possvel que es sa lista, como todas as produes policiais 
do gnero, esteja inflacionada. Muito provavelmente as aes 
praticadas em 1968 passaram de cinqen ta. Nelas, em 
confrontos deliberados, foram assassinadas sete pessoas.
Do outro lado, os grupos paramilitares praticaram dezessete 
aten tados, que devem ser somados s catorze exploses e a um 
assalto a ban
55 Depoimento de Pedro Lobo de Oliveira, em Antonio Caso, A 
esquerda armada no Brasil  1967-71,p. 113.
56 Carlos Marighella, Manual do guerrilheiro urbano e outros 
textos, p. 60.
57 Veja, 18 de dezembro de 1968, p. 23, para os assaltos, e 
23 de outubro de 1968, para a dinami te. Essa cifra derivaria 
de 26 assaltos que, no tendo sido desvendados, eram 
atribudos  esquer da armada.
58 Alm de Mrio Kozel Filho, Von Westernhagen e Chandier, 
foram assassinados os PM5 paulis tas Antonio Carlos Jeffery e 
Eduardo Custdio de Souza. (O PM Nelson de Barros, morto no 
Rio de Janeiro quando foi atingido por um objeto atirado de 
um edifcio, no entrou nessa conta.) Morreram tambm dois 
civis, Wenceslau Ramalho Leite e Estanislau Incio Correa, 
ambos du rante o roubo de seus automveis.
328        A DITADURA ENVERGONHADA
co confessados por Aladino Flix. Disso resulta que foram 32 
os atos ter roristas sados da direita, sem vtimas fatais. 
Dias depois do arrasto da UNE, um comando terrorista 
integrado por oficiais e sargentos do Exr cito explodira a 
Livraria Civilizao Brasileira, no centro do Rio de Ja 
neiro. Era a mais corajosa editora de esquerda do pas. S a 
tenacidade de seu dono, nio Silveira, impediria que ela 
perecesse, como o teatro Opi nio e a Maria Antonia. Para os 
padres da poltica brasileira, onde a cordialidade da 
crnica perdoa a violncia do Estado, o ano de 1968 teve 
tambm uma violncia especfica. Enquanto os distrbios 
ocorridos na Frana custaram cinco vidas e os dos Estados 
Unidos, uma, as passeatas brasileiras que se seguiram  morte 
de Edson Lima Souto custaram mais dez. Nenhum desses 
homicdios foi investigado.
Seja qual foro nome que se d ao surto terrorista de 1968,0 
que hou ve de essencial nele foi a instrumentalizao daquilo 
que se denominou guer ra revolucionria Para Marighella e 
as outras organizaes de esquerda que usavam a mesma 
expresso, ela pretendia significar um salto de qua lidade no 
combate ao regime. Havendo a guerra revolucionria, a luta 
ar mada deixava de ser uma tese, tornando-se uma 
inevitabilidade. Para os comandantes militares, havendo 
guerra revolucionria, o regime consti tucional deixava de 
ser um constrangimento, tornando-se um estorvo.
Nos dois casos o uso da expresso era uma convenincia 
retrica a servio de uma idia maior de tutela da sociedade. 
O radicalismo esquer dista beneficiava-se da idia de 
guerra dispensando a parafernlia te rica que punha no 
caminho dos revolucionrios a mobilizao da socie dade, ou 
pelo menos de uma parte considervel da classe operria. Para 
apressar o socialismo, dispensavam temporariamente as massas. 
Do ou tro lado, o regime embebia-se na literatura militar 
francesa, em que o con ceito de guerra revolucionria 
racionalizara a derrota sofrida na Indo china e justificara a 
conduta do exrcito na represso ao movimento de libertao 
da Arglia.
59 Heleno Cludio Fragoso, em seu Advocacia da liberdade, pp. 
24-5, conta que um ex-colabora dor do CIE informou a nio 
Silveira no dia 16 de outubro de 1968 que os autores do 
atentado ha viam sido o major Bismark, o capito Ramalho e os 
sargentos Mazza, Fialho e Drcilo, todos do GTE. O major 
Bismark Baracuhy Amancio Ramalho mais tarde foi para o SNI.
A PROVOCAO DA ANARQUIA        329
Os dois lados queriam provar que estourara uma revoluo no 
Bra sil, mas como ela no existia, contentavam-se em 
proclamar a existncia do processo a que chamavam de guerra 
revolucionria  esquerda o slogan carregava o embuste de 
sugerir que a revoluo estava na rua por que algumas 
centenas de pessoas tinham resolvido comear uma guer ra.  
direita, queria-se colocar o pas em estado de guerra porque 
algu mas centenas de pessoas queriam fazer uma revoluo. Por 
conta disso, falavam a mesma lngua:
Dizia Marighella: A questo no Brasil no est no mito de 
quem der
o primeiro tiro. Alis, o primeiro tiro j foi dado, pois 
encontramo-nos em pleno curso da guerra revolucionria
Dizia o general Humberto de Souza Meilo, ao assumir a 
Diretoria de Ensino e Formao do Exrcito: A guerra 
revolucionria, cujas ca ractersticas definem a guerra dos 
nossos tempos, assumindo impor tncia imprevisvel e 
envolvendo problemas humanos fundamentais, exige que cada 
cidado-combatente tenha criado em si um mundo in terior 
conscientizado nas foras morais, espirituais e de cultura, 
que permita maior eficincia na utilizao das armas com as 
quais est adestrado
Menos de um ms depois da execuo de Chandler a polcia come 
ara a puxar dois fios da rede terrorista. Capturara em 
novembro dois militares cassados que operavam no Colina. No 
Rio de Janeiro, Mari ghella assaltara um carro pagador do 
Instituto de Previdncia do Estado da Guanab ara que lhe 
rendeu o equivalente a 31 mil dlares e o fim do seu prprio 
mistrio. Com a priso de um dos envolvidos na expropria 
o a polcia conseguiu finalmente associar o nome do velho 
dirigente comunista a um assalto. A capa da revista Veja 
avisava: Procura-se Ma righella, chefe comunista, crtico de 
futebol em Copacabana, f de can tadores de feira, assaltante 
de bancos, guerrilheiro, grande apreciador de batidas de 
limo
60 Carlos Marighella, Manual do guerrilheiro urbano e outros 
textos, p. 37.
61 Boletim da Agncia Nacional de 30 de agosto de 1968.
62 Veja, 20 de novembro de 1968.

330        A DITADURA ENVERGONHADA
A verdadeira guerra que os generais tinham nos quartis 
estava na insatisfao da oficialidade. Os dois principais 
centros de instruo do Exrcito, a Escola de Aperfeioamento 
de Oficiais e a Escola de Coman do e Estado-Maior, haviam-se 
tornado focos de panfletagens. Na E5AO che gara-se a redigir 
um manifesto em que os capites, arrochados em sal rios de 
menos de trezentos dlares mensais, reclamavam: A carreira 
militar encontra-se em visvel fase de desfibramento devido  
falta de mo tivaes profissionais e insuficincia de 
vantagens materiais Denun ciavam o trfico de influncia 
na rotina da carreira, a onda de descr dito do governo [ se 
avoluma pela corrupo e o alastramento da horda 
subversiva Concluam:  hora de mudar! Nesse documento os 
capites balearam at mesmo a gramtica, com excesses e 
dissenes. Nada mais subversivo.
Diante da desordem, Lyra Tavares reagiu ao seu estilo. 
Respondeu aos panfletos dizendo que julgo, por princpio e 
por temperamento, sem pre til qualquer sugesto Depois 
atacou:  estranho [ que fontes j identificadas tivessem 
dado curso  notcia de que o ministro estivesse cogitando 
punir os capites Prender a UNE em Ibina era fcil, pren 
der os oficiais da E5AO, outra conversa. Em vez de enquadrar 
os capites insubordinados, o ministro ameaava quem 
espalhara a idia segundo a qual faria cumprir o regulamento 
disciplinar da Fora que comandava.
Para os analistas da Central Inteiligence Agency, em 
Washington, a
situao diferia pouco  para pior  da previso feita dois 
anos antes
pelo diplomata Philip Raine:
Os protestos e os problemas internos dos militares, como os 
baixos sal rios, espalharam a insatisfao nas Foras 
Armadas, que, por sua proximi 63 O salrio de um capito, 
segundo Veja de 13 de novembro de 1968, era de 850 cruzeiros 
novos
mensais, equivalentes a 265 dlares.
64 Manifesto da E5AO, em O Estado de S. Paulo, 1 de novembro 
de 1968.
65 Correio da Manh, 8 de novembro de 1968.
A PROVOCAO DA ANARQUIA        331
dade do governo, tiveram de suportar o grosso dos ataques da 
oposio. Os chefes militares, preocupados com a 
insatisfao, sobretudo entre os ofi ciais mais jovens, esto 
pressionando o presidente para melhorar o fun cionamento de 
seu governo e para liquidar as foras de oposio mais ra 
dicais. Embora Costa e Silva tenha sido capaz de evitar aes 
drsticas que posteriormente viro a debilitar as fracas 
instituies civis, como o Con gresso, uma piora substancial 
da situao poltica pode muito bem for lo a aceitar o 
aumento do controle militar sobre a poltica do governo, ou 
ento a enfrentar o perigo de ser deposto.
s trs horas da tarde de 12 de dezembro o presidente Costa e 
Sil va ia do aeroporto do Galeo para o palcio Laranjeiras. 
Pelo rdio da limusine ouviu o resultado da votao do pedido 
de licena para pro cessar Marcio Moreira Alves. Como previra 
o senador Krieger, o pedi do foi rejeitado. Foram 216 votos 
contra 136 a favor. Tambm como pre vira Krieger, estava 
feita a crise institucional, pondo em antagonismo a Cmara e 
as Foras Armadas do pas Costa e Silva trancou-se no pa 
lcio e deixou-se boiar.
No Gabinete Militar, o general Portella trabalhava desde a 
manh. An tes mesmo de ser anunciado o resultado da votao, 
ele se reunira com o diretor da Polcia Federal, 
esquematizando uma operao militar desti nada a censurar a 
imprensa. As rotativas dO Estado de S. Paulo foram des 
ligadas pela Polcia Federal ainda na madrugada do dia 13, 
para impedir a circulao de um editorial em que se lembrava 
a Costa e Silva que go vernar uma nao era coisa mais 
complicada que comandar uma tropa.
Durante trinta horas o marechal presidiu em silncio uma 
revolta militar. Ainda na tarde do dia 12, diante do 
resultado da votao, os ge nerais mais graduados do quartel-
general foram ao ministro Lyra Tava res. Ele sara do seu 
gabinete do nono andar e subira para uma sala que ocupava no 
piso superior sempre que desejava descansar. Os generais que-
66 The Military in Brazil, Special Report da Weekly Revew da 
Central Inteiligence Agency, de 29
de novembro de 1968. DEEUA.
67 Instituies em franga1hos editorial do Estado de S. 
Paulo, edio de 13 de dezembro de
1968, da qual circularam apenas 106 mil exemplares.
332        A DITADURA ENVERGONHADA
riam o golpe. Os mais extremados, inclusive pelas notcias 
que receba mos dos quartis, achavam que precisava comear 
tudo de novo, lem braria o general Muricy, chefe do Estado-
Maior do Exrcito. O general Moniz de Arago dizia que se o 
presidente estava vacilando, que fosse ultrapassado Lyra 
disse que ficava com o que decidisse Costa e Silva, ao que 
Muricy respondeu que ficava com o que ele, Lyra, decidisse, 
dei xando implcito que se o ministro decidisse contra o 
presidente, teria o seu apoio.
Decidiu-se que o ministro e o chefe do EMFA, Orlando Geisel, 
iriam ao Laranjeiras para expor a situao ao presidente. O 
comandante do i Exrcito, Syseno Sarmento, resolveu fazer a 
mesma coisa. Costa e Silva no os recebeu. Subiu para o 
primeiro andar do casaro e trancou-se nos aposentos, onde 
ficou ouvindo msica. S desceu ao salo de jantar para ver 
um filme de faroeste. Numa folha de bloco deixada pelo 
presiden te na mesa de seu gabinete lia-se: Recesso do 
Congresso A essa altu ra o comandante da Vila Militar, 
general Joo Dutra de Castilho, estava rebelado, sem contudo 
ter colocado um s de seus praas em posio de combate. Por 
via das dvidas, alguns oficiais do Gabinete Militar pre 
feriram dormir no palcio. Gama e Silva, velha vivandeira, 
circulava pe los bivaques dos granadeiros com uma proposta de 
extravagncia do po der militar. Denominava-a Ato 
Institucional n 5.
68 General Antonio Carlos Muricy, agosto de 1988.
69 Jayme Portelia de Melio, A Revoluo e o governo Costa e 
Silva, p. 724.
70 Idem, p. 641, e Hernani dAguiar, Estrias de um 
presidente, p. 133.
71 Jayme Portella de Meilo, A Revoluo e o governo Costa e 
Silva, p. 642.
72 General Antonio Carlos Muricy, agosto de 1988.
73 Hernani dAguiar, Ato 5, p. 284.
A missa negra
s dezessete horas da sexta-feira, 13 de dezembro do ano 
bissexto de 1968, o marechal Arthur da Costa e Silva, com a 
presso a 22 por 13, parou de brincar com palavras cruzadas e 
desceu a escadaria de mrmore do La ranjeiras para presidir o 
Conselho de Segurana Nacional, reunido  grande mesa de 
jantar do palcio. Comeava uma missa negra. Com posto por 
ministros demissveis ad nutum, o Conselho sempre fora uma 
fico. Suas decises, sem a chancela do presidente, nada 
valiam. Sua com petncia legal para tratar da matria levada 
 suposta consulta era nula.
O marechal deteve-se na porta do salo, conversando baixo com 
o vice-presidente Pedro Aleixo, que acabara de chegar de Belo 
Horizonte. Demoraram-se por quase meia hora. Quando Costa e 
Silva ocupou a ca beceira da mesa, cada ministro tinha uma 
cpia do Ato Institucional n 5 em frente a seu lugar. Dois 
microfones, colocados ostensivamente sobre a mesa, gravariam 
a sesso. A sala estava tomada pelo barulho de sirenes de 
veculos que circulavam no ptio da manso.
O presidente abriu a sesso com um discurso em que se 
denominou legtimo representante da Revoluo de 31 de maro 
de 1964 e lembrou que com grande esforo [ boa vontade e 
tolerncia conseguira che gar a quase dois anos de governo 
presumidamente constitucional Ofe receu ao plenrio uma 
deciso optativa: ou a Revoluo continua, ou a
1 Jayme Portelia de Melio, A Revoluo e o governo Costa e 
Silva, p. 653. Para a presso, Hernani
dAguiar, Ato 5, p. 287.
334        A DITADURA ENVERGONHADA
Revoluo se desagrega Batendo na mesa, anunciou que a 
deciso es t tomada e pediu que cada membro diga o que 
pensa e o que sente Era o primeiro discurso desconexo 
daquela sesso presidida pela deter minao de proclamar uma 
ditadura. O marechal suspendeu a reunio por vinte minutos, 
para que cada ministro lesse o texto, e desculpou-se pela 
pressa. Com um prembulo de seis pargrafos, o Ato tinha doze 
ar tigos e cabia em quatro folhas de papel. Sua leitura 
atenta exigia pouco mais que cinco minutos. Costa e Silva 
retirou-se debaixo de aplausos.
Na volta, deu a palavra ao vice-presidente Pedro Aleixo, 
respeitado liberal da UDN mineira, conhecido tanto pela sua 
retido como por uma solene tibieza. Sereno e com elegante 
pronncia, Pedro Aleixo falou co mo se estivesse numa sala de 
aula da faculdade de direito. Defendia si multaneamente o 
regime constitucional e sua biografia. Mais esta que aque le. 
Comeou ensinando que a Cmara s poderia ter dado a licena 
para processar Marcio Moreira Alves se agisse com base num 
critrio polti co, pois no poderia faz-lo segundo as 
normas do direito aplicveis ao caso. Ou seja, o inslito 
agressor da dignidade dos elementos compo nentes das Foras 
Armadas no podia ser processado pelo contedo de um 
discurso proferido da tribuna. O vice-presidente declarou-se 
favor vel a um remdio constitucional  o estado de stio  
e denunciou o contedo do Ato que acabara de ler: Da 
Constituio, que  antes de tu do um instrumento de garantia 
dos direitos da pessoa humana, e da ga rantia dos direitos 
polticos, no sobra [ absolutamente nada. Esta remos [ 
instituindo um processo equivalente a uma prpria ditadura.
Falara o respeitado bacharel, mas cabia ao vice-presidente 
concluir. Com a ditadura na mo, prosseguiu: Todo ato 
institucional [ que im plique na modificao da Constituio 
existente,  realmente um ato re volucionrio. Que se torne 
necessrio fazer essa revoluo,  uma mat ria que poder 
ser debatida e acredito at que se pode demonstrar que
2 Todas as citaes de votos dessa reunio baseiam-se na fita 
da gravao. Existe ainda uma Ata da Quadragsima Terceira 
Reunio do Conselho de Segurana Nacional, da Secretaria 
Geral do CSN. Esses dois documentos guardam diferenas. Em 
alguns casos trata-se de conseqncia da simples reviso dos 
votos, proferidos de improviso. Em outros  diversos  as 
divergncias so produ to de fraude poltica. Na fita ouve-se 
Costa e Silva falar em governo presumidamente constitu 
cional Na Ata l-se governo decididamente constitucional 
APGCS/HF.
A MISSA NEGRA        335
essa necessidade existe Admitiu que se o estado de stio 
viesse a se mos trar insuficiente, a prpria nao [ 
compreenderia a necessidade de um outro procedimento 
Despediu-se reafirmando obliquamente sua dis cordncia e, 
dirigindo-se a Costa e Silva, anunciou sua certeza de que 
estou cumprindo um dever para comigo mesmo, um dever para com 
Vos sa Excelncia, a quem devo a maior solidariedade Em 
nenhum momen to Pedro Aleixo disse diretamente que condenava 
a promulgao do Ato. O bacharel denunciou a ditadura, mas 
nela se manteve vice-presidente.
Acabamos de ouvir a palavra abalizada do vice-presidente [ 
da qual discordo absolutamente, emendou o almirante Augusto 
Radema ker, ministro da Marinha. Era expoente da linha dura 
na Armada. Mili tante integralista nos anos 30, membro do 
comando revolucionrio de abril de 1964, tomara dois dias de 
cadeia durante o mandato de Castelio por ter criticado o 
governo. Ganhara o cargo depois de ter passado dois anos numa 
escrivaninha de adido ao gabinete do ministro. O que se tem 
que fazer  realmente uma represso acrescentou. O marujo 
foi s guas do direito constitucional e argumentou que o 
recesso, a meu ver, no re quer estado de stio, por 
enquanto Naufrgio, pois pela Constituio ain da vigente o 
estado de stio nada tinha a ver com o recesso parlamentar, 
que nem sequer poderia ser decretado durante sua durao.
Entrou o ministro do Exrcito, Lyra Tavares: Ns estamos 
agora per dendo condies [ de manter a ordem neste pas. E 
ameaou:  pre ciso assinalar que foi com grande sacrifcio 
que as Foras Armadas, par ticularmente o Exrcito, guardaram 
at aqui, como fato indito na histria poltica do Brasil, o 
seu silncio,  espera de uma soluo, e convencidos
 todos os quadros  de que no pode deixar de haver essa 
so1uo
3 Para a militncia integralista, Hlgio Trindade, O 
radicalismo militar em 64 e a nova tentao fascista em 
Glucio Ary Dillon Soares e Maria Celina dAraujo (orgs.), 21 
anos de regime militar, p. 134.
4 O voto do general Lyra Tavares foi severamente alterado na 
redao da Ata. Em alguns casos is so deveu-se s suas 
relaes hostis com a sintaxe. Em Outros houve maquiagem 
poltica. Ele co meou dizendo que tambm devo declarar, de 
acordo com as palavras do ministro da Marinha, que ouvi com 
grande e merecido respeito os conceitos de jurista com a 
responsabilidade de vice presidente, do dr. Pedro Aleixo 
Revisto, esse prembulo obsequioso transformou-se no seguin 
te: Eu tambm desejo me declarar de acordo com as palavras 
do ministro da Marinha APGCS/HF.
336        A DITADURA ENVERGONHADA
Costa e Silva deu a palavra por ordem de antiguidade ao 
chance ler Magalhes Pinto. Pelo cerimonial da Repblica, o 
ministro da Justi a tem precedncia sobre os demais. O 
presidente pulara Gama e Silva. Magalhes percebeu a astcia 
e lamentou que o ministro no tivesse fa lado antes, 
explicando sua obra. O chanceler vivia um desconforto bio 
grfico. Em 1943 assinara o Manifesto dos mineiros, primeira 
manifesta o da elite liberal contra a ditadura de Getulio 
Vargas. Estava pronto para assinar o Ato de Gaminha, mas 
tentava ganhar tempo. Eu tambm con fesso, como o vice-
presidente da Repblica, que [ ns estamos insti tuindo uma 
ditadura. E acho que se ela  necessria, devemos tomar a 
responsabilidade de faz-la. Eu no conheo bem, dentro do 
mecanismo constitucional E...! se o que resta caracteriza 
mesmo essa ditadura. Acho que ainda  tempo de alguma coisa 
ser feita para evitar. Magalhes con cluiu que devemos 
fazer um ato institucional, procurando colocar nele o 
essencial e sugeriu que seria til um debate privado entre 
aqueles que fizeram o Ato e aqueles que podem dar uma 
contribuio jurdica [ porque devemos ter um Ato o mais 
jurdico possvel, e resguardar os di reitos do cidado 
tambm o mais possvel
O ministro da Fazenda pisou no acelerador. Antonio Delfim Net 
to, um menino do Cambuci, ex-contnuo da Gessy, formado na 
Uni versidade de So Paulo, lapidado na assessoria da 
Confederao Na cional da Indstria, ainda era um ministro 
sem muito destaque, mas viu longe. Queria que a concentrao 
de poderes pedida por Costa e Silva desse ao governo mo 
livre para legislar sobre matria econmi ca e tributria: 
Estou plenamente de acordo com a proposio que es t sendo 
analisada no Conselho. E se Vossa Excelncia me permitisse, 
direi mesmo que creio que ela no  suficiente. Eu acredito 
que de veramos atentar e deveramos dar a Vossa Excelncia a 
possibilidade de realizar certas mudanas constitucionais que 
so absolutamente ne cessrias para que este pas possa 
realizar o seu desenvolvimento com maior rapidez
5 Na Ata, numa das mais fraudulentas alteraes, trocou-se a 
frase acho que ainda  tempo de alguma coisa ser feita para 
evitar por acho que  tempo de se fazer alguma coisa para 
acabar com as crises. [ ApGcs/HF.
A MISSA NEGRA        337
Seguiu-se o ministro da Agricultura, Ivo Arzua, ex-prefeito 
de Curitiba. Foi o voto mais longo da reunio. A sua audio 
sugere que ele foi  reunio acreditando que algum esperava 
pelas suas sugestes.  pro vvel que tenha levado um texto, 
do qual no conseguiu se desvencilhar. Louvou a 
magnanimidade das Foras Armadas por no terem resolvi do o 
caso de Marcio Moreira Alves atravs de um desforo 
pessoal, co mo ele faria. Agradeceu a ateno paternal, os 
sbios conselhos de Cos ta e Silva, citou Churchill como 
grande monumento da ltima guerra e deu sua idia, para 
embarao de vrios colegas. Denunciou a Consti tuio por 
estar contra a vontade nacional atacou os partidos por fal 
ta de substncia filosfica e sugeriu a criao de uma Nova 
Repblica, com a dissoluo do Congresso e a realizao de 
eleies para uma Cons tituinte. Foi a nota cmica e 
constrangedora da tarde.
O ministro do Trabalho, Jarbas Passarinho, coronel da reserva 
pro jetado na poltica do Par em 1964, quando saiu do 
quartel para assu mir o governo do estado, chamou a reunio 
de histrica Pouco antes, estivera com o general Porteila, 
que lhe pedira um apoio forte e bre veY Assim foi: Sei que 
a Vossa Excelncia repugna, como a mim e a to dos os membros 
desse Conselho, enveredar pelo caminho da ditadura pura e 
simples, mas me parece que claramente  esta que est diante 
de ns. [ s favas, senhor presidente, neste momento, todos 
os escrpu los de conscincia
O general Orlando Geisel, chefe do Estado-Maior das Foras 
Arma das, foi na mesma linha: Se no tomarmos neste momento 
esta medida
que est sendo aventada, amanh vamos apanhar na cara, senhor 
presi
dente
O chefe do SNI, general Medici, que pedira um ato 
institucional na reunio anterior do Conselho, anunciou que 
aprovava o texto com bas tante satisfao
6 Para o constrangimento, Antonio Delfim Netto, 1988.
7 Depoimento de Jarbas Passarinho, em Histrias do poder, de 
Alberto Dines, Florestan Fernan des Jr. e Nelma Salomo 
(orgs.), vol. 1: Militares, Igreja e sociedade civil, p. 338.
8 Na Ata l-se: Mas, senhor Presidente, ignoro todos os 
escrpulos de conscincia APGCS/HF.
9 Na Ata l-se:  vamos apanhar na carne. APGCS/HF.
1
338        A DITADURA ENVERGONHADA
A mais audaciosa proposta veio do chefe do Gabinete Civil, 
Rondon Pacheco, um mineiro tmido que fizera sua carreira no 
Congresso  som bra dos venerveis liberais da UDN. Comeou 
batendo na ferradura. Ata cou a sugesto do estado de stio. 
Mostrou que a Constituio s permi tia a suspenso das 
imunidades parlamentares, pelo voto secreto, pelo voto 
secreto, repetiu, de dois teros da casa a que pertencesse o 
congres sista. Ou seja, o estado de stio no permitiria a 
cassao de Marcio Mo reira Alves. Rondon declarou-se 
favorvel ao Ato, e Costa e Silva ia pas sando a palavra ao 
general Jayme Portelia, quando o chefe do Gabinete Civil, 
surpreendido pela interrupo, pediu para continuar. Bateria 
tam bm no cravo. Contou que j examinara vrias propostas de 
atos e em todas as ocasies sugerira a convenincia poltica 
de se estabelecer pra zo para o recesso, bem como um prazo 
tambm para o Ato Institucio nal, prazo que poderia ser de um 
ano. A proposta de Rondon foi a ni ca tentativa real de 
abrandamento da ditadura.
Quando a palavra foi passada ao ministro Gama e Silva, o 
presiden te chamou-o de responsvel direto pela redao do 
Ato Fora deixado por ltimo para descer ao campo de batalha 
e matar os feridos. Enquan to falava, as sirenes do ptio 
pareciam enlouquecidas. Ficou de inteiro acordo com a 
proposta de Delfim, a qual concedia poderes constituin tes ao 
presidente, ampliando a profundidade do golpe e dando-lhe um 
carter dinmico que o transformaria em instrumento de 
permanente revitalizao da ditadura. Rebateu a idia de 
Rondon, que limitava a vi gncia do Ato: A experincia 
demonstra como foi errado ter fixado pra zos no Ato 
Institucional n 1. Penso que isto  motivo mais do que sufi 
ciente para justificar que este Ato, outorgado como foi, 
possa at mesmo ser revogado a curto ou a longo prazo [ mas 
limit-lo [ seria inci dirmos no mesmo erro do Ato 
Institucional n 1, quando a Revoluo se autolimitou
Costa e Silva fechou a reunio com uma cruel malandragem. Elo 
giou Aleixo, pediu a Deus que no me venha convencer amanh 
de que
ele  que estava certo, mas anunciou ao auditrio que o vira 
confabu 10 A sugesto de Delfim teve o apoio expresso de dois 
ministros: Affonso de Albuquerque Lima,
do Interior, e Orlando Geisel, chefe do Estado-Maior das 
Foras Armadas.
A MISSA NEGRA        339
lando com o vice no incio da reunio: Quero revelar ao 
Conselho que Sua Excelncia, h poucos minutos, em 
confidncia [ apresentou a sua indiscutvel solidariedade s 
decises do presidente da Repblica, incor porando-se  sua 
prpria situao. Isso me trouxe um grande conforto. [ Sua 
Excelncia acabou de me dizer que a sorte dele  a minha 
sorte
Acabara o servio. Por trs do palavrrio, a deciso fora 
produto da vontade de Costa e Silva. O ministrio no se 
dividiu entre a posi o de Pedro Aleixo e o projeto de ato, 
mas entre a audcia de um pe loto de fuzilamento e a cautela 
dos liberais. O peloto, articulado por Portella, tinha os 
ministros militares como porta-vozes, o chefe do SNI como 
chefe de disciplina e os ministros Gama e Silva, Delfim Netto 
e Jarbas Passarinho como atiradores de elite. Pedro Aleixo, 
Magalhes Pin to e Rondon Pacheco tentaram abrandar o golpe, 
cada um  sua ma neira. Nem coordenaram suas ressalvas, nem 
sugeriram a hiptese de jogar seus cargos no pano verde. Se 
houve correlao entre as idias que expressaram e a conduta 
que assumiram, eles passaram de um regime constitucional a 
uma ditadura distrados como quem vai  igreja para um 
batizado, erra de capela e entra numa missa de corpo 
presente. Di feriam do peloto de fuzilamento porque 
aceitavam a ditadura, en quanto ele a queria.
Quase vinte anos depois, Antonio Delfim Netto levantou o vu 
que
encobriu toda a crise de 1968, bem como a reunio do 
Laranjeiras:
Naquela poca do AI-5 havia muita tenso, mas no fundo era 
tudo teatro. Havia as passeatas, havia descontentamento 
militar, mas havia sobretudo teatro. Era um teatro para levar 
ao Ato. Aquela reunio foi pura encena o, O Costa e Silva 
de bobo no tinha nada. Ele sabia a posio do Pedro Aleixo e 
sabia que ela era incua. Ele era muito esperto. Toda vez que 
ia fazer uma coisa dura chamava o Pedro Aleixo para se 
aconselhar e, depois, fazia o que queria. O discurso do 
Marcito no teve importncia nenhu ma. O que se preparava era 
uma ditadura mesmo. Tudo era feito para le var quilo.
11 Antonio Delfim Netto, agosto de 1986, e maio e novembro de 
1988.
340        A DITADURA ENVERGONHADA
Durante a reunio falou-se dezenove vezes nas virtudes da 
demo cracia, e treze vezes pronunciou-se pejorativamente a 
palavra ditadura. Quando as portas da sala se abriram, era 
noite. Duraria dez anos e de zoito dias.
Horas mais tarde, Gama e Silva anunciou diante das cmeras de 
TV o texto do Ato Institucional n 5. Pela primeira vez desde 
1937 e pela quin ta vez na histria do Brasil, o Congresso 
era fechado por tempo indeter minado. O Ato era uma reedio 
dos conceitos trazidos para o lxico poltico em 1964. 
Restabeleciam-se as demisses sumrias, cassaes de 
mandatos, suspenses de direitos polticos. Alm disso, 
suspendiam-se as franquias constitucionais da liberdade de 
expresso e de reunio. Um artigo permitia que se proibisse 
ao cidado o exerccio de sua profisso. Outro patrocinava o 
confisco de bens. Pedro Aleixo queixara-se de que pouco 
restava da Constituio, pois O AI-5 de Gama e Silva 
ultrapassa va de muito a essncia ditatorial do AI- 1: o que 
restasse, caso incomodas se, podia ser mudado pelo presidente 
da Repblica, como ele bem en tendesse. Quando o locutor da 
Agncia Nacional terminou de ler o artigo 12 do Ato e se 
desfez a rede nacional de rdio e televiso, os ministros 
abraaram-se.
A pior das marcas ditatoriais do Ato, aquela que haveria de 
ferir to da uma gerao de brasileiros, encontrava-se no seu 
artigo 10: Fica sus pensa a garantia de habeas corpus nos 
casos de crimes polticos contra a segurana nacional. 
Estava atendida a reivindicao da mquina re pressiva. O 
habeas corpus  um inocente princpio do direito, pelo qual 
desde o alvorecer do segundo milnio se reconhecia ao 
indivduo a ca pacidade de livrar-se da coao ilegal do 
Estado. Toda vez que a Justia
12 O Congresso foi fechado por tempo indeterminado em 1823, 
1889, 1930 e 1937. Em outubro
de 1966, para assegurar a perda do mandato de seis deputados, 
Casteilo fechou-o por um ms.
13 Com base nesse dispositivo, mais tarde, os jornalistas 
Antnio Callado e Leo Guanabara fo ram proibidos de exercer a 
profisso. Depois de publicada a punio, Costa e Silva 
revogou-a.
14 Depoimento do locutor Alberto Curi, encarregado da leitura 
do Ato. O Globo,1 de dezem bro de 1988.
A MISSA NEGRA 341
concedia o habeas corpus a um suspeito, isso significava 
apenas que ele era vtima de perseguio inepta, mas desde os 
primeiros dias de 1964 esse instituto foi visto como um tnel 
por onde escapavam os inimigos do regime. Trs meses depois 
da edio do AI-5, estabeleceu-se que os en carregados de 
inquritos polticos podiam prender quaisquer cidados por 
sessenta dias, dez dos quais em regime de incomunicabilidade. 
Em termos prticos, esses prazos destinavam-se a favorecer o 
trabalho dos tor turadores. Os dez dias de incomunicabilidade 
vinham a ser o dobro do tempo que a Coroa portuguesa permitia 
pelo alvar de 1705.15 Estava mon tado o cenrio para os 
crimes da ditadura.
Dias depois da edio do AI-5, Rondon Pacheco telefonou ao 
ex-mi nistro Carlos Medeiros Silva, autor do texto do AI- 1, 
perguntando-lhe o que tinha achado: Ora, Rondon, vocs fazem 
um ato sem prazo e ainda vm me perguntar o que eu acho?
As emissoras de televiso, as rdios e as redaes de jornais 
foram ocupadas por censores recrutados na polcia e na Escola 
de Aperfeioa mento de Oficiais. Carlos Lacerda, que quatro 
anos antes agradecera a Deus a chegada dos tanques, foi 
levado preso para um quartel, por or dem do general Jayme 
Portelia, para desagrado do comandante do i Exr cito, Syseno 
Sarmento, que acabara de encarcerar o ex-presidente Jusce uno 
Kubitschek, capturado quando descia as escadas do teatro 
Municipal. JK foi levado para uma unidade da Baixada 
Fluminense, onde o deixa ram num alojamento sujo, com privada 
sem tampo, sof rasgado e go teira. Seu amigo Hugo Gouthier, 
ex-embaixador em Roma, honrava um jantar de gr-finos quando 
foi chamado ao telefone e avisado pela em pregada de que a 
polcia o esperava em casa. Em 1964 escrevera  TV ita liana 
que a derrubada de Jango se destinara a neutralizar a ao 
comu nista que ameaava derrubar as instituies brasileiras 
e atentar contra os valores mais sagrados de nossa tradio 
crist e democrtica Vol
15 Autos de devassa da Inconfidncia Mineira, vol. 2, nota na 
pgina 138.
16 Carlos Medeiros Silva, dezembro de 1968. Medeiros foi o 
redator do texto do Ato Institucio nal propriamente dito.  
do jurista Francisco Campos a autoria do prembulo.
17 Para o quartel, Josu Montelio, Dirio do entardecer, p. 
165.
18 Correio da Manh, 18 de abril de 1964.
342        A DITADURA ENVERGONHADA
tou  mesa, terminou a refeio e despediu-se dos amigos. 
Acabou no quar tel da PM da praa da Harmonia, que guardava o 
padre vice-reitor da iuc. Em Goinia, onde seria paraninfo 
de uma turma de estudantes de direi to, o advogado Sobral 
Pinto, que em 1963 denunciara a boichevizao do pas e um 
ano depois estava no DOPS soltando comunistas, foi preso de 
pijama e chinelos, aos 75 anos. Levaram-no para uma cela de 
quartel.
O governo que comeara sinalizando um interesse na volta dos 
in telectuais e cientistas exilados expulsaria das 
universidades 66 professo res, entre eles Caio Prado Jnior 
(que no tinha cargo, mas s o ttulo de livre-docente da 
usp), Fernando Henrique Cardoso (que conquistara a ctedra de 
Cincia Poltica poucos meses antes), o socilogo Florestan 
Fer nandes, a historiadora Maria Yedda Linhares, o fsico 
Jayme Tiomno e o mdico Luiz Hildebrando Pereira da Silva, 
que deixara uma posio no Instituto Pasteur, em Paris, para 
organizar o Departamento de Parasito logia da Faculdade de 
Medicina da usr em Ribeiro Preto.
Avanou-se tambm sobre as novas dissidncias. A atriz 
Marlia Pra, da pea Roda-Viva, foi trancada num mictrio de 
quartel. Caeta no Veloso e Gilberto Gil, capturados por uma 
patrulha do Exrcito em So Paulo, vagaram por unidades 
militares do Rio. Os dois jovens atre vidos que cantavam  
proibido proibir, vestiam roupas adoidadas e usa vam cabelos 
compridos, tiveram a cabea raspada, foram confinados em 
Salvador e exilados para Londres. Na carceragem da Brigada 
Pra-Que dista, Caetano comps:
Eu quero ir, minha gente
Eu no sou daqui
Eu no tenho nada
Quero ver Irene rir.
19 Hugo Gouthier, Presena, p. 207.
20 Para a denncia da boichevizao, John W. E Duiles, Carlos 
Lacerda  A vida de um lutador,
vol. 2: 1960-1977, p. 219.
21 Depoimento de Marlia Pra a O Estado de S. Paulo de 11 de 
dezembro de 1988.
22 Caetano Veloso, Verdade tropical, pp. 347-409.
A MISSA NEGRA 343
Em que iria dar isso tudo? Essa era a curiosidade do 
embaixador ame ricano John Tuthill. Entre as pessoas junto a 
quem buscou a resposta es tava o general Golbery. Fsforo 
riscado, vivia entre sua cadeira no Tri bunal de Contas e a 
casa de Jacarepagu. Repetiu o que previra trs anos antes. 
Disse que o regime no estivera ameaado e que os generais 
es to vendo fantasmas O Ato resultara da inpcia de um 
governo deso rientado, presidido por um homem emotivo que 
prefere distrair-se com filmes e conversas despreocupadas 
com amigos Chamou Gama e Silva de maluco e Lyra Tavares de 
oportunista Duvidou das previses oti mistas que 
antecipavam a reabertura do Congresso em trs meses. Pelo 
contrrio, viriam mais cassaes e, provavelmente, atingiriam 
o Supre mo Tribunal Federal. No acreditava num surto de 
moderao: Muita gente tem contas pessoais a ajustar
Precisamente um ms depois da edio do AI5, o coronel Joo 
Bap tista Figueiredo, ex-chefe da Agncia Central do SNI, 
ento no comando do Regimento de Cavalaria de Guarda, em 
Braslia, sintetizava a situa o: A impresso que tenho  
que cada um procura tirar o maior pro veito possvel do 
momento porque comeam a perceber a quase-impos sibilidade de 
uma sada honrosa para os destinos do pas. [ Os erros da 
Revoluo foram se acumulando e agora s restou ao governo 
partir para a ignorncia
23 Telegrama do embaixador John Tuthill ao Departamento de 
Estado, de 3 de janeiro de 1969.
Em O Estado de S. Paulo, 13 de dezembro de 1998. DEEUA.
24 Carta de 13 de janeiro de 1969 do coronel Figueiredo a 
Heitor Ferreira. APGCS/HF.
O fogo do foco urbano
Baixado o AI-5,partiu-se para a ignorncia Com o Congresso 
fechado,
a imprensa controlada e a classe mdia de joelhos pelas 
travessuras de 1968,
o regime bifurcou a sua ao poltica. Um pedao, 
predominante e vis vel, foi trabalhar a construo da ordem 
ditatorial. Outro, subterrneo, que Delfim Netto chamava de 
a tigrada foi destruir a esquerda. Faziam parte do mesmo 
processo, e o primeiro acreditava que o segundo seria seu 
disciplinado caudatrio. Desde 1964, a mquina de represso 
exigia liber dade de ao. Com o AI-5, ela a teve e foi  
caa.
Nas organizaes de extrema esquerda o Ato foi avaliado 
dentro da melhor tradio do quanto-pior-melhor associada  
idia do quanto-mais- forte-mais-fraco. Da conjugao dos 
dois resultava a transcendental in vencibilidade da revoluo 
socialista. A ALN de Marighella concluiu que a crueldade dos 
fascistas que detm o poder favoreceu o clima de guer ra 
revolucionria, arrastando contra os militares brasileiros e 
a atual di tadura um nmero cada vez maior de inimigos O rc 
do B foi igualmen te claro: O AI-5 no  expresso de fora. 
Revela, bem ao contrrio, debilidade da ditadura Ele 
aprofunda as contradies internas e am plia 
consideravelmente a rea de oposio  ditadura acrescentava 
o PCBR. O Ato parecia a comprovao de que s o povo armado 
derruba a dita-
1 Delfim Netto repetiu essa expresso em inmeras conversas 
com o autor.
2 Daniel Aaro Reis Filho, As organizaes comunistas e a 
luta de classes  1961-68 vol. 1, pp.
367, 362 e 365. Esse trabalho foi posteriormente publicado, 
numa verso resumida, em forma de
livro: A revoluo faltou ao encontroOs comunistas no Brasil 
(So Paulo: Brasiliense, 1990).
346        A DITADURA ENVERGONHADA
dura. Como escreveu Jacob Gorender, o mais criterioso e 
melhor docu mentado historiador desse perodo: O captulo 
das lutas de massas es tava encerrado. Nas trevas da 
clandestinidade no havia resposta poss vel que no a do 
combate pelas armas. As vanguardas revolucionrias no podiam 
ser partidos polticos com braos armados, mas organizaes 
de corpo inteiro militarizadas e voltadas para as tarefas da 
luta armada
Na ltima noite de 1968, Carlos e Loreta Valadares, Guilherme 
e Cristina da AP, entraram numa pequena hospedaria da mata do 
norte mi neiro com trs sacos onde carregavam roupas de 
campons, o Livro ver melho do camarada Mao, um rdio, dois 
revlveres e rapadura. Estavam a um dia das matas da Jaba, 
onde a organizao armava seu foco guer rilheiro. Ela, 
advogada, tinha 25 anos. Ele estudava medicina. Deitaram- se 
sobre duas peles de porco pulguentas, e Cristina apertou a 
mo de Gui lherme: Veja, Carlos.  Ano-Novo e estamos indo 
pra guerra
Desde 1927, quando Mao Zedong compensara a derrota da insur 
reio de Shangai com a teoria de guerra camponesa, a 
esquerda ganha ra um projeto estratgico capaz de alimentar-
lhe a f onde fosse impos svel a revoluo urbana. A vitria 
de Fidel Castro fora a um s tempo atualizao da velha idia 
e sinal de sua atualidade. As cidades so ce mitrios de 
revolucionrios, proclamara o Comandante. A transposio do 
modelo bem-sucedido de Sierra Maestra para a cordilheira dos 
An des era venerada sob o nome de teoria do foco, uma 
redundncia fran cesa a servio de uma convenincia cubana. 
Ela surgiu com o ensaio Re voluo na revoluo, do 
jornalista Rgis Debray. Coisa simples: havendo um regime 
capitalista retrgrado, e dispondo-se de algo em torno de du 
zentos revolucionrios (Fidel desembarcou com 81), faz-se um 
foco guer rilheiro no mato, ele se amplia, chega  cidade, 
derruba o governo, e aca bou-se. Quando Castro leu o trabalho 
ainda indito do jornalista, comentou: Interessante... Diz o 
que ns no podemos dizer. Por que no me trazem esse francs 
aqui? Providenciou a edio do livro. A morte do Che e sete 
fracassos sucessivos nas matas latino-americanas indica 3 
Jacob Gorender, Combate nas trevas, p. 167.
4 Luiz Manfredini, As moas de Minas, pp. 17 e 32.
5 Claudia Furiati, Fidel Castro, vol. 2, p. 182.
O FOGO DO FOCO URBANO 347
vam as dificuldades do grande projeto da revoluo 
continental, mas ele se nutria de uma espcie de lgica de 
aposta: as chances podiam ser pou cas, mas a vitria era 
total.
Cristina e Guilherme, por exemplo, ficaram pouco mais de 
quarenta dias no projeto de foco rural da Jaba e foram 
recolocados na rede urbana da Ar. Retomara-se o combate nas 
cidades, ttica que preservava a mobilidade de seus quadros e 
lhes permitia agir num meio culturalmente familiar.
Essa concepo ganharia o apoio cubano. Para Fidel, tinha a 
utilida de adicional de responder  seqncia internacional 
de atentados prati cada desde o incio de 1968 pela 
organizao anticastrista El Poder Cuba no. Esse grupo, 
baseado em Miami, foi responsvel por 24 dos 37 ataques 
terroristas de carter internacional ocorridos durante o ano 
em todo o mun do. Sem ter matado ningum, explodira bombas em 
quinze embaixadas, consulados e escritrios de turismo de 
pases que tinham relaes com Cuba. Atacara um navio ingls, 
um banco japons e companhias de aviao me xicanas e 
francesas. S no ms de julho estourara doze bombas nos Esta 
dos Unidos, sete das quais em Nova York. El Poder Cubano 
resultava de uma dissidncia do terrorismo anticastrista, 
abandonada pela Central In teiligence Agency em 1966. Nesse 
ano o governo americano suspendera o patrocnio de operaes 
militares contra Cuba, depois de ter coordenado uma invaso, 
instalado bases de treinamento em diversos pases centro- 
americanos e um foco de guerrilheiros na serra do Escambray.
As atividades terroristas do governo americano contra Fidel 
Castro
 coordenadas pela CIA sob o nome de Operao Mongoose  
inclu ram inmeros projetos de assassinato. Chegou-se a 
oferecer 150 mil d-
6 As guerrilhas castristas fracassaram nos seguintes pases: 
Argentina, Bolvia, Brasil, Haiti, Pa nam, Repblica 
Dominicana e Venezuela. Em dois pases (Guatemala e Peru) as 
insurreies per sistiriam, sem a mesma influncia cubana. 
Num (Nicargua) a guerrilha tomaria o poder em 1979. 7 Luiz 
Manfredini, As moas de Minas, p. 47.
8 Brian Jenkins e janera Johnson, International Terrorism: a 
Chronology, 1968-1974, Rand Corpo ration, maro de 1975, 
Santa Mnica, pp. 12-5.
9 Num artigo intitulado President Kennedys plan for peace 
with Cuba, o embaixador Richard Goodwin, secretrio de 
Estado assistente para Assuntos Interamericanos durante o 
governo Ken nedy, classificou a poltica americana desse 
perodo de um tipo de terrorismo patrocinado pelo Estado 
(state-sponsored terrorism) The New York Times, 5 de julho 
de 2000.
348        A DITADURA ENVERGONHADA
lares pela cabea do Comandante. Planejou-se contaminar sua 
roupa de pesca submarina com fungos capazes de produzir uma 
doena de pele, o aparelho de respirao com bacilos de 
tuberculose, e at mesmo o envenenamento de seus charutos. 
Nunca um grupo terrorista agira em territrio americano com a 
desenvoltura de El Poder Cubano. Ele saiu do ar nos ltimos 
meses de 1968, pouco depois do assassinato do capi to 
Chandler, em So Paulo.
A ttica do foco urbano mostrava-se tambm financeiramente 
sus tentvel. Atravs do lanamento de algumas dezenas de 
militantes trei nados na Ilha, suas organizaes podiam 
chegar  auto-suficincia finan ceira com assaltos e 
seqestros. Havana poderia ter de desembolsar alguns dlares 
aqui, outros ali, mas ficaria apenas com os custos  em pesos 
 do treinamento, hospedagem e abrigo de seus protegidos. 
Ademais, se uma guerrilha rural no ofereceria contrapartida 
publicitria durante o tem po em que permanecesse incubada, o 
foco urbano seria verdadeira ribal ta. O prprio Fidel 
indicara saber disso em 1958, quando providenciou o seqestro 
de 47 cidados americanos, alm do campeo mundial de fr 
mula 1, Juan Manuel Fangio, provando que o governo de 
Fulgencio Ba tista no controlava a cidade de Havana.
Finalmente, uma forma de foco no exclua a outra. No Brasil 
qua se todas as organizaes envolvidas em assaltos separavam 
um pedao dos butins para comprar fazendas que seriam usadas 
como bases para a guer rilha rural. Fazia-se de conta que 
roubar bancos era parte da tradio re volucionria. Afinal, 
o prprio Che assaltara um em 1958. Desprezou-se a diferena 
entre uma guerrilha que produz assaltos e assaltos para pro 
duzir guerrilha. Ela fora percebida por Guevara, quando 
aconselhou um combatente argentino a descartar esse caminho 
enquanto no controlas se reas rurais: Se voc comea 
roubando bancos, acaba virando assal tante de bancos.
10 Thomas Powers, The man who kept the secrets, p. 398.
11 Para a Operao Mongoose, Thomas C. Wright, Latin America 
in the era ofthe Cuban Revolu tion, p. 63. Para os venenos, 
Thomas Powers, The man who kept the secrets, p. 401.
12 Paul Wilkinson, Terrorism and the Liberal State, p. 264.
13 Jon Lee Anderson, Che Guevara, p. 600.
O FOGO DO FOCO URBANO 349
Funcionavam em Cuba quatro focos multinacionais de treinamen 
to. Segundo uma estimativa da Defense Inteiligence Agency, 
entre 1961 e 1969, eles receberam 1500 militantes do 
radicalismo esquerdista lati no-americano. Num grupo houvera 
sete brasileiros, dois portugueses, quatro peruanos, dois 
dominicanos e quatro equatorianos. Fidel encon trara-se em 
Havana com um dirigente dos Tupamaros uruguaios e ga rantira-
lhe ajuda. Logo no incio de 1968, na Guatemala, a guerrilha 
in dicara que a luta armada estava mudando de qualidade. Em 
janeiro eia matara o chefe da misso militar americana e em 
maro assassinara o pr prio embaixador dos Estados Unidos, 
John Gordon Mein, quando ele reagiu a uma tentativa de 
seqestro.
Na morte de Mein, que servira como ministro-conselheiro no 
Bra si! em 1964, levantou-se uma bizarra conexo. Um dos 
carros usados pe los terroristas estava alugado em nome de 
uma certa Isabelie Chaumet. Descoberta, matou-se com um tiro 
na boca. Chamava-se Michle Firk. Francesa e cineasta, rodara 
um filme em Cuba. Era conhecida nos crcu los radicais 
parisienses desde que participara de um providencial contra 
bando de duas toneladas de armas para ajudar a guerrilha 
argelina. Em agosto de 1968, os Tupamaros uruguaios fizeram 
o primeiro seqestro do ciclo terrorista, prendendo por 
alguns dias o poderoso presidente da companhia estatal de 
eletricidade, melhor amigo do presidente da Rep blica. Meses 
depois limparam espetacularmente a caixa de um cassino de 
Punta dei Este, levando o equivalente a 230 mil dlares. 
Eles avisavam:
Ningum haver de nos tirar o direito de rebelar-nos e 
ningum impe dir que morramos, se necessrio, de forma a 
sermos conseqentes
14 Cana Anne Robbins, The Cuban threat, p. 53.
15 Percival de Souza, Eu, Cabo Anselmo, pp. 110 e 109.
16 La subversin. Las Fuerzas Armadas ai Puebio Oriental, 
tomo i: Repblica Oriental dei Uruguay,
p. 114. O dirigente Tupamaro era Mauricio Rosencof, renomado 
teatrlogo, fundador do movi mento.
17 Guies Perrauit, Un homme  part, vol. 2, pp. 180-1.
18 Arturo C. Porzecanski, Uruguays Tupamaros, p. 40. 
Lawrence Weschler, Um milagre, um uni verso,p. 110.
19 Martin Weinstein, The decline and fali of democracy in 
Uruguay: lesson for the future em
Repression, exle, and democracy, editado por Sal Sosnowsky 
e Louise B. Popkin, p. 85.
350        A DITADURA ENVERGONHADA
A transposio do foco do campo para a cidade era mais que 
uma realocao geogrfica. Relacionava-se com uma nova viso 
do processo revolucionrio. Pelo catecismo do marxismo-
leninismo, o partido, van guarda da classe operria, 
organiza-a e lidera-a. Disso resultava que o avan o da 
revoluo socialista dependia de alguma maneira do grau de 
orga nizao dos trabalhadores e da influncia que sobre eles 
exercia o partido. A noo marighelista segundo a qual a 
ao faz a vanguarda no revia de imediato esse dogma, pois 
destinava-se muito mais a substituir o PCB no papel histrico 
de facho luminoso. Trocava apenas a liderana mili tante do 
cotidiano poltico pela ao espetacular da vanguarda. Tinha 
a virtude de produzir resultados imediatos.
Faltava enunciar as relaes com a freguesia. Quando isso 
comeou a ser feito, a revoluo socialista distanciou-se da 
clientela. A guerrilha no  o brao armado de um partido ou 
de uma organizao, seja ela qual for. A guerrilha  o 
prprio comando, poltico e militar, da Revo luo 
proclamava a ALN. J a Vanguarda Popular Revolucionria, VPR, 
ia mais longe. Formada por intelectuais e estudantes vindos 
do trotskis mo e por sargentos cassados, ela informava: A 
guerra do povo no sig nifica que as organizaes armadas se 
colocam ao lado dos movimen tos de massa e os apiam, e sim 
que o povo se organiza para o sustento e desenvolvimento dos 
grupos armados Nessa linha de raciocnio a VPR dispensou a 
maior parte de seus jovens militantes secundaristas em 
beneficio de algo mais maduro, uma organizao de grande 
poder de fogo, ultraclandestina
Numa fase inicial, at os primeiros meses de 1969, os 
militantes do marighelismo agiram de acordo com uma 
recomendao de seu chefe se gundo a qual no se deve pedir 
licena a ningum para praticar uma ao revolucionria Essa 
ligeireza ttica logo mostrara-se perigosa, pois su 20 Daniel 
Aaro Reis Filho, As organizaes comunistas e a luta de 
classes  1961 -68, vol. 1, pp.
344 e 333.
21 Alfredo Sirkis, Os carbonrios, p. 177.
O FOGO DO FOCO URBANO 351
cederam-se assaltos num mesmo bairro, no mesmo dia, quase  
mesma hora, permitindo que a polcia chamada a um acudisse ao 
outro. Alm disso, enquanto militantes se reuniam num bairro, 
um assalto que no lhes fora comunicado acabava atraindo 
policiais para a regio. A confu so foi evitada criando-se 
uma coordenao precria, por meio da qual os diversos nveis 
de comando gerenciavam as aes armadas.
Os quadros eram aceitos com prelees solenes e entravam na 
no va vida com uma ponta do orgulho dos cavaleiros andantes. 
De agora em diante, como no poema de Lorca, meu nome no era 
mais meu nome, nem minha casa era mais minha casa escreveria 
o jornalista Fernando Gabeira, relembrando a bonita tarde do 
Leblon em que se tornou Hon rio. Depois, foi Mateus, Bento, 
Joo e Incio.22 Feita a opo revolucionria, o militante 
era sugado para o interior da organizao. Quando manti nha a 
sua real identidade em regime de meio expediente, procurava 
dis simular sua vinculao revolucionria. Quando era um 
combatente de tempo integral, profissionalizado, vivia em 
aparelhos ou quartos alu gados numa rotina em que se 
alternavam reunies, encontros e aes. Vi ver fechado 
significava morar em casas de janelas cerradas, desligado de 
relaes fora do crculo da militncia.
Para a maioria dos militantes, recrutados nas universidades e 
em al guns dos melhores colgios do Rio de Janeiro e de So 
Paulo, esse mundo igualitrio e recluso, mas cheio de paixes 
e amizades fraternais, forma va a base para a produo de um 
homem novo livre dos laos familia res e das ansiedades da 
rotina da classe mdia. A militncia e a existn cia 
confundiam-se numa aventura herica, at mesmo romntica. 
Quem no vira os maquisards do filme Cinzas e diamantes, do 
diretor polons Andrezj Wajda? Ou a transformao do padre 
Nando, do romance Quarup, de Antnio Caliado? Quem no ouvira 
o grito do Corisco de Glauber Ro cha? Quem no cantava com 
Caetano Veloso?
 preciso estar atento eforte.
No temos tempo de temer a morte.
22 Fernando Gabeira, O que  isso, companheiro?, p. 71.
352        A DITADURA ENVERGONHADA
No incio de 1969 pode-se estimar que houvesse oitocentos 
militan tes envolvidos com aes armadas no arco que ia da 
ALN ao PCBR. Richard Helms, o diretor da cix, informou ao 
Senado americano em maio de 1971 que o nmero de pessoas 
metidas com terrorismo, em qualquer poca, nunca passou de 
mil. Na conta do coronel Carlos Alberto Brilhante Us tra, 
que comandou o DOl de So Paulo, seriam 1650.25 Todas as 
organiza es mantinham uma estrutura celular, agrupando-se 
em setores estan ques, que obedeciam a uma direo nacional. 
Em tese, cada militante conhecia apenas os seus colegas de 
clula e um coordenador enviado pela direo, mesmo assim, 
por codinome. A maioria funcionava como rede de apoio, 
colaborando nas comunicaes e no transporte, garantindo 
pouso e levantamentos de alvos para futuras aes. O corao 
do grupo estava sempre nos comandos armados, protegidos por 
severas normas de clandestinidade. Eram a prpria finalidade 
da organizao e tinham em mdia vinte homens cada um. Em 
torno desses ncleos estendia-se a rede que, em algumas 
organizaes, reunia centenas de militantes.
Desde o primeiro momento os grupos envolvidos na luta armada 
foram acusados de praticar um militarismo que, em anlises 
posterio res, serviria como explicao para o colapso de suas 
estruturas. Militarismo  o termo debaixo do qual se abrigam 
diversas questes substantivas. A
23 As principais organizaes envolvidas com a luta armada em 
1969 eram ALN, VPR, MR-8, Coli na e PCBR. Calculei em 
oitocentos o nmero de militantes que participaram de aes 
armadas, atri buindo trezentos quadros  ALN, duzentos  VPR 
e outros trezentos ao MR-8, Colina, Dissidncia Comunista e 
PCBR somados. So muitos os casos de pessoas que militaram em 
diversos grupos. Com base nos nmeros do Projeto Brasil: 
nunca mais, debulhando os nomes repetidos, Marcelo Ridenti 
chega a um total de 2613 processados em pouco mais de trinta 
organizaes, durante os anos 60 e 70. Subtraindo-se os 
processados do PCB (687), do pc do B (259), da AP (470) e do 
Gru po dos Onze (95), chega-se a 1416 pessoas. Nesse nmero 
esto includas aquelas cuja militncia era perifrica, sem 
relao com aes armadas. Ver Ridenti, O fantasma da 
revoluo brasileira, pp. 68-9.
24 Depoimento do diretor da Central Inteiligence Agency, 
Richard Helms,  Subcomisso de As suntos Hemisfricos da 
Comisso de Relaes Exteriores do Senado, 5 de maio de 1971, 
parcial- mente liberado em fevereiro de 1987.
25 Carta do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra ao autor, 
de 20 de fevereiro de 1991. Ustra es timou a seguinte 
distribuio: ALN, 250; pc do B, duzentos; VPR, duzentos; 
VAR, duzentos; Ala Ver melha, cem; Molipo, cem; PCBR, cem; 
MR-8, cem; MRT, trinta; MRM, cinqenta; POC, trinta; MCR, 
trin ta; REDE, trinta; PRT, vinte; PORT, dez; OCML-Po, 
cinqenta; Frente Bolchevique Trotskista, dez; Grupo 
Independncia ou Morte, cinqenta; Frente de Libertao do 
Nordeste, dez.
O FOGO DO FOCO URBANO 353
mutilao da vida social, a coabitao em aparelhos aonde os 
inquilinos chegavam e de onde partiam imprevistamente, 
produziam uma vida co letiva forada, enervante. 
Entulhvamo-nos em esferas fechadas, recor daria Herbert 
Daniel, um dos comandantes da VPR. As clulas compar 
timentalizadas e os ncleos de combatentes enfrentavam 
problemas que a esquerda brasileira jamais imaginara. De um 
lado, a estrutura celular  protetora,pois um militante 
conhece pouco mais que meia dzia de seus companheiros. De 
outro, provoca curtos-circuitos sempre que um elo da corrente 
 rompido, e tm de ser restabelecidas as comunicaes corta 
das. Os combatentes precisam de egos fortes o suficiente para 
suportar a tenso de suas opes e maleveis o bastante para 
prestar obedincia a uma liderana desconhecida, planejando 
operaes que s podem ser de sencadeadas com a permisso de 
uma autoridade superior.
A idia das cidades como cemitrio da guerrilha era mais que 
uma imagem retrica. Dispensando a montagem de bases rurais, 
as organiza es armadas aprisionaram-se, principalmente em 
So Paulo e no Rio de Janeiro. Dispensando o campo, perderam 
um refgio eficaz e barato para os militantes identificados 
pelo governo. Um estudo da vida de 76 orga nizaes 
terroristas de todo o mundo informa que os grupos amparados 
por bases rurais se mostraram mais longevos que os focos 
simplesmen te urbanos. Quase todos os grupos sem um p no 
campo, agindo e vi vendo no mesmo pas, duraram de um a cinco 
anos.
O prprio quid pro quo das organizaes estava mal formulado. 
Su punham-se num combate em que a vitria seria a derrubada 
do gover no e a derrota, sua permanncia no poder. O dilema 
de um grupo revo lucionrio no est no que acontece ao seu 
adversrio, mas no que acontece a ele mesmo, na sua 
capacidade de sobreviver. Uma organiza o vence enquanto 
existe e perde quando se desintegra. Seu objetivo pode ser a 
derrubada do governo, mas sua luta cotidiana  pela 
existncia. O
26 Herbert Daniel, Passagem para o prximo sonho, p. 121.
27 John B. Wolf, Organization and management practices of 
urban terrorist groups, Terrorsm:
An International Journal 1, n 2, 1978, Nova York, Crane 
Russak.
28 Martha Crenshaw, How terrorism ends, pp. 39 e segs. 
Citado em Leonard B. Weinberg e Paul
B. Davis, Introduction to political terrorsm, p. 110.
354        A DITADURA ENVERGONHADA
Exrcito Revolucionrio Irlands foi uma empresa terrorista 
bem-suce dida, apesar de no ter libertado a Irlanda. J os 
Tupamaros uruguaios, os Montoneros argentinos e as siglas 
brasileiras so exemplo de fracas so, apesar de as ditaduras 
que combateram terem mordido o p menos de vinte anos depois. 
Para as organizaes terroristas o inimigo era o go verno de 
Costa e Silva, mas no seu caminho estava a tigrada
No incio de 1969 a guerra revolucionria estava comeando e 
apa rentemente comeava bem. Seis organizaes achavam-se em 
plena ati vidade. A ditadura parecia isolada. Os militantes 
abundavam. O suces so do ataque ao quartel-general do ii 
Exrcito e da execuo do capito Chandler indicava que o 
fator surpresa oferecia o xito fcil. A precarie dade com 
que se protegiam bancos e carros-fortes prometia um razo vel 
perodo de fartura de fundos. Era planejar, executar e 
triunfar. Lim pavam-se cofres de bancos, paiis de pedreiras 
e casas de armas. Em 1968 deram-se dezessete assaltos a 
agncias bancrias e carros-fortes em So Paulo, um a cada 
trs semanas. Nos ltimos cinco meses do ano seguin te esse 
nmero saltou para 59, um a cada seis dias.
Esses sucessos eram muito mais um produto dos erros alheios 
que dos acertos das organizaes esquerdistas. Durante todo o 
ano de 1968 a mquina de informaes e represso do governo 
patrocinou o seu pr prio terrorismo e edificou o golpe do 
AI-5, mas no cuidou da seguran a nacional. Nem sequer a 
captura de toda a liderana estudantil do pas em Ibina 
estimulou um trabalho metdico de coleta de informaes. Em 
So Paulo a polcia teve nas mos trs militantes da vPR; um 
era La dislas Dowbor, o Jamil, seu principal terico das 
aes armadas. Deixou- os escapulir, libertados por um 
advogado de ocasio que os disse margi nais e enriqueceu sua 
argumentao com uma propina. Havia quartis do Exrcito onde 
o servio de guarda era feito com armas descarregadas.
29 ALN, Colina, VPR, MR-8, PCBR e a Ala Vermelha, uma 
dissidncia do Pc do a.
30 Jacob Gorender, Combate nas trevas, p. 108, mencionando 
noticirio do Estado de S. Paulo
de 15 de maio e de Veja de 13 de agosto de 1969. Para os 
assaltos a agncias e transportadores de
dinheiro de bancos nos ltimos cinco meses de 1969, Jornal do 
Brasil, 14 de dezembro de 1970,
pp. 44-6.
31 Judith Lieblich Patarra, lara, p. 249, e Luiz Maklouf 
Carvalho, Mulheres que foram  luta ar mada, p. 45.
O FOGO DO FOCO URBANO 355
Pela mecnica dos IPMS, majores e coronis presidiam 
inquritos sobre passeatas, pichaes e panfletagens. Em 
Braslia funcionou uma investi gao para descobrir e punir 
os responsveis pelo aparecimento de ba les de gs com 
tarjas pretas no cu da cidade durante um desfile mili tar de 
Sete de Setembro.
O trabalho de represso continuou na jurisdio da Polcia 
Civil, com alguma colaborao da Polcia Federal. Em So 
Paulo criou-se uma de legacia especial para tratar de 
assaltos a bancos, mas no houve esforo estrutural para que 
a mquina policial se organizasse diante da nova si tuao. 
Faltavam ao governo informaes, analistas, equipes e uma dou 
trina de segurana pblica. A circunscrio do problema  
esfera policial refletia mais a ausncia de rumo do que uma 
esperana de que os DOPS fossem remdio adequado.
Durante todo o ano de 1968 a tigrada acautelara-se, pois o 
desti no da espcie dependia do desfecho do caso Para-Sar. 
Enquanto ele no foi conhecido, deixou-se  polcia a tarefa 
de reunir informaes e cap turar suspeitos. A meganha 
tambm se acautelara. As denncias de es pancamento de presos 
polticos viriam a ser 85, um nmero alto se com parado com 
as cinqenta do ano anterior, mas ainda abaixo do teto de 
203, em 1964. At janeiro de 1969, no s as organizaes se 
mantive ram quase intactas, como nenhum atentado de vulto foi 
desvendado.
32 Projeto Brasil: nunca mais, tomo III: Perfil dos 
atingidos, p. 184.
33 Idem, tomo v, vol. 1: A tortura, p. 114. As estatsticas 
colhidas pelo Projeto Brasil: nunca mais
referem-se a denncias de torturas feitas durante o processo 
judicial nas auditorias militares.
O Exrcito aprende a torturar
A mquina policial do governo atacou a esquerda armada em 
Minas Ge rais. Num s lance, acabou com o Colina e com um 
pedao da AP. O Co- tina tinha pouco mais de seis meses e um 
razovel desempenho. Matara Von Westernhagen, pusera uma 
bomba na casa do delegado regional do Trabalho e outra na do 
presidente do Sindicato dos Bancrios, levara o dinheiro de 
quatro bancos e as armas de duas sentinelas. Sobrevivera  
priso de dois ex-sargentos que estavam entre seus 
fundadores. Seu co mando operava em Belo Horizonte. Era 
composto por poucas dezenas de jovens, quase todos sados das 
faculdades de Medicina e Engenharia da Universidade Federal 
de Minas Gerais.
Na primeira semana de janeiro dois de seus militantes foram 
cap turados depois de terem assaltado duas agncias bancrias 
na velha ci dade de Sabar. Em menos de um ms havia trinta 
presos, e a rede desa bava. Durante a caa aos aparelhos do 
Colina a polcia invadiu uma casa no bairro de So Geraldo, 
em Belo Horizonte, e foi recebida a rajadas de 
submetralhadora. Morreram dois policiais. Foi o primeiro caso 
de bai xas em combate. O delegado Luiz Soares da Rocha, que 
comandava a ope rao, impediu, no brao, que um policial 
matasse os cinco prisioneiros capturados. Nesses jovens 
comeou-se a escrever um novo captulo da
1 Herbert Daniel, Passagem para o prximo sonho, p. 19, e 
Jornal da Tarde, 30 de maio de 1969.
2 Maurcio Paiva, O sonho exilado, pp. 25-6. Para a 
identificao do policial, Maurcio Paiva, ju lho de 2001.
358        A DITADURA ENVERGONHADA
represso. Foram torturados em quatro delegacias diferentes, 
mas tam bm em dois quartis do Exrcito.
Em Belo Horizonte, apanharam no 12 Regimento de Infantaria e 
l foram interrogados pelo comandante do Centro de Preparao 
de Ofi ciais da Reserva (CPOR), que acumulava a essa funo a 
de encarregado do 1PM da subverso universitria em Minas 
Gerais. Era o coronel Octa vio Aguiar de Medeiros, ex-chefe 
da seo de sovietologia, a sc-4 do SNI de Golbery, 
coordenador da coleo de publicaes do Servio. Pensara at 
em estender o recrutamento do SNI s universidades, valendo-
se de estudantes para trabalhos de pesquisa. Neto de marechal 
e filho de al mirante, estivera entre os revoltosos da Escola 
de Comando e Estado-Mai or no dia 31 de maro de 1964. Vinha 
da elite do regime. Costa e Silva, acertando suas contas com 
o SNI, atirara-o, aos 46 anos, ao canil de um CPOR, comando 
de coronel desgraado.
Medeiros foi um exibicionista com a carcaa do Colina. Nunca 
de ra entrevistas, e no voltaria a d-las, nem mesmo quando 
chefiou o SNI, de 1978 a 1985, a poucos passos da Presidncia 
da Repblica. Em Belo Horizonte tirou o mximo de proveito da 
fama que a subverso lhe ofe recia. Vangloriara-se de 
trabalhar das sete da manh  uma da madruga da. Como chegara 
ao xito, no contava: Falaram em maltratar estudan tes, mas 
qualquer pessoa que conversar com esses cinco rapazes presos 
pode ver qual  a verdade Quando lhe mostraram uma presa da 
AP que durante as sesses de tortura exigia respeito aos seus 
direitos legais, gra cejou: Vida boa, hein?. Surgiu como o 
primeiro agente do governo a desmontar uma organizao 
terrorista.
3 Auto de Qualificao e carta manuscrita de Murilo Pinto da 
Silva, em Projeto Brasil: nunca mais,
tomo v, vol. 3: As torturas, pp. 259 e 261: No 12 RI meus 
espancadores e interrogadores foram o
coronel Medeiros, sargento Mendes, sargento Kleber, capito 
Almeida e outros Auto de Qualifi cao de Julio Antonio 
Bittencourt de Almeida, em Projeto Brasil: nunca mais, tomo 
v, vol. 2: As
torturas, p. 696: No RI nossos espancadores e interrogadores 
foram: coronel Medeiros, sargento
Marcolino [
4 Dirio de Heitor Ferreira, 4 de maro de 1967. APGCS/HF.
5 Jornal da Tarde, 30 de maio de 1969.
6 Luiz Manfredini, As moas de Minas, p. 83.
O EXRCITO APRENDE A TORTURAR 359
A ofensiva contra o Colina foi um sucesso. Pareceu um 
perfeito tra balho de investigao, capturas e anlises. O 
xito da operao durou at 1987, quando Jacob Gorender 
publicou seu Combate nas trevas. Ento re velou-se o fiasco: 
passara por baixo do pau-de-arara de Medeiros a des coberta 
da identidade dos assassinos de Von Westernhagen. Um dos inte 
grantes do peloto que agira na Gvea fora recambiado do Rio, 
onde estava encarcerado. O ex-sargento do Exrcito Joo Lucas 
Alves havia si do preso com o mesmo Volkswagen cor gelo visto 
na cena do assassinato do major alemo. O assunto no foi 
mencionado nos interrogatrios.
Joo Lucas, um pernambucano de 34 anos, passara pelo curso de 
Ha vana. Assassinaram-no na Delegacia de Roubos e Furtos de 
Belo Hori zonte. A polcia informou que ele se matara, 
asfixiando-se com a cala. Era o 132 suicida do regime, o 
quinto a enforcar-se na cela. A autpsia informava que seu 
cadver tinha doze leses e lhe faltava a unha de um artelho 
do p esquerdo. A destruio do Colina e de outras siglas que 
agiam em Minas Gerais indicava novos tempos. Um dos 
torturadores do 12 RI, o jovem tenente Marcelo Paixo de 
Arajo, de 21 anos, estava co meando sua carreira. Aprendia 
vendo. Socos, palmatria, pau-de-ara ra e, finalmente, o 
choque eltrico.
Os cinco rapazes presos a que se referira Medeiros foram 
manda dos de Belo Horizonte para a 1 Companhia do Batalho de 
Polcia do Exr cito da Vila Militar, no bairro de Deodoro. 
Ela funcionava como sede do setor de operaes do GTE, que 
no dispunha de base logstica alm das sa las no prdio do 
quartel-general. A PE da Vila apoiava o GTE com carros, 
equipes de captura, salas de interrogatrio e celas. L, 
oficiais e sargentos cultivavam aquela rea cinzenta da 
polcia carioca onde o crime e a lei se confundem em 
personagens que vivem da delinqncia num mundo de folclore 
cafajeste. Dessa proximidade resultou a criao, dentro do 
quar
7 Jacob Gorender, Combate nas trevas, p. 142.
8 Segundo as verses oficiais, enforcaram-se na priso 
Elvaristo Alves da Silva, Severino Eiias de
Meio, Milton Soares de Castro e Higino Joo Pio. Ver Niimrio 
Miranda e Carlos Tibrcio, Dos
filhos deste solo, pp. 462, 573, 467 e 574.
9 Auto de Corpo de Delito de Joo Lucas Alves, em Brasil: 
nunca mais, p. 249.
10 Entrevista de Marcelo Paixo de Arajo a Alexandre 
Oltramari, Veja, 9 de dezembro de 1998,
pp. 44-9.


360        A DITADURA ENVERGONHADA
tel, de uma sociedade denominada Escuderie Jason, que imitava 
a Escu derie Le Cocq, com a qual a meganha homenageava um 
detetive assas sinado nas cercanias de um ponto de bicho. A 
Le Cocq, com a caveira dos piratas como smbolo, tornara-se 
sinnimo do Esquadro da Morte.
A Escuderie Jason homenageava um sargento morto em servio e 
tinha seu cadastro guardado no quartel da PE. Dela faziam 
parte poli ciais, contraventores, sargentos e oficiais. Entre 
os dignitrios que distri buam a honraria estava um 
policial-contrabandista, alcagete do CIE. Presenteava 
comparsas com adesivos e cartes de identidade onde brilhava 
o escudo da Polcia do Exrcito.
Na 1 Companhia da PE, na tarde de 8 de outubro de 1969, 
oficiais
do Exrcito brasileiro escreveram uma triste pgina da 
histria da cor porao.
Os presos eram dez. Entre eles, seis rapazes do Colina. Foram 
tirados das celas, postos em fila e escoltados at um salo. 
No caminho ouviram uma piada de um cabo: So esses a os 
astros do show?. A platia, senta da em torno de mesas, 
chegava perto de cem pessoas. Eram oficiais e sar gentos, 
tanto do Exrcito como da Marinha e Aeronutica. Numa das ex 
tremidades do salo havia uma espcie de palco, e nele o 
tenente Ailton presidia a sesso com um microfone e um 
retroprojetor: Agora vamos dar a vocs uma demonstrao do 
que se faz clandestinamente no pas.
O chefe da seo de informaes da 1 Companhia era o tenente 
Au ton Joaquim. Completara 27 anos fazia apenas quatro dias. 
Com 1,63 m
de altura, era quase um ano nas formaturas dos galalaus da 
PE. Filho
11 Auto de Inquirio do Tenente Jorge Itamar de Oliveira, 
Processo n 42 479-8, de 1979, STM, vol.
4, p. 1697, e do Sargento Jos Renato da Silva, vol. 1, p. 
483.
12 Processo n 4896, Termo de Perguntas ao Indiciado Manoel de 
Oliveira Alves, vol. 1, p. 425. Para
a concesso dos ttulos, 2 Testemunha de Defesa do Capito 
Ailton Guimares Jorge, Tenente-
Coronel Enio de Albuquerque Lacerda, Processo n 42 476-8, 
STM, vol. 4, p. 1740. Para a Escuderie,
ver tambm o testemunho de Lus Antonio Raposo Carneiro, vol. 
4, p. 1816.
13 Carta de doze presos polticos de Belo Horizonte, de 19 de 
dezembro de 1969. Eram Maurcio
Paiva, ngelo Pezzuti, Murilo Pinto da Silva, Pedro Paulo 
Bretas, Afonso Celso Lara e Nilo Srgio
Menezes Macedo.
14 A. J. Langguth, A face oculta do terror, pp. 192-3.
15 Ailton Joaquim, Folha de Identidade, Academia Militar das 
Agulhas Negras. Processo n 42 479-
8, de 1979, STM, p. 982.
O EXRCITO APRENDE A TORTURAR 361
de um pequeno comerciante, criado no subrbio carioca, fora 
um aluno comum na Academia Militar das Agulhas Negras. Em 
todo o curso con seguiu uma s nota 8 (em topografia) e 
passou raspando com um 4 pela cadeira de Direito. Com uma 
mdia final de 6,7, foi o 29 numa turma de 57 cadetes. 
Servira com sucesso no Batalho Ipiranga, em So Paulo, onde 
o comandante de sua companhia o retratou com a poesia da 
caserna: Sua firmeza o sustenta; sua luz o guia. A cera 
facilmente se liquefaz; o cristal nunca perde a sua aresta 
Chegara  PE em julho de 1967 e vivia com a mulher numa das 
modestas casas de oficiais da Vila. Desde que o GTE montara 
sua base de operaes em Deodoro, Ailton Joaquim deixara a te 
diosa rotina de sheriock encarregado de descobrir quem 
danificara um ven tilador da companhia, para entrar na vida 
agitada da represso poltica.
Os presos foram enfileirados perto do palco, e o tenente 
Ailton iden tificou-os para os convidados. Tinha trs 
sargentos por aclitos. Com a ajuda de slides, mostrou 
desenhos de diversas modalidades de tortura. Em seguida os 
presos tiveram de ficar s de cuecas.
Maurcio Vieira de Paiva, 24 anos, quintanista de engenharia, 
foi li gado a um magneto pelos dedos mnimos das mos. Era a 
mquina de choques eltricos. Depois de algumas descargas, o 
tenente-mestre ensi nou que se devem dosar as voltagens de 
acordo com a durao dos cho ques. Chegou a recitar algumas 
relaes numricas, lembrando que o ob jetivo do interrogador 
 obter informaes e no matar o preso.
Murilo Pinto da Silva, 22 anos, funcionrio pblico, ficou de 
ps des calos sobre as bordas de duas latas abertas. Pedro 
Paulo Bretas, 24 anos,
16 Alteraes do Cadete Ailton Joaquim, Academia Militar das 
Agulhas Negras. Processo n 42 479-
8, de 1979, STM, p. 984.
17 Elogio do capito Luiz Marques de Barros, Alteraes do 
Tenente Ailton Joaquim no Batalho
Ipiranga, Processo n 42 479-8, de 1979, STM, p. 994.
18 Alteraes do Tenente Ailton Joaquim, Batalho Ipiranga e 
1 Companhia da PE, Processo n
42 479-8, de 1979, STM, pp. 994, 1000, 1007 e 1005.
19 As descries dessa aula de tortura esto em A. J. 
Langguth, A face oculta do terror, pp. 192-7,
com base numa entrevista com Murilo Pinto da Silva. H ainda 
carta assinada por doze presos de
Belo Horizonte em 19 de dezembro de 1969, em Terror in 
Brazil, a Dossier, opsculo publicado
em Nova York, em abril de 1970, pelo The American Committee 
for Information on Brazil. Ver
tambm o depoimento de Maurcio Paiva, em O sonho exilado, 
pp. 49-53.
362        A DITADURA ENVERGONHADA
terceiranista de medicina, foi submetido ao esmagamento dos 
dedos com barras de metal. Outro preso, um ex-soldado da 
Polcia Militar, apanhou de palmatria nas mos e na planta 
dos ps. A palmatria  um instru mento com o qual se pode 
bater num homem horas a fio, com toda a for a explicou o 
tenente.
No pau-de-arara penduraram Zezinho, que estava na PE por 
conta de crimes militares. Ailton explicou  enquanto os 
soldados demons travam  que essa modalidade de tortura 
ganhava eficcia quando as sociada a golpes de palmatria ou 
aplicaes de choques eltricos, cuja intensidade aumenta se 
a pessoa est molhada.
Comea a fazer efeito quando o preso j no consegue manter 
o pes coo firme e imvel. Quando o pescoo dobra,  que o 
preso est sofren do, ensinou o tenente-professor.
O Exrcito brasileiro tinha aprendido a torturar.
20 Em janeiro de 1969 realizou-se no quartel da tE de So 
Paulo uma aula idntica. Depoimento de Izaas Almada, em 
Alipio Freire, Izaas Almada e J. A. de Granvilie Ponce 
(orgs.), Tiradentes, um presdio da ditadura, p. 18.
APNDICE
BREVE NOMENCLATURA MILITAR
i Patentes
So as seguintes as patentes dos oficiais das Foras Armadas:
MARECHAL (cinco estrelas)
Patente honorfica, extinta no governo Castelio.
Ao passarem para a reserva, os generais-de-exrcito eram 
promovidos ao marechalato.
Em 1975 eles eram 73.
GENERAL-DE-EXRCITO (quatro estrelas)
 a patente mais alta dos oficiais da ativa.
Em 1964 o Exrcito tinha catorze quatro-estrelas. Quatro em 
comandos de exrcitos, um na chefia do Estado-Maior e outros 
quatro na chefia dos departamentos administrativos. Juntos, 
formavam o Alto-Comando.
Um oficial pode ter quatro estrelas e ficar sem funo, assim 
como pode ter funo (o comando da Escola Superior de Guerra, 
por exemplo) e no pertencer ao Alto-Comando.
(Essa patente corresponde  de almirante-de-esquadra na 
Marinha e tenente-brigadeiro na Fora Area.)
GENERAL-DE-DIVISO (trs estrelas)
Em 1964 eram 31.** Em 1975, 42.
Os trs-estrelas comandam as divises de tropas (a 1 Diviso 
de Infantaria, da Vila Militar, por
exemplo). Ocupam as vice-chefias do Estado-Maior e dos 
departamentos. Tambm chefiam as Regies
Militares.
(Corresponde ao vice-almirante e ao major-brigadeiro.)
* At 1968, quando morreu, o marechal Mascarenhas de Moraes 
foi mantido no servio ativo, por deciso do Congresso. Era 
uma homenagem ao comandante da Fora Expedicionria 
Brasileira.
** Computaram-se os engenheiros militares (dois), mdicos 
(um), veterinrios (um) e intenden tes (um).
364        A DITADURA ENVERGONHADA
GENERAL-DE-BRIGADA (duas estrelas)
Em 1964 eram 73. Em 1975, 93.
Um general de duas estrelas pode comandar uma unidade 
importante, como a Brigada Pra-Quedista,
ou uma diretoria burocrtica.
Em 1964 a idade mdia dos generais-de-brigada ficava em pouco 
menos de 54 anos.
(Corresponde ao contra-almirante e ao brigadeiro.)
Pela reforma de 1967, devida ao presidente Casteilo Branco, 
nenhum oficial pode permanecer mais de doze anos na ativa 
como general. Alm disso, cada uma das patentes deve ter 25% 
de seu quadro renovado a cada ano. Essas normas vigoram at 
hoje.
CORONEL
Em 1964 o Exrcito tinha 340 coronis em funes consideradas 
militares. Em 1975, 408.
Na tropa, o coronel comanda um regimento.
(Corresponde ao capito-de-mar-e-guerra da Marinha.)
Pela reforma de Castello nenhum coronel pode permanecer menos 
de sete e mais de nove anos na
patente.
TENENTE-CORONEL
Comanda um batalho.
Patente em que se ficava em torno de cinco anos.
A etiqueta militar d aos tenentes-coronis o tratamento de 
coronel
(Corresponde ao capito-de-fragata da Marinha.)
MAJOR
Comanda um batalho.
(Corresponde ao capito-de-corveta da Marinha.)
CAPITO
Comanda uma companhia.
Em 1975 o Exrcito tinha cerca de 2 mil capites.
TENENTE
Comanda um peloto.
Na mdia, de cada cem tenentes, seis chegam a general.
2 Estrutura
No Exrcito convivem duas estruturas. Uma, diretamente 
relacionada com as tropas de combate,
 bastante simples. Outra, na qual est a burocracia,  mais 
complexa.
 a seguinte a estrutura de uma tropa de combate, vista de 
baixo para cima:
PELOTO
Tem um efetivo que pode Variar entre trinta e cinqenta 
homens.  comandado por um tenente.
COMPANHIA
Trs pelotes formam uma companhia. Tem de cem a 150 homens. 
 comandada por um capito.
APNDICE        365
BATALHO
Trs companhias formam um batalho. Seu efetivo oscila de 
trezentos a 450 homens, comanda- dos por um major ou tenente-
coronel.
REGIMENTO
Trs batalhes formam um regimento. Tem entre mil e 1500 
homens e  comandado por um coronel.
BRIGADA
 uma unidade de composio mista, sempre comandada por um 
general de duas estrelas. Seu efe tivo pode variar entre 5 
mil e 10 mil homens.
DIVISO
Um nmero varivel de brigadas e regimentos agrupam-se numa 
diviso.
Essa  a principal unidade combatente. Rene tropas das 
diferentes Armas. Nelas, as tropas de in fantaria e de 
artilharia ficavam sob o comando de generais numa Infantaria 
Divisionria (ID) e numa Artilharia Divisionria (AD).
EXRCITO
Conhecido como grande comando, agrupa todas as tropas de 
uma determinada regio geogr fica.
As tropas terrestres estavam assim divididas:
1 Exrcito, com jurisdio sobre as tropas do Rio (onde 
ficava o seu comando), Minas Gerais e Esprito Santo;
II Exrcito, incluindo So Paulo (sede do comando) e Mato 
Grosso;
III Exrcito, incluindo o Rio Grande do Sul (sede do comando, 
em Porto Alegre), Santa Catarina e Paran, e
IV Exrcito, com sede no Recife, englobando todos os estados 
do Nordeste.
Alm desses grandes comandos ocupados por quatro-estrelas, 
havia dois outros, sob as ordens de
generais-de-diviso:
Comando Militar da Amaznia, com sede em Manaus, e
Comando Militar do Planalto, com sede em Braslia e 
jurisdio sobre o Distrito Federal e Gois.
Existiam tambm onze Regies Militares, comandadas por 
generais-de-diviso.
A regio cuida essencialmente do apoio logstico ao Exrcito 
em cuja rea se situa.
Eram as seguintes as Regies Militares:
1 RM, com sede no Rio de Janeiro;
2 EM, com sede em So Paulo;
3 REI, com sede em Porto Alegre;
4 RM, com sede em Juiz de Fora;
5 EM, com sede em Curitiba;
6 EM, com sede em Salvador;
7 RM, com sede no Recife;
8 RM, com sede em Belm;
9 RM, com sede em Campo Grande;
10 EM, com sede em Fortaleza, e
1 1 RM, com sede em Braslia.
CRONOLOGIA
368 A DITADURA ENVERGONHADA
1950
1951
POLTICA
Maio A chapa encabeada pelo general Estil lac Leal vence a 
eleio do Clube Militar com o apoio da esquerda. Nela, o 
tenente-coronel Nelson Werneck Sodr dirige o Departamen to 
Cultural. Derrota a chapa de Cordeiro de Farias e do general 
Humberto Castelo Branco. Junho O PTB lana o ex-ditador 
Getulio Var gas, deposto em 1945, como candidato a pre 
sidente.
Agosto O PCB divulga o Manifesto de Agosto, que defende a 
derrubada do governo.
Outubro Vargas derrota o brigadeiro Eduar do Gomes e  eleito 
presidente da Repblica com 3,8 milhes (48,7%) de votos.
Seus eleitores cantavam:
Bota o retrato do velho outra vez,
Bota no mesmo lugar.
O sorriso do velhinho
Faz a gente trabalhar.
Janeiro Posse de Getulio Vargas. O The New York Times diz que 
ele est prejudicado pelas grandes expectativas Carlos 
Lacerda defen de o seu impedimento. A Imprensa Popular, do 
PCB, chama-o de velho tirano
O general Estillac Leal  nomeado ministro da Guerra. Os 
militares continuam divididos. Abril Os EUA pedem ao Brasil o 
envio de uma diviso de infantaria para a Guerra da Coria. 
Vargas, depois de negociar, acaba ne gando o pedido.
Junho Surge no Rio o jornal ltima Hora, fundado por Samuel 
Wainer, jornalista da simpatia de Vargas. O empreendimento  
fi nanciado pelo Banco do Brasil.
Dezembro Decretado o aumento do salrio mnimo. No seu nvel 
mximo chega a Cr$ 1200,00 (us$ 40 da poca, no paralelo).
ECONOMIA E SOCIEDADE
 O Brasil tem 52 milhes de habitantes. Du rante a dcada de 
40 a expectativa de vida do brasileiro foi de 45,9 anos. Nos 
anos 50 pas sar para 52,4.
O PIB nacional  de 15 bilhes de dlares da
poca.
O salrio mnimo  de Cr$ 380,00, equiva lentes a us$ 12 no 
cmbio paralelo.
Quase dois teros (64%) da populao vi vem no campo. Um em 
cada dois adultos  analfabeto.
Com 2,3 milhes de habitantes, o Rio tem 105 favelas, com 170 
mil moradores.
 O economista argentino Raul Prebisch, au tor de O 
desenvolvimento da Amrica Lati na e seus principais 
problemas assume a se cretaria executiva da Comisso 
Econmica para a Amrica Latina, a Cepal.
Julho Inaugurada a via Dutra.
Setembro Inaugurada a primeira refinaria estatal, em 
Mataripe, na Bahia.
 A seca aflige o Nordeste.
Janeiro Vargas cria a Assessoria Econmica, ligada ao seu 
gabinete e chefiada pelo econo mista Rmulo de Almeida.
Abril Criada a Comunidade Europia do Car vo e do Ao 
(cEcA).  o incio do Mercado Comum.
Setembro O ministro da Fazenda, Horcio Lafer, vai aos EUA 
buscar financiamentos. No os consegue.
Dezembro Getulio Vargas acusa as compa nhias estrangeiras de 
maquiar as remessas de lucros: No conheo exemplo de 
espoliao maior A mdia anual dessas remessas est em 90 
milhes de dlares.
Vai ao Congresso o projeto do governo para a criao da 
Petrobrs. O texto no prev o monoplio estatal.
CRONOLOGIA 369
CULTURA
Joo Cabra! de Meio Neto publica o poema O co sem plumas:
Liso como o ventre de uma cadela fecunda o rio cresce sem 
nunca explodir
Ismael Silva grava Antonico.
Nat King Cole canta Mona Lisa.
Surgem o cool jazz e Miles Davis.
Henri Matisse pinta a capela de Vence. Confinado num hospital 
para doentes men tais, Ezra Pound publica os 70 cantos. Junho 
Inaugurado o estdio do Maracan, e nele joga-se a Copa do 
Mundo. Julho O Uruguai vence o Brasil por 2 x 1. Setembro Vai 
ao ar em So Paulo a v Tupi, primeira emissora de televiso 
da Amrica Latina.
O disc-jquei Alan Freed pe no ar a ex presso rock-and-
roll.
 Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira com pem Assum Preto:
Furaram os olhos do Assum Preto Pra ele assim cantar melhor.
 A rdio Nacional transmite a novela O Di reito de Nascer.
 aberta a i Bienal de So Paulo. Os comu nistas a chamam de 
apoteose do modernis mo decadent.
 Jorge Amado recebe em Moscou o Prmio Stalin.
Vittorio de Sica termina o filme Milagre em Milo.
 A filsofa Hannah Arendt publica Origens
do totalitarismo.
 J. D. Salinger publica O apanhador no cam po de centeio.
 Surge a v em cores nos EuA.
MUNDO
 O mundo tem 2,5 bilhes de habitantes, com 480 milhes de 
crianas desnutridas. Janeiro A China e em seguida a URS5 
reconhe cem a Repblica Democrtica do Vietn, rea 
controlada pela guerrilha de Ho Chi Minh contra o domnio 
francs.
Fevereiro O senador Joseph McCarthy lana sua campanha de 
denncias de infiltrao co munista no governo americano. 
Lista 250 no mes. Surge o termo macartismo.
O embaixador George Kennan, numa reu nio de diplomatas 
americanos na Amrica Latina, sustenta que na regio no h 
base pa ra regimes democrticos.
Junho Comea a Guerra da Coria. Setembro Primeira travessia 
do Atlntico por um avio a jato, em 10 horas e um minuto. 
Novembro O papa Pio x proclama o dog ma da Assuno Imaculada 
de Maria.
O general Juan Pern  reeleito presidente da Argentina.
Janeiro No dia 4 as tropas comunistas to mam Seul, capital da 
Coria do Sul, e so ex pulsas em maro.
Fevereiro A empresa britnica Ferranti pro duz o primeiro 
computador de uso comer cial, o Ferranti Mark i. Vende nove 
em sete anos. Um ms depois a Univac produz o pri meiro 
computador americano. Tem 5 mil vl vulas.
Maio A AT&T torna-se a primeira empresa do mundo com 1 milho 
de acionistas.
Setembro Expurgo no Partido Comunista Tcheco. Seu secretrio-
geral, Rudolf Slansky,  preso. Ser fuzilado.
Dezembro Primeira gerao de eletricidade num reator nuclear, 
nos EUA.


372 A DITADURA ENVERGONHADA
1954
POLTICA
ECONOMIA E SOCIEDADE
Fevereiro Sai o Manifesto dos Coronis contra o governo. 
Assinado, entre outros, pelos coro nis Golbery do Couto e 
Silva e Sylvio Frota. Vargas demite Joo Goulart.
Maro Carlos Lacerda denuncia um pacto se creto de Vargas com 
Pern, contra os EUA. A oposio defende o recurso ao golpe 
para
derrubar Vargas.
Maio Vargas aumenta o salrio mnimo em 100%: de Cr$ 1200,00 
chega a Cr$ 2400,00.
Agosto
5 Num atentado contra o jornalista Carlos Lacerda, morre o 
major Rubens Vaz, da FAB. 23 Trinta generais pedem a renncia 
de Var gas. Entre os signatrios, Casteilo Branco. 24 Vargas 
mata-se com um tiro no corao. Assume o vice, Joo Caf 
Filho. Outubro Jnio Quadros elege-se governador de So 
Paulo.
 Produzido nos Estados Unidos o primeiro rdio com 
transistor.
* A IBM lana seu computador 704, o primei ro a usar memria 
magntica.
Abril A Petrobrs inaugura a refinaria de Cu bato. Meses 
depois  inaugurada a de Man guinhos, da iniciativa privada. 
Junho Diante da poltica de elevao do pre o mnimo do caf 
brasileiro, o governo ame ricano boicota sua importao. 
Agosto Caf Filho nomeia Eugnio Gudin para o Ministrio da 
Fazenda. Ele se lana num drstico programa de corte de 
despesas pblicas. Institui o desconto na fonte para o 
imposto de renda dos assalariados. Setembro Diante de uma 
crise cambial, Gu din consegue nos LUA 200 milhes de dlares 
de emprstimo de 19 bancos privados. Outubro Gudin restringe 
o crdito. Crise na indstria: bancos e empresas abrem 
falncia.
1955
Fevereiro Juscelino Kubitschek  lanado can didato a 
presidente pelo PSD.
Abril Num comcio em Jata (Go), JK anuncia que vai construir 
Braslia.
Agosto O presidente do Clube Militar, gene ral Canrobert 
Pereira da Costa, diz que o pas vive uma pseudolegalidade.
Outubro
3 ji  eleito presidente com 3 milhes de votos.
5 Carlos Lacerda pede publicamente que os
militares dem um golpe.
Novembro
8 Enfartado no dia 3, Caf Filho licencia-se e
Carlos Luz assume a Presidncia.
10 O general Henrique Lott demite-se do Mi nistrio da 
Guerra.
11 Lott depe Carlos Luz. Assume o presi dente do Senado, 
Nereu Ramos.
13 Carlos Lacerda asila-se na embaixada de
O Brasil entra num ciclo de crescimento indito em sua 
histria. At 1960 o PIB cres cer uma mdia de 8,1% e a 
renda per capita,
4,8%.
 Estimulados pela Petrobrs, os industriais
do setor de maquinaria pesada fundam a As sociao Brasileira 
da Infra-Estrutura e In dstrias de Base (ABDIB).
Aberto nos LUA O primeiro McDonalds. Janeiro Inaugurada a 
hidreltrica de Paulo Afonso, no rio So Francisco.  a 
primeira grande usina construda no Nordeste. Abril Eugnio 
Gudin deixa o Ministrio da Fazenda.  substitudo pelo 
paulista Jos Ma ria Whitaker, que afrouxa o crdito. Junho 
Criado o Instituto Superior de Estu dos Brasileiros, o I5EB. 
Viria a se tornar um centro de reflexo do que se denominou 
ideo logia do desenvolvimento
Cuba.
CRONOLOGIA 373
CULTURA
MUNDO
 Marta Rocha  a segunda colocada no con curso de Miss 
Universo.
a Inaugurado o parque do Ibirapuera, em So Paulo.
a Carlos Drummond de Andrade publica Fa zendeiro doar & 
Poesia at agora.
a Jorge Amado publica sua trilogia stalinista Os subterrneos 
da liberdade.
 Elvis Presley grava seu primeiro disco:
Thats all right, mama.
 Ernest Hemingway ganha o Prmio Nobel de Literatura.
a Isaac Deutscher publica Trotsky: o profeta armado, 1879 -
1921, primeiro volume de sua trilogia sobre o revolucionrio 
russo Leon Trotsky.
a Jasper Johns pinta Bandeira.
a Eh Lilly quebra o segredo da frmula do LSD, sintetizado em 
1938, e comea a produ zir o cido.
a Akira Kurosawa dirige Os sete samurais.
a Treze das 20 naes latino-americanas tm governos 
controlados por militares. Maro As repblicas americanas 
assinam a Declarao de Caracas, na qual se iguala a 
subverso interna  expanso do comunismo. Abril Eisenhower 
usa o termo domin para denominar o risco do avano comunista 
no mundo.
Maio Termina a Batalha de Dien Bien Phu, com a vitria dos 
comunistas. A Frana per de o Vietn, que  dividido em dois.
O general Gamal Abdel Nasser toma o po der no Egito.
A Corte Suprema dos EUA declara ilegal a segregao racial 
nas escolas.
O general Alfredo Stroessner toma o poder no Paraguai.
Junho O presidente Jacobo Arbenz, da Gua temala,  derrubado 
por um golpe militar or ganizado pela CIA.
Novembro Comea a Guerra da Arglia.
a Primeira transmisso de um jogo de futebol
(Santos x Palmeiras) pela televiso brasileira.
O Brasil tem 141 mil aparelhos de TV.
a Nos cinemas: Rio, 40 graus, de Nelson Perei ra dos Santos; 
Rififi, de Jules Dassin, e Nem
Sanso nem Dalila, de Carlos Manga, com
Oscarito.
a Caio Prado Jnior lana a revista Brasiliense.
a Inaugurada a Disneylndia, na Califrnia.
a Morre James Dean, aos 24 anos.
a A banda Bill Halley e seus Cometas empla ca o primeiro 
sucesso mundial de um novo
estilo musical: Rock around the clock.
a Vladimir Nabokov publica, em Paris, Lolita.
a Surge a expresso pop art.
a Herbert Marcuse publica Eros e civilizao.
a Allen Ginsberg l pela primeira vez seu poe ma HowI. Fala 
das melhores cabeas de mi nha gerao morrendo numa nudez 
histrica.
Abril Winston Churchill renuncia ao cargo de primeiro-
ministro.  o ltimo dos Trs Grandes (com Roosevelt e 
Stalin) a deixar de finitivamente o poder.
Julho Conhecem-se, no Mxico, Fidel Castro e Ernesto Che 
Guevara. O mdico argenti no resolve se juntar ao grupo que 
pretende de sembarcar em Cuba.
Setembro Um golpe militar derruba o gene ral Pern na 
Argentina.
Dezembro A comerciria Rosa Parks  presa ao se recusar a 
sair do assento para brancos num nibus de Montgomery, no 
Alabama. Martin Luther King Jr. lidera um boicote aos 
transportes pblicos. O movimento dura 381 dias, at que a 
Corte Suprema declara ilegal a discriminao racial nos 
transportes pblicos americanos.
O Conselho da Europa cria a bandeira da Comunidade. Tem fundo 
azul e 12 estrelas.
374 A DITADURA ENVERGONHADA
POLTICA
1956
Janeiro JK assume.
Fevereiro JK lana o seu Programa de Metas. Baseia-se na 
captao de recursos externos, na interveno estatal, na 
definio de setores prioritrios para o desenvolvimento e na 
to lerncia inflacionria.
Oficiais da FAB rebelam-se contra o governo e vo para 
Jacareacanga, no Par. Rendem-se em duas semanas.
Maro JK prope a anistia plena e irrestrita aos rebeldes e 
aos que conspiraram contra sua posse.
O coronel Olympio Mouro Filho  promo vido a general.
Abril Revolta de estudantes no Rio contra o aumento das 
passagens de bonde.
Novembro Polticos e sindicalistas homena geiam o general 
Lott com a Espada de Ouro. Nova crise militar. Castelio 
Branco rompe com Lott.
ECONOMIA E SOCIEDADE
O Brasil produz 160 mil geladeiras, com um ndice de 
nacionalizao de 47%.
* O BNDE passa a admitir seus tcnicos por concurso.
 D. Helder Cmara organiza a Cruzada So Sebastio, para 
urbanizar, humanizar e cris tianizar as favelas do Rio.
Milton Friedman publica The quantity theory of money: a 
restatement, base do no vo pensamento monetarista.
Maio Comeam os estudos para a construo de uma refinaria em 
Caxias (RJ). Junho JK instala o Grupo Executivo da Inds tria 
Automobilstica (GElA). Setembro Inaugurada a fbrica de 
caminhes da Mercedes-Benz, em So Paulo.
Comea a obra da barragem de Trs Marias. Dezembro O ano 
termina com a inflao em 24,4%. Contra 12,4% em 1955.
1957
 O ministro da Guerra, general Lott, veta o reatamento de 
relaes com a UR55. Fernando Henrique Cardoso e sete outros 
professores e alunos da us comeam a se reunir para discutir 
a obra de Marx. Denomi nam-se Grupo do Capital.
Maro O PCB abranda sua linha poltica e pas sa a defender 
uma aliana com a burguesia. Maio Carlos Lacerda salva-se de 
um processo que poria em risco seu mandato de deputado 
federal.
Julho Greve de metalrgicos no Rio. Outubro Greve geral em 
So Paulo: 400 mil trabalhadores durante 10 dias.
Descontente com nomeaes do governo federal, Jnio Quadros 
ameaa renunciar ao governo de So Paulo.
Novembro Carlos Lacerda diz que Juscelino faz um governo na 
fraude, pela fraude e para a fraude
 O projeto de Lucio Costa vence o concurso do Plano Piloto 
de Braslia. Fevereiro JK inaugura a rodovia RioBelo 
Horizonte.
Decide-se a construo da hidreltrica de Furnas, a terceira 
do mundo.
Maro Alemanha Ocidental, Frana, Itlia, Holanda, Blgica e 
Luxemburgo assinam os Tratados de Roma, criando a Comunidade 
Europia. A Inglaterra continua de fora. Julho A Ford decide 
instalar uma fbrica de caminhes no Brasil.
Setembro A Volkswagen do Brasil produz o seu primeiro veculo 
com 50% de peas na cionais.  uma Kombi.
 O ano termina com um dficit de 286 mi lhes de dlares no 
balano de pagamentos.
CRONOLOGIA 375
CULTURA
 Adhemar Ferreira da Silva torna-se bicam peo olmpico em 
salto triplo.
 Guimares Rosa publica Grande serto, ve redas.
 Mirabeau e Milton de Oliveira gravam Fala Mangueira
e Joo Cabral de Melo Neto publica Morte e vida severina:
Somos muitos Severinos iguais em tudo na vida.
Baby dou, de Elia Kazan, com Carroli Baker.
O filme vai influenciar a moda feminina.
 Orfeu da Conceio, de Tom Jobim e Vinicius
de Moraes, estria no teatro Municipal.
 1 Exposio Nacional de Arte Concreta, no
MAM de So Paulo e no do Rio.
 Jean Genet escreve a pea O balco.
 Giuseppe di Lampedusa publica O leopardo.
e Wright Mills publica A elite do poder.
 Aos 44 anos, o pintor americano Jackson
Pollock morre num acidente de carro.
MUNDO
Fevereiro Nikita Kruchev, secretrio-geral do Partido 
Comunista Sovitico, denuncia os crimes de Stalin no xx 
Congresso. Junho Breve revolta anticomunista na Pol nia, 
reprimida pelo exrcito.
Julho No Egito, o presidente Nasser naciona liza o canal de 
Suez e probe a passagem de navios israelenses.
O general Odra  deposto no Peru. Setembro Dois atentados de 
terroristas arge linos iniciam a Batalha de Argel. Outubro 
Israel invade o Egito. Tropas anglo- francesas retomam Suez. 
Os EUA condenam o ato e os invasores se retiram.
Rebelio na Hungria contra o regime co munista. Imre Nagy, o 
novo primeiro-minis tro, promete eleies livres. Novembro A 
uRss invade a Hungria. Dezembro Fidel Castro desembarca em 
Cuba.
e Escalado um novo atacante na seleo bra sileira: Pel 
estria com 16 anos.
e Jnio Quadros probe o rock-and-roll em bailes pblicos em 
So Paulo.
e A Sony lana com sucesso comercial um mo delo de rdio de 
pilha.
e Surge o som estereofnico.
e Nos cinemas: A ponte do rio Kwai, de David Lean, com Alec 
Guinness e William Holden, e E Deus criou a mulher, com 
Brigitte Bardot. e O costureiro Balenciaga cria a moda saco 
Despreza a linha da cintura e sobe a saia.
e Jack Kerouac publica On the road. e Surge o termo beatnik.
e Albert Camus ganha o Nobel de Literatura.
e O mundo tem 71 cidades com mais de 1 mi lho de habitantes 
(duas no Brasil). Em 1914 eram 16 (nenhuma no Brasil).
O baby boom chega ao apogeu. Nascem 4,3 milhes de crianas 
nos aux.
Maro A Costa do Ouro torna-se a Repbli ca de Gana.  o 
incio da descolonizao da frica Negra.
Maio O general Rojas Pinilla  deposto na Colmbia.
Em desgraa, morre o senador Joseph McCarthy.
Setembro Eisenhower manda tropas a Little Rock para assegurar 
a matrcula de estudan tes negros em escolas pblicas.
Acaba a Batalha de Argel: o dispositivo ter rorista argelino 
foi desmantelado. Outubro A URSS pe em rbita o primeiro sa 
tlite espacial, o Sputnik 1. Pesava 83 quilos.
376 A DITADURA ENVERGONHADA
POLTICA
Surgem no Nordeste as Ligas Camponesas. Maro Revdgado o 
mandado de priso pre ventiva de Luiz Carlos Prestes. Ele 
vivia na clandestinidade desde 1948.
Abril Arthur da Costa e Silva  promovido a general-de-
diviso.
Maio O general Justino Alves Bastos derrota Castelo Branco na 
eleio para a presidncia do Clube Militar.
Junho JK inaugura o palcio da Alvorada. Julho JK impede que 
cafeicultores desconten tes faam uma marcha a Brasilia.
Comea a inflexo da Juventude Universit ria Catlica para a 
esquerda, com a defesa de um cristianismo revolucionrio 
Agosto O secretrio de Estado americano John Foster Dulles 
visita o Brasil e nega um financiamento  Petrobrs. A UNE o 
hostiliza. Novembro JK impede que Carlos Lacerda v  
televiso.
 JK sofre um enfarte e o episdio  mantido em segredo.
Maio Fidel Castro visita o Brasil e se encon tra com JK.
O rn lana a chapa Lott-Jango para presi dente e vice.
Junho JK vai ao Clube Militar e anuncia o rompimento das 
conversaes com o FMI. Inicia-se uma campanha nacionalista 
desti nada a fortalecer o governo. Outubro O rmoceronte 
Cacareco consegue 90 mil votos na eleio municipal de So 
Paulo. Novembro Jnio Quadros, candidato de um pequeno 
partido  Presidncia da Repbli ca, renuncia. Semanas depois 
renuncia  re nncia.
Nova rebelio na FAB. O coronel Joo Paulo Burnier seqestra 
um avio de passageiros e toma o campo de pouso de Aragaras, 
na Amaznia. Acaba em trs dias.
ECONOMIA E SOCIEDADE
e Seca no Nordeste. JK vai ao Cear.
 Um banco americano em Londres aceita de psitos em dlar. 
Surge o eurodlar. John Kenneth Galbraith publica A socieda 
de afluente.
Abril Vai para a rua o primeiro carro de pas seio brasileiro, 
o DKw-Vemag.
Maio JK entrega ao engenheiro Bernardo Sa yo a obra da 
estrada BelmBraslia. Junho Lucas Lopes assume o Ministrio 
da Fazenda com o propsito de cortar gastos e derrubar a 
inflao.
 O ano termina com a inflao em 24,1% e com a indstria de 
bens de produo supe rando, pela primeira vez, a de bens de 
consu mo. A economia cresceu 10,8%.
 O Brasil termina a dcada com 70 milhes
de habitantes, cuja expectativa de vida passou
de 45,9 anos para 52,4.
 O PIB cresceu 9,8% no ano.
O salrio mnimo vale Cr$ 6000,00. e Celso Furtado publica 
Formao econmica do Brasil.
Vendida nos EUA a primeira copiadora de papel plano, a Xerox 
914.
Janeiro Circula o primeiro fusca. Abril Leonel Brizola, 
governador do Rio Gran de do Sul, nacionaliza a 
concessionria ame ricana de energia eltrica do estado. 
Julho Inaugurada a ponte area RioSo Paulo.
Agosto Lucas Lopes deixa a Fazenda. Novembro JK inaugura a 
linha de montagem da Volkswagen, em So Bernardo do Campo. 
Dezembro Criada a Sudene.
 A inflao fecha o ano em 39,4%.
1958
1959
CRONOLOGIA
377
CULTURA
* Brasil 5, Sucia 2. A seleo ganha sua pri meira Copa do 
Mundo.
e Maria Esther Bueno e a americana Althea Gibson vencem o 
torneio de duplas de Wim bledon.
* Estria a pea Eles no usam black-tie, de Gianfrancesco 
Guarnieri.
 publicado Gabriela, cravo e canela, de Jor ge Amado.
 Bons Pasternak, autor do doutor Jivago, ganha o Nobel e  
proibido pelo governo rus so de receb-lo.
e Surge a expresso nouveile vague que de signa o novo 
cinema francs.
e Elizeth Cardoso grava o LI Cano do amor demais. Numa das 
faixas, canta Chega de saudade de Tom Jobim e Vinicius de 
Mo raes. Joo Gilberto a acompanha ao violo. Pela primeira 
vez ouve-se na msica brasilei ra a nova batida que meses 
depois seria cha mada bossa nova.
e Joo Gilberto grava Chega de saudade
e O filme O homem do Sputnik, com Oscarito
e Norma Bengeil, fecha o ciclo da chanchada
no cinema brasileiro.
e Antonio Candido publica Formao da lite ratura brasileira.
e Srgio Buarque de Holanda publica Viso
do paraso.
e Depois de protestos contra a censura, os ci nemas 
brasileiros mostram Les amants, com
Jeanne Moreau numa cena indita de sexo
implcito.
e Jean-Luc Godard mostra Acossado, com
Jean-Paul Belmondo e Jean Seberg.
e Marilyn Monroe se mostra como atriz em
Quanto mais quente melhor.
e Nasce o personagem Asterix.
e O Brasil ganha o mundial de basquete, e
Maria Esther Bueno leva o torneio de simples
de Wimbledon.
MUNDO
Janeiro O general Prez Jimnez  deposto na Venezuela. Meses 
depois, Rmulo Betan court elege-se presidente.
Fevereiro Arturo Frondizi  eleito presidente da Argentina.
Rebeldes cubanos seqestram em Havana o piloto de frmula 1 
Juan Manuel Fangio.
Maio A guarnio francesa na Arglia se re bela contra o 
governo civil de Paris, O gene ral Charles de Gaulle  
chamado a organizar um novo gabinete.
Manifestaes contra a visita do vice-presi dente Richard 
Nixon na Argentina, Bolvia, Peru e Venezuela. Em Caracas seu 
carro  ape drejado. Nele est o coronel Vernon Walters. 
Outubro Morre o papa Pio xii. O cardeal An gelo Roncalli  
eleito papa e adota o nome de Joo xxiii. Tem 77 anos, e 
acredita-se que fa r um pontificado de transio.
e S h ditaduras em cinco pequenas naes da Amrica Latina.
e Um ano depois do lanamento da campa nha do Grande salto 
para a frente comea a fome na China. Calcula-se que, at 
1962, mor reram 30 milhes de pessoas.
Janeiro Fidel Castro e seus barbudos entram em Havana.
Fracassa um desembarque de guerrilheiros cubanos no Panam.
Joo xxiii convoca o Concilio Ecumnico. Junho Fracassa um 
desembarque de guerri lheiros castristas na Repblica 
Dominicana. Agosto Fracassa um novo desembarque de 
guerrilheiros, no Haiti.
Setembro Nikita Kruchev visita os EUA.  a primeira visita de 
um governante da URS5. Outubro Margaret Thatcher  eleita 
para o Parlamento ingls.
378 A DITADURA ENVERGONHADA
POLTICA
Fevereiro Eisenhower visita o Brasil e com bina com JK o 
reincio das negociaes com
O FMI.
Jnio Quadros vai a Cuba e diz que far uma reforma agrria.
Abril JK inaugura Brasilia e chora na missa. A obra custou o 
equivalente a 2,3% do PNB. Outubro Jnio Quadros elege-se com 
5,6 mi lhes de votos (48%) e Joo Goulart fica na Vice. Os 
janistas cantam:
Varre, varre, vassourinha. Varre, varre a bandalheira.
Carlos Lacerda elege-se governador do es tado da Guanabara.
Novembro Os martimos e ferrovirios fa zem a Greve da 
Paridade. Querem equipara o salarial com os militares. 
Dezembro O tenente Carlos Lamarca vai ser vir em Quitana, 
So Paulo.
Janeiro Jnio Quadros assume a Presidncia. Fevereiro Golbery 
 nomeado para o Conse lho de Segurana Nacional, no Rio. 
Maro Geisel  promovido a general e logo depois vai comandar 
a tropa de Brasilia. Maio Francisco Julio, lder das Ligas 
Cam ponesas, vai a Cuba. Pede ajuda a Fidel. Agosto Jnio 
Quadros renuncia.
Os ministros militares vetam a posse de Joo Goulart, que 
est na China.
Divide-se o Exrcito. A guarnio do Sul quer a posse de 
Jango.
Jango aceita o regime parlamentarista. Setembro Joo Goulart 
assume. Tancredo Neves  o primeiro-ministro. Novembro 
Francisco Julio diz que a refor ma agrria ser feita na 
lei ou na marra
Empresrios e militares da reserva fundam o i (Instituto de 
Pesquisas e Estudos Sociais).
ECONOMIA E SOCIEDADE
O Brasil tem 598 mil aparelhos de televiso. Os EUA tm 85 
milhes.
 O Rio tem 147 favelas, com 337 mil mora-
dores.
 O economista Igncio Range! publica Ele mentos de economia 
do projetamento.
Realiza-se no BNDE o i Simpsio sobre Com putadores 
Eletrnicos.
 Criada a Organizao dos Pases Exporta dores de Petrleo, 
a OPEP. Rene apenas cin co pases: Arbia Saudita, Ir, 
Iraque, Kuwait e Venezuela.  considerada uma entidade in 
til. O barril custa Us$ 1,50.
 Comea a comercializao da plula anti concepcional nos 
filA.
O ndice de nacionalizao das Kombis e fuscas chega a 95%.
 O Brasil produz 350 mil geladeiras, com quase 100% de 
nacionalizao. Em 1956 pro duzia 160 mil, com 47% de 
nacionalizao.
 A Fairchild Corporation produz o primeiro circuito 
integrado de computador.
Sai o livro Latin American issues, de Albert Hirschman. Nele, 
num artigo, Roberto Cam pos cunha os termos estruturalismo e 
mone tarismo para a anlise da inflao. Janeiro O banqueiro 
baiano Clemente Maria ni assume a Fazenda.
Maro Jnio desvaloriza a moeda. O dlar, que custava Cr$ 
90,00, passa a valer Cr$ 200,00. Outubro Jango cassa as 
concesses ilegais de jazidas  empresa americana Hanna. 
Dezembro A esquerda assume a Confedera o Nacional dos 
Trabalhadores na Indstria.
1960
1961
CRONOLOGIA 379
CULTURA
O sucesso do ano  Quarto de despejo, di rio da favelada 
Carolina de Jesus. Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir vm
ao Brasil.
 Clarice Lispector publica Laos de famlia.
 O boxeador Eder Jofre  o campeo mun dial dos pesos-galos.
 Nos cinemas: Rocco e seus irmos, de Luchi no Visconti; La 
dolce vita, de Federico Fellini,
e Psicose, de Alfred Hitchcock.
 O fotgrafo cubano Alberto Korda faz o fa moso retrato de 
Che Guevara, que seria pu blicado somente em 1967.
 O boxeador Cassius Clay, depois Muham mad Ali, ganha a 
medalha de ouro dos meios-
pesados nas Olimpadas de Roma. O alemo Armin Hary corre os 
100 metros em 10 segundos.
Dana-se o twist.
 O Brasil bate a marca do 1 milho de apare lhos de TV.
 Nelson Rodrigues estria O beijo no asfalto.
 O Centro Popular de Cultura da UNE pro duz Cinco vezes 
favela, com o episdio Cou ro de gato, dirigido por Joaquim 
Pedro de Andrade.
 Henry Miller publica nos EUA Trpico de Cncer.
 O filsofo e psiquiatra martiniquense Frantz Fanon publica 
Os condenados da terra.
Michel Foucault publica Histria da loucura.
* Audrey Hepburn aparece em Breakfast at Tiffanys 
(Bonequinha de luxo).
 Em Liverpool, um rapaz pergunta a Brian Epstein se em sua 
loja h uma gravao de um conjunto chamado The Beatles. 
Epstein se torna empresrio do grupo e vai  luta. A EMI e a 
Decca recusam-se a gravar msicas dos garotos.
MUNDO
A China comea a se afastar da URSS.
 Che Guevara escreve A guerra de guerrilhas. Janeiro Comeam 
as manifestaes de estu dantes americanos negros contra a 
segrega o racial em lugares pblicos. Maro Massacre de 
Sharpeville, na frica do Sul. A polcia atira contra uma 
manifestao de negros. Em poucos segundos mata 69 pes soas e 
fere mais de 180.
Abril O Senegal torna-se independente. Maio Israel captura o 
nazista Adolf Eich mann, que vivia como operrio em Buenos 
Aires. Vai julg-lo e enforc-lo em Tel Aviv. Junho A Blgica 
d a independncia ao Con go. Patrice Lumumba, de 35 anos, 
assume o governo e  deposto em setembro. Julho Fidel 
confisca as refinarias americanas de petrleo em Cuba.
Outubro Independncia da Nigria. Novembro John Kennedy  
eleito presidente dos Estados Unidos.
Janeiro Os au rompem relaes diplomti cas com Cuba.
Posse de John Kennedy.
 assassinado no Congo o ex-primeiro-mi nistro Patrice 
Lumumba.
Fevereiro Rebelio negra em Angola. Maro Kennedy lana a 
Aliana para o Pro gresso. Pretende impulsionar reformas 
sociais e conter a influncia cubana.
Abril O sovitico Yuri Gagarin torna-se o pri meiro homem a 
entrar em rbita e informa:
A Terra  azul
Uma fora de exilados treinada pela CIA fl vade Cuba, mas 
rende-se em 48 horas. Agosto A Alemanha comunista ergue o 
Muro de Berlim, smbolo da guerra fria. Outubro Nikita 
Kruchev tira o corpo de Sta lin do mausolu onde estava ao 
lado de Le nin, na praa Vermelha.
1
380 A DITADURA ENVERGONHADA
POLTICA
Junho A esquerda catlica funda a Ao Po pular, a AP.
Tancredo Neves renuncia ao cargo de pri meiro-ministro.
Saques na Baixada Fluminense: 42 mortos. Julho Criado o 
Comando Geral dos Traba lhadores, CGT.
Kennedy decide colocar no baralho a carta de golpe militar no 
Brasil.
Atentado contra o Congresso da UNE, em Petrpolis, com a 
participao de militares. Setembro Greve contra o 
parlamentarismo.
Brizola: Se no for eleito um parlamento popular, a 
Revoluo ser inevitve1 Outubro Eleies parlamentares, O 
PTB de Goulart torna-se o maior partido da Cmara.
Cai um avio da Varig em Lima, e nele  en contrada uma mala 
diplomtica cubana com relatrios da guerrilha de Julio no 
Brasil.
 O jornalista Carlos Leonam cunha a expres so esquerda 
festiva.
 Surge o Comando de Caa aos Comunistas,
o ccc.
Janeiro Um plebiscito restabelece o regime presidencialista.
Fevereiro Prestes vai a Cuba e condena as guerrilhas. 
Francisco Julio est em Havana, cuidando de seu projeto de 
luta armada.
Abril A CNBB teme subverses imprevisveis dos valores 
democrticos
Julho Numa pesquisa do Ibope em 10 grandes cidades, Jango tem 
35% de avaliao tima ou boa, 41% de regular e 19% de m ou 
pssima. Setembro Carlos Lacerda defende um golpe militar 
contra Jango.
Castelio Branco assume a chefia do EME.
Outubro Jango tenta colocar o pas em esta do de stio, v-se 
isolado e recua.
ECONOMIA E SOCIEDADE
Milton Friedman publica Capitalismo e li berdade.
A IBM lana discos para o armazenamento de dados.
Junho Joo Goulart instala a Eletrobrs. Julho Criado o l3 
salrio. Setembro O banqueiro Walter Moreira Sal- les, 
principal interlocutor do governo com o mundo financeiro, 
deixa o Ministrio da Fa zenda.
Criado o Ministrio do Planejamento. Ser ocupado por Celso 
Furtado. Dezembro Anunciado o Plano Trienal. Pre tende 
derrubar a inflao para o patamar de 10% em 1965.
O governo concede um aumento de pouco mais de 50% no salrio 
mnimo. Os sindica tos pediam 80%.
 O ano termina com 52% de inflao e um crescimento do PIB 
de 8,6%.
Janeiro San Tiago Dantas assume a Fazenda no primeiro 
ministrio presidencialista. Junho Carvalho Pinto, ex-
governador de So Paulo, substitui San Tiago no Ministrio da 
Fazenda.
Dezembro Ney Galvo substitui Carvalho Pinto na Fazenda. Em 
27 meses,  o quinto ocupante do cargo.
Jango tabela os lubrificantes e entrega  Pc trobrs o 
monoplio da compra de petrleo.
 O ano fecha com os seguintes indicadores econmicos:
Inflao de 79,9%.  a maior da histria. Crescimento do PIB 
de 0,6%.  a menor ta xa desde 1947, quando comeou o clculo 
sis temtico do produto interno.
Dficit do Tesouro: 500 bilhes de cruzeiros.
1962
1963
CRONOLOGIA 381
CULTURA
e O Brasil  bicampeo mundial de futebol.
 Tom Jobim e Vinicius de Moraes compem
Garota de Ipanema
O filme O pagador de promessas, de Ansel mo Duarte, ganha a 
Palma de Ouro no Festi val de Cannes.
rico Verssimo publica O arquiplago, con cluindo a trilogia 
O tempo e o vento.
* Show da bossa nova no Carnegie Hall, em Nova York.
 Estriam Os cafajestes, de Ruy Guerra, e Garrincha, Alegria 
do Povo, de Joaquim Pedro de Andrade.
Rachei Carson publica Silent Spring, clssi co da formao da 
conscincia ambiental.ista. David Lean mostra Lawrence da 
Arbia, com
Peter OToole.
* Morre Marilyn Monroe.
e Os Beatles lanam seu primeiro compacto,
Love me do.
Surgem no Brasil as sandlias Havaianas.
e O cpc da UNE grava a Cano do subde senvolvido:
Comearam a nos vender e a nos comprar. Comprar borracha, 
vender pneu. Comprar minrio, vender navio. Pra nossa vela, 
vender pavio.
S mandaram o que sobrou de l:
Matria plstica, que entusistica, Que coisa elstica, que 
coisa drstica. e Nara Leo grava Marcha da Quarta-Feira de 
Cinzas..
 Nelson Pereira dos Santos mostra Vidas se cas e Cac 
Diegues, Ganga Zumba.
 leda Maria Vargas  eleita Miss Universo. e Mary McCarthy 
publica O grupo.
 Uma exposio no museu Guggenheim re ne Andy Warhol, 
Robert Rauschenberg e Jas per Johns.
e Surgem os Rolling Stones.
MUNDO
Fevereiro Kennedy autoriza as tropas ameri canas no Vietn a 
revidar em caso de ataque. No fim do ano os EUA tm 11 mil 
assessores no pas.
Militares argentinos derrubam o presidente Arturo Frondizi.
Julho Depois de cinco anos de guerra, a Ar glia torna-se 
independente.
Kennedy muda sua poltica e decide reco nhecer o governo de 
militares peruanos que derrubaram o presidente Manuel Prado.
Agosto O primeiro-ministro sovitico Nikita Kruchev coloca, 
em segredo, msseis nuclea res em Cuba.
Outubro Os americanos descobrem os ms seis russos e 
bloqueiam Cuba. Os russos reti ram os foguetes em troca da 
promessa de que Cuba no ser invadida. Nesses dias a guerra 
nuclear esteve por um fio de cabelo.
Comea o Conclio Vaticano ii.
 Jorge Masetti, amigo de Guevara, lana um foco guerrilheiro 
na Argentina. Janeiro De Gaulle impede a entrada da Gr- 
Bretanha no Mercado Comum Europeu. Abril Na Guatemala o 
general Ydgoras Fuen tes  deposto por um golpe militar. 
Maio Uma expedio de 35 peruanos treina dos em Cuba interna-
se na selva. Junho Morre o papa Joo XXIII. O cardeal Montini 
torna-se Paulo vi.
Julho O presidente Arosemena  deposto pe los militares no 
Equador.
Agosto O pastor Martin Luther King Jr. diz em Washington: Eu 
tenho um sonho. Setembro Um golpe militar derruba o presi 
dente Juan Bosch, da Repblica Dominicana. Novembro John 
Kennedy  assassinado. As sume o vice, Lyndon Johnson.
382 A DITADURA ENVERGONHADA
POLTICA
ECONOMIA E SOCIEDADE
Janeiro Em Moscou, Prestes assegura a Niki ta Kruchev: Se a 
reao levantar a cabea, ns a cortaremos de imediato. 
Maro
13 Comcio da Central.
19 Marcha da Famlia, em So Paulo.
20 O general Castello Branco distribui sua Circular 
Reservada.
A conveno do PSD lana a candidatura de
JK nas eleies previstas para 1965.
24 Comea a rebelio dos marinheiros.
30 Jango discursa no Automvel Clube.
31 O general Mouro Filho decide rebelar-se.
Abril
12 Jango vai para Braslia e de l para o Rio Grande do Sul.
Costa e Silva proclama-se comandante do Exrcito nacional.
No fim do dia morreram sete civis.
2 O presidente da Cmara, Ranieri Mazzilli,
torna-se presidente da Repblica.
9 Baixado o Ato Institucional. Numa primei ra fornada, cassa 
40 mandatos.
Jango asila-se no Uruguai.
11 Casteilo Branco  eleito presidente. Junho Criado o SNI. 
Golbery vai chefi-lo.
Aos 27 anos, o capito Heitor Ferreira, as sistente de 
Golbery, comea seu dirio.
Castello cassa JK.
O Congresso prorroga o mandato de Cas teilo por um ano, at 
maro de 1967. Agosto Castello faz o discurso das vivandei 
ras alvoroadas.
Setembro O Correio da Manh comea a sua campanha contra a 
tortura.
Castello manda Geisel ao Nordeste para in vestigar denncias 
de torturas. Outubro Caduca o artigo punitivo do Ato 
Institucional. Foram atingidas 4454 pessoas. Delas, 2757 eram 
militares. Dezembro O ano termina com 20 mortos (nove 
suicdios) e 203 casos de denncias de torturas.
Janeiro Jango sanciona a nova lei de remessa de lucros 
aprovada pelo Congresso.
A FIESP recusa-se a participar de um ato de solidariedade a 
Jango, organizado pela CNI.
Jango fecha a carteira de redescontos do Banco do Brasil em 
So Paulo e no Rio Gran de do Sul.
Uma pesquisa feita em oito capitais mostra que 72% dos 
brasileiros acham necessria a reforma agrria.
Abril O secretrio de Estado Dean Rusk cria uma comisso para 
estudar um plano de aju da imediata ao governo brasileiro.
Castelio Branco coloca Octvio Gouva de Bulhes no 
Ministrio da Fazenda. Maio Roberto Campos assume o 
Ministrio do Planejamento.
A Superintendncia da Moeda e do Crdito acaba com o regime 
de subsdios. Julho Concluda a renegociao da dvida ex 
terna, de 3,8 bilhes de dlares.
Castello baixa a nova frmula para o clcu lo dos reajustes 
salariais. Surge a expresso arrocho salarial.
Agosto Chega ao Congresso o PAEG  Plano de Ao Econmica do 
Governo. Seu princi pal objetivo  derrubar a inflao.
Institui-se a correo monetria.
Criado o Banco Nacional da Habitao.
Castelio sanciona uma nova lei de remessa de lucros.
Golbery relata a Castello: Os esforos do governo no combate 
 inflao no tm sido bem compreendidos pela opinio 
pblica. Setembro Apesar da crise econmica, a Volks wagen 
revela que bateu seu recorde de pro duo.
Novembro Lacerda ataca a poltica econmi ca do governo.
Dezembro Criado o Banco Central.
O ano termina com a inflao em 92,1%. A economia cresce 
3,4%.
1964
CRONOLOGIA 383
CULTURA
A Editora Civilizao Brasileira lana O Es tado militarista, 
de Fred J. Cook. Entre 1961 e
1964 a Civilizao publicou um livro novo a
cada dia til.
Herbert Marcuse publica A ideologia da so ciedade industrial: 
o homem unidimensional. Depois de um perodo de ostracismo, 
rea parece o compositor Ismael Silva.
 Nos cinemas: Zorba, o Grego, com Anthony Quinn e msica de 
Mikis Theodorakis, e 007
 Contra Goldfinger, com Sean Connery. Fevereiro Cassius Clay 
torna-se campeo mundial de pesos pesados.
Maro Primeira exibio (privada) de Deus e o diabo na terra 
do sol de Glauber Rocha. Uma parte da platia vai do cinema 
para o comcio da Central.
Abril A Censura apreende as cpias de Deus e o diabo na terra 
do sol. Depois libera-as. Julho Anuncia-se o incio da 
colocao da grama no Aterro do Flamengo.
So demitidos 26 artistas da rdio Nacional. Entre eles, 
Mrio Lago e Dias Gomes. Agosto A Censura probe Sete dias em 
maio, que contava um golpe militar em Washington. Depois o 
ifime  liberado.
Os Beatles chegam aos Estados Unidos, nu ma viagem triunfal.
Setembro Fechada a boate Black Horse, a mais famosa do Rio.
Dezembro Em Nova York, Che Guevara  convidado para uma festa 
na casa da milio nria Bobo Rockefeller.  o radical-chic
Bob Zagury, namorado de Brigitte Bardot, a traz para o 
Brasil. Vo para Cabo Frio e ficam numa praia desconhecida 
chamada Bzios.
Estria o show Opinio, com Nara Leo, Z Kti e Joo do 
Vale:
Podem me bater,
Podem me prender,
Podem at deixar-me sem comer
Que eu no mudo de opinio.
MUNDO
Abril Desmancha-se a guerrilha argentina estimulada por 
Guevara. O chefe do grupo, Masetti, desaparece na mata.
Julius Nyerere, presidente da Tanganica des de 1962, une o 
seu pas a Zanzibar e cria a Tanznia, que governar at 85. 
Junho Organiza-se na Colmbia a guerrilha do Exrcito de 
Libertao Nacional. Agosto Depois de um incidente com um des 
trier no golfo de Tonquim, o Congresso d poderes ao 
presidente Johnson para ampliar a interveno americana no 
Vietn.
Falha mais um atentado da Organizao do Exrcito Secreto 
contra o presidente Charles de Gaulle.
Outubro A China comunista explode sua bomba atmica.
Kruchev  deposto na Unio Sovitica. As sume um triunvirato 
em que prevalece Leo nid Brejnev.
Os trabalhistas ganham a eleio inglesa. Harold Wilson 
torna-se primeiro-ministro, iniciando um predomnio que 
durar seis anos.
Zmbia torna-se independente e Kenneth Kaunda assume a 
Presidncia, na qual ficar at 1999.
Novembro Golpe na Bolvia. Assume o gene ral Ren Barrientos.
Dezembro Juan Pern deixa a Espanha, onde vivia exilado, e 
voa para a Argentina. Ao fazer escala no aeroporto do Galeo, 
 barrado e obrigado a voltar.
Martin Luther King Jr. ganha o Prmio No bel da Paz.
A DITADURA ENVERGONHADA
POLTICA
Cuba treina quadros enviados por Brizola. A Ao Popular 
(Ai) pende para a luta ar mada e cria sua comisso militar. 
Maro O ex-coronel Jeiferson Cardim invade o Rio Grande do 
Sul com 22 combatentes.  cercado e preso.
 preso o editor nio Silveira.
Outubro Negro de Lima  eleito na Guana bara e Israel 
Pinheiro, em Minas Gerais.
Casteilo baixa o AI-2. Dissolve os partidos e torna indireta 
a eleio de seu sucessor, Os crimes polticos vo para a 
Justia Militar. Novembro Fundado o MDB. Dezembro Lanada a 
candidatura do general Costa e Silva  Presidncia.
 Oitenta e quatro denncias de torturas e trs mortos. Um 
deles, desaparecido. Segun do o governo, os outros dois 
enforcaram-se em suas celas.
 Pela esquerda, a guerrilha de Cardim mata um sargento.
ECONOMIA E SOCIEDADE
Gordon Moore faz a previso que ser co nhecida como Lei de 
Moore: a cada ano do brar a quantidade de transistores que 
sero colocados num circuito integrado, sem que o preo 
relativo da memria aumente.
Janeiro O FMI abre um crdito de 125 milh es de dlares para 
o governo brasileiro.
Quebra em So Paulo o grupo Jafet, um dos maiores do pas.
Fevereiro Os governos do Brasil e dos Esta dos Unidos assinam 
um acordo de garantia para os investimentos americanos.
De Gaulle separa o franco do dlar. O governo fecha a Panair 
do Brasil.
Maio Lacerda pede a demisso de Roberto Campos e Octvio 
Gouva de Bulhes e o
fim do PAEG.
Lanado nos EUA o primeiro satlite comer cial de 
comunicaes.  o Early Bird.
 O ano termina com uma inflao de 34,2%
e um crescimento do PIB de 2,4%.
1966
 Osvaldo Orlando da Costa, o Osvaldo, che ga ao Araguaia, 
mandado pelo pc do B. Fevereiro Castello torna indiretas as 
eleies para governadores.
Maro Protestos no Rio, So Paulo e Belo Ho rizonte.
Explodem duas bombas no Recife. Julho Atentado a bomba contra 
Costa e Silva no aeroporto dos Guararapes. Outubro O 
Congresso elege Costa e Silva.
Castello cassa seis deputados e fecha o Con gresso por 10 
dias.
Novembro JK e Lacerda encontram-se em Lisboa. Unem-se na 
Frente Ampla.
Guerrilheiros brizolistas sobem a serra de Capara, em Minas 
Gerais.
 Sessenta e seis denncias de torturas e dois mortos. Um 
deles estava preso. O terrorismo matou duas pessoas em 
Guararapes.
Junho O Citibank lana em Londres o pri meiro certificado de 
depsitos em dlares.
Antonio Delfim Netto  nomeado secret rio da Fazenda de So 
Paulo.
Agosto Diante das falncias e concordatas provocadas pela 
falta de crdito, o ministro da Indstria e Comrcio, Paulo 
Egydio Mar tins, diz que o perecimento de certas empre sas 
 conseqncia de um processo de sele tividade e 
purificao.
Setembro Criado o FGTS.
Novembro Unificada a previdncia social, sur ge o INPS.
Como presidente eleito, Costa e Silva recu sa-se a endossar a 
carta de intenes que o
ministro da Fazenda de Castello negociara
com o FMI.
 O ano termina com 39,1% de inflao e
6,7% de crescimento do PIB.
384
1965
CRONOLOG 385
CULTURA
 Vai ao ar a TV Globo. O Brasil tem 2,3 mi lhes de 
aparelhos de televiso. Todos preto- e-branco.
.0 editor nio Silveira lana a Revista Civili zao 
Brasileira.
 Roberto Carlos canta:
S quero que voc me aquea nesse inverno E que tudo o mais 
v pro inferno.
 Estria a pea Liberdade, liberdade, com Pau lo Autran.
 Paulo Csar Saraceni mostra O desafio.
 i Festival de Msica Popular Brasileira. Elis Regina canta 
Arrasto
 Hlio Oiticica, Rubens Gerchman e Carlos Vergara expem no 
MAM-RJ, na Opinio 65.
 Dalton Trevisan publica O vampiro de Curi
tiba.
 Nos cinemas, Julie Andrews no musical A novia rebelde.
MUNDO
Fevereiro A polcia poltica portuguesa mata o general 
oposicionista Humberto Delgado. Metade da assistncia militar 
dos EUA  Am rica Latina destina-se  contra-insurreio. 
Maro Chega ao Vietn a primeira tropa de combate terrestre 
americana.
Abril Guevara, acompanhado por soldados cubanos, chega ao 
Congo.
Os Estados Unidos invadem a Repblica Do minicana. Castelo 
apia, mandando tropas. Junho O coronel Boumediene derruba e 
pren de o presidente argelino Ben Beila. Agosto Quebra-quebra 
em Watts, Los Ange les: 35 mortos, 4 mil prises. Outubro O 
padre Camilo Torres adere  guer rilha colombiana.
Novembro Guevara foge do Congo. Dezembro Douglas Bravo inicia 
sua guerri lha na Venezuela.
Chico Buarque de Holanda ganha o Festi val da Record com A 
banda
 Jorge Amado lana Dona Flor e seus dois ma ridos.
 Caio Prado Jnior publica A revoluo bra sileira.
 A Editora Abril lana a revista Realidade.
 A Censura probe o romance O casamento,
de Nelson Rodrigues.
 Nos cinemas, A grande cidade, de Cac Die gues, com A 
Rocha.
 Rubens Gerchman pinta A bela Lindonia.
 Truman Capote publica A sangue-frio.
 Chagail termina os painis do Lincoln Cen ter, em Nova 
York.
 Nos Estados Unidos, os Beaties aparecem
pela ltima vez juntos num show.
 Surge a minissaia.
Janeiro Realiza-se em Havana a Conferncia Tricontinental.
Fevereiro Morre na selva colombiana o pa dre-guerrilheiro 
Camilo Torres. Maio Comea em Xangai a revoluo cultu ral 
chinesa.
Manifestao em Washington contra a Guer ra do Vietn.
Junho Golpe militar na Argentina. Assume o general Ongana.  
o quarto governo militar na Amrica do Sul.
Julho Fracassam duas tentativas cubanas de implantar uma 
guerrilha na Venezuela. Setembro Comea a circular na China o 
Li vro vermelho, do camarada Mao. Novembro De volta  Amrica 
Latina, Gue vara est nas montanhas bolivianas.
O ex-ator Ronald Reagan  eleito governa dor da Califrnia.
386 A DITADURA ENVERGONHADA
POLITICA
1967
Janeiro Promulgada uma nova Constituio.
Maro Costa e Silva toma posse.
Abril O Exrcito desbarata a guerrilha brizo lista de 
Capara.
Maio Criado o Centro de Informaes do
Exrcito, o dE.
Marighella manda militantes para Cuba. Junho Sargentos 
cassados fundam o que viria a ser a Vanguarda Popular 
Revolucionria, vin. Julho Casteilo Branco morre. Outubro 
Costa e Silva: A plenitude demo crtica est alcanada, 
resta consolid-la Novembro A ALN assalta um carro pagador e 
mata um fazendeiro em So Paulo. Dezembro Marighella rompe 
formalmente com o PCB.
No ano, as denncias de torturas so 50. Um desaparecido, 
dois mortos em quartis. Um deles, dado por suicida, 
enforcado na cela.
CULTURA
 Lanado o Movimento Tropicalista.
 Inaugurado no Leblon o restaurante Anto
nios.
 Surge a palavra hippie.
 Gabriel Garca Mrquez publica Cem anos
de solido.
Ralph Lauren lana a marca Polo. A mulher da moda  a magra 
Twiggy.
Frank Sinatra e Antonio Carlos Jobim gra vam juntos.
 Hlio Oiticica mostra suas instalaes. Uma
delas homenageia o bandido Cara de Cavalo
e diz: Seja marginal, seja heri Nos cinemas: A primeira 
noite de um homem, com Dustin Hoffman e as pernas de Anne 
Bancroft, e A bela da tarde, de Luis Bufluel, com Catherine 
Deneuve.
 Rveillon na casa de Heloisa Buarque de Hollanda.
ECONOMIA E SOCIEDADE
Primeira operao de ponte de safena, pelo
cirurgio argentino Ren Favaloro, nos EUA.
 O mdico sul-africano Christiaan Barnard
faz o primeiro transplante de corao.
 A Texas Instruments produz a primeira cal culadora de mo.
John Kenneth Galbraith publica O novo Es tado industrial.
Fevereiro Muda a moeda: um cruzeiro novo (NCr$) vale mil 
cruzeiros.
O dlar sai de NCr$ 2,20 para NCr$ 2,70. Maro Castello passa 
a Costa e Silva um Pla no Decenal.
Delfim Netto assume a Fazenda. Maio Os juros caem de 36% para 
22% ao ano. Setembro O FMI faz a sua reunio anual no Rio de 
Janeiro.
Novembro Concedida iseno de impostos para manufaturados 
destinados  exportao.
 O ano termina com a inflao em 25% e o crescimento do PIB 
em 4,2%.
MUNDO
 Sai em Havana Revoluo na revoluo de Rgis Debray.
Abril Deposto o rei Constantino da Grcia. Assume uma junta 
de coronis.
Meio milho de americanos manifestam-se contra a Guerra do 
Vietn no Central Park. Junho Guerra dos Seis Dias. Israel 
entra em Jerusalm e toma  Sria as colinas de Golan.
Comea na Nicargua a guerrilha sandinista.
Julho Quebra-quebra em Detroit, com 43
mortos e 1300 prdios destrudos.  o 134
quebra-quebra do ano nos EUA. Comea em Havana a 1 
Conferncia da OLAS.
Outubro Manifestao contra a Guerra do Vietn em Washington. 
Hippies vo ao Pen tgono para faz-lo levitar.
Guevara  assassinado na Bolvia. Dezembro Os EUA tm perto 
de 500 mil ho mens no Vietn.
CRONOLOGIA 387
Estria da pea Roda- Viva. Janeiro de 1968
388 A DITADURA ENVERGONHADA
POLTICA
Janeiro O PC do B tem pelo menos sete mili tantes rio 
Araguaia.
Maro A ALN explode uma bomba no consu lado dos EUA em si, 
com um ferido grave. Um PM mata o estudante Edson Luis de Li 
ma Souto, no Rio. Sucedem-se protestos. Abril Greve de 
Contagem (MG).
Maio Greve em So Bernardo do Campo. O governador paulista 
Abreu Sodr  ape drejado num comcio articulado com o PCB.
Greve de Osasco (sp).
Junho Passeata dos Cem Mil.
A VPR explode uma bomba no QG do ii Exrcito. Mata um 
soldado.
Julho Comeam os atentados a teatros.
O Colina mata no Rio o major alemo Ed ward von Westernhagen.
O general Medici, comandante do iii Exr cito, pede o estado 
de stio.
Nova greve em Osasco, na Cobrasma. Depredado o teatro 
paulista onde se ence nava Roda-Viva. Os atores so 
espancados. Agosto A ALN assalta o vago pagador da San tos
Jundia.
Setembro Diante das notcias de torturas, o deputado Marcio 
Moreira Alves discursa na Cmara e pergunta: Quando o 
Exrcito no ser um valhacouto de torturadores?. Outubro 
Presos 920 estudantes em Ibina, onde se realizava o 
Congresso da UNE. Um comando da VPR mata em So Paulo o
capito americano Charles Chandler. Oficiais ligados ao CIE 
explodem uma bom ba na Editora Civilizao Brasileira. 
Dezembro Destrudo o teatro Opinio. 12 A Cmara nega a 
licena para que o gover no processe Marcio Moreira Alves.
13 Baixado o AI-5. A imprensa  censurada. Centenas de 
pessoas so presas, inclusive JK, Lacerda, Caetano Veloso e 
Gilberto Gil.
 O ano termina com 85 denncias de tortu ras. Morreram 12 
manifestantes nas ruas, e o terrorismo matou seis militares e 
dois civis.
 Deram-se pelo menos 21 assaltos a bancos.
ECONOMIA E SOCIEDADE
 O Brasil tem 278 mil estudantes universit rios. Em 1950 
eram 53 mil. Em 1964, 142 mil.
* Forma-se na Marinha brasileira um ncleo de estudo de 
computadores.
Maro Diante das dificuldades do comrcio exterior americano, 
um dos membros do Fe deral Reserve Board, Sherman Maisel, 
defen de a desvalorizao do dlar.
Maio O governo brasileiro anuncia que no abrir mo do seu 
direito de fabricar artefa tos nucleares.
Junho Aumento de 10% no imposto de ren da dos americanos.
Julho O papa Paulo vi divulga a encclica Hu manae vitae, em 
que condena o uso de anti concepcionais.
Novembro A taxa bsica dos juros america nos  colocada em 
6%. A maior marca dos l timos 20 anos.
Dezembro Mostrado na Universidade de Stan ford o primeiro 
computador com teclado e mouse.
O governo decreta a conteno das despesas pblicas e baixa o 
Ato Complementar n 40, aumentando a sua receita em prejuzo 
dos es tados e municpios.
O ano termina com um crescimento de 9,8% do PIB e uma 
expanso de 15% na in dstria e nas exportaes. Recorde de 
produ o de automveis e cimento. O maior nvel de emprego 
j registrado. A inflao fecha em 25,5%.  o incio do 
Milagre Brasileiro.
1968
CRONOLOGIA 389
 Uma grande gerao de jovens:
Chico Buarque, 24 anos;
Roberto Carlos, 25 anos;
Caetano Veloso, 26 anos;
Fernando Gabeira, 27 anos;
Pel, 28 anos, e
Glauber Rocha, 29 anos.
 O historiador Theodore Roszak cria o ter mo contracultura.
 John Lennon  preso por porte de maconha. A butique 
Justine, de Ipanema, lana as blu sas transparentes.
Nos cinemas 2001: uma odissia no espao
de Stanley Kubrick.
 Encenada a pea Roda-Viva, de Chico Buar que de Holianda, 
com direo de Jos Celso
Martinez Corra.
 Estria na Broadway a pea Hair. Surge a revista Veja.
Caetano Veloso canta Soy loco por ti, Am rica  vaiado no 
Festival da Cano ao apre-
sentar  proibido proibir Sua resposta:
Vocs esto querendo policiar a msica bra sileira.
* Inaugurado em So Paulo o novo prdio do
MASP, projetado por Lina Bo Bardi.
* Geraldo Vandr levanta o Maracanzinho
com Caminhando:
Somos todos iguais, braos dados ou no,
Os amores na mente, as flores no cho,
A certeza na frente, a histria na mo,
Caminhando e cantando e seguindo a cano,
Aprendendo e ensinando uma nova cano.
Vem, vanios embora, que esperar no  saber.
Quem sabe faz a hora, no espera acontecer.
MUNDO
Janeiro O vietcongue lana a ofensiva do Tet. Ataca a 
embaixada americana em Saigon e a base de Da Nang, e toma a 
cidade de Hue.  repelido, mas muda a posio da opinio p 
blica americana.
Alexander Dubcek torna-se secretrio do PC da 
Tchecoslovquia.  a Primavera de Praga. Maro Manifestaes 
de estudantes em Roma, Milo, Londres, Madri, Varsvia e 
Nanterre.
Diante das manifestaes contra sua pol tica no Vietn, o 
presidente Jobnson anuncia que no concorrer  reeleio.
Abril Assassinado Martin Luther King Jr.
Quebra-quebra em Chicago. O prefeito Ri chard Daley ordena  
policia: Disparem para ma tar os atiradores e para aleijar 
os saqueadores
Ocupada a reitoria da Universidade de Co lumbia, em Nova 
York.
Maio Ocupada a Sorbonne. Choques de rua em Paris, com 365 
feridos. De Gaulle deixa Paris, vai para Baden-Baden e 
assegura a leal dade das tropas estacionadas na Alemanha. Um 
milho de gaullistas desfilam em Paris.
Junho Assassinado Robert Kennedy.
De Gaulle ganha a eleio francesa, e sua ba se parlamentar 
passa de 38% para 46%.
Julho Primeiro seqestro de avio, num vo da El AI de Roma 
para Tel Aviv.
Agosto A Unio Sovitica invade a Tchecos lovquia, derruba o 
governo, prende Dubcek. A guerrilha guatemalteca mata o 
embaixa dor americano John Gordon Mein.
Setembro O ditador portugus Antnio de Oliveira Salazar 
sofre um derrame e fica inca pacitado. Mandava desde 1926.
Outubro O exrcito e a polcia mexicana ati ram contra 
manifestantes na praa de Tlate bico. Oficialmente, mataram 
32 pessoas.
Golpe militar no Peru. Assume o general Velasco Alvarado.
Jacqueline Kennedy casa-se com o armador grego Aristteles 
Onassis.
Novembro Richard Nixon  eleito presidente dos Estados 
Unidos.
CULTURA
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Arquivo Privado de Humberto de Alencar Casteilo Branco
Biblioteca John E Kennedy
Biblioteca Lyndon B. Johnson
Departamento de Estado dos Estados Unidos da Amrica
Informantes
Alfredo Malan
Almino Affonso
Aloisio Teixeira
Americo Mouro
Antonio Carlos Magalhes
Antonio Carlos Muricy
Antonio Delfim Netto
Antonio Gallotti
Ariston Lucena
Armando Daudt dOliveira
Armnio Guedes
Avelino Capitani
Carlos Alberto Brilhante Ustra
Carlos Heitor Cony
Carlos Medeiros Silva
Cid de Queiroz Benjamin
Darcy Ribeiro
Dlio Jardim de Mattos
Edmundo Moniz
Eduardo Chuahy
nio Silveira
Ernesto Geisel
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Givaldo Siqueira        Dirio do Congresso Nacional
Golbery do Couto e Silva        Folha de S.Paulo
Gustavo Moraes Rego        Jornal da Tarde
Heitor Ferreira        Jornal do Brasil
Heitor Lopes de Souza        Jornal do Commerco
Hlio de Ansio        O Estado de S. Paulo
Herbert Okun        O Globo
Idyno Sardenberg Filho        O Jornal
Joo Guilherme Vargas Netto        The New York Times
Joo Ribeiro Dantas
Jos Lus de Magalhes Lins        Semanais
Jos Serra
Julio de Mesquita Neto        Isto
Kai Bird        Manchete
Kardec Lemme        Novos Rumos
Kurt Pessek        0 Pasquim
Leonidas Pires Gonalves        Veja
Liana Aureliano
Lincoln Gordon        Outros
Luiz Felipe de Alencastro
Luiz Helvecio da Silveira Leite        Caros Amigos
Luiz Mrio Gazzaneo        Coojornal
Marco Antnio Coelho        Em Tempo
Marco Aurlio Garcia        Revista Civilizao Brasileira
Maurcio Paiva
M. F. do Nascimento Brito
Newton Cruz        Sries documentais, dossis
Newton Rodrigues
Osvaldo Peralva        ALBERT, Judith Clavir, & ALBERT, Stewart
Paulo Casteilo Branco        Edward. The Sixties papers  
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* At julho de 2002 verificou-se o acesso aos
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NDICE REMISSIVO
Abduch, Labib Elias, 112n
Abreu, Flora. Ver Costa, Flora Abreu Henri que da
Abreu, Hugo, 27, 30, 32, 104, 163
Academia Brasileira de Letras, 221, 264
Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), 106-108, 163, 
172, 361
Ao Integralista Brasileira, 67
Ao Libertadora Nacional (ALN), 249, 280, 280n, 306n, 345-
346, 350, 352n, 354n
Ao Popular (AP), 228, 281, 284n, 288, 305n,
357-358
Adonias Filho, 163
Affonso, Almino, 83-84, 88
frica, 191
frica do Sul, 199
Agitaes de 1968, 277-278, 28 1-283, 290, 293, 295, 297
Agripino, Joo, 123n
Agrupamento Comunista, 249, 266, 305n
Aguiar, Ivan Rocha, 1 12n
Aguiar, Raphael de Souza, 96n
Ala Vermelha do pc do B, 280n, 305n, 352n, 354n
Albuquerque, Jonas Jos, 1 12n
Aleixo, Pedro, 31, 123n, 168, 335n, 339; na reu nio que 
decretou o AI-5, 333-334,338-339
Alemanha, 167, 216n
Alexander, Murilo, 301 n
Almada, Izaas, 362n
Almeida, Candido Mendes de, 16, 162
Almeida, Climrio Euribes de, 292
Almeida, Jos Roberto Arantes de, 325n
Almeida, Julio Antonio Bittencourt de, 358n
Alto-Comando das Foras Armadas, 232, 258
Alto-Comando do Exrcito, 25, 28, 30, 33-34, 77-78, 117, 139, 
232, 234
Alves, Antnio Carlos Silveira, 1 12n
Alves, Hermano, 163
Alves, Joo Lucas, 305n, 359n
Alves, Manoel de Oliveira, 360n
Alves, Marcio Moreira, 147, 149, 331, 333-334, 337-339; 
discurso de setembro de 1968,
3 15-3 17
Alves, Mrio, 248n
Alves, Osvino Ferreira, 91 n, 92, 96n
Alves, Rosental Calmon, 98n
Amado, Gilberto, 141
Amado, Jorge, 217, 245
Amano, Takao, 202n
Amaral Netto, 80
Amazonas, Joo, 281, 281n
Anaya, Zenteno, 207-208
ncora, Armando de Moraes, 52-53, 103, 106- 108, 113, 116-
117, 117n
Andrade, Auro Moura, 14, 80, 107, 110-111,
115
Andrade, Doutel de, 80-8 1, 88
Andrade, Francisco Carlos de, 17
Andrade, Humberto Freire de, 51 n
Andrade, Oswald de, 299
Andreazza, Mrio, 163, 274, 309
Andropov, Yuri, 169
Angola, 167
Ansio, Hlio de, 50n, 53n, 192n
404 A DITADURA ENVERGONHADA
Antunes, Augusto Trajano de Azevedo, 159
Arago, Augusto Cezar Moniz de, 96n, 332n
Arago, Cndido, SOn, 62, 133
Arago, Duma, 133
Araguaia, 19, 281
Arajo, David dos Santos, 307n
Arajo, Marcelo Paixo de, 359
Arajo, Pedro Incio de, 132n
Arena, 260
Arendt, Hannah, 149
Arglia, 38, 257, 302, 328
Argentina, 38, 177n, 180n, 191, 193-194, 201, 247, 347n
Arinos, Afonso, 57,97
Aristfanes, 316
Arraes, Miguel, 47, 51, 51 n, 95, 103,231; exlio, 208, 257; 
priso, 121, 146, 257
Arroyo, ngelo, 281 n
Arruda, Digenes, 180
Arzua, Ivo, na reunio que decretou o AI-5, 337
Assis Brasil, Argemiro de, 45, 52-53, 70,89, 113-
114
Associao Brasileira de Imprensa (ABI), 315n
Associao Comercial do Rio de Janeiro, 251
Associao de Marinheiros e Fuzileiros Navais,
50
Ato Constitucional Provisrio, 123-124, 123n- 124n
Ato Institucional n 1, de abril de 1964, 124, 136, 141, 254, 
258, 338, 340-341
Ato Institucional n 2, contedo, 240, 254,259, 260, 271; 
edio, 240, 254
Ato Institucional n 5, 19,35, 141-142, 170,332, 343, 345, 
354; contedo, 35-36, 340-341; reunio que decretou, 333-334, 
336-340
ustria, 216n
Autran, Paulo, 253
Baifa, Ayrton, 17
Ball,GeorgeW.,99n, 100-101, 116
Banco Boavista, 158
Banco da Lavoura de Minas Gerais, 280n
Banco do Brasil, 193; e o 5NI, 159
Banco Lar Brasileiro, 155
Banco Leme Ferreira, 250n
Banco Nacional de Minas Gerais, 164
Bandeira, Manuel, 221
Borba Roja. Ver Losada, Manuel Pifleiro
Barbirolli, sir John, 221
Barra, Rubens, 90
Barreto, Humberto, 16, 125n
Barreto, Jos Campos (Zequinha), 288-289,
312
Barron, Victor Allan, 132
Barros, Adhemar de, 78, 109, 168
Barros, Luiz Marques de, 361n
Barros, Nelson de, 294n, 327n
Barros, Rinaldo Claudino de, 323
Bastos, Justino Alves, 91
Bastos, Mrcio Thomaz, 18
Batista, Ernesto Melo, 148
Batista, Fulgencio, 348
Baumgarten, Alexandre von, 170
Blgica, 199, 216n
Belo, Amaro Alonsi, 124
Bender, Maria Emilia, 19
Bengeli, Norma, 217, 296, 300
Bentley, Robert, 111
Berbert, Ruy Carlos Vieira, 325n
Berger, John, 208n
Berle Jr., Adolf A., 59, 61n
Bernardes, Artur, 151 n
Bethiem, Fernando Belfort, 25, 30-35, 38
Betinho. Ver Souza, Herbert Jos de
Bevilaqua, Pery Constant, 76
Bezerra, Gregrio: tortura, 132-133, 146
Billington, James H., 13
Bird, Kai, 61n
Bittencourt, Getulio, 17
Boiteux, Bayard, 182n
Bolvia, 181n, 200, 205, 207, 287, 305, 347n
Borer, Cecil, 252n
Borer, Charles, 252n
Borges, Mauro: e a crise de Gois, 187, 189
Botelho, Marcos, 284
Bowdler, William G., 246n
Bradesco, 280n
Braga, Geraldo Araujo Ferreira, 159n
Braga, Rubem, 124
Brant, Vinicius Caldeira, 227
Brayner, Floriano de Lima, 89
Bretas, Pedro Paulo, 360n, 361
Brito, Manoel Francisco do Nascimento, 34n, 162, 216
1.
Brizola, Leonel, 98, 121, 130, 185-186, 190n,
191-192, 196n, 196-197, 206n, 208, 244, 248,
NDICE REMISSIVO 405
266; Capara, 202, 204-206; e a guerrilha,
184-185, 190, 196,200-203,206-207; e Joo
Goulart na crise de 1964, 51, 85, 113, 182,
201, 203-204, 206; relaes com Cuba, 181-
184, 197, 202, 207, 248
Brockes, Hugo, 188
Brossard, Paulo, 17, 163
Bruce, David, 159
Brugueras, Miguel, 179
Bueno, Maria Esther, 217
Bulco, Luchsinger, 161
Bundy, McGeorge, 246n
Burnier, Joo Paulo, 121, 286-287; e o caso Para Sar, 291n, 
291-292, 302-304, 318-320
Bush, George, 169
Byington, Alberto, 61
Cabo Anselmo. Ver Santos, Jos Anselmo dos
Caen, Herb, 214n
Calabouo, 277, 281
Callado, Antnio, 200, 340n, 351
Calvo, Clovis, 71
Cmara, d. Helder, 136
Cmara, d. Jaime de Barros, 122, 135, 296
Camara, Jos Goulart, 284
Camargo, Jos Maria de Toledo, 17
Campanelia Neto, 287n
Campista, Ari, 162
Campos, Deoclecio Redig de, 296
Campos, Francisco (Chico Cincia), Ato Ins titucional de 9 de 
abril de 1964, 123-124,
341n
Campos, Milton, 47n, 107
Campos, Roberto, 135
Campos Filho, Romualdo Pessoa, 16
Canad, 202
Caneppa, Victorio, 151n
Capara, 202, 204-206, 208, 248
Capitani, Avelino, 190n
Cardim, Jefferson, 183, 191, 195, 206; a guerri lha de, 192-
195
Cardoso, Adaucto Lcio, 123
Cardoso, Fernando Henrique, 223, 342
Cardoso, Joaquim Ignacio, 53
Carlos x, 290
Carneiro, Lus Antonio Raposo, 360n
Carpeaux, Otto Maria, 65n, 200
Carrero, Tnia, 221, 281
Carvalho, Aloysio de, 80
Carvalho, Ferdinando de, 257, 302n
Carvalho, Gil Lessa de, 286, 291n
Carvalho, Herbert Eustquio de (Herbert Da niel), 194, 353
Carvalho, Marinilda, 29n
Carvalho, Srgio Miranda de (Srgio Macaco), e ocaso Para-
Sar, 291-293, 302-304,318,320
Carvalho, ltimo de, 284
Casado, Jos, 17
Caso das Mos Amarradas, 203
Caso Para-Sar, 286-287, 291, 302-304, 3 18-320,
355
Castelio Branco, Carlos, 51-52,66
Castelio Branco, Humberto deAlencar, 26, 31, 54n, 57, 68n, 
74n, 105, 142, 144, 146, 148, 151n, 153-154, 165, 175, 182, 
191,197,204,
215-216, 220, 225, 233, 239-240, 263-265, 269n, 270, 279-280, 
302, 316, 335, 340n; AI-2, 240,254-255,259; crise de Gois, 
187- 189; discurso das Vivandeiras 137; e a censura, 229-
230, 253-254; e a linha dura, 136, 257-259, 265; e a tortura, 
142, 145, 149-
150, 194-196, 203, 315; e Costa e Silva, 172, 269-275; e 
Kruel, 68, 108-109;  mesmo um terror cultural 231; e o 
movimento estu dantil, 226-227, 232; e o SNI, 157, 168; ex 
purgo dentro do governo de, 180; fora do governo, 260-261; 
morte de, 261; na crise de 1964,55,63,68-74,78,88-89,91,95, 
106, 108-109, 115,119-120,123; na Presidncia, 125, 129, 130, 
135-139, 150, 186, 193; pes soa e hbitos, 54-55, 109, 139, 
221,260; re forma do sistema de promoo do Exrcito,
138- 139
Casteilo Branco, Paulo Viana, 275 n
Castiglia, Libero Giancarlo, 281 n
Castilho, Joo Dutra de, 332
Castro, Adyr Fiza de, 1 58n, 262n; no CIE, 265- 266, 300, 
307; pessoa e hbitos, 264
Castro, Celso, 37
Castro, Fidel, 177-178, 197-201, 204, 207, 241, 249, 346-349; 
e a guerrilha brasileira, 178-
182, 197, 202, 207, 244, 347
Castro, Milton Soares de, 359n
Castro, Ruy, 217
Cavalcanti, Jos Costa, 258
Cavalcnti, Newton de Andrade, 1510
a
406
A DITADURA ENVERGONHADA
Cavailari, Srgio, 53n, 86n
Central Intelligence Agency (CIA), 58n, 61n,
73n, 156, 156n, 158, 169, 208, 246, 246n,
326-327, 326n, 347, 352; colaborao com
O SNI, 166; e Castello Branco, 221; e Costa
e Silva, 331; na crise de 1964, 58, 61,98-99,
112, 122; vigilncia dos inimigos do regime,
182-183
Centro Acadmico Cndido de Oliveira, 301n
Centro Acadmico SirAlexander Fleming, 301 n
Centro de Informaes da Marinha (Cenimar), 147, 190n, 202n, 
247n, 326n
Centro de Informaes do Exrcito (dE), 23,
265-266,280,283-284,286-287,298,300-301,
305, 306n, 307, 323, 328n, 359-361; criao
e estrutura, 262, 265-266; divergncias antes
da criao, 262-266
Centro de Informaes e Segurana da Aero nutica (Cisa), 
criao, 287, 303, 307
Centro de Operaes de Defesa Interna (cooi),
31
Centro de Pesquisa e Documentao de His tria Contempornea 
do Brasil da Funda o Getulio Vargas (cPDoc), 14, 37
Centro de Preparao de Oficiais da Reserva (cPoR), 358
Chandler, Charles Rodney, 325-327, 327n, 329, 348, 354
Chase, Gordon, 130n
Chaumet, Isabelie. Ver Firk, Michle
Chew, John L., 99
Chico Cincia. Ver Campos, Francisco
China, e a guerrilha brasileira, 179,205,243,248, 281
Chuahy, Eduardo, 53, 53n
Churchill, Winston, 337
Citibank, 289, 292
Clemenceau, Georges, 255
Cline, Ray 5., 166
Coelho, Marco Antnio Tavares, 53n, 107-108
Coelho, Moacyr, 159n
Coelho Netto, Jos Luiz, 159n
Coimbra, Ceclia, 17
Colgio de Aplicao, 226
Colher Filho, Eduardo, 325n
Colmbia, 177n, 207
Colon, Severino Viana, 305n
Comando de Caa aos Comunistas (ccc), 251, 299, 324
Comando de Libertao Nacional (Colina), 241n, 288, 305n, 
306, 329, 352n, 354n, 357-
360
Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), 85, 87
Comisso Geral de Investigaes (cGI), 31,134; Operao 
Limpeza 134-135
Confederao Nacional da Indstria, 336
Confederao Nacional dos Trabalhadores na Indstria, 162
Conferncia da Organizao Latino-Americana de Solidariedade, 
248
Conferncia Tricontinental de Solidariedade dos Povos, 197, 
241
Congo, 191, 198-201
Conselho de Segurana Nacional (csN), 53, 155, 219, 310, 
321n; reunio que decretou O AI-5, 333
Conselho Nacional de Petrleo, 287
Constituio de 1946, 47, 49, 140, 255
Constituio de 1967, 141, 278
Cony, Carlos Heitor, 65n, 132, 143
Copola, Mrcia, 19
Cordovil, Loris Areas, 2910
Corpo de Fuzileiros da Marinha, 291-292
Corra, Affonso Miranda, 1510
Correa, Estanislau Incio, 327n
Corra, Hrcules, 248n
Corra, Jelsy Rodrigues, 91 n
Corra, Jos Celso Martinez, 299
Corra, Marcos S, 17; e a Operao Brother Sam, 102
Corra, Pio, 185, 187
Correio da Manh, 64-65,96, 143, 145, 147-148, 163, 278, 302, 
320
Cortez, Luiz Gonzaga, 324n
Costa, Alcir Henrique da, 17
Costa, Alvaro Ribeiro da, 107, 257, 271
Costa, Antnio de Pdua, 325n
Costa, d. Joo Resende, 57
Costa, Flora Abreu Henrique da, 17
Costa, Jos Geraldo da, 190n
Costa, Octavio, 17
Costa, Osvaldo Orlando da, 281 n
Costa, Roberto Hiphito da, 132n, 252
Costa e Silva, Arthur da, 26,31,54, 105, 125, 129, 139-
142,164,171-172,187,195,233,240,253,
257,259,264,272-274,279-280,298,307,358;
NDICE REMISSIVO 407
atentado do aeroporto dos Guararapes, 240-243; e a criao do 
CIE, 262, 264; e a insatisfao nos quartis, 330-332; e a 
linha dura, 258-259, 265; e a Passeata dos Cem Mil, 298; e as 
agitaes de 1968, 290, 297; e Casteilo, 120, 146, 172, 270-
271; e o caso Para-Sar, 318-319; e o discurso de Marcio 
Moreira Alves, 316-317, 331; e o terroris mo, 302; eroso 
militar, 293, 302; na crise de 1964,76,95, 106, 108-109, 111, 
116-118, 120-124; na Presidncia, 260,267-268,309-
311, 313, 315, 317-318, 331, 354, 358; na reunio que 
decretou o AI-5, 333-339; pes soa e hbitos, 139,268-271; 
sade, 274; sem solues para a direita e para a esquerda, 3 
14-316
Cotta, Linneu Chagas dAlmeida, 245n
Cotta, Pery, 321n
Coutinho, Luciano, 312
Couto e Silva, Golbery do, 13-15, 18, 20,27,36,
41,54,105,133,138,157,173,193,195,197,
212, 216, 219, 231, 232, 246, 260, 264-265,
275n, 279; censura telefnica, 164; e a CIA,
166; criao do SNI, 153-162, 164, 167-168,
171-173; demisso de Sylvio Frota, 23-24,
34; desmonte da ditadura, 41; e a Guerra
doVietn, 216,234; e a guerrilha, 204, 206;
e a Justia Militar, 256-257; e a linha dura,
135, 143-145, 176, 189, 256; e a segurana
nacional, 255-256; e a tortura, 130, 143-
145, 148, 150; e Castello, 148, 175; e Costa
e Silva, 240, 273; e o AI-2, 254-256, 259; e o
AI-5, 343; e o movimento estudantil, 228-
229; e o SNI, 36, 130, 166-167, 253; e o ter rorismo 
cultural, 230; fora do governo,
261; na crise de 1964, 63, 106, 120, 122;
maldio, 160; os perigos no passaram de
todo, 189-190; pessoa ehbitos,23-24, 36,
154, 161, 261; planejamento democrtico,
212
Creane, Stephen E, 166
Crozier, Brian, 307
Cruz, Newton, 17, 159n; e Baumgarten, 170-171; na crise de 
1964, 75, 104, 119; no SNI, 160-
161, 165 Cruzeiro, O, 164
Cuba, 166, 177-179, 182, 184, 186, 190-191, 196- 198, 200-
202, 205, 207, 212, 241, 243-244,
248-249,280,295,347,349; e a Ao Popular,
243; e Brizola, 181-184, 197, 207, 248; in fluncia de, no 
Congo, 198-200; treina mento de guerrilha, 178-179, 182, 186, 
190,
202, 249, 280, 295, 349, 359
Cunha, Ari de Oliveira Mendes, 112 n
Cunha, Augusto Soares da, 112 n
Cunha, Otvio Soares da, 112 n
Cunha, Vasco Leito da, 241
Curi, Alberto, 340n
Cutter, Curtis, 326n
Dantas, Bento Ribeiro, 162
Dantas, Francisco Clementino de San Tiago,
96, 96n, 97-98, 102-103
Dantas, Joo Ribeiro (Dantinhas), 91 n
Dantas Jr., Altino, 281 n
DAraujo, Maria Celina, 37
De Gaulle, Charles, 38, 167, 290, 297-298
De Lamare, Rinaldo, 274
Dean, James, 213n
Debray, Rgis, 346
Defense Intelligence Agency, 349
Delegacia de Ordem Poltica e Social (Dors), 142, 142n, 
151n, 185, 203, 245-246, 266,288,
296, 299, 312-314, 325n, 342, 355
Delfim Netto,Antonio, 17, 169,309, 314n, 339n; na reunio que 
decretou o AI-5, 336, 338- 339, 345
Della Cava, Ralph, 16
Denys, Odylio, 93-94, 151n
Departamento Estadual de Investigaes Cri minais (DEIC), 313
Destacamento de Operaes Internas (Dol),
31, 306n, 352
Di Cavalcanti, 281
Dias, Ivan Mota, 325n
Dias, Joo Alfredo, 132n
Dieguez, Lauro Rocca, 29
Dinamarca, 216n
Dissidncia Comunista, 352n
Dissidncia Comunista da Guanabara (DI-GB),
305n
DOliveira, Armando Daudt, 32
Domingues, Roberto Frana, 27
Donovan, William J. (Wild Bili), 158
Dria, Palmrio, 46n
Dria, Seixas, 121, 146, 256
408 A DITADURA ENVERGONHADA
Doutrina de Segurana Nacional, 39-40, 262
Dowbor, Ladislas (Jamil), 354
Drummond de Andrade, Carlos, 109
Duarte, Anselmo, 217
Duarte, Antonio, 190n
Duarte, Rogrio, 283, 285, 292, 298, 301, 301n
Duarte, Ronaldo, 283, 285, 292, 298, 301, 301n
Dubcek, Alexander, 268
Dutra, Eurico Gaspar, 61
Dylan, Bob, 216
Editora Civilizao Brasileira, 230, 301 n, 328
Editora Tempo Brasileiro, 301 n
El Poder Cubano, 347-348
El Salvador, 177
Escola de Aperfeioamento de Oficiais (EsAo), 310, 321n, 330, 
341
Escola de Comando e Estado-Maior do Exrcito
(ESCaME), 73-75,95, 110, 119,305,310,330,
358
Escola de Estado-Maior, 39,67,95, 106, 120,269
Escola Nacional de Belas-Artes, 301 n
Escola Nacional de Informaes (EsNI), 169
Escola Superior de Guerra, 39, 121, 151 n, 153,
157
Escolas de samba, 218
Escuderie Jason, 360
Escuderie Le Cocq, 360
Espanha, 216n
Esquadro da Morte, 360
Estao Primeira de Mangueira, 2 18n
Estado deS.Paulo, O, 17,41n, 122,218,228,331
Estado-Maior das Foras Armadas, 76,287,310, 332, 337
Estado-Maior do Exrcito, 54,73,108, 137n, 165, 212n, 263, 
305, 310, 332
EstadoNovo,52n,67,77, 122,150, 151n,216,244 Estados Unidos, 
156, 159, 169, 177-178, 214-
216, 220, 233-234, 241, 267-268, 273, 280n,
298, 326n, 328,347,349; e Costa e Silva, 268,
273, 331; na crise de 1964,58-62,64,66,72,
79, 89, 97-102, 109, 112-113, 115-116
Estatuto da Terra, 168, 175
Etchegoyen, Alcides, 110, 151 n
Etipia, 290
Exrcito Guerrilheiro dos Pobres, 181 n
Exrcito Revolucionrio Irlands, 354
Exposio de Motivos 15-2R168 (que colocou na ilegalidade a 
Frente Ampla), 279
Faculdade de Filosofia, Cincias e Letras da
USE, 324
Faculdade de Sociologia da Fundao Jos Augusto, 323
Faculdade Nacional de Direito, 1 12n
Faculdade Nacional de Filosofia, 87, 1 12n, 218,
224
Falco, Armando, 68
Fangio, Juan Manuel, 348
Fanon, Frantz, 214-215
Faria, Maria da Gloria, 18
Farias, Oswaldo Cordeiro de, 53,55,61, 105,118,
139, 195,273,286,320; o Exrcito dormiu
janguista... e acordou revolucionrio 81,
83
Fedeal Bureau of Investigations (FBI), 154
Federao Nacional dos Estivadores, 131 n
Flix, Aladino (Sbato Dinotos), 313, 328
Fernandes, Florestan, 223, 342
Ferrari, Fernando, 47n
Ferreira, Fernando Borges de Paula, 325n
Ferreira, Heitor Aquino, 14-16, 18, 157, 162;
demisso de Frota, 27; e Geisel, 193-194,220;
e Golbery, 15, 157, 193,194,219; e seu dirio,
164, 194, 219, 246; redao do prembulo
do A1-2, 259-260
Ferreira, Manoel Rodrigues, 294n
Fico, Nicolau, 111
Figueiredo, Bernardo, 301n
Figueiredo, Crisanto de, 90
Figueiredo, Edson de, 257
Figueiredo, Joo Baptista de Oliveira, 20,28,36, 119,169-
170,343; no sNI, 159-160,162,167,
171
Figueiredo, Raimundo Gonalves (Raimun dinho), 243
Finlndia, 216n
Firk, Michle (Isabelie Chaumet), 349
Fleury, Carlos Eduardo Pires, 202n
Florentino, Manolo, 18
Flres, Jorge Oscar de Mello, 162
Flores, Mano Cesar, 158n
Folha da Tarde, 312
Folha de S.Paulo, 17, 41n, 316-317
Fonseca, Deodoro da, 120
Fontoura, Carlos Alberto da, 158n, 167n
Fora Area Brasileira (FAB), 261,292,303,319- 320; e o caso 
Para-Sar, 286, 291
NDICE REMISSIVO 409
Fora Expedicionria Brasileira (FEB), 53, 55, 61, 68, 68n, 
89, 132n, 138, 221, 363n
Forte Apache, 34
Fortunato, Alberto, 301
Fouch, Jean. Ver Gutko, Paulo
Fragoso, Heleno Cludio, 255n, 328n
Frana, 38, 138, 145, 156, 167, 216n; agitaes de maio de 
1968, 268, 328
France, Anatole, 139
Freire, Paulo, 219
Freitas, Alpio de, 243-244
Frente Ampla, 279, 289
Frente Boichevique Trotskista, 352n
Frente de Libertao do Nordeste, 352n
Freyre, Gilberto, 230
Fres, Hemlcio, 85n
Frota, Sylvio, 14, 20-21, 30, 32-33, 38, 264-265, 323n; 
demisso, 22-27; pessoa e carreira, 22,
34; tentativa de golpe, 25-26, 28-30, 33
Fundao Armando Alvares Penteado (FAAP),
325
Fundao Getulio Vargas, 14
Fundo Monetrio Internacional (FMI), 273
Furtado, Celso, 46n, 91, 220, 223
Gabeira, Fernando, 351
Galbraith, John Kenneth, 59
Galhardo, Benjamin Rodrigues, 53, 89
Gallotti, Antonio, 122-123, 272
Gama e Silva, Lus Antonio da, 223, 317, 332, 343; na reunio 
que decretou o AI-5, 336,
338-340; orientador do CCC, 299
Garcia, Jos Horacio da Cunha, 96n
Gasparian, Fernando, 17
Gasper, Elizabeth, 300
Geisel, Amlia Lucy, 14-16
Geisel, Ernesto, 13-16,18,20, 25n, 29-31,31 n, 33,
34n,35,38,41,41n,47n, 117n, 125n, 129,142,
164, 168, 192n, 195,226,258-259, 275n, 292;
nossa democracia numa geladeira 220-
221, 254; contra a criao do CIE, 264; de misso de Sylvio 
Frota, 21-22, 25-28, 33; e
a abertura, 36,41; e a censura, 41; e a guer rilha de Cardim, 
193, 195; e a linha dura,
135; e a ordem militar, 142; e a tortura, 37,
129, 130, 147, 149; e as denncias de tortu ra no Nordeste, 
145-148; e Castello, 137,
149, 189, 231, 260, 265; e Costa e Silva, 109,
240, 269, 271, 273; e Lyra Tavares, 265; e o AI-2, 259-260; e 
o comunismo, 211; na crise de 1964,54,63,74, 106, 109,119; no 
canil 261; O que houve em 1964 no foi uma re voluo 
138; pessoa e hbitos, 22, 36; resta belecendo o primado da 
Presidncia, 35
Geisel, Orlando, 54, 119-121,262,310,332, 338n; na reunio 
que decretou o AI-5, 337
Genoino Neto, Jos, 312
Giannini, Jos Carlos, 17
Gil, Gilberto, 342
Ginsberg, Alien, 214-215
Gleijeses, Piero, 191n, 201
Globo, O, 17, 163
Godoy, Hermenildo Ramires de, 222
Golbery, Phillipe Marie Aim de, 23n
Gomes, Dias, 235
Gomes, Eduardo, 195, 293; e o caso Para-Sar, 293, 304, 3 18-
320
Gonalves, Jos da Conceio (Z Dico), 249
Gonalves, Leonidas Pires, 17, 109
Gonalves, Lus Fernando, 18
Gonalves, Ramiro Tavares (General Ramalho),
286
Gonzales, Adolfo Mena, 204
Goodwin, Richard, 60, 347n
Gordon, Lincoln, 16, 51n, 87n, 99n, 102n; con versa com 
Kennedy em 1962, 59-6 1, 98; na crise de 1964,61,64,72,87,97-
98, 100-101, 108-109, 115-116; pessoa e hbitos, 59
Gorender, Jacob, 19, 195, 249, 346, 359
Goulart, Carlos Bicalho, 74n
Goulart, Joo (Jango), 14, 18-19, 22-23, 47n, 51n, 54, 57, 
59, 66-69, 75-78, 80, 86n, 87n, 98n, 102n, 105-107, 114n, 
119,121-122,138, 208,211-212,219,251-252,295; discurso no 
Automvel Clube, 63-66; e Golbery, 24; na crise de 1964, 45-
47, 49-52, 56, 58, 62, 83- 84, 87, 89-90, 92, 96-98, 102-103, 
108, 110-
115, 117-118, 121; no exlio, 130, 185, 279;
pessoa e hbitos, 46-47, 84
Goulart, Maria Thereza, 46n, 111, 113-114
Gouthier, Hugo, 341
Grabois, Maurcio, 281, 281n
Gr-Bretanha, 216
Grcia, 216n
Greves: de 1968,287-288,290,311; no governo Goulart, 48, 76, 
83
410 A DITADURA ENVERGONHADA
Grupo dos Onze, 51n, 85, 302n, 352n
Grupo Independncia ou Morte, 352n
Guanabara, Leo, 340n
Guaranys, Roberto Camara Lima Ypiranga dos,
291n
Guatemala, 180n, 207, 347n, 349
Guedes, Armnio, 17
Guedes, Carlos Luiz, 269; na crise de 1964, 57, 57n, 69-73, 
73n, 75, 78-79
Guedes, Paulo Eugenio Pinto, 53
Gueiros, Nehemias, 259
Guerra, Paulo, 257
Guerrilha, 176, 178, 180n, 202-205, 207-208, 292, 295, 322, 
324-325, 347n, 348-350, 353; Araguaia, 16, 19,281; Capara, 
202,204-206; do coronel Cardim, 192-195; Marighella e, 248-
249,305; planos de Brizola, 182-184, 196,200-204,206-208; 
planos de Fidel, 178-
179, 207, 244; planos do pc do B, 281
Guerrilhas e Atividades Terroristas na Amrica Latina, 183
Guertzenstein, Edidio, 274
Guevara, Ernesto Che 181, 181 n, 191, 198-200,
248,305; em Cuba, 177, 191, 198,200; morte,
207-208; na Bolvia, 204-205,207; no Congo,
191, 198-200
Guimares, Jos, 324
Guimares, Ulysses, 123
Guin, 198
Giillar, Ferreira, 219
Gutko, Paulo (Jean Fouch), 188
Haas Sobrinho, Joo Carlos, 281 n
Haddad, Claudio L. 5., 18
Haiti, 177, 180n, 347n
Harazim, Dorrit, 20
Harriman, Avereil W., 61 n
Heck, Sylvio, 78
Heikal, Mohamed H., 191n
Heisenberg, Werner, 224
Helms, Richard, 326n, 352, 352n
Hendrix, Jimi, 213n
Herbert Daniel. Ver Carvalho, Herbert Eust quio de
Hoare, Mike (Michael), 199
Holanda, 216n
Hollanda, Chico Buarque de, 296, 299, 321
Holly, Buddy, 213n
Homero, 198
Hughes, Thomas, 184n
Huizinga, Johan, 157
Huncke, Herbert, 213
Huxley,Aldous, 173, 214-215
Ibiapina, Helio, 136, 146, 187, 196, 256
Ibrahim, Jos, 288
Ignatiev, Oleg, 178n
Indochina, 302, 328
Inglaterra, 138, 156, 268
Inqurito do Peixe, 269
Inqurito Policial-Militar (1PM), 134, 134n, 146-147, 187-
188, 223, 225, 230, 252-254, 257, 284, 302, 302n, 355, 358; 
como poder paralelo, 135
Instituto Brasileiro do Caf (IBc), 161
Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (ns), 153, 155, 
160, 162, 167, 169
Instituto Max Planck, 224
Intelligence Service, 154
Irlanda, 202, 354
Itlia, 68, 115, 167, 216n, 268, 290
Iugoslvia, e os asilados brasileiros, 130
Jagger, Mick, 234
Jango. Ver Goulart, Joo
Japo, 268, 290
Jeiferson, Thomas, 227
Jeffery, Antonio Carlos, 327n
Joo XXIII, 221
Joaquim, Ailton, 360-362, 361 n
Jobim, Antonio Carlos (Tom), 218, 321-322
Johnson, Lyndon B., 216, 64n, 99n, 246n, 268n, 290, 297; e 
Costa e Silva, 268; na crise de
1964, 66, 99,101,112,115
Jones, Brian, 213n
Joplin, Janis, 213n
Jorge, Ailton Guimares, 360n
Jornal do Brasil, 17, 66, 162-163, 216, 272, 301
Julio, Francisco, 76-77, 178, 180, 197,209; em Cuba, 178; 
priso de, 181
Jurema, Abelardo, 56, 71, 87
Juventude Rebelde, 249
Juventude Universitria Catlica, 228
Kabila, Laurent, 198n Kandell, Jonathan, 18
NDICE REMISSIVO 411
Kennedy, John E, 59n, 60, 60n, 97, 98, 99n, 166, 185, 296, 
323, 347n; possibilidade de golpe no Brasil em 1962, 59-60, 
98
Kennedy, Robert F., 297
Kerouac, Jack, 213-215
KGB, 156, 169
King Jr., Martin Luther, 215, 297
Klabin, Israel, 159
Klein, Pedro, 303n
Kour, Ral Roa, 181
Kozel Filho, Mrio, 295, 327n
Kozobudsk, Simo, 188
Krieger, Daniel, 122-123, 168,260,317-318,331
Kruchev, Nikita, 77; reunio com Prestes, 176
Kruel, Amaury, 52, 68n, 69, 106n; e Casteilo, 68, 108-109; na 
crise de 1964,68,73,76,79-80,
87-91, 95, 103, 106, 117, 120 Kruel, Riograndino, 15 lo, 188, 
222
Kubitschek, Juscelino, 87, 87n, 107, 165, 208, 212, 212n, 
270, 279, 287; priso, 341
Kuperman, Esther, 182n
Lacerda, Carlos, 49, 291 o; e a Frente Ampla, 279; e 
Casteilo, 175; e Costa e Silva, 273,279-280; na crise de 
1964, 47, 49, 78, 80, 109-110, 119,145, 162, 
186,235,239,283,291-292,296; priso, 341
Lacerda, Enio de Albuquerque, 360n
Lacerda, Flvio Suplicy de, 225
Lacombe, Amrico Jacobina, 231
Lago, Romero. Ver Godoy, Hermenildo Ra mires de
Lara, Afonso Celso, 360n
Laser, Lawrence, 73
Leo, Nara, 229, 296, 300
Legao Comercial Sovitica, 301 n
Leito, Newton, 159n, 164, 246
Leite, Edo Barreto, 131 n
Leite, Luiz Helvecio da Silveira, 74, 301, 301n
Leite, Paulo Moreira, l6On
Leite, Wenceslau Ramalho, 327n
Leite Neto, Francisco Rabelo, 28n
Lembo, Fernando da Silva, 294n
Lemme, Kardec, 56
Levinsohn, Ronald, 16
Liga Camponesa de Vitria do Santo Anto,
131n
Lima, Affonso Augusto de Albuquerque, 309, 338n
Lima, Alceu de Amoroso, 220, 230
Lima, Argus, 30
Lima, Marco Antnio da Silva, 190n
Lima, Negro de, 239
Lima, Raul Nogueira de (Raul Careca), 299n,
324
Linhares, Maria Yedda Leite, 225 o, 342
Lins, Jos Lus de Magalhes, 70, 164
Lira e Silva, Jos Ronaldo Tavares de, 295n
Lisboa, Manoel Carvalho, 294
Lispector, Clarice, 296
Livraria Civilizao Brasileira, 328
Livraria Forense, 3010
Lopes, Ernani Ferreira, 68n
Losada, Manuel Pifleiro (Barba Raja), 182
Lott, Henrique, 25, 34, 264n
Lottenberg, Fernando, 18
Loureiro, Raul, 19
Lucena, Antnio Raymundo, 288-289
Lucena, Ariston, 17, 288-289
Lus xvi, 290
Lus, Washington, 269
Luz, Amadeu Felipe da, 202
Luz, Carlos, 34, 140, 264n
Maack, Thomas, 223 o, 224n
Macedo, Nilo Srgio Menezes, 360n
Machado, Cndido Guinle de Paula, 158-159
Machado, Carlos, 46n
Machado, Floriano, 90, 113
Machado, Jos Carlos Novais da Mata, 325n
Machado, Mrcio Beck, 325n
Machado Neto, Hermes, 202
Maciel, Marco, 33, 35
Magalhes, Antonio Carlos, 17, 46n, 71n, 165
Magalhes, Juracy, 98
Magnificent Montague, 233
Maia, Jos Joaquim da, 227
Mainente, Rosangela de Souza, 19
Malan, Alfredo Souto, 261
Malina, Salomo, 17, 78n
Mamede, Jurandyr de Bizarria, 75
Manifesto de Port Huron, 227
Manifesto dos Generais da Guanabara, 105
Manifesto dos mineiros, 123, 336
Mann, Thomas C., 101
Ligas Camponesas, 76, 85, 178-179, 181
412 A DITADURA ENVERGONHADA
Mao Zedong, 179, 243, 346 Marcha da Famlia com Deus pela 
Liberdade,
48-49, 110, 309
Marcha da Vitria, 296
Marcuse, Herbert, 214-215
Marighella, Carlos, 56,245-249,2480,281,289,
305, 3 12-313, 324,327-329; criao da ALN,
249, 266; divergncias com o PCB, 248; e a
guerrilha, 305; pessoa e carreira, 244-245
Marinho, Francisco Srgio Bezerra, 171 n
Marinho, Roberto, 163
Marley, Bob, 213n
Martineili, Osnelli, 302 n
Martins, Herivelto, 217
Marx, Karl, 198
Masetti, Jorge, 1810
Mattos, Dlio Jardim de, 292
Mattos, Jorge Bhering de, 251
Matusow, Alien, 234
Mauad, Isabel Cristina, 303 n
Mazzilli, Ranieri, 111-113, 115-116, 164, 270
McCartney, Paul, 216
McCloy, John J., 61 n
McCone, John A., 61-62,99
McNamara, Robert 5., 99
MCR (Movimento Comunista Revolucionrio),
352n
Medeiros, Marcelo, 16
Medeiros, Octavio Aguiar de, 36, 159n, 160,
358-359
Medici, Emilio Garrastaz, 19, 139,142, 170, 172,
269, 311; demisso de Frota, 29; na reunio
que decretou o AI-5, 337; no SNI, 172, 337;
pessoa e hbitos, 139, 163
Mein, John Gordon, 349
Meira, David de Souza, 282n
Melio, Bento Bandeira de, 28n
Melio, Danilo Darcy de S da Cunha e, 189, 196; e a crise de 
Gois, 187-89
Melio, Humberto de Souza, 329
Mello, Jayme Portelia de, 146, 274, 279, 280,
311, 313-314, 317, 319, 337-339, 341; e o
discurso de Marcio Moreira Alves, 316,
331; pessoa e carreira, 279
Melio, Joo Manuel Cardoso de, 17
Mello, Lus Tavares da Cunha, 75, 103, 105-106
Meilo, Mrcio de Souza e: e o caso Para-Sar, 303- 304, 303n, 
318n, 320
Meilo, Severino Teodoro de, 246
Meilon, Paul, 159
Meio, Severino Elias de, 359n
Memria, Olegrio, 68n
Mendelssohn, Felix, 139
Mendes,Aiuizio deMiranda, 78-79, 131n
Mendes, Ivan de Souza, 158n
Merhno, Luiz, 325n
Mesquita, Fernando Csar, 85n
Mesquita, Jlio Csar, 218n
Mesquita Filho, Julio de, 122, 218n
Mesquita Neto, Julio de, 41 n
Mxico, 98n
Mills, Wright, 214-215
Mindello, Frederico, 1510
Minotto, Jimmy, 87n
Mintegui, Joo Alonso, 1 14n
Mintegui, Juan Carlos, 1 14n
Moambique, 167
Moniz, Edmundo, 64, 65n
Monnerat, Elza, 281n
Monteiro, Alfeu de Alcntara, 1 32n
Monteiro, Goes, 72n
Monteiro, Scrates da Costa, 40n
Montoneros, 354
Montoro, Franco, 17
Moraes,Antonio HenriqueAimeida de, 104, 121
Moraes, Mascarenhas de, 221, 363n
Moraes,Vinicius de, 218, 296
Morais, Clodomir de, 179n
Moreira, Marclio Marques, 99n
Moreira Junior, Octvio Gonalves, 324
Mortati, Aylton Adalberto, 325
Mostao, Edelcio, 229
Mostovietz, Nikolai V., 109
Moura, Plnio Rolim de, 323
Mouro, Americo, 274
Mouro Filho, Olympio, 57, 72n, 79,92,94,99, 117-118, 121, 
124, 139-140, 142, 280, 292, 303n, 320; na crise de 1964,66-
68,71-72,75; pessoa e carreira, 66-67,71
Movimento Anti-Comunista (MAc), 251
Movimento de Educao de Base, 219
Movimento de Libertao Popular (Molipo),
352n
Movimento Democrtico Brasileiro (MDB), 288 Movimento 
Nacionalista Revolucionrio (MNR),
190, 266, 280, 325
NDICE REMISSIVO 413
Movimento Revolucionrio Marxista (MRM),
352n
Movimento Revolucionrio 8 de Outubro (MR-8), 305n, 322, 
352n, 354n
Movimento Revolucionrio Tiradentes (MRT), 179, 187, 352n
Mller, Filinto, 151 n
Murgei, Edmundo Adolpho, 159n
Muricy, Antonio Carlos, 17,99, 117,147,252,332; na crise de 
1964, 69, 75, 94, 103, 105-107
Naipaul,V. S., 39
Nascimento, Dilermano Meio do, 132n
Nasser, David, 163-164
Nasser, Gamai Abdel, 191
Natel, Laudo, 168
Nazareth, Heienira Rezende de Souza, 325n
Neder, Antonio, 69n
Neves, Tancredo, 25n, 45, 269, 294
New York Times, The, 18
Nicargua, 177, 207, 347n
Nixon, Richard, 298
Nbrega, Acyr da Rocha, 225
Nbrega, Silvino Castor da, 90
Nogueira, Tulio Chagas, 74
Noruega, 216n
Novaes, Washington, 278n
Novotn Antonn, 268
Nunes, Zaire, 114
Nyerere, Juhus, 199
Office of Strategic Services (oss), 158-159
Okun, Herbert S., 58, 58n
Olavo Biiac (nome dado a uma das bases da
FAB), 53
Oliveira, Albertino de, 131 n
Oliveira, Antnio dos Trs Reis, 325n
Oliveira, Eurico de, 163
Oliveira, Jorge Itamar de, 360n
Oliveira, Manuel Alves de, 132n
Oliveira, Octavio Frias de, 410
Oliveira, Pedro Domiense de, 131 n
Oliveira, Pedro Lobo de, 280, 294, 326
OMeara, Andrew, 66
Operao BrotherSam,99, 102, 102n, 116
Operao Mata-Estudante 320
Operao Mongoose, 347
Operao Pintassilgo, 183
Operao Popeye, 57
Opinio (semanrio), 17
Opinio (show), 229, 253
Ordem dos Advogados do Brasil, 149
Organizao de Combate Marxista-Leninista Poltica Operria 
(0CML-Po), 352n
Organizao Revolucionria Marxista Poltica Operria 
(Polop), 266n, 305n
Oscarito, 217
Osorio, Oromar, 52, 54, 93
Pacheco, Rondon, 338-339, 341; na reunio que decretou o AI-
5, 338
Paiva, Maurcio Vieira de, 357n, 360n, 361
Palmeira, Sinval, 178n, 294
Palmeira, Viadimir, 297, 312
Panam, 101, 102n, 180n, 347n
Paraguai, 177, 193
Parks, Rosa, 214-215
Partido Comunista Boliviano, 200
Partido Comunista Brasileiro (PCE), 50, 50n,
153, 177n, 178,191, 192n, 209, 224, 244, 247n,
248n, 257, 282, 289, 297, 350, 352n; comcio
de 1 de maio na praa da S, 288-289; dis sidncias, 176, 
179-180, 246-247; e a luta
armada, 177, 247-249; e Marighella, 244-
249; e o movimento estudantil, 224-225,
242; na crise de 1964, 77, 85, 107; relaes
com Cuba, 244; relaes com os russos, 77,
248; Setor Mii (base militar), 50, 53, 56
Partido Comunista Brasileiro Revolucionrio (PCBR), 305n, 
345, 352, 352n, 354n
Partido Comunista da Unio Sovitica (pcus), 77, 109n, 248n
Partido Comunista do Brasil (pc do B), 180, 180n, 266n, 281, 
305n, 345, 352n
Partido Comunista Revolucionrio (PcR), 266n, 305n, 323
Partido Comunista Uruguaio, 201
Partido Operrio Comunista (P0C), 305n, 325n,
352n
Partido Operrio Revolucionrio Trotskista (PoRT), 352n
Partido Revolucionrio dos Trabalhadores (pRr), 352n
Partido Socialista, 171
Passarinho, Jarbas, 312, 316n, 337n, 339; nareu nio que 
decretou o AI-5, 337
414 A DITADURA ENVERGONHADA
Passeata dos Cem Mil, 296, 309
Patrcio, Jos Maurlio, 325n
Paula, Jorge Aprgio de, 282n
Pechman, Clarice, 20
Pecoitis, Walter, 144
Pedrozo, Germano Arnoldi, 27
Peixoto, Ernni do Amaral, 65
Peixoto, Floriano, 120
Pra, Marlia, 299, 342
Peralva, Osvaldo, 650
Pereira, Alvaro Galvo, 172
Pereira, Freddie Perdigo, no dia 1 de abril de
1964,110
Pereira, luri Xavier, 306n
Peres, Haroldo Leon, 170
Pern, Juan Domingo, 197
Peru, 177n, 180n, 201, 207, 347n
Pessek, Kurt, 25n
Pessoa, Epitcio, 195
Petrobrs, 119, 124-125
Pezzuti, ngelo, 360n
Pinheiro, Enio, 29n, 167n
Pinheiro, Israel, 239
Pinto, Bilac, 107, 123n, 168
Pinto, Helosa Eneida Menezes Paes (Hel Pi nheiro, Garota de 
Ipanema), 217-218
Pinto, Jos de Magalhes, 168,258,294,336,339; na crise de 
1964,57-58,63,107, 121; na reu nio que decretou o AI-5, 336
Pinto, Onofre, 325
Pinto, Sobra!, 225; priso, 342
Pio, Higino Joo, 359n
Pires, Waidir, 1 12n
Pixinguinha (Alfredo da Roha Vianna Filho), 231
Plano Cohen, 67
Plano de Contingncia 2-61. Ver Operao Bro ther Sam
Platt, Washington, 158
Poland, Haroldo Cecil, 162
Polnia, 268, 301, 301n
Ponte Preta, Stanislaw. Ver Porto, Srgio
Portella, Jayme. Ver Mello, Jayme Portella de
Porto, Srgio (Stanislaw Ponte Preta), 22 1-222
Portugal, 167, 170, 216n
Prado, Gary. Ver Salmn, Gary Prado
Prado, Jos Mauro B., 18
Prado, Maria da Glria, 18
Prado Jnior, Caio: priso, 342
Prensa Latina, 153
Prestes, Luiz Carlos, 49,63,77,86, 132, 180,245- 246; contra 
a luta armada, 176-178; e Ma righella, 247; na crise de 1964, 
53, 77-78, 85
Primavera de Praga, 268, 297
Proconsult, 173
Prologo, 169, 169n
Quadros, Jnio, 14, 24, 46-47, 55, 239, 275, 292
Quedograma, 306n
Queirs Filho, Eusbio de, 151n
Queiroz,Ademar de, 55, 106,119,125, 241,241n
Rabeilo, Jos Pinto de Araujo, 27
Rademaker, Augusto: na reunio que decretou
O AI-5, 335
Rdio Nacional, 96
Raine, Philip, 330; e Costa e Silva, 273
Ramalho, Bismark Baracuhy Amancio, 328n
Ramalho, Thales, 17, 171
Ramos, Graciliano, 171
Ramos, Guerreiro, 77
Rangel, Flvio, 301 n
Ro, Vicente, 122
Raposo, Aloisio, 278n
Raul Careca. Ver Lima, Raul Nogueira de
Rgis, Pricles Gusmo, 131 o
Rego, Gustavo Moraes, 17, 27, 137, 259, 260
Reis Neto, Malvino, 151 n
Reprter Esso, 96
Repblica Dominicana, 177, 180n, 347n
Resistncia Nacional Democrtica Popular
(REDE), 352n
Resstel, Rubens, 88n, 161
Revolta dos marinheiros, 56, 91-92, 140
Reyes, Lauriberto Jos, 325n
Rezende, Estevo Taurino de, 134, 256
Rezende, Sergio, 256
Ribas, Antnio Guilherme, 325n
Ribeiro, Carlos Alberto Cabral, 88
Ribeiro, Darcy: na crise de 1964,85,87, 89n, 107,
185
Ribeiro, Jair Dantas, 47n, 52, 55, 62n, 76,89,96, 99n, 103, 
119, 121
Ribeiro, Maria ngela, 294
Ribeiro, Walter de Souza, 107n
Ridenti, Marcelo, 352n
NDICE REMISSIVO 415
Rocha, Glauber, 219-220, 351
Rocha, Itamar: e o caso Para-Sar, 291n, 302, 303, 303n, 304, 
318, 318n, 319
Rocha, Luiz Soares da, 357
Rodsia (atual Congo), 199
Rodrigues, Jos Honrio, 163
Rodrigues, Martins, 123n
Rodrigues, Newton, 65n
Rodrigues, Paulo Mrio da Cunha, 50, 89
Rodrigues, Paulo Mendes, 281 n
Rodrigues, Ransia Alves, 325n
Rodriguez, Felix, 208
Roosevelt, Franklin D., 59, 59n, 159
Rosencof, Mauricio, 349n
Rostow, Walt W., 268n
Rusk, Dean, 61,64, 64n, 66,72,99, 183, 184n, 241
Rssia, 247
Ryff, Raul, 45, 103
S, Jair Ferreira de, 243
Sacchetta, Vladimir, 19
Saies, d. Eugnio, 16
Salies, Joo Moreira, 18
Salies, Jos, 87
Salmn, Gary Prado, 207, 208, 208n, 305
Sampaio, Mano Orlando Ribeiro, 159n
Santana, Fernando, 114
Santiago, Rodrigo, 299
Santos, Adalberto Pereira dos, 79, 79n, 89, 130,
130n
Santos, Alberi Vieira dos, 184n, 191
Santos, Jos Anselmo dos (Cabo Anselmo), 50, 62, 85, 92n, 
190n, 202n
Santos, Jos Duarte dos, 190n
Santos, Max da Costa, 86
Santos, Rubens Marques dos, 302
Santos, Wanderley Guilherme dos, 18
Saragat, Giuseppe, 167
Saraiva, Bernardino, 131 n
Sarasate, Paulo, 123n
Sarmento, Syseno, 332, 341
Sarney, Jos, 17
Sartre, Jean-Paul, 177
Stiro, Ernani, 175
Saturnino, Roberto, 171
Schenberg, Mano, 224
Schilling, Paulo, 51 n
Schirmer, Carlos, 1J1 o
Schreier, Chael Charles, 325n
Schwarcz, Lilia Moritz, 18
Schwarcz, Luiz, 18
Schwarz, Roberto, 216
Selees do Readers Digest, 163-164
Srgio Macaco. Ver Carvalho, Srgio Miranda
de
Serra, Jos, 243n
Servio Nacional de Informaes (st.sI), 23, 28,
31, 36, 40,130, 145, 153-154, 163-165, 167-
168, 171, 186, 189-190,205,220,246,253,286,
307, 311, 328, 337, 339, 343, 358; conexes
internacionais, 167; criao e estrutura,
153-160,167-170; drago, 165; e a CIA, 166;
e a poltica, 168, 170; e Costa e Silva, 171-
172; erros e trapalhadas, 161-162, 170, 173;
Estimativa (publicao do sNI), 176, 230,
257; extino, 166; Golbery chama de
monstro, 173; Impresso Geral (boletim
semanal do SNI ao presidente), 144-145,
148, 176, 189-190, 197, 206, 216, 229-232,
256-257
Shakespeare, William, 145
Shishkin, Hildegarde (Hildy), 61 n
Silber, Paulo, 46n
Silva, Carlos Medeiros, 16, 123, 123n, 124, 341, 341 n; 
redao do Ato Constitucional Pro visrio, 123
Silva, Elvaristo Alves da, 3590
Silva, Jaime Petit da, 325n
Silva, Jos Renato da, 360n
Silva, Jos Wilson da, 182
Silva, Luiz Hildebrando Pereira da, 342
Silva, Murilo Pinto da, 358n, 360n, 361, 361n
Silva, Ornalino Cndido da, 282n
Silveira, nio, 328,3280; e Golbery, 232; priso, 230, 232
Simonsen, Mano Henrique, 17
Sindicato dos Metalrgicos de Osasco, 288
Sindicato dos Metalrgicos do Rio de Janeiro,
50, 56
Siqueira, Deoclcio Lima de, 303n
Siqueira, Givaldo Pereira de, 17, 53n
Sirkis, Alfredo, 296
Sistema de Segurana Interna (Sissegin), apos tila elaborada 
pelo dE, 39n, 306n
Sistema Nacional de Informaes (sisNl), 171 Snider, Gary, 
234
416 A DITADURA ENVERGONHADA
Soares, Glucio Ary Dilion, 37
Soares, Manoel Raimundo: Caso das Mos Amarradas, 203, 317
Soares Filho, Alfredo Pinheiro, 47n
Sodr, Roberto de Abreu, 80,88; comcio de 1 de maio na praa 
da S, 288-2 89, 327; e o Congresso de Ibina, 322
Sorbonne, 290
Souto, Edson Luis de Lima, 282n, 293,328; mis sa, 283, 287; 
morte, 2 78-280, 282
Souza, Cesar Montagna de, 104
Souza, Eduardo Custdio de, 327n
Souza, Heitor Lopes de, 252
Souza, Herbert Jos de (Betinho), 182, 183n, 281
Souza, Jadir Gomes de, 272
Souza, Jos de, 131n, 132
Souza, Raymundo Ferreira de, 93-94, 94n
Special Air Service, 292
Steinbeck, John, 194
Stepan, Alfred C., 140
Stone, Roger, 164
Sucia, 216n
Superior Tribunal Militar (5TM), 261, 320
Supremo Tribunal Federal, 107, 115, 257, 271, 343; e a crise 
de Gois, 188-189
Suzano, Pedro Paulo, 50n
Tamayo, Harry Villegas, 201n
Tanznia, 198-199
Tavares, Aurelio de Lyra, 55,264,309-310, 310n,
330, 335n, 343; e o discurso de Marcio
Moreira Alves, 316-317, 331; na reunio
que decretou o AI-5, 335; pessoa e hbitos,
264-265
Tvora, Juarez, 269
Taylor, D. Maxwell, 99
Tchecoslovquia, 198, 268, 281, 298
Teatro Glaucio Gil, 301n
Teatro Joo Caetano, 301n
Teixeira, Aloisio, 86n
Teixeira, Francisco, 53, 56, 86, 86n
Teixeira, Lino, 56
Teixeira, Tulio, 32n
Telles, Ladrio Pereira, 73n, 89
Tenrio, Carlos Alberto, 178n
Thomaz, Maria Augusta, 325n
Timbava, Orestes, 78
Time, 164
Times, The, 220, 234
Tinoco, Juraci Gonalves, 313
Tiomno, Jayme, 225n, 342
Tito, frei (Tito de Alencar Lima), 325n
Tradio, Famlia e Propriedade, 324
Tribuna da Imprensa, 121
Tribunal de Contas da Unio, 261, 343
Truman, Harry S., 59n, 61
Tupamaros, 190, 349, 354; primeiro seqestro
no continente, 349
Tuthill, John W., 343; e Costa e Silva, 233
TV Guaba, 196n
TV Jornal do Commercio, 132
TV Rio, 104, 109
TV Tupi, 49
ltima Hora, 222
Unio Democrtica Nacional (UDN), 80,251 n,
334
Unio Nacional dos Estudantes (UNE), 135, 
160,218,226,232,251,328,330; Congresso
de Ibina, 322-325; e o pca, 242; na crise
de 1964, 85, 251, 328, 330
Unio Sovitica, 156, 178
Universidade de Braslia, invaso policial, 315
Universidade de Columbia, 214
Universidade de Harvard, 59
Universidade de Minas Gerais, 222
Universidade de So Paulo, 122, 317, 323; caa
s bruxas, 223-224, 270
Universidade de Stanford, 214
Universidade do Brasil, 217, 225; prises, 232
Universidade Federal de Minas Gerais, 357
Universidade Federal do Cear, 312
Universidade Federal do Paran, 225
Universidade Federal do Rio de Janeiro, 290,293
Universidade Mackenzie, 324
Uruguai, 103, 182, 185-186, 201, 205, 354; asilo
de Goulart, 114,121; e Jeiferson Cardim, 192
Ururahy, Octaclio Terra, 118
Ustra, Carlos Alberto Brilhante, 17,93, 352n; no
comando do DO!, 352
Valado, Jece, 217
Valadares, Carlos (Guilherme), 346
Valadares, Loreta (Cristina), 346
Vandr, Geraldo, 321
Vanguarda Armada Revolucionria (vAR), 352n
NDICE REMISSIVO 417
Vanguarda Popular Revolucionria (VPR), 280,
280n, 305, 306n, 326n, 350, 352n, 354n
Vargas, Getulio, 45,49, 52n, 65, 72n, 77,98, 130-
131, 140, 151n, 239, 244, 288, 292, 336
Vargas, Yara, 103
Vargas Netto, Joo Guilherme, 17
Veja, 29n, 154n, 158n, 329
Veloso, Caetano, 342, 351
Venezuela, 177n, 180n, 207, 247, 347n
Ventura, Zuenir, 282, 307, 324
Viana, Hlio, 225
Viana Filho, Luiz, 70, 111
Vianna, Astrogildo Pascoal, 131 n
Vianna, Eremildo Luiz, 225
Vieira, Dom, 284n
Vieira, Laerte, 154
Vieira, Miguel Said, 19
Vietn, 197, 207,216,234,274,325-326
Villa, Marco Antonio, 17
Viliegas, Harry (Pombo), 201
Virglio, Arthur, 77
Wainer, Samuel, 51n, 98
Wajda, Andrezj, 351
Walters, Vernon A., 59n, 61n, 252; na crise de 1964, 61-62, 
79, 89, 115
Weid, Jean Marc van der, 295
Westernhagen, Edward von, 305, 326, 327n, 357, 359
Wilson Center for International Scholars, 13 Wright, Paulo, 
243n
Zacariotti, Joo Batista, 187
Zagladim, Vadim, 248n
Zaire, 198n
Z Dico. Ver Gonalves, Jos da Conceio
Zedong, Mao, 179, 243, 346
Zelo, 300
Zequinha. Ver Barreto, Jos Campos
Zerbini, Euryale de Jesus, 90, 323
